Notas iniciais
Se você quer escrever um livro que chame a atenção, faça uma capa legal. As pessoas gostam de livros coloridos ou com dezenas de tons monocromáticos...

Como prometido, este capítulo é sobre a continuação da história entre Ruf e William.

William e Ruf entram na dimensão 123/Eba, que, como mencionado anteriormente, é uma dimensão que não permite que a imagem seja ajustada no cérebro, e tudo fica de cabeça para baixo.

Mas há uma falha, e eu confesso, na descrição de Ruf. É claro que foi falado que Ruf é da raça dos chocolatianos, mas não se mencionou muito sobre como é o comportamento dos cupcakes, pelo menos não que eu saiba. Ocorre o seguinte: William ficou tão chocado com o cupcake falante e com olhos e boca fofos que não conseguiu expressar o fato de cupcakes terem uma voz normal, como Ruf tem uma voz parecida com a voz de um cara romântico que se conhece por aí (ou um cara qualquer, tanto faz). Também não foi mencionado que o modo como os cupcakes se locomovem é voando – flutuando, melhor dizendo. Eles não conseguem avançar muito do chão: o máximo que um cupcake conseguiu flutuar até hoje é 20m de altura do chão – e depois de fazer isso ele morreu de baunirragia, que seria uma hemorragia, mas de baunilha. Cupcakes também são conhecidos nas dimensões como seres capazes de fazer cálculos maravilhosos em pouquíssimo tempo devido à sua extrema educação. A dimensão 123/Eba tem um dos maiores índices de desenvolvimento entre as dimensões, ficando entre as 500 melhores dimensões para se viver.

Sobre a viagem entre as dimensões, ela pode ser muito dolorosa se você for careca. Se você tem cabelo ou cobertura de chocolate, então não dói nem um pouquinho.

— Muito bem, Ruf. Mas o que está havendo?

— Chegamos na dimensão 123/Eba.

— Mas... Parece que tudo está de cabeça para baixo!

— E você não lê a história não?

— É estranho...

— Eu já estou acostumado. Venha, vamos entrar naquela casa — Ruf aponta para uma casa entre duas árvores de jujuba perto de um riacho de suco de amora. Ah, amora!

— Esta casa é a casa modelo que a bruxa usou para atrair João e Maria. Lembra da história?

— Lembro. Calma, eles existem?

— Cara, é sério que você vai perguntar isso depois de me conhecer?

— Ah, ok.

— Vamos lá, vamos entrar.

— Mas esta é sua casa?

— O quê? Minha ca... Ah, perdão. Eu não te falei que nós, doces, vivemos num sistema comunista.

— Calma, é possível viver num sistema comunista?

— Claro! É só repetir tudo o que falam pra você repetir e talvez você não morra.

— Então ele não é uma utopia.

— Calma... O que é utopia?

— Utopia é um tipo de coisa que não existe.

— Ah, então utopias não existem.

— Como?

— Você disse!

— Não, eu disse que utopia é algo que não existe.

— Está se confundindo em suas próprias palavras.

— Ah...

— Mas tudo bem. É normal acontecer isso na dimensão 2.

— Utopia é um nome para algo que as pessoas dizem que é impossível existir por causa do estilo de vida das pessoas.

— Então... não existe!

— Tá legal, eu não vou discutir com um cupcake.

— Ei, sabia que nós, da dimensão 123/Eba,, temos uma ótima educação? Uma das melhores nas dimensões. E temos também um dos melhores índices de desenvolvimento.

— Espere...

— Cara, vai engolindo as coisas aos poucos. Credo! Não pensava que vocês eram assim o tempo todo!

— É que eu acho que estou sonhando.

— Se você estivesse sonhando, eu poderia fazer isso? — Ruf estende seus bracinhos para cutucar William na cabeça.

— O que foi isso?

— Você sentiu?

— Não.

— Exatamente!

— Mas não era para eu sentir?

Ruf fica confuso por alguns segundos, e então dá um soco em William.

— Ai! Isso doeu!

— Eu acho que agora funcionou.

— Cara, como você consegue ser tão forte?

— Controle do comportamento. Eles ensinam muito isso por aqui.

— Por causa do comunismo?

— Não. Por causa da doçura do controle mesmo.

— Tudo bem. Nós não íamos entrar nessa casa?

— É o que vamos fazer.

— E vamos encontrar outros doces ou coisas do tipo lá dentro?

— Quem sabe? — Ruf diz e dá de ombros.

— E isso é sempre assim?

— Por aqui não é problema. — Ruf pega um dispositivo que carrega em um tipo de bolso.

— Calma, o que é isso?

— Ah, isso? — Ruf aponta para o dispositivo, que é de cor verde e parece um lápis de escrever. — É um Desenhador.

— E qual a função disso?

— Cara, calma! Eu ainda vou usar!

— Tudo bem, tudo bem!

— Que impaciência!

— Impaciente? Tá, e você não é nada doce!

— Ah, a humanidade...

— E você ainda me ofende!

— Calma, não é a hora para isso e... Ah, não.

— O que foi?

— Eles. — Ruf aponta para alguns cupcakes que estão rondando a área.

— Quem são eles.

— São os Agentes da Doçura.

— Deixe-me ver... Eles são tipo a polícia?

— Pior.

— O exército?

— O exército é de boa.?

— Oh... Paramilitares utilizados por ditadores para instaurar um golpe e escravizar todos que não apoiam o novo regime?

— Isso!

— Mas o que eles fazem aqui?

— Eu não sei. Só sei que eles não são coisa boa.

— Mas eles não protegem vocês?

— Isso depende. William, depois eu te dou uma aula sobre isso, mas agora não temos tempo.

— Para onde vamos, então?

— No outro lado do rio Amora há um esconderijo que eu criei.

— E como chegamos lá?

— Eu flutuo e você anda!

— Então temos que ir depressa.

— E você sendo impaciente novamente! Não, nós não temos poder de açúcar para derrota-los. Precisamos passar por eles despercebidos.

— E como eles não vão perceber um homem gigante que veio de outra dimensão?

— É isto o que eu estou pensando...

Eles ficam pensativos por um tempo, e então William aponta para algo brilhante no chão.

— Ei — ele diz —, o que é aquilo?

— Aquilo o quê? — Ruf olha para o local, espantado. — Uau!

— É algo importante?

— É mais que importante! É uma Esfera Brilhante de Açúcar Cristal, também conhecida como EBAC. — Ruf sai para pegar a esfera e ouve um pouco da conversa entre os militares.

— Eu tenho certeza que era por aqui que estava, senhor! — diz um ao seu comandante.

— Mas não encontramos a EBAC ainda! — responde o comandante. —O que o senhor tem a dizer em sua defesa?

— Senhor, é sério, deveria estar aqui em algum lugar! Foi o que escreveram!

— Ah, e você acredita em tudo o que dizem nos livros?

— Foi escrito num livro de história geral e...

— Chega, soldado! Você nos humilhou. Avisarei ao Supremo Doce para te castigar por isso.

— Não, senhor, por favor! Já acabaram os tempos de tirania e horror! Estamos no comunismo!

— Ah, mas isso não é tirania. É democracia e empatia.

— Senhor, eu imploro.

— E eu o perdoarei se o Supremo Doce o perdoar. Mas é muito raro ele perdoar um chocolatiano, pois vocês são uma raça terrível!

Ruf se encolhe com a peça em mãos, e vai sorrateiramente até o local onde William estava.

— O que esta tal “esfera” faz?

— EBAC permite que tenhamos acesso a alguns dos arquivos dos Ficcioneiros deixados nesta dimensão.

— E como você sabe disso?

— Ah, esqueci que humanos são curiosos... Então, acontece que essa “esfera” te dá o poder de controlar o açúcar ao seu redor.

— Parece que isso será muito útil aqui.

— Mas é claro que é! Vamos, temos que pegar os arquivos.

— Você sabe onde está?

— Quer saber, William? Você vai procurar.

— Ok.

William sai do local e logo é visto pelos militares, que apontam suas bazucas de brigadeiro e beijinho e suas metralhadoras de cereja na cara dele.

— Pare onde você está ou atiramos! — diz o comandante. — Quem é você? e de onde vem?

— Eu vim em paz! Sou William, da dimensão 2.

— Dimensão 2? E ele existe?

— Parece que sim, senhor — responde um dos soldados.

— Eu gostaria de conhecer melhor o local com meu amigo, que é daqui.

— Não! — Ruf cochicha, acreditando que William pode ouvi-lo de longe. — Não, por favor, não fale de mim.

— Estou com Ruf Bolo Nhesa, e gostaria de conhecer o local.

Ruf dá um tapa extremo em sua testa chocolatinosa.

— Então quer dizer que o senhor veio com um Nhesa, hein? — o comandante diz, mexendo em seus óculos escuros e então em seu queixo, que estava quebrado. O comandante era um quebra-queixo. — Saiba, senhor Wilomp, que o senhor fez um grande favor em nos trazer este cupcake para cá.

— Lá vamos nós! — Ruf diz, com ar de desesperança.

— Espere... O que ele fez? — William pergunta. — E o nome é William!

— Bom... Não é bem o que ele fez, mas o que todos de sua família fizeram. — diz o comandante.

— Ei! — diz Ruf num salto. — Deixa minha família fora disso!

— Rapazes — o comandante dá a ordem —, prendam-no!

Três barras de chocolate branco se aproximam de Ruf com algemas de ferro — pois nem tudo na dimensão 123/Eba é feito de doce — e o prendem, resistindo às tentativas de escape.

— Eu já disse a você, Ramon — diz Ruf ao comandante —: minha família não fez nada contra ninguém!

— E vocês não participaram da resistência? — o comandante pergunta.

— Não!

— Então podem soltá-lo.

— Mas o quê? — William fica desorientado.

As barras de chocolate branco — que eram machos — tiram as algemas de Ruf.

— Ruf — o comandante pergunta. — Que tipo de loucura você está para fazer agora?

— Nada, Ramon. Eu só quero acabar com algo que pode destruir todas as dimensões.

— Está falando do fast-food?

— Não. Os Ficcioneiros estão para dominar as dimensões e espalhar o cheiro da morte.

— Ah, mais um com histórias para fazer crianças se cagarem de medo.

— Mas é sério!

— E como você quer que eu acredite que essa histórias de “dimensões” é real?

— Ah, comandante — William chama a atenção. — Eu acho que eu sou prova disso, não?

— Mas eu cheiro açúcar em você! Você deve ser um dos gigantes de Klipolbar.

— Mas ele não é — Ruf responde. — Olha, eu sei que é difícil acreditar nisso...

— Eu diria impossível — o comandante diz.

— Mas Ramon, você sabe que eu não costumo viver fantasias.

— E como eu posso ter certeza disso?

— Lembra do que aconteceu com minha família?

A família de Ruf foi totalmente aniquilada pelos da resistência depois de serem considerados traidores da revolução.

— Sua família foi morta pela Resistência.

— Exatamente!

— Espere aí... — William interrompe. — Vocês têm família?

— Afinal — diz o comandante, confuso com a curiosidade de William —, quem é você?

— Ele é William Shakespeare, da Vida Real.

— Ah, Vida Real. Ouço muito falar dela. É um mito dos Klipobarianos!

— Ok. — Ruf diz, cansado da discussão. — Já que você não quer me ouvir assim, então que tal isso? — Ruf mostra a EBAC a Ramon.

O comandante olha, estupefato. Seus olhos brilham como o de um desenho japonês.

— Mas... Onde você achou?

— Aqui nas redondezas.

— Eu sabia! — grita um dos soldados.

— É... — diz o comandante. — Parece que eu vou ter que perdoar alguém.

Há gritos de comemoração no fundo.

— Ok, Ruf, você tem minha consideração.

— Então me leve à sala de arquivos.

— Está falando dos arquivos confidenciais do governo?

— Não. Estou falando de todos os arquivos nesta dimensão.

— Ah, então você quer entrar...

— Na Sala Cabeça Oca.

— Ok. Os senhores podem me seguir. Enquanto isso... — Ramon aponta para um dos soldados — Jacques, você é quem manda a partir de agora.

— Sim, senhor.

— Vamos fazer o que você está querendo.

E então William, Ruf e Ramon vão pelas ruas daquele país até chegarem à Sala Cabeça Oca.

O engraçado é que Jacques não tinha a menor noção do que estava fazendo ali. De repente, ele construiu uma cidade inteira sem que Ramon soubesse e a chamou de Jacquópolis, que logo depois da sua morte — por ingestão de excesso de gordura, diga-se de passagem — passou a se chamar Cidade da Esfera. Isso aconteceu em menos de um dia.

Notas finais
1+1=+1 > É assim que cupcakes nascem: um cupcake mais uma cupcake que têm uma relação sexual e então a união faz com que uma nova vida seja formada na barriga da cupcake e depois de quinze minutos está pronto o cupcake. Há rumores de que cupcakes também podem nascer de fôrmas específicas em fornos, mas são cupcakes sintéticos, e consequentemente são cupcakes não-vivos.