Notas iniciais
Oi, gente, perdoem novamente a demora, mas estou sem internet em minha casa. Enfim, obrigada a todos aqueles que leem e os que não me abandonaram até aqui. Fantasminhas, essa é pra vocês. Boa leitura

Sam

Eu estava começando a me acostumar com a escuridão. Com a escuridão e com o cheiro acre e bolorento das cavernas de Jeb. Mas não era só com isso que eu estava me acostumando, pois com todas as mudanças que eu havia sofrido nos últimos meses agora havia muito mais coisas com a qual eu estava lidando, coisas que sequer jamais um dia pude imaginar lidar. E, por mais louco que pudesse parecer a algum tempo, eu estava realmente mudando, me adaptando e me sentindo feliz por ter conhecido não só pessoas que ainda mantinham a fé no outro como também almas que se permitiam analisar as coisas do lado humano.

Algumas almas faziam parte da minha vida e eu finalmente percebera que estavam do lado dos humanos por escolha própria, sofrendo os mesmos medos, dramas, angústias e dificuldades que nós. A presença delas não me causava mais dor e aversão como no início, pois eu aprendera a ver neste meio tempo que a redenção é uma benção que aflige qualquer ser capaz de inteligência. Grace não morreu nas mãos de Peregrina... Sunny escolheu ficar com Kyle... Cal era um bom amigo. As almas mereciam uma segunda chance, assim como nós que avidamente buscávamos pela nossa sobrevivência.

Igualmente lutávamos pela vida.

Não que eu houvesse esquecido, pois ainda havia almas lá fora que realmente consideravam a extinção dos humanos algo com o que se orgulhar. Contudo, percebi que pelo menos as “nossas almas” faziam esforço para se encaixar, ajudando e se sacrificando por nós. E isso era mais do que eu podia imaginar. Se todas as almas agissem dessa forma, quem sabe até poderíamos ter nosso mundo de volta.

A lição já estava mais do que aprendida.

.

Era o dia da colheita do trigo e o trabalho árduo já estava me deixando completamente sem paciência. Para aliviar o tédio, mergulhei em lembranças e debates internos, revendo conceitos e toda a jornada que tinha nos levado a esse destino. Por que nosso planeta não havia simplesmente passado despercebido no espaço? Qual o propósito de toda essa loucura que estava acontecendo conosco? E mais ainda, por que as almas estavam se mostrando tão parecidas com os humanos que inicialmente tanto desprezavam?

Eu percebera isso juntando tudo o que tinha visto e, analisando o comportamento das almas com as quais havia tido contato, vi que aquela história de “todo mundo igual e mecanizado” não se aplicava na prática, pelo menos não aqui na terra.

Alguns buscadores estavam se tornando violentos demais, capazes até de matar um humano a tiros em busca de um “bem maior’; e outras almas simplesmente agiam como se o mundo lhes pertencesse, como se todos os humanos e não somente uma minoria fossem selvagens e assassinos que mereciam ser dizimados. Isso chegava a parecer até um pensamento egoísta, como se a terra fosse um prêmio dedicado a quem fosse melhor. Havia outros que simplesmente estavam cumprindo o seu dever e o ciclo de vida de seus hospedeiros antes de partir e por isso não perdiam muito tempo filosofando sobre ética e moral, e havia também os que pararam para pensar e perceberam que, por mais beneficente que a visita das almas tenha sido ao planeta terra, não se pode tomar algo que já tem dono, pois, não é esse o exato conceito de roubo?

A conclusão era que parecia que cada alma agora tinha pensamentos e ideias próprias, mesmo que o coletivo ainda fosse a base de sua ideologia. Mas o fato de termos três almas morando conosco, com humanos, e dispostas a nos ajudar só mostrava o quando nem tudo segue o curso que é determinado. O fato de eu ter me tornado amiga de uma delas também, já que isso parecia inconcebível no passado.

Lembrei sobre o dia em que eu e Cal nos deitamos lado a lado no chão e ficamos falando coisas sobre a vida, a lembrança de nossa conversa que ocorrera há uma semana não saia de minha cabeça. Eu fizera a ele perguntas que machucavam a ambos, mas ao final conseguimos sair ilesos. Cal fazia eu me sentir bem, eu gostava do seu jeito de ser. Porém, eu precisava ficar atenta e tomar cuidado, pois muitos anos sem uma amizade a não ser a de Adam estava me deixando desarmada. Perguntei-me: por que raios eu o havia beijado no rosto, sendo que eu detestava contato físico íntimo com qualquer pessoa? Talvez, tenha sido porque há anos eu não me sentia... ouvida.

Olhei para ele, que se empenhava carregando um feixe de trigo, e ele retribuiu meu olhar com um sorriso. Ele era mesmo bonito e corei quando percebi que estava prestando atenção demais em seus músculos, quase como se ele fosse um humano. Engoli em seco e voltei a trabalhar.

— Precisa de ajuda? — alguém me desviou de meus pensamentos e ao reconhecer a voz fiquei indiferente. Empertiguei-me ríspida, na intenção de conter qualquer aproximação mais intensa.

— Oi, Aaron.

— Oi, Sam.

— Eu preferiria que você me chamasse de Samantha, por favor.

— Mas todo mundo chama você assim — ele estranhou.

— Todo mundo que eu permito — respondi me afastando. Peguei minhas ferramentas e sai da plantação antes que Jeb me visse.

— Cal te chama assim — ele alfinetou me fazendo estancar no corredor.

— E o que você tem a ver com isso, Aaron?

— Nada, Samantha — ele disse meu nome pausadamente. — Só acho estranho — Aaron então baixou o olhar.

— Eu estou ocupada. O que você quer.

— Pedir desculpas por aquele dia. Eu realmente sinto muito.

Dei um suspiro e percebi que não havia motivos para ser dura.

— Tudo bem, foi apenas um mal entendido — eu falei com o semblante um pouco mais leve.

— Então estamos bem? — ele perguntou. — Amigos?

— E nada mais — eu o olhei séria e apertamos as mãos. — Olha, Aaron, sei que você deve querer seguir em frente mesmo com todos os nossos problemas, mas isso não vai acontecer. Não comigo — suavizei as palavras e sorri para não soar tão dura. — Por favor.

— Por quê? — ele questionou.

— Porque algumas coisas me impedem de ter esse tipo de sentimento — fui sincera. — Não sinto nada por você e provavelmente nunca sentirei nada por ninguém. Desculpe — disse carinhosamente e o deixei, indo em direção ao meu quarto.

.

— Fugindo do trabalho? — Adam brincou quando entrei. Só então lembrei que ainda estava com as ferramentas em mãos.

— Não. Estou fugindo de um certo embaraço.

— Aaron? — Adam curvou as sobrancelhas e ri por causa de sua esperteza.

— É. Como você adivinhou?

— Não gosto da maneira como ele olha para você — respondeu. — Mas não se preocupe — ele estufou o peito. — Agora tenho uma oportunidade de te proteger.

— Tudo bem, senhor protetor de donzelas indefesas. Fique de olho em mim por mim.

Nós caímos juntos na gargalhada, o som das risadas vibrando na parede de pedra. Sempre que eu estava com Adam me sentia mais leve e sua companhia havia sido meu único suporte durante anos. Não havia um único dia que eu não lamentava pelo seu futuro perdido. Nós ainda conversamos por vários minutos antes de alguém nos interromper. Afastei a cortina que usávamos como porta e encontrei Cal me fitando desconcertado.

— Oi, Cal, tchau, Sam — Adam passou por nós, despreocupado e com um livro embaixo do braço. Ia em direção ao quarto de Jamie, provavelmente atrás do amigo para dividir a leitura. Era bom para ele ter um amigo.

— Você quer alguma coisa? — perguntei.

— Eu vim a mando de Jeb para buscar as ferramentas — Cal respondeu.

— Não acredito que ele me viu saindo. Aquele velho se faz de maluco, mas na verdade é bem inteligente — ri enquanto ria estendia as ferramentas para ele.

— Não foi só isso — Cal parecia envergonhado. — Queria saber se estava tudo bem...

— Está — respondi sabendo que ele perguntava por Aaron. — Obrigada, mas não precisa se preocupar — eu sorri e ele retribuiu. — Venha, vamos voltar para a plantação antes que Jeb nos atormente — disse e ele me seguiu.

Ainda havia muito trabalho a fazer e como a colheita tomou basicamente toda a nossa força não trocamos mais nenhuma palavra até o pôr do sol. O serviço só acabou quando a luz já estava minguando, lentamente nos despedindo de mais um dia de trabalho árduo e rotineiro. Depois de nos lavarmos, quase todos os membros da célula apinharam a cozinha com sua fome e suas vozes, mas o cansaço de todos era tão intenso que em pouco tempo ela já estava praticamente vazia. Ficaram apenas os membros interessados em incursionar.

— Então — Jeb tomou a palavra como o líder que era — a única coisa nova que temos é o trigo. Os itens básicos de higiene não durarão mais do que alguns dias e o restante da comida está no fim. Precisamos de uma incursão rápida. Estamos sem reabastecer a tempo demais.

— Jeb, como faremos? Não podemos ir muito próximo. Não depois do que aconteceu — Jared interveio. — Antes de Peg vivíamos sem incursionar tanto, podemos viver agora também.

— Viver não, Jared. Sobreviver é a palavra correta. Há muita gente aqui que precisa não só de alimento, mas de remédios e outras coisas que os façam se sentir humanos. Precisamos disso. Além do mais, já passaram vários meses desde o incidente entre vocês e os buscadores.

— Ainda temos medo, Jeb — Ian se manifestou, olhando para Peg com ternura. — Não sei como fazer.

— Não podemos nos esconder como ratos aqui para sempre, filho — Nate disse. — Além disso, podemos contar também com Cal além de Peg. Vocês só precisam ser mais cuidadosos e parar de abusar da sorte como fizeram da última vez.

— O que me dizem? — Jeb perguntou só para dar a falsa ilusão de escolha.

Todos concordaram e começaram o planejamento mais detalhado, pois dessa vez haveria mais bocas para alimentar. Peg e Cal estariam em grupos separados, assim poderiam recolher mais alimentos em menos tempo. Senti que aí estava a minha oportunidade de sair, pois as paredes escuras e a falta de sol e de céu já estava me enlouquecendo.

— Jeb — pedi a palavra e ele fez com que os outros se calassem. — Eu gostaria ir junto com eles.

— Por quê? Não é necessário.

— Para manter a sanidade — respondi e ele quase riu. Quase.

— Você acha seguro sair? — Nate tomou a palavra e contestou.

— Eu sobrevivi com Adam por anos e nunca deixei faltar nada a ele. Sou cuidadosa.

— Deixe-me pensar — Jeb disse, ainda contrariado, mas isso era melhor do que um não definitivo. — Devem ir amanhã ao fim da tarde, assim poderão viajar à noite. Tirem o dia de folga amanhã e se preparem. Boa noite a todos.

Dito isso todos se foram lentamente. Kyle, Jeb, Nate e Brandt foram à frente conversando sobre coisas as quais não pude ouvir e o restante tomou o rumo de seus quartos. Apenas eu e Cal ficamos na cozinha.

— Você sabe o perigo que irá correr lá fora? — Cal questionou. — Se capturarem você...

— Não vão me capturar. Ninguém vai correr risco por minha causa.

— Mas estou preocupado com você, Sam — ele pausou e ficou pensativo. — Que estranho.

— O que é estranho, Cal?

— Antes, em outro planeta, em faria o possível para ajudar as almas a capturarem novos hospedeiros. Agora essa ideia me repugna.

— Talvez porque antes você pensava como alma. Agora você pensa como um humano. Acho que finalmente começo a acreditar que vocês realmente estão do nosso lado — disse a ele. — Você é um de nós.

— Obrigado — ele sorriu e se aproximou mais de mim me pegando desprevenida. Ele todo exalava masculinidade e ternura, uma mistura paradoxal e envolvente. Seus olhos azuis estavam mais intensos à meia luz e brilhavam intensamente lançando reflexos dançantes. Ele pegou levemente a minha mão e senti um calafrio estranho ao seu toque, como um choque entre o fogo e a água. — Eu não queria que você saísse daqui, Sam, o mundo lá fora é perigoso. Se você for pega, não será mais você e isso jamais seria a mesma coisa.

— Eu sei — respondi entristecida. Cal não queria que eu passasse pelo mesmo que Melanie passou, mas ele nem poderia imaginar o que eu já havia passado nas mãos das almas. Lembranças dolorosas fizeram lágrimas aflorarem em meus olhos.

— O que foi? Disse algo de errado? — ele indagou preocupado. Sua mão ainda estava na minha e com a outra livre ele secou uma lágrima que caiu. Sua pele ardeu contra minha, lançando uma sensação diferente que eu jamais havia sentido.

— Não, Cal, são apenas lembranças ruins. Mas obrigada por tudo — disse soltando sua mão e me desvencilhando do seu toque. — Você é um ótimo amigo. Boa noite — falei apressada e saí em direção ao dormitório sem dizer mais nenhuma palavra. Se ele retribuiu ou não, não fiquei sabendo, pois não olhei para trás.

Eu nunca havia ficado tão vulnerável na frente de ninguém. Sempre que eu estava na presença dos outros fazia o possível para transparecer coragem e determinação. Nem Adam conseguia fazer eu libertar todos os meus sentimentos. Pelo meu irmão eu aprendera a engolir o choro, a ser forte e a sempre sustentá-lo em qualquer circunstância. Eu vestia a máscara de inabalável e ela nunca havia falhando em cumprir seu papel. Nunca havia falhado.

Até agora.

Por algum motivo, aquela alma chamada Cal trazia a tona todo o restante do iceberg escondido sob a superfície. E eu não sabia definir o que era, apenas que era bom.

.

Adam já dormia profundamente quanto entrei em nosso quarto. Ele estava encolhido, mal cabendo no colchão fino. Tão grande... minha única família. Um dia ele fora pequeno o suficiente para caber em meu colo e agora já quase um homem feito.

Eu cumpri minha promessa pai. Eu prometi a você e a mamãe que ia protegê-lo como se ele tivesse meu sangue. Vocês iam adorar saber que mesmo com tantas adversidades ele está se transformando num homem bom. Em breve fará dezessete anos, tem até barba... Está bonito. Pena que aqui não tem ninguém da idade dele, só a Peg, mas ela está com o Ian e é o corpo da Grace. É... eu sei que isso parece esquisito, mas nós conseguimos superar. E também tem outras almas morando aqui conosco. Acho que vocês iam gostar bastante delas. Quem diria, não é? Uma maluquice dessas... — rezei baixinho. — Meu Deus, acho que vou enlouquecer — disse alto.

Apertei bem os olhos para evitar que novas lágrimas caíssem. Quando os reabri, respirei fundo e fitei Adam mais uma vez. Beijei carinhosamente a sua testa e arrumei o cobertor sobre seu corpo. Cavernas são estranhas — pensei. — Durante o dia são quentes e a noite são tão frias.

Frias assim como eu.

Sim, eu sabia ser fria, pois foi assim que sobrevivi durante anos. E com o tempo, pensei que todos os sentimentos haviam morrido dentro de mim. Eu me sentia tão árida quando o deserto em que agora residia.

Eu nunca olhei para ninguém com a mesma devoção que Peg olha para Ian e ninguém jamais foi intenso comigo da mesma forma que Jared é com Mel. Eu sequer imaginei sorrir para alguém da maneira que meus pais sorriam um para o outro, de mãos dadas. Mesmo os momentos de entrega mais intensos não haviam deixado marcas tão profundas em mim, não traziam aquela sensação de borboletas no estômago. A mesma sensação de borboletas no estômago que eu senti quando...

Quando Cal me tocou.

E isso era apavorante.

Notas finais
Esse é o último capítulo calmo, pois nem só de alegrias vive o povo das cavernas kkk. Enfim, sério mesmo, gostaria muito de saber a opinião de quem favoritou a fic e conhecer quem a acompanha, pois há muita gente no gerenciamento, no entanto ninguém está aparecendo. Saber o que vcs estão pensando me ajudará muito, pois essa fic não é só minha, é de vcs também kkkkk. Obrigada e beijos