Mais uma ida ao mercado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Crescer não é algo tão legal quanto fazem parecer quando você é criança.
Suspirei e perscrutei mais uma vez a lista de compras, enquanto passava pela terceira vez pela ala dos frios.
Me arrepiei. A ala de frios fazia jus ao seu nome, era tão frio quanto um reino de gelo.
E isso apenas me deixava mais irritada. Pois alguma coisa no fundo da minha mente me dizia que eu estava esquecendo algo daquela ala fria e sem coração.
Já havia olhado umas 30 vezes para a lista, mas ela não me ajudava em muita coisa. Rabiscada e amassada, muito mal conseguia entender que o que havia escrito. Leite parecia lote, macarrão parecia mamão, pão parecia pai... Mas olhando bem, acho que eu havia escrito mesmo pai.
Suspirei mais uma vez.
Quando eu era criança, não entendi o porquê da minha mãe ir todos os dias ao mercado. Gritava e esperneava pois não aguentava mais ir ao bendito mercado. Minha mãe me olhava feio e dizia que quando eu crescesse eu iria entender.
Eu cresci.
E agora entendo.
E isso só me faz ficar mais irritada.
O pior são os dias em que por algum motivo preciso ir duas vezes ao mercado, ou mais. Nesses dias as memórias da minha infância, com a minha mãe no mercado, se tornavam mais amargas.
Ser adulto não era tão legal.
Ir ao mercado, pagar o aluguel, lavar a própria roupa... Ninguém me avisou sobre isso. Ok, na verdade avisaram, mas os delírios de uma jovem, recém alcançada a maioridade, ignorou esses avisos.
Suspirei pela terceira vez e desisti de qualquer que fosse o produto do frios que eu precisava.
Depois de toda essa autorreflexão, o que eu precisava mesmo era de chocolate.
Bem, sorri, pelo menos eu poderia pular uma refeição e substituí-la por chocolates e não havia ninguém para gritar comigo. Meu sorriso se alargou.
Com um sorriso no rosto, andei pelos corredores até chegar os chocolates. Chegando lá, havia uma mãe e seu filho, um molequinho de uns sete anos, que chorando, pedia para a mãe comprar chocolates.
- Eu não vou comprar. – A mãe disse, sem se sensibilizar pelas lágrimas do moleque.
- Mas... – A mãe nem deixou o menino terminar de fazer.
- Você não tem comido verduras. Até você começar a comer verduras, nada de chocolate. – E terminou com um olhar feio para o menino, que apenas chorou mais, resmungando que vegetais tinham gosto de terra.
Ri sozinha.
- Hey moleque! – Disse me aproximando e agachando perto do menino para pegar meus chocolates. – Quando você se tornar adulto, vai poder comer todo o chocolate que puder pagar. Mas eu realmente não recomendo crescer, ter que vir ao mercado comprar seus chocolates é muito chato, sem contar que você vai ter pena de gastar o seu dinheiro. – Pisquei enquanto o menino e sua mãe me olhavam atônitos. – Super recomendo que você pare de frescura e comece a comer seus vegetais!
Me levantei com umas cinco barras de chocolate nas mãos e as joguei no meu carrinho.
- Vegetais por chocolates é uma barganha e tanto!
Ri comigo mesma e dei as costas para o moleque e a sua mãe, que provavelmente pensavam que eu era louca.
Provavelmente eu era.
- Ah! – Falei alto. – Requeijão! – Exclamei, assustando uma senhora que passava perto de mim.
- O que, minha filha? – Ela perguntou, um tanto quanto assustada.
- Eu esqueci o requeijão. – Disse complacente, com um sorriso de desculpas no rosto.
- Eu também sempre esqueço o requeijão! – A senhora sorriu. – Era tão mais fácil quando era a minha mãe que fazia as compras! – Ela riu-se e se foi.
Parece que eu não era a única que pensava assim.
Ainda rindo comigo mesma, voltei para a sessão dos frios, mas não sem antes escutar o molequinho conversando com a sua mãe.
- Quando eu virar adulto, vou ficar lelé que nem aquela moça, mãe?
- Só se você não comer vegetais! – Ela disse e riu, e ao me ver passando por ela, piscou.
- Vou comer todos os vegetais! – Ele exclamou.
Peguei o meu requeijão, e ainda sorrindo, fui para a interminável fila do caixa, pagar as compras.
Aquela ida ao mercado havia sido um pouco diferente das demais.
Um molequinho começaria a comer vegetais depois dela.
Não que isso fosse influenciar em alguma coisa na minha vida, mas saber que eu havia tornado aquela ida ao mercado dele especial, me fazia sentir um pouco especial também.
Bem, até que ser adulto e ir ao mercado não era tão ruim assim.
E mesmo se não houvesse um menininho para incentivar a comer verduras, sempre haveria o chocolate para fazer uma ida ao mercado feliz.
Notas finais
Kissus~
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