Notas iniciais
Vampiros são criaturas frias que se alimentam por sucção. Por que não vampiros de sorvete?

Diante do maligno monstro com nariz de calça jeans, Ruf decide pegar o Desenhador.

— Ruf — diz Ramon —, o que você pretende fazer com isto?

— Eu acho que podemos usá-lo para derrotar o monstro — responde Ruf.

— Ruf — interrompe Marília —, você se esqueceu? O Desenhador só funciona fora da cabeça das pessoas!

— Mas podemos tentar — diz Ruf. — Quem disse que não funciona na cabeça das pessoas?

— Ah, pessoal... — diz William, percebendo que o monstro se aproximava.

De repente, o monstro sente algo em sua panturrilha esquerda e cai, levantando-se logo em seguida e tentando encontrar um motivo para sua perna doer. Então ele olha para trás e vê um ser encapuzado com arco e flecha nas mãos, que quando é percebido diz:

— Você cheira a peido.

Então o ser encapuzado (que pela voz, pelo quadril volumosamente redondo e pela aparência humanoide parece uma mulher) começa a correr em direção ao monstro, que usa seu nariz para puxá-lo (ou puxá-la) e fazer o famoso “chazão”. O ser encapuzado cai, mas sem danos muito fortes, o que dá a evidência de que é mulher, já que o chazão não doeu... Mas mesmo assim, fica no chão, fingindo estar gravemente machucada. Então o monstro chega perto e vira sua bunda para peidar nela. Neste exato momento, William pega uma pedra, corre até o lugar onde a mulher encapuzada está e a joga (no caso, a pedra) na bunda do monstro, o que não faz exatamente nada porque o monstro possui uma armadura. Ele fica pasmado, mas pega a mulher em seus braços e a leva longe dali enquanto Ramon pega sua pistola 9mm de bala de menta e atira contra os olhos do monstro, que passa a perseguir Ramon com ferocidade. Então Marília tenta dar uma rasteira no monstro, mas ela usa a pata direita dianteira, que estava machucada (lembra?) e cai ao chão, chorando de dor. Ruf, então, pega o Desenhador e diz:

— Pelos poderes concedidos pela Arte, conjuro a Paralisia Temporal!

Explicando melhor: Paralisia Temporal é um poder que faz com que o tempo seja afetado, permitindo que a pessoa que o usa duplique a velocidade do seu movimento ou a de um parceiro. O problema é: este poder não existe.

Ruf, incomodado pelo fato de sua conjuração não ter funcionado, joga o Desenhador no chão, fazendo com que ele caia com a ponta desenhística no chão e machuque a cabeça de Bagre, que começa a sentir uma dor e causa um terremoto colapsivo (como tenho licença poética, invento palavras). E, como bom Ex Machina[1] que sou, faço com que o terremoto faça sair do chão uma lança vermelha com detalhes de pêra e linguiça de porco e atravesse o coração do monstro, fazendo com que outra dor de cabeça venha sobre Bagre e ele teleporte os heróis para um local um pouco diferente do que eles estão. Este lugar é a casa de Shampoo, o Vampiro-mor da cabeça de Bagre.

Os cinco se levantam, confusos. Estão na sala de estar do monstro, de onde podem ouvi-lo cantando uma canção que diz: “Quarenta e sete por cento mais três é cinquenta por cento/Sim, Matemática é arte/Quantos dias ficarei sem dente/Por causa do queijo de abacate?”. Na mesa de centro, que fica no canto esquerdo da sala e tem uma placa dizendo “colocar esta mesinha no canto direito da sala”, um livro. William se aproxima e vê o nome: Ficção. A capa é marrom, com letras verde-musgo e formas bem arredondadas, como uma bolha. A capa é capa dura, mas tem sentimentos.

— Este é o livro, Ficção... — diz ele para os cinco.

— Uau! — diz Marília — Nunca pensei que chegaríamos tão rápido a ele.

— E como o destruímos? — pergunta Ramon.

— Cadê o Desenhador? — Ruf pergunta, como quem não estivesse prestando atenção no que os outros estavam dizendo ou fazendo. De fato, ele estava o tempo todo procurando o Desenhador. Afinal, o Desenhador é caro... — Paguei novecentos adlamremses naquilo! Não posso perder!

— Seus tolos! — diz a mulher de capuz. O capuz dela é interessante, porque é um vestido curto, isto é, até pouco acima do joelho, azul-profundo com o desenho de um rosto feliz na frente em branco (dois olhos tipo anime e uma boca tipo garota de anime feliz) e de manga comprida, usando chinelo de dedo bicolor: um preto e outro branco. Ela tem uma tatuagem tribal na costela esquerda, mas não dá pra ver com o capuz. Disse isto agora porque foi exatamente agora que William, Marina, Ruf e Ramon percebem estes detalhes ao olharem para ela — Ficção não pode ser destruída assim.

— E como vamos destruí-la? — pergunta Marília. Sim, o nome da mulher encapuzada não importa a ninguém neste momento.

— Está escrito no livro Anti-Ficção: “Ficção só é destruída no momento em que Mateus quiser”, e também que “Mateus revela qualquer coisa que ele quiser a quem ele quiser”. E estava eu com meu namorado quando eu tive uma visão. Nesta visão, eu via que Ficção, que na realidade é um dos menores problemas para nós, criaturas de Mateus, estava sendo reforjada por criaturas bizarras, algumas com chifres e um deles tinha um olho de diamante... E outro tinha cabelo transparente e gigante, sendo a cor de sua pele fúcsia.

— Poca Telha — William pensa alto. — E como você veio parar aqui?

— Meu namorado terminou comigo e eu procurei me aconchegar mais nos livros. Um dia, enquanto conversava com Mateus, ele disse: “te levarei para onde você será necessária” e me teleportou para a dimensão Pixel. Lá conheci Sandro, Talita e Felix, três unicórnios que diziam ter perdido alguém muito especial na vida deles, que é a Marília. Então segui suas instruções e fui para a dimensão Confidencial para procurá-la, pois era assim que Talita me tinha referenciado. Procurei você — e aponta para Marília — por dois dias, e quando finalmente encontrei apareceram vocês — aponta para Ruf, Ramon e William — e a levaram a outra dimensão. Como eu tenho o Localizador D-Mais, pude ver em que dimensão vocês haviam viajado. Então eu os segui até Alfa/Lírica/52, e vi que vocês estavam e apuros. Corri atrás de vocês novamente, até que vocês vieram à cabeça de Bagre. Então fui ao Centro de Segurança Inteligética de Sopa para fazer um pedido legal e entrar na cabeça de Bagre. Lá eles me deram arco e flecha e disseram: “Ataque o Flatulador Gigante acertando uma flecha em sua panturrilha direita”. Acontece que perguntei qual era a direita, e ele disse que é o lado da mão em que escrevemos. Como sou canhota, acertei a panturrilha esquerda. Enfim, consegui o termo legal para chegar aqui e corri direto para a Floresta da Dúvida para encontrá-los, e foi quando finalmente os encontrei diante do monstro. E o resto da história vocês conhecem.

— Já pararam para pensar por que o céu é verde? — pergunta Marília.

— Boa pergunta — diz Ruf.

— Galera, temos que destruir este livro aqui! — diz William alto, fazendo com que Shampoo saísse do banho por ouvir a conversa. Peladão, ele vai andando lentamente para a sala. Enquanto isso, a mulher encapuzada diz:

— Ah, legal! Ninguém me ouviu!

Ela tira o capuz, revelando seu pequeno cabelo alaranjado e enrolado e seu rosto que antes era envolvido pela sombra do capuz. Mas os quatro ainda estão pensando no céu verde.

— Será que é por causa da Estrela Sucinta? — pergunta Ramon, mexendo em seu queixo quebrado (sim, eu não me canso dessa piada).

Shampoo continua descendo com tudo de fora, o que para alguns não seria uma cena agradável. Portanto, se quiser, coloque uma censura naquilo que você não gostaria de ver nesse vampiro. Eu recomendo que esconda as mãos, porque as unhas dele não são cortadas há doze séculos e nunca foram lavadas...

Por questões artísticas, fiquei a fim de fazer uma brincadeira com o texto. Já já continuo com a história.

Bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla

Gostei.

Continuando a história, Shampoo continua andando em direção à sala. William se pergunta onde estaria a Adaga Vampirosa. Ruf faz a pergunta em tom mais alto:

— Gente, acho que esquecemos da Adaga Vampirosa!

— Eu estava pensando exatamente nisso — diz William.

— Precisamos voltar para a Floresta das Dúvidas encontrar esta Adaga — diz Marília.

— Não, gente — interrompe a ruiva do capuz —; precisamos voltar mais, pois a Adaga Vampirosa está entre a Floresta da Dúvida e a Mente.

— Mas afinal... — diz Ramon, mexendo no queixo... (já sabe o resto) — Por que usaríamos uma adaga especial para matar vampiros para destruir um livro?

— É verdade — diz William. — Deveríamos tacar no fogo.

Neste exato momento, surge Shampoo na sala, e quando todos olham para ele, ele grita:

— O que fazem em minha residência?! Serão todos mortos!!

— Acho que é por isso que precisamos da Adaga Vampirosa! — diz Marília, assustada e com os olhos ardendo por tê-los atentado para Shampoo... Porque Shampoo arde o olho. Aliás, os olhos de todos começam a arder, menos os de Shampoo. E os cinco correm para fora da casa, entrando na Floresta das Dúvidas e enfrentando alguns monstros como vampiros, ratos assassinos e joaninhas fofinhas do mal. Mas Shampoo não sai de casa para pegá-los, porque não gosta de aparecer pelado para Eldora, a princesa dourada. Ela existe na cabeça de Bagre porque na realidade ela existe na dimensão Pixel, e uma vez Bagre visitou tal dimensão e se encantou com algumas coisas de lá, dentre elas Eldora. Ela tem cabelo loiro e usa um vestido dourado. O motivo de Shampoo não querer aparecer pelado na frente de Eldora eu vou deixar incógnito porque... eu quero deixar incógnito.

Depois de batalhar com vários monstros e joaninhas fofinhas do mal, os cinco estão agora fora da Floresta da Dúvida e no caminho de volta para Mente. O monstro ainda está caído no chão, pois afinal morreu, e os heróis se perguntam por que ele comeu o baú. Então Ruf pega o Desenhador do chão e Ramon aperta o braço direito segundo superior do Flatulador Gigante, que o faz vomitar o baú para fora já aberto. William olha para dentro e vê: é a Adaga Vampirosa. Ele a pega em suas mãos e eles finalmente voltam para a casa de Shampoo, que já não está mais pelado, pois agora colocou luvas.

— Não tenho mais medo de você, seu vampiro nojento! — exclama William, segurando a adaga com suas duas mãos, o que não é muito recomendável.

— Vocês acham que podem invadir minha casa e sair ilesos? — diz Shampoo, com um olhar de desprezo para William. — Concretamente, não.

— Você verá! — diz William e enfia a Adaga Vampirosa no peito de Shampoo com uma velocidade extrema que não permitiu reação de Shampoo.

Shampoo começa a dar uma risada com tom de malignidade.

— Mas por que ele está rindo? — pergunta Marília.

— Seus tolos! — exclama Shampoo. — Eu sou o vampiro-mor da cabeça de Bagre, e controlo todas as criaturas malignas que existem por aqui.

— E... — diz Ruf, esperando uma explicação um pouco mais lógica para a realidade que o cerca.

— Acontece que eu só consegui isto porque eu tenho algo que me deixa acima dos outros vampiros — e dá um empurrão em William que o leva para o outro lado da sala. — Eu sou... Diferente — diz Shampoo e, enquanto ele fala, a Adaga vai se congelando até virar um pedaço de gelo (uma adaga de gelo, no caso, mas como gelo não é muito resistente ela não teria a utilidade de uma adaga, então não precisamos chamá-la dessa forma...).

— Você é um vampiro de sorvete! — exclama a ruiva do capuz.

— Isto mesmo! — responde Shampoo. — Sou Shampoo, o vampiro sorvete de baunilha e vampiro-mor da cabeça de Bagre. Domino este lugar por usar meu poder de sorvete para congelar aqueles que se opõem a mim.

— E por que você não usou este poder até agora? — pergunta Ruf, e todos os outros heróis se dão um tapa em suas testas.

— É uma ótima ideia, cupcake — responde o vampiro. — Nesse caso, morram!! — grita Shampoo e estende suas mãos liberando uma onda de congelamento. Todos se esquivam, mas o poder do gelo sai pela porta atingindo alguém que vinha dar notícias. Este alguém, por algum acaso, era um mensageiro de Eldora, que estava prestes a dizer que Eldora estava para se mudar daquela região. Mas a mensagem nunca chegou a Shampoo, e isso irá um dia se tornar um grande problema.

— William! — exclama a mulher encapuzada — Pegue o livro!

William pega o livro, que estava no chão, e Shampoo exclama:

— O que você quer fazer com isto?

— Eu não faço a menor ideia... — responde William. — Mulher do capuz, o que eu faço com isso?

— Abra-o e leia a epígrafe do capítulo 5.

— Independentemente do efeito que isso cause a mim, — discursa Shampoo — você não o lerá! — e começa a soltar rajadas de gelo em William, que se esquiva até ser atingido na perna direita. Ele cai ao chão e o livro abre no capítulo 4, lamentando este triste fato, mas mesmo assim lê a epígrafe:

— “O maior poder que um ser tem é a sua razão”.

— O quê? — Shampoo para de atacar William, confuso. Logo volta ao normal. — Acho que está na hora de morrer!

— William! — Exclama a mulher encapuzada — Ficção está errada!

Neste momento, William fica confuso. Por isso eu vou colocar um pensamento nele... Afinal, fui eu quem deu a capacidade intelectual para ele, então eu posso mexer nela. Vou dizer o que realmente acontece: quando os Ficcioneiros decidiram escrever que “O maior poder que um ser tem é a sua razão” eles estavam tentando destruir um tipo de pensamento que na realidade não é nem um pouco diferente do que eles mesmos pregam, mas apenas queriam se autopromover. Acontece o seguinte: muitas vezes um pensamento não difere de outro a não ser pelas palavras empregadas, e nesse caso é mais fácil sobrexaltar um tipo de pensamento do que outro. No meu mundo, por exemplo, razão e emoção não são coisas diferentes, apenas têm nomes diferentes. Todo ser emocional é também racional e vice-versa. Sentir nojo é algo tão racional quanto emocional. Ficar alegre compartilha da racionalidade de uma emoção. Portanto, na complexidade desse tipo de pensamento — e com o fato de que agora você sabe que os Ficcioneiros disseram algo que não faz absolutamente nenhum sentido —, o maior poder que um ser tem não é sua razão. Aliás, talvez nem tenha nenhum poder: ainda estou pensando se considero alguma coisa maravilhosa para mim. Acho que já decidi: não há nada que qualquer ser que eu tenha criado possa fazer que me surpreenda, então... Ok, vamos considerar que deva existir um poder em qualquer ser que eu tenha criado. Esse poder não seria nada sem mim, então eu decido que eu sou o maior poder que um ser pode ter. E eu me dou a quem quero, então... Tudo acaba chegando em mim, o criador, no final. Tiveram alguns seres que reclamaram disso, mas enfim... Não conseguiram mudar absolutamente nada, então reclamaram em vão.

Mas, com o insight incrível que William teve graças a mim, ele conseguiu perceber que eles estavam na mente de Bagre, e que assim sendo eles poderiam facilmente derrotar Shampoo por ele ser apenas uma outra parte fraca de Bagre.

— Você é apenas um pensamento de Bagre! — William exclama e Shampoo começa a se deteriorar até chegar a pó.

— Espere aí, William — diz a mulher encapuzada enquanto pega uma garrafinha com um tipo de líquido dentro. Ela derrama o líquido na perna direita de William, e esta descongela completamente.

— Obrigado por isso — responde William.

— Não é por nada — responde a mulher encapuzada. — Eu gosto de ajudar.

— Acho que este livro contém as informações que Bagre nos falou no início — diz Marília ao ver o livro nas mãos de William. William folheia o livro e vê o capítulo 9, intitulado “Mateus não existe”, e folheando um pouco percebe que seu nome e o de seus amigos estão lá.

— Como eles sabiam nossos nomes? — pergunta William. — E quem é Amanda Cristal? E...

— Amanda Cristal sou eu! — responde a mulher encapuzada, evitando que spoilers apareçam. Sim, eu penso nos meus leitores também.

Quando Bagre percebe que eles pegaram o livro, sai do coma que entrou quando os heróis viram o monstro de nariz de calça jeans e os traz para fora de sua cabeça, na dimensão Alfa/Lírica/52. Eles estão agora na sala dele, em Sopa.

— Sejam bem-vindos novamente! — cumprimenta Bagre aos heróis.

— Obrigado pela recepção — diz Ruf. — Agora precisamos pagar Jurássico e depois precisaremos ir para a dimensão Pixel.

— É claro! — responde Bagre. — Mas seus celulares estão carregados?

— Creio que não — responde Marília.

— Então deixem seus celulares carregando enquanto falam com Jurássico. Mesmo que demorem somente cinco minutos, seus celulares estarão completamente carregados e prontos para outra.

— Ok. — responde Ruf. — Obrigado, Bagre.

— Não é por nada! — responde o vampiro. — Agora vão e destruam Ficção!

Bagre tinha boas intenções, mas não sabia que Ficção não será destruída completamente. Apenas no fim de tudo, quando eu decidir acabar com toda a realidade que eu criei. Fora isso, ela continuará existindo. O papel de nossos heróis, portanto, é fazer com que os Ficcioneiros e tantos que conheçam Ficção percebam que o que estão fazendo e conhecendo é algo ruim, e que o Cheiro da Morte... É, o cheiro da morte até que é um problema. Mas enfim, é exatamente isso que vai acabar. Mas o Cheiro será destruído de uma vez por todas!

[1] “Ex Machina” é um termo que designa algo que na história vai dar uma reviravolta aparentemente impossível. Como eu já disse antes para alguém (que na realidade era eu mesmo) que estava conversando comigo enquanto eu estava descrevendo a história, eu posso fazer o impossível. Dane-se o que você pensa sobre isso: se eu sou o criador, eu posso.

Notas finais
Ruf ainda tem muita história para contar...