Mais uma história de Ficção
10 Cabeça de Bagre - Parte 1
Notas iniciais
— Há um banco por aqui por perto que podemos tentar... — Ruf é interrompido por Marília.
— Espere... Está dizendo que vamos roubar um banco?
— Precisamente...
— Mas... Isso não é bom!
— A vida da minha família está em jogo!
— Eu sei disso, mas deve haver outra forma de conseguirmos este dinheiro...
— Eu não consigo pensar em nenhuma agora...
— Talvez... — William toma a palavra, mas logo é interrompido por Ramon.
— Talvez exista algo do tipo na dimensão Alfa/Lírica/53...
— Ok. Vamos ver então... — Marília pega seu celular gold com ícone de girafa (tão maneiro!) e vê que a bateria está muito baixa para fazerem a tal viagem. — Mas antes devo recarregar meu celular.
— Como é? — diz Ruf, agora já desesperado por causa da ameaça à sua própria família. — Precisamos roubar o banco!
— Calma aí, gente... — começa William, mas novamente é interrompido.
Na realidade, a melhor opção que eles têm agora é conversar com o chefe de polícia da cidade, que de alguma forma é uma pessoa com ficha limpa e com nenhuma corrupção enquanto policial. Simplesmente, um exemplo. É claro que muita gente acaba duvidando de sua honestidade por causa de outros policiais que um dia foram muitíssimo corruptos em Sopa, além do fato de que esse policial foi promovido pelos não-muito-populares, o que causa um grande alvoroço. Este chefe, chamado Bagre, sofreu fortes acusações da oposição, bem como perdeu a eleição para novo chefe de polícia; no entanto, os próprios policiais afastaram o corrupto que havia entrado no lugar que devia ser de alguém justo e o colocaram. A população entrou em protesto contra tudo o que estava acontecendo ali, não mais chamando a polícia para resolver seus crimes ou para ações preventivas ao crime. Naquele mesmo ano, o número de crimes hediondos aumentou consideravelmente (porque se um policial fosse às ruas, provavelmente seria fortemente agredido pelos protestantes). Apesar da culpa ser dos grevistas protestantes, eles culparam ainda mais a Bagre, que, agora que a história foi explicada, vocês entendem que não tem culpa alguma. Diferente de outro caso, o de Gruilo, que é corrupto e acontecem tais coisas em sua cidade, Frelinópolis (“Freli” vem de um apelido dado a um rei muito importante na história daquele país e significa “freli”, porque não tem tradução alguma). Ah, e Bagre é um vampiro.
Agora você se pergunta: será que eles se perguntam isso? Claro que não! Eu poderia dar essa dica pra eles; afinal, a história é minha e eu posso fazer o que quiser com ela. Eu poderia acabar com ela neste exato momento. Mas prefiro deixar continuar... E eles vão... continuar também. Avante! Fóm-fóm! (foi um trem... da dimensão Alfa/Lírica/52).
— Precisamos deste dinheiro.
— Não, Ruf... — diz William — Você precisa desse dinheiro. Nós só estamos aqui para poder resolver a questão dos ficcioneiros que eu até cheguei a me esquecer.
— Cheiro da morte — diz Marília.
— Isso mesmo — diz William —, Cheiro da Morte. Então, cara...
— Quer dizer que vocês não se importam com a minha família? — pergunta Ruf (que por algum acaso é único personagem cuja família está sendo ameaçada se ele não pagar uma alta quantia em dinheiro)
— Não, Ruf — diz Marília. — Nós nos importamos, mas é que... — de repente seu celular toca: uma nova mensagem. Um cara chamado Willu (isso mesmo, com “u”), que por causa de seus fortes braços e suas asas maravilhosas (porque ele é um pegasocórnio, um tipo de junção de pégaso com unicórnio; mas ele, no caso, tem três chifres), fez Marília se encantar. E ele é o ex-namorado dela também. Obviamente, por causa de sua paixão ardente por Willu, Marília simplesmente fica pasma diante da mensagem que recebe.
— Eu sabia que vocês não se importavam com a minha família!
— Ahn... William... Essa fala é minha — interrompe Ruf.
— Ah, foi mal... — diz William. — Mas nós nos importamos sim, cara. A questão é que temos algo muito maior para lutar contra agora, e não podemos vacilar.
— Mas eu quero salvar minha família!
— Ok... — diz Ramon — Se entendi bem, tem um cara querendo matar toda a sua família — Ramon aponta para Ruf — por causa de uma determinada quantia de dinheiro, coisa que no comunismo não parece muito ser um problema... Mas é. — Ramon começa a pensar um pouco sobre o assunto, mexendo em seus óculos-escuros (não no queixo porque ele é um quebra-queixo, entenderam? Enfim, continuemos...) — E você, Ruf, está tentando roubar o banco da cidade que tanto te ama, pelo que pudemos perceber a partir dos incríveis seguranças que nos receberam saudosamente e de forma que não fôssemos mortos dentro da cidade — e continua pensando mais um pouco —... Que tal se conversarmos com o chefe de polícia daqui?
— Prefiro não fazer isso — diz Ruf. — Dizem que ele é muito corrupto e que não dá condições muito seguras para a população.
— Ah... — diz William — Agora entendo por que você quer roubar... A segurança está péssima!
— Finalmente, William, você parece estar mais esperto agora. — Ruf diz.
— Ei! — exclama William.
— Que foi? — diz Ruf. — A vida da minha família está em jogo e não tenho o direito de ser arrogante?
— Não! — grita Marília, mas não para Ruf.
— Ahn... Fico com a resposta da Marília — diz Ramon. Marília começa a hesitar em alguma coisa...
— O que houve, Marília? — pergunta William.
— Eu não sei se vai dar pra eu continuar nessa missão com vocês!
— Ah, então você se importa mais com a Marília do que com minha família?
— Calma aí, Ruf!
— Cara, minha família vai morrer!
— Ah, quer saber? Vamos logo roubar este banco então! — diz William, forçando todos a segui-lo até o banco da cidade.
Quando chegam no local, vão sorrateiramente até o cofre.
— Como abriremos esta coisa? — pergunta William.
— Que tal usarmos o Desenhador? — diz Ruf.
— Espere... Vocês têm o Desenhador? — pergunta Marília.
— Sim. Vamos usar agora. — responde Ruf.
— Mas... E a distorção no tempo-espaço que ele pode causar?
— É uma mentira, tipo a Máquina do Tempo.
— Se bem que dizem que há a possibilidade de se fazer uma máquina no tempo, pelo menos na minha dimensão — diz William.
— Se sua dimensão possui um tempo Asdano, então sim. — diz Marília.
— O quê?
— Minha família vai morrer se a gente não pegar esse dinheiro logo, galera!
— Tá legal. — diz William — Pegue o Desenhador.
Ruf pega o Desenhador e o coloca diante da porta, fazendo o contorno de uma espada com a sua mão direita, o que cria uma bomba que explode o cofre que está diante deles.
Assim que a bomba explode, um alarme é soado, e todas as duas pessoas presentes no local se desesperam ao ponto de pesquisarem num site de pesquisa o que pode estar acontecendo quando um alarme soa em seus pequenos dispositivos capazes de entrar em sites de pesquisa. Estes dispositivos são famosos também por conterem um tipo de câmera invertida, isto é, ao invés de tirar fotos, você tira uma foto dela.
— Precisamos sair daqui rápido! — exclama William.
— Nós ainda não pegamos o dinheiro! — responde Ruf.
— De quanto precisamos? — pergunta Marília.
— Cinco mil adlaremses — responde Ramon.
Eles começam a pegar o dinheiro e exclamam em alta voz quanto estão pegando.
— Peguei dez mil — responde William. — Acho que podemos sair e ainda sobra dinheiro.
Os outros três olham para William assustados.
— Mas o quê? — pergunta William, atônito com a situação.
— Nós só precisamos de cinco mil — responde Marília.
— Ok... E qual o problema de pegar mais?
— William... — começa Marília — Nós não podemos levar essa quantia embora.
— Por que não? Vamos embora logo!
— William!! — grita Marília, mas sem conseguir parar William, que era justamente o objetivo que ela tinha naquele momento ao exclamar “William!!”.
William começa a correr, e os outros três correm atrás. Poderíamos usar o termo “perseguir”, uma vez que corriam atrás dele para evitar que o dinheiro saísse da dimensão Alfa/Lírica/52.
— William, por favor, não faça isso! — grita Ruf. — Jogue cinco mil fora!
— Mas podemos precisar desse dinheiro! Vamos levar ao seu amigo Jurássico, salvar sua família e ter um resto para podermos fazer outra coisa.
William não sabia da confusão que estava por vir por causa de sua decisão por mais do que precisava.
— William!! — Marília começa a exclamar — Precisamos devolver esse dinheiro!
Um dos problemas das pessoas da Vida Real é que elas pedem muitas explicações. Não basta você mostrar o que deve ser feito ou mesmo o que pode acontecer a partir do que não é feito como se deveria: é preciso mais. Mas as pessoas de outras dimensões não conseguem entender esse problema e acabam desconsiderando quando se encontram com uma dessas pessoas. Resumindo: ninguém ia dar uma explicação lógica para William Shakespeare a não ser que ele a pedisse; e talvez lhe dariam a resposta, uma vez que, sendo desnecessária essa explicação para grande parte das pessoas de outras dimensões, eles se questionariam o motivo dele estar perguntando isso, o que prova que essas pessoas acabam sofrendo do mesmo problema quando ele se manifesta diante deles.
— Mas por quê? — pergunta William enquanto corre, e de repente um portal se abre na frente de todos.
— É um portal para outra dimensão! — diz Ruf e todos são engolidos pelo portal, que se distorce com vigor. A viagem é longa e psicodélica, mas eles chegam ao próximo destino com vida e saudáveis.
— Ahg! — diz William, com uma dor de cabeça por causa da mudança repentina de dimensão.
— Eu não sei — diz Marília, olhando em volta e tentando reconhecer a dimensão na qual estão.
— Ruf? Tem alguma ideia de onde estamos? — pergunta Ramon.
— Não... — responde Ruf. — É isso o que acontece quando você rouba mais do que precisa na dimensão Alfa/Lírica/52!
— O quê?! — pergunta William, confuso com a situação.
— Olha... — começa Ruf, com um suspiro que o faz acalmar o stress — Se nós roubássemos apenas cinco mil adlaremses, nós seríamos no máximo perseguidos por Bagre e poderíamos fugir numa boa.
— Mas e o que acontece quando roubamos mais? — pergunta William.
— Diz-se que algo muito pior acontece — responde Marília, pronta para explicar para William porém com receio de que a dimensão seja muito perigosa para que fiquem ali parados. — Bagre tem um sistema de justiça muito eficiente, e conseguiu uma tecnologia ética que ultrapassa os limites de Sopa e consegue levar até mesmo a outras dimensões. Quando o alarme soou, ativou o Sistema de Eticização Proclamada, criado pelos revolucionários de Sopa há 350 anos para evitar que a lei fosse rígida quando houvessem casos de roubo necessário. Bagre utiliza-se desse sistema, assim como grande parte das pessoas das dimensões Alfa/Lírica/52, 123/Eba, Pixel, Alfa/Lírica/53. Eles dizem que evita a criação de ratos negros.
— Mas o que isso tem a ver? — William pergunta.
— Cada dimensão tem seu próprio sistema de funcionamento — responde Marília. — E Peste Negra era o nome da dimensão Alfa/Lírica/52 até pouco tempo atrás.
— Sério?
— Sim. Tanto que Peste Negra foi também dado em homenagem a esta dimensão na Vida Real, pelo menos é o que está escrito nos livros.
— Mas que eu saiba a Peste Negra foi causada por ratos.
— Como eu falei, William, as dimensões funcionam de formas diferentes. Os ratos mataram, sim, muita gente, mas foram criados nesta dimensão.
William ainda fica com ar de dúvida, e Marília começa a pensar melhor em como vai descrever a situação para William. Até que ela lembra que está carregando o livro que fala sobre a Peste Negra na Vida Real e entrega a William.
— Leia na página 49 — diz ela para William. William abre o livro e abre na página que Marília lhe descreveu. Lá está escrito o seguinte:
“A Peste Negra foi um fenômeno pesadamente forte num século que foi chamado de século XIV e que levou várias pessoas a óbito por causa de uma pandemia de Peste Bubônica. Foi basicamente um terço da população europeia que morreu nesse incidente, que ocorreu na Vida Real Zero e se alastrou à Vida Real.
“Apesar da descrição das pessoas sobre essa tal de Peste Negra, o que poucas pessoas sabem é que os ratos negros, que são considerados a causa principal dessa doença, não foram os verdadeiros causadores da doença em si. Por mais que carregassem a peste e assolassem a Europa naquela época, e o fato de os europeus não terem uma boa higiene na época (não que a tenham hodiernamente,), a dimensão Alfa/Lírica/52 foi ativamente forte nesse processo. Ocorre que as pessoas descobriram esta dimensão, apesar de ainda não a terem revelado, e passaram a viver de acordo com ela. Esta dimensão possui seus prós e contras, e um dos seus contras é o fato de que pode prender uma pessoa a seu dispor quanto tempo precisar. Isso se espalha, por exemplo, na sua política: o sistema de julgamento é tão forte que a regra estabelecida funciona até em portais interdimensionais. Alguns a chamaram de Razão, outros de Juízo, e outros ainda de Filosofia Mais Profunda. Wilhelm Wundt simplesmente a descreveu como o fundamento da ciência e da Filosofia, chamando-a de Metafísica. A dimensão Alfa/Lírica/52 causou tamanho estrago por simplesmente não permitir que as pessoas da época levassem a sério a Vida Real, e por isso começaram a morrer.”
William continuava lendo, atônito. “Quer dizer que a dimensão Alfa/Lírica/52 corresponde à filosofia?” perguntava a si mesmo. Passou mais algumas páginas e encontrou um comentário:
“A Alfa/Lírica/52 realmente é uma dimensão louvável por todas as suas características, tanto naturais quanto sobrenaturais. Essa dimensão realmente nos faz nos encantarmos com as possibilidades e nos dá a sensação de que podemos encontrar alguma coisa além daquilo que vemos na Vida Real. Porém não é onde estamos no momento, e quando passamos a viver em função dela perdemos a realidade. Na realidade, nem mesmo a Vida Real é tão real quanto parece. Sendo francamente sincero, nós só podemos fazer parte dela por causa da dimensão Invisível, que não sabemos o que é, mas sabemos que possui uma relação intimíssima com a Vida Real e interfere diretamente nela, assim como a Vida Real afeta diretamente na sua vida. Não que seja necessária esta troca, mas por causa daquilo que precisa ser definido. Pois se assim não fosse, talvez a Vida Real já não existisse mais”.
Ele terminou de ler e viu a autoria: Renato Shakespeare. “Meu pai conheceu estas dimensões?” foi o último pensamento que lhe passou pela cabeça. Depois, ficou atônito.
— Sejam bem-vindos! — diz uma voz misteriosa ao fundo, mas com um som que parece muito mais audível do que um som muito audível.
— Quem fala? — pergunta Ruf, protegendo os amigos de qualquer coisa que possa acontecer a partir dali com seu bracinho doce.
— Ah, vocês ainda não se tocaram? — responde a voz com uma pergunta. — Eu dou uma dica: vocês estão na minha cabeça...
Os três ficam pensativos.
— Sou Bagre!
— Por que estamos aqui? — pergunta Ramon.
— É um procedimento obrigatório. — responde Bagre. — Na realidade, não é obrigatório... — hesita mais um pouco — Na realidade, nem é um procedimento. Vocês deveriam estar na dimensão Alfa/Lírica/54, onde todas as casas são banheiros de posto.
— Então por que nos trouxe aqui? — pergunta William.
— Soube que vocês estão procurando por Ficção para destruí-la e evitar a destruição de mais dimensões.
— Sim, isto é verdade — responde Marília. — Mas por que sua cabeça seria importante?
— Bom... — começa Bagre. — Como vocês roubaram mais do que precisavam, se eu os encontrasse deveria levá-los à tal dimensão que eu mencionei. A não ser que vocês encontrassem um jeito de entrar na minha cabeça, não haveria outro meio de vocês saírem de lá a tempo de destruir Ficção a não ser se pagassem a fiança de 250 milhões de hictons de adlaremses.
— Uau... — responde Ruf. — É uma medida muito alta!
— Exatamente! Mas vocês entrando na minha cabeça, diz o artigo 245º parágrafo 15: “Entrar na cabeça de um chefe de polícia vampiro dá liberdade da pena proferida por lei”.
— Bem específico — diz Marília.
— Sim! Além disso, eu possuo informações sobre Ficção e posso ajudá-los. Também quero destruir Ficção.
— Mas como você ficou sabendo de nossa missão? — pergunta Ruf. — Não revelamos a ninguém!
— Ah, Mateus me falou — responde Bagre.
— Ele lhes será muito útil — respondo.
— Ok — responde Ruf. — Onde pegamos as informações importantes.
— Vocês vão precisar passar pelos Vales dos Medos e pelas Montanhas das Euforias, que estão no sentido Oeste ao que vocês estão. Depois disso, chegarão a uma fortaleza chamada Mente, onde constam alguns signos e símbolos que me ajudam a conceber a realidade onde vivo. Logo depois dessa fortaleza, vocês seguirão ao norte, onde encontrarão a minha Adaga Vampirosa, uma adaga capaz de matar um vampiro (não me perguntem por que tenho isso!). Então virão alguns vampiros (talvez seja por isso) que tentarão atacá-los, e vocês deverão passar por eles para chegarem na Floresta da Dúvida, onde podem encontrar alguns filósofos e pensadores e algumas coisas pelas quais sou apaixonado. Não parem para conversar com nenhum deles, porque serão perda de tempo... Talvez depois... mas agora vocês têm uma missão. Então vocês chegarão na minha Caixa Iluminada, onde consta minha fé e as informações necessárias para a viagem de vocês.
— Ok. — responde Ruf. — Vamos começar. Primeiro sentido...
— Oeste — completa Ramon, mexendo em seus óculos escuros.
— Obrigado, Bagre — diz William.
— É, obrigada — diz também Marília.
— Não há de quê! — responde Bagre, com um sorriso.
Então os quatro heróis começam a passar pela cabeça de Bagre.
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