Mais uma história de Ficção
7 Cortando a cabeça
Notas iniciais
Os três monstros horrendamente lindos levam nossos três maravilhosos e doces heróis à presença da corte para uma conversa formal e que levaria simplesmente ao que todos já sabem: a morte dos três. Mas, obviamente, não é assim que as coisas funcionam: é preciso mostrar que os três estavam roubando arquivos confidenciais dos Ficcioneiros, interpretar umas quinze ou mais leis em umas três horas e meia, com alguém os acusando e outra pessoa os defendendo (muitas vezes à força... do dinheiro). Ah, e essa dimensão não fica de cabeça para baixo.
— Vocês três, como se chamam? — pergunta um dos monstros, assoando o nariz cheio de cocô.
— Somos Ruf, Ramon e William. — responde Ruf. — Mas por que a pergunta?
— Somos curiosos. — responde um segundo monstro. — Gostamos de conhecer as coisas antes de destruí-las.
— Mas... Isso não faz sentido! — diz Ramon.
— Aqui somos nós quem dizemos o que faz sentido — diz o terceiro, peidando tão fortemente que sua flatulência é percebida na dimensão Barulhenta. — É assim que funciona.
— Como assim? — pergunta William. Os seis ainda estão caminhando rumo à corte Ficcional.
— Cale sua boca! — diz o primeiro monstro. — Você por acaso é formado em Direito e Tecnologia?
— Não — responde William —, mas estou fazendo graduação.
— Eu tenho quatrocentos e trinta e dois diplomas de graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado e mestre de pós-doutor.
— Quantos de cada? — pergunta Ruf.
— Quatrocentos e trinta e dois.
— Isso parece ser muito! — exclama Ramon, acorrentado.
— E não é! — exclama o segundo. — Eu tenho dois mil de cada.
— Mas quantos anos vocês têm? — pergunta Ruf. Por incrível que pareça, esses monstros pareciam ser gentis.
— Bom... — diz o monstro — Na verdade não sabemos! Estamos a tanto tempo estudando que perdemos a noção de nossas idades!
— Uau! — diz William — Gostaria de um dia ser assim.
— Mas é claro! — responde o terceiro monstro. — Se você for melhor que a gente, poderá nos dar alguma direção ou dirigir-nos alguma pergunta.
— Sabe... — diz William. — Até que vocês são gentis!
— Isso se chama academicidade! — responde o segundo monstro. — Está no manual dos estudantes de todas as dimensões. Você nunca leu? Ou sua dimensão não possui uma civilização formada?
— Na verdade, temos uma civilização sim — responde William. — E é uma civilização muito bem organizada, afinal.
— Prove-me — diz o monstro.
— Mas como eu vou provar?
— Me mostre.
— Eu não posso te mostrar enquanto estou acorrentado!
— Mas se eu te tirar das correntes você não será levado à morte!
— E você não terá conhecimento.
Nessas horas, não há quem segure. É claro que ter poder sobre a vida de alguém parece ser muito interessante, mas para algumas pessoas a curiosidade é mais cativante.
— Guri, pare! — diz o primeiro. — Não escute esse cara, ele está tentando te levar ao mau caminho.
— Ok. Parei. — Diz William. Neste momento, o segundo monstro estava babando desesperadamente, resmungando sobre a oportunidade de conhecer a civilização e poder escrever seu milionésimo quinquagésimo terceiro artigo acadêmico.
— Só uma pergunta, caro senhor... — pergunta Ramon, dirigindo-se ao primeiro monstro.
— Diga. — responde o monstro.
— Quando chegaremos lá?
— Já estamos chegando. Não se preocupe: sua morte virá em breve.
William se desesperou. Imaginou-se diante da morte, reviu tudo o que aconteceu na sua vida e de repente falou:
— Não, não, não, não, não, não! Isto não é possível! Por que você não disse isso pra mim? Cara, muita coisa poderia ser esclarecida se você me dissesse isso antes! Por que você estragou sua vida desse jeito? E agora, como consertar? Não importa: ainda podemos voltar.
Todos olham para ele confusos.
— Você! — o primeiro monstro dirige a palavra a William.
— O que foi? — responde William.
— Por acaso você leu o arquivo? — pergunta o monstro.
— Não... — William responde, assustado. — Por quê?
— Não fale isso ao Poca Telha! — aconselha o monstro.
— É isto o que está escrito no arquivo? — pergunta William.
O monstro fica um pouco consternado, pensa um pouco e finalmente mente.
— Não, não é isso — diz o monstro, como se todas as suas palavras fossem um ato falho.
— Uma pergunta — diz o terceiro monstro ao primeiro, que acabara de mentir a William.
— Fale. — o monstro responde.
— O que faremos com esta bolinha — ele pega a EBAC na mão — e esse troço verde? — e pega o Desenhador na outra mão.
— Jogaremos fora. Não precisamos deles.
— Mas eles podem ser úteis! — exclama o segundo monstro.
— Não enquanto não houver uma teoria sobre eles — responde o primeiro.
— Mas então podemos levar à Ordem para que construam uma teoria e os usemos! — diz o terceiro.
— Hm... — pensa o primeiro monstro. — Pode funcionar!
Neste momento, Ruf pensa assim: “Mateus, por favor, nos ajude a sair dessa”. Bem... Como eu quero que eles se deem bem nessa situação e acabem com a ação dos Ficcioneiros, além de querer o bem deles incondicionalmente, vou ajuda-los.
— Ruf — eu digo a Ruf. — Repita exatamente o que eu disser.
— O quê? — Ruf me pergunta.
— Eu falei para você repetir tudo o que eu disser!
— Como eu farei isso?
— É só me ouvir, abrir a boca e falar exatamente o que eu disser!
— Estou com medo.
— Não se preocupe. Eu conheço esses caras. Eu os criei também...
— O quê? Mas por que você faria uma coisa dessas?
— Cara, é sério, você vai quere me questionar?
— Não sei... Acho que...
— Tudo bem. Não preciso te dar explicação de tudo.
— Mas eu estou com muito medo, Mateus!
— Fique tranquilo. Abra a boca e diga...
— “Esquilofrenia sem fraldas”.
Subitamente, os três desaparecem da dimensão na qual se encontra a corte Ficcional e aparecem na dimensão Alfa/Lírica/53. Nesse momento, Poca Telha se aproxima do local onde estão, pois recebeu a informação de que três prisioneiros estavam sendo levados para o corte de cabeça. Poca Telha é um hominídeo alto, de uns dois metros e meio, de cor rosa, com cabelos longos e transparentes, vestindo uma roupa misturada: paletó e gravata vermelha com bermuda havaiana verde com detalhes rosa-choque de garrafas de água (?), sapatos brancos com manchas pretas e cano médio com cadarço grosso e fúcsia, óculos redondos com lentes ora avermelhadas, ora verde-limão. Ele vem se aproximando aos poucos, e então chega no local onde estariam os três, assustado.
— Ué! — diz ele — Cadê os guardas?
— Ahn... — William fica totalmente sem palavras diante de Poca Telha.
— Eles... Fugiram? — responde Ramon.
— Foram para outra dimensão — diz Ruf.
— Mas... Não podemos fazer um julgamento sem os guardas que trazem os prisioneiros! Isso vai totalmente contra o artigo de Ferdinando Polipinésico que diz que “Todos os homens devem ser livres à morte, desde que haja alguém que os mate. Esse alguém que vai matá-los só pode fazê-lo quando aqueles que os capturarem se apresentarem diante dele” (POLIPINÉSICO, 1950, p. 43).
— Isso quer dizer que você não pode nos matar? — pergunta William.
— Ainda não — responde Poca Telha. — Mas vou criar uma teoria que permita que eu faça isso. Como eu posso fazer, afinal?
— Como assim? — pergunta Ruf.
— Eu sei, pode demorar anos... Acho que terei que ter sífilis agora... Ah, que droga! Preciso de uma teoria!
— Mas já não existe uma teoria que permita que você nos mate? — pergunta Ramon.
— Ramon! — exclamam Ruf e William em uníssono, tentando fazê-lo se calar.
— Na realidade — responde Poca —, acontece que esta é a teoria mais recente e, portanto, a mais aceita. Eu não posso simplesmente pegar uma teoria qualquer e falar que vou usá-la. É anti-étnico.
— Aqui funciona o sistema de Tese-Antítese-Síntese? — pergunta William.
— Não... Já passamos desse período da filosofia...
— Olha, não tem problema. Nós saímos e, quando você terminar sua teoria, você pode cortar nossas cabeças. — Ruf diz.
— Isso é uma boa ideia! Mas espere... Você está querendo escapar! — E então Poca percebe que os três não estão ali à toa quando olha para o chão e vê dois objetos muito importantes: um guarda-chuva e um interruptor. O guarda-chuva foi trazido por um dos monstros, e na verdade é um item muito importante para os habitantes da dimensão 123/Eba, já que faz referência a uma das pessoas mais importantes que já entrou nessa dimensão. — Eu sabia!
— O guarda-chuva? — pergunta Ramon. — Mas nós não o trouxemos!
— Dê-me isto! — Poca pega o guarda-chuva do chão como se algum dos três inofensivos prisioneiros estivessem se esforçando para segurá-los. Quando se está com raiva, às vezes é meio difícil ver que a outra pessoa está indefesa...
— O que você vai fazer? — pergunta Ruf.
— Isto! — Poca quebra o guarda-chuva diante dos três. William continua normal, mas Ruf e Ramon se sentem profundamente ofendidos com a atitude de Poca. Infelizmente, nada podiam fazer a não ser continuar presos.
— Por que você fez isso? — pergunta William a Poca, que percebe o sentimento hostil de seus companheiros.
— Não sei. — diz Poca. — Talvez por causa de sentimentos reprimidos. Recalque é algo sério!
— Tá legal — diz William. — Quer dizer que vamos ficar presos aqui até que você faça essa maldita teoria para nos matar?
Poca fica profundamente ofendido com a pergunta de William. Não por causa da referência à teoria, mas porque foi uma pergunta.
— Quero ver vocês saírem daí! — diz ele, irritado.
— E sua mulher? — pergunta Ramon, sem saber ao certo por que está perguntando. Subitamente, Poca muda de expressão, como alguém que lembra de um passado remoto no qual houve uma situação complicadíssima de hostilidade entre duas pessoas que, teoricamente, se amavam.
E foi exatamente o que aconteceu: Poca era casado com Marrona, mulher cobiçada por muitos na região, por pelo menos três mil graduações. Aconteceu que depois desse tempo eles começaram a estudar uma teoria que falava do motivo de eles estarem casados, e quando Marrona percebeu qual era esse motivo, largou-o dizendo: “vá pra casa da tua mãe”. Desde então, Poca nunca mais se engajou num relacionamento amoroso com ninguém, na esperança de um dia voltar com Marrona e reconciliar-se com ela até o fim de suas graduações.
Por causa dessa liberação do recalcado, Poca começa a ter o sentimento de livrar o que está preso, o que inclui nossos três amigos. Ele retira as correntes de cada um deles.
— Vão. — diz ele. — Vocês podem ir. E podem destruir Ficção... Eu não sei onde estava com a cabeça quando ajudei a escrevê-lo! Só sei que não estava nos ombros dela... — ele começa a chorar.
— Podemos ir mesmo? — pergunta Ruf.
— Sim, vão. — responde Poca. — Eu não quero destruir a vida de alguém só porque sinto que a minha vida foi destruída! Isso não é certo! É a nova teoria que tenho...
— Acredite, amigo, isto não é novo... — diz William. — Mas na maioria das vezes o velho é o verdadeiro!
— Pois é... — diz Poca. — É o velho que é verdadeiro... — fazendo referência ao fato de que sua verdadeira felicidade estava em Marrona, e não em matar pessoas.
Os três vão saindo em liberdade, levando a EBAC e o Desenhador.
— Ah... — William volta e pergunta para Poca. — Qual teoria você acha melhor: a cordista ou a baterista?
— Teorias não importam quando você não tem amor.
William se sente numa situação extremamente nova. Diante dos ANTAs, tudo o que era necessário era que se fizesse parte de algum tipo de teoria, que defendesse alguma teoria para continuar vivendo. Mas então ele olha para aquele homem, que se entregou às teorias por muito tempo, mostrando sua realidade: nenhuma teoria é tão aconchegante quanto um abraço.
Fale com o autor