Mais uma Mentira de Amor
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Exatamente nove dias depois, eu estava recebendo alta do hospital. Gael e Emery, a morena que eu acabei descobrindo ser minha mãe, ficaram do meu lado todo o tempo, na sessão de natação, readaptação para andar, exercícios diversos e testes para ter certeza de que eu estava pronta. Emery me presenteou com um vestido bege claro florido em laranja que eu não esperei para provar. Entramos no carro, Gael dirigiu cantando animadamente musicas que eu provavelmente deveria saber, mas nunca tinha escutado antes.
Chegamos em frente a cerca viva de arbustos rígidos, portão antigo perfeitamente branco dando acesso a um jardim tão imenso e proporcional que eu jamais poderia imaginar. A casa que aparecia logo depois dele, era de estrutura clássica, como um palácio, porem todo espelhado e com toque moderno diferente de tudo que eu pudesse pensar. Então aquela era minha casa. Descemos todos.
– Querida, espero que entenda que eu prefiro ficar aqui — disse Emery, me abraçando bem apertado.
– Vou com você — disse Gael num tom bem sério e determinado.
Fingi entender o que acontecia, como vinha fingindo desde o dia em que abri os olhos. Não via a hora de estar com ele todo o tempo do mundo e reaprender tudo que gostávamos de fazer antes do acidente.
Os portões se abriram, ele ofereceu a mão e eu segurei como uma criança. A cada passo em direção as portas, meu coração dava um pulo. Seja lá quem eu for, estou feliz por ter acordado e conhecido Gael, e agora viveríamos juntos, para sempre.
Entramos no que me pareceu uma sala de jantar executiva, cheia de pilastras e uma escada de puro mármore no meio. Tudo parecia vazio e surpreendente.
– Quem está aí ? — uma voz cansada e autoritária perguntou. Um homem com menos de sessenta anos sentado numa cadeira de rodas apareceu, e sorriu de forma irônica — Gael. Quanta surpresa ver você por aqui. Vejo que trouxe minha mulher. — senti meu estomago se revirar. O senhor tinha um grande corte que lhe atravessava a parte direita da face, um sorriso terno e ao mesmo tempo assustador.
– Até logo Rachel, eu venho te visitar em breve — disse Gael, soltando minha mão.
– Onde você vai ? — perguntei num tom quase desesperado.
– Para casa. Qualquer coisa, você sabe o que fazer.
Ele saiu, encostando a porta. Olhei para fora e o vi caminhar sem se quer olhar pra trás. Eu não entendia o que estava acontecendo.
– Vejo que já não se preocupa mais em disfarçar sua paixão pelo garoto, senhorita Federhen — ironizou, e engoli seco. Quem era aquele homem ? — Fico realmente satisfeito pelo bastardo ter falecido aí dentro desse seu estomago miserável. Aquele fruto podre não seria digno de comer na mesma mesa que eu. Deve ter sido gostoso faze-lo, não é senhorita Federhen ? Como nunca foi comigo. Você mal respeita minha doença e agora isso. Achou que seu acidente me faria perdoa-la ? Enganou-se. — virou o controle automático de uma vez para a esquerda e seguiu pela casa vazia. Fiquei parada ali, me sentindo quase desmaiar, sem saber o que fazer.
Comecei a andar pelos cômodos, um mais luxuoso que o outro.
Haviam lareiras por todos os lados e vasos caros em todos os cantos.
Estatuas, quadros e suvenirs de todos os tipos enfeitavam as paredes da sala, e na cozinha encontrei uma moça, era novinha, menos de vinte anos. Pálida e magra, em pé ao lado da pia, com um uniforme de péssimo gosto.
– Senhorita Federhen — cumprimentou ela quase num sussurro, baixando a cabeça.
– Prefiro Rachel — respondi de forma simpática, e ela se espantou. — Tem café ? Sinto vontade de tomar uma xícara. — perguntei, mexendo num bule.
– Deixe que eu pego senhora — ela se apressou quase tomando o objeto de minhas mãos. — sente-se, por favor.
Me sentei e ela serviu uma xícara.
– Pegue uma pra você tambem — pedi, e ela sorriu, com olhar agradecido. — sente aqui — chamei, e ela se aproximou, encolhida — O que você faz aqui ? — questionei, e ela me encarou, confusa — Ignore tudo que eu deveria saber e responda, pode ser ? — ela assentiu.
– Sou a cozinheira, cuido de fazer e servir a comida — respondeu calmamente.
– E eu ? O que Eu faço aqui ? — perguntei, e ela suspirou, organizando os pensamentos.
– A senhora é esposa do senhor Federhen, à mais de dez anos, antes mesmo de ele sofrer o acidente de carro numa viagem habitual de negócios. — ela me olhou parecendo precisar de aprovação para continuar, e eu a incentivei com um olhar curioso — Ele era um bom homem, a senhora era a secretaria e veja só, se casou com ele. Mas a família da senhora jamais aprovou essa união. Depois do acontecido, ele se tornou tão amargo, homem insuportável, de poucas palavras, observador, e usa de forma culta suas armas, que são palavras e força — ela não me encarava, passava os dedos pela mesa parecendo não querer falar do assunto — Eu acho que a senhora ficou infeliz, se me permite dizer, e então ficou igualmente estranha. Um dia houve uma briga, foi horrível, e logo em seguida sua viagem com seu amigo para a Bolívia, e então o acidente e agora estamos aqui.
Tive de respirar fundo e tomar boa parte do café para continuar as perguntas.
– Quantos anos eu tenho agora ?
– Trinta e quatro, senhora. Se casou com o patrão aos vinte e quatro anos, mas já trabalhava com ele desde os vinte e um. Morava longe daqui, mas se mudou pra cá durante o noivado para acelerar os preparativos, foi o que os outros empregados disseram, já que eu estou aqui apenas a dois anos, nunca presenciei a boa fase de seu marido.
– Sobre o que ele falava quando se referiu a um fruto podre em meu estomago?
Ela se levantou, recolheu minha xícara vazia e a sua, intocada. Levou ate a pia, as lavou com habilidade, secou as mãos no avental e pousou os olhos no vazio.
Me retirei. Subi as escadas, percorri o corredor largo, passando as mãos em cada porta entreaberta, percebendo primeiramente a quantidade excessiva de banheiros, e o mais impressionante e aliviador — meu quarto era separado do daquele homem sarcástico.
Entrei em meus aposentos, haviam quadros que pareciam ter sido pintados por alguem com habilidade mediana, o closet era cheio de peças caras e proporcionais com o ambiente, cama de casal extremamente confortável, sapatos de todos os tipos, cores e tamanhos, assim como as bolsas.
Dentro da primeira gaveta de uma escrivaninha de canto, havia um caderninho, anotações que eu não conseguia entender o significado real. Percebi espalhado pelas paginas, números aleatórios pelos cantos, e unindo-os, formei um só. Era como um contato, então peguei o telefone e digitei conforme a anotação.
– Oi, aqui é o Gael — quando eu ia começar a gaguejar alguma coisa, a gravação continuou — não estou em casa no momento, deixe seu recado e ligarei assim que possível.
Nesse momento comecei a chorar. Eu não sabia como tudo tinha acontecido, mas jamais poderia imaginar aquela situação. Eu estava numa casa que eu jamais havia ido mas que era minha, com um homem horrível que eu jamais conheci e que era meu marido, e havia aquele rapaz, que eu me apaixonei e que não posso chamar de meu, pois o que eu escolhi antes do acidente tem muito mais valor do que o que eu penso agora. Tinha a certeza de que era com Gael que eu voltaria pra casa, nossa casa, e que com ele eu seria feliz. Eu nem precisaria expor minha perda de memoria, já que quando eu olhei pra ele, foi como se eu já estivesse no lugar certo.
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