Notas iniciais
Oi! Aproveitando o mês romântico, resolvi escrever... Tchanraaaaaaaaaan... Um romance para celebrar. Até o fim do mês ainda vou postar outras coisinhas por aqui, só para constar. É algo simples, que surgiu enquanto eu ouvia "Meu universo é você", nada de estupendo. Só um devaneio que precisava colocar para fora. Boa leitura.

Baby, mais que a luz das estrelas...

Ah! Meu universo é você!

Ah, se eu puder ter a chance!

Ah! Eu juro todo o seu amor merecer!

Aqui estou eu, aqui estamos nós, mais uma vez nessa cafeteria onde você se sente à vontade para desabafar suas desilusões e erros do passado, fazendo de mim seu costumeiro ouvinte.

Desculpe-me, Anna, mas está complicado prestar atenção. Não que eu não me importe com os seus problemas, muito pelo contrário, mas é que as coisas que diz me machucam de um jeito que você não faz ideia.

Entre um gole de café e outro, saboreio o gosto amargo da cafeína e da invisibilidade. É isso, devo ser invisível para você.

Tento afastar esse pensamento, porém acabo mergulhando de vez nele.

Diga-me, Anna. Quantas vezes fui seu ombro amigo? Quantas vezes você chorou nesse mesmo ombro quando estava deprimida? Incontáveis, não é?

Juro que, de minha parte, eu estava sendo apenas isso, apenas alguém para enxugar as suas lágrimas, apenas um apoio e um confidente. Que isso fique bem claro: sou seu amigo. Sempre fui. De verdade. E não quero perder o que nós construímos durante esses anos e temos agora.

Sou seu melhor amigo e espero nunca deixar de ser, mesmo com esse outro sentimento, muito além da amizade, que venho desenvolvendo por você, há sei lá quanto tempo.

Não sei como e quando aconteceu exatamente. Tampouco sei como você ainda não percebeu. Tenho certeza que está estampado na minha cara de bobo toda vez que olho para você. Mas é aí que está o problema, você nunca me enxerga de verdade, nunca está me olhando de volta nesses momentos em que minha fraqueza fica exposta e piscando feito uma árvore de Natal. Você é cega, Anna.

Por isso, não tem a menor ideia e não sabe o tremendo esforço que tenho que fazer enquanto ouço você contar suas aventuras e seus casos antigos. Simplesmente fico calado. Finjo, como posso, que não estou morrendo de ciúme de você. E de raiva e inveja daqueles que não te deram o devido valor; daqueles que tiveram a chance de ter você bem ali, ao lado, ao alcance, e desperdiçaram tamanha sorte.

Uso essa máscara apenas para não te perder, Anna, pois tenho muito medo que isso aconteça. Tenho medo que você me afaste, se eu me declarar, entende?

Se pelo menos você olhasse para o meu rosto.. Ah, se você olhasse, com certeza iria ver, perceber e poupar o meu trabalho. Você iria descobrir o meu grande segredo, notar as marcas do meu sorriso sem graça e triste. Iria perceber que, na verdade, eu quero ser bem mais do que um amigo seu.

É isso, eu estou apaixonado por você. Com os quatro pneus arriados e arrastando um bonde, como dizem por aí. E eu não sei mais o que fazer com esse sentimento. Sinto-me dividido, encurralado, inseguro.

Meu amor por você é bem maior e mais intenso do que o brilho das estrelas, sabia? Claro que você não sabe. Como poderia?

Você também não tem a menor ideia de que o meu universo é você, gira em torno de você, só por você, já que eu ainda não me declarei.

Ainda...

É em tudo isso que estou pensando enquanto amasso o guardanapo repetidas vezes e balanço os pés embaixo da mesa. Observo a garçonete nos trazer mais um café. Ajeito-me na cadeira, incomodado, enquanto você continua lamentando mais um namoro que não deu certo, contando-me cada detalhe que eu gostaria de não ouvir. É uma tortura. Queria ficar surdo temporariamente, não aguento mais.

É isso. Eu. Não. Aguento. Mais.

— Eu te amo — declaro-me pura e simplesmente, interrompendo o seu lamúrio sem qualquer cerimônia e fazendo um silêncio constrangedor se espalhar pelo estabelecimento.

Dane-se! Não posso mais continuar guardando meus sentimentos assim, não posso! Tenho medo de te perder? Tenho. Porém não consigo mais guardar o meu amor só para mim. Preciso que você tenha conhecimento dele, preciso que saiba a verdade de uma vez e seja lá o que Deus quiser!

Sinto olhares apreensivos e ansiosos na direção da nossa mesa, mas o único olhar no qual estou realmente concentrado é no seu.

— O... quê? — é tudo o que você consegue balbuciar, parecendo bem surpresa e atordoada.

Em outros tempos, eu contornaria essa situação com alguma desculpa esfarrapada, mas desta vez, não. Desta vez eu estou mesmo cansado, cheguei ao meu limite e não vou voltar atrás nem que a vaca tussa!

Pensando assim, encho-me de coragem e reforço:

— Droga... Eu te amo, Anna!

Acho que falei ainda mais alto agora, já que os funcionários da cafeteria param o trabalho quase no mesmo instante. Sei disso porque não ouço mais o ruído característico das máquinas de café atrás do balcão, perto de nós. Tampouco ouço o burburinho de vozes de qualquer pessoa da fila fazendo seu pedido. A gaveta do caixa também parece ter morrido, travado, algo assim. Um marasmo inconveniente domina o ambiente cada vez mais.

Visivelmente embaraçada, você se encolhe na cadeira, retraindo os ombros e, com os olhos ainda marejados pela última desilusão que me relatava, diz:

— Eu também te amo.

Rio sem humor e esclareço com uma firmeza que até então desconhecia:

— Eu não estou falando como amigo.

Espero alguma reação de sua parte, mas nada acontece. Envergonhado e irritado comigo mesmo ao mesmo tempo, levanto de súbito, afasto-me com passos resolutos e apressados, logo alcançando a saída.

— Miguel! Miguel, espera!

Ouço seu chamado, mas já cruzei a porta a essa altura. A ideia de que você me olhe com piedade ou faça um interrogatório sobre o que sinto — uma coisa ou outra só vai me deixar pior, acredite — me leva a decisão de ignorá-la.

Alcanço a calçada e, "para ajudar", está caindo um verdadeiro dilúvio, digno de Noé. Ou seja, esse dia só melhora...

Como tudo tem o seu lado positivo, espero pelo menos que esse aguaceiro todo lave a vergonha que estou sentindo agora.

— Eu disse que também te amo, seu idiota! Você é surdo, cego ou o quê?

Viro e você está bem atrás de mim. Por que veio atrás de mim? E tão rápido? Por que está me encarando tão brava? E com tanto calor? Por que está se aproximando ainda mais?

Sem que eu tenha tempo de encontrar alguma resposta, suas mãos estão no meu rosto. De repente, seus lábios pressionam os meus com força. Zonzo e incrédulo, demoro um pouco para assimilar o que está acontecendo aqui. Por fim, fecho os olhos e seguro na sua cintura ainda meio incerto se essa é a reação adequada.

Sua boca. Seu beijo. Essa chuva caindo sobre nós de forma impiedosa, como se quisesse nos reduzir a uma coisa só. Meu coração disparado. Sua boca. Seu beijo. Sim, é mais do que adequado. É um sonho se realizando. Um amor maior. Um futuro com você se mostrando possível.

Queria que esse momento congelasse de alguma forma mágica, mas você está recuando e nosso primeiro beijo chega ao fim. E, desta vez, quem fica atordoado sou eu.

— Mas... Eu não entendo... Eu pensei que...

Sorrindo, desse seu jeito lindo de sorrir, você me interrompe em tom divertido:

— De pensar, morreu um burro.

Seu sorriso. Meu universo. Meu mundo girando em torno desse sorriso.

Despertando-me do estado de torpor e ainda descrença em que estou mergulhado, você me pega pela mão e me guia para debaixo do toldo. Meio sem graça, explica:

— Eu só não disse nada antes porque pensei que não era correspondida. Eu estava desesperada para te esquecer, Miguel. Por isso tentei me apaixonar por outros caras. Acho que, no fundo, eu tive esperança que você fosse ficar com ciúme e sentir o mesmo por mim algum dia. Mas ao invés disso, você me ouviu como um amigo e me incentivou a continuar procurando pelo cara ideal. Quando eu chorava, não era por essas desilusões, era por não poder te contar que eu já tinha achado esse cara. E que ele era você.

Não aguento e um riso simplesmente escapa da minha garganta ao assimilar sua confissão. Vejo-me obrigado a retrucar com outra:

— Desculpe, mas a cega dessa história foi você. Eu te amo há muito tempo, Anna. Bem antes de você me fazer ciúme desse jeito.

Você franze o cenho. Eu já disse o quão linda fica quando faz isso? Você fica. Linda.

— Sério? Gente... Então como eu não percebi?

— É uma ótima pergunta.

Você fica pensativa, assim como eu. Aparentemente, está tentando entender como esse mal entendido se estendeu por tanto tempo e como não percebeu meu sentimento antes, assim como eu.

— Sem chance! Como você não notou os meus olhares?

— Que olhares...? — rebato, fazendo um esforço para me lembrar de algum momento assim. — Eu não acredito — digo ao matar a charada, segundos depois.

— Nem eu.

Ao que parece, toda vez que Anna olhava para mim de algum jeito diferente, me dando alguma dica silenciosa de como se sentia de verdade, eu estava concentrado num ponto qualquer do chão, da parede, do mundo. Provavelmente, procurando esvaziar a mente enquanto ela contava suas aventuras amorosas para me provocar ciúme.

Por ironia do destino, toda vez que eu olhava para ela, Anna estava com o olhar perdido também, concentrada no próprio plano.

Rimos. Simplesmente rimos desse desencontro. Felizes e meio encharcados, voltamos para a cafeteria.

O lugar está mergulhado no mais absoluto silêncio quando entramos. Pelas expressões culpadas e discretos risinhos e murmúrios que ouço, parece que todos estavam nos espiando até então. De certo, pela fachada de vidro que reveste a porta. Mais do que isso, parece que temos mais que uma plateia. Temos algum tipo de torcida, acho. Os clientes e funcionários parecem felizes por nós dois.

Pingando água pelo piso, entrelaço a mão de Anna. Em seguida, nos acomodamos em nossa mesa de novo, ainda intacta.

Algum tempo se passa. Nos encaramos também em silêncio. Controlamos a vontade de rir desse momento embaraçoso.

Enfim, uma atendente se aproxima com um bloquinho de anotações e uma caneta a postos. Disfarçando um sorrisinho ao ver nossas mãos ainda unidas sobre a mesa, ela pergunta:

— Mais um café?

Olho para Anna. Anna olha para mim.

— Mais um café.

Respondemos juntos. Sem mais desencontros a partir de agora.

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!