Notas iniciais
Bom, pessoal, esse é penúltimo capítulo da fic e semana que vem ela irá acabar. Estou sentindo aquele aperto no peito pelo fim e agradeço a todos os que deixaram reviews no último capítulo, obrigada por me ajudarem a ir até o fim! Boa leitura!

Samantha

Eu nunca havia tido um lado místico e nem acreditei muito em todas aquelas bobagens sobre destinos e linhas da vida, mas confesso que agora era difícil não acreditar em nada que antes não parecesse real. Antes, falar sobre o fim do mundo, alienígenas e extinção da raça humana era algo que fazíamos nas rodas de amigos, após sair de uma sessão de cinema a qual o filme principal era uma ficção científica. Agora, esse assunto era tão real e banal que era como falar sobre um fato comum.

O dia está quente. Os aliens vieram. O mundo acabou...

Além de modificar bastante o meu ponto de vista em relação à vida, ao outro e ao diferente, essa situação toda também me fez aprender uma coisa: jamais devemos prometer algo, por mais fácil e menor que seja, pois o destino gosta muito de nos fazer quebrar a cara e realiza exatamente o contrário daquilo que pedimos ou prometemos. E ele faz isso não porque somos fracos ou incapazes de uma escolha, mas porque ele sabe exatamente qual caminho devemos tomar para sermos felizes.

Eu um dia odiei as almas. Odiei ao ponto de ter feito muitas coisas erradas. Odiei ao ponto de ver prata e sangue se misturando com prazer, mesmo que depois a imagem disso me consumisse e me fizesse ter vontade de morrer. E odiava a mim mesma por não ter nascido em outra época e poder ter tido uma vida normal, odiava a mim mesma por não ter percebido no início que algo estava errado e dado um jeito de alertar e salvar o mundo, e me odiava ainda mais por não ter coragem de fazer algo ruim o bastante para as almas terem medo e resolverem voltar para seus outros mundos. E eu passei esses anos me martirizando e alimentando esse veneno que sem eu saber estava me matando aos poucos.

Então, um dia, eu prometi que se fosse possível eu faria as almas pagarem e sofrerem por tudo. E ao ver Ian e o seu amor por Peg, prometi que jamais seria idiota o bastante para me deixar enganar por essas criaturas. Prometi que me vingaria, prometi que jamais choraria... Todas promessas que só tinham como único objetivo me tornar alguém pior.

Lembrei então que há alguns longos meses – quando decidi partir com os humanos que havia encontrado e seguir para as cavernas – em nossa última noite na floresta sonhei com algo que me pareceu apenas mais uma das maluquices da mente humana. Havia uma imensidão vermelha em fogo e brasa, que me envolvia e me engolia deixando meu corpo todo febril e angustiado. Logo depois, todas as imagens se confundiam em minha mente se transformando em um par de olhos de alma, me fitando e lendo meu interior através dos meus olhos humanos. Havia flores. Flores pegando fogo.

Bom, quando aconteceu, isso não me impressionou.

Mas agora eu sabia exatamente o que isso tudo queria dizer.

De algum modo eu estava predestinada a conhecer Cal e esse era o aviso de que nossos destinos se cruzariam. Afinal, de todos os planetas ele veio parar logo nesse, e uma força maior me impulsionou até aquele deserto para que tudo isso pudesse se concretizar. E agora, depois de muita angústia, sofrimento e perdão, estávamos voltando para casa.

Voltando para o lar.

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— Vocês precisam mesmo ir agora? — Lenny perguntou enquanto eu a abraçava. — Faz muito tempo que não tem gente interessante por aqui — ela se queixou e eu ri.

— Já estamos longe de casa há quase três semanas — respondi. — Já passou da hora de ir, todos devem estar preocupados.

— Eu vou sentir sua falta, Sam.

— Eu também — proferi tentando conter as lágrimas. De algum modo a garota havia se afeiçoado muito a mim, e como ela irradiava pureza e inocência meu instinto de irmã mais velha e protetora fez com que eu me afeiçoasse a ela também.

— Foi ótimo mesmo conhecer você, senhorita — Russel, que havia voltado com os outros de uma incursão, disse todo galante. Ele era um homenzinho encantador e mesmo com seus quase sessenta anos irradiava charme. Parecia que nada no mundo poderia fazê-lo parar de sorrir.

— Nós voltaremos, amigo — Nate apertou sua mão, mas acabou sendo puxado para um caloroso abraço. — Obrigado pela hospitalidade.

— Estamos prontos, tudo está arrumado — Cal se colocou ao meu lado e passou o braço ao redor da minha cintura. Era um gesto rotineiro agora, e não era segredo para ninguém ali que estávamos juntos.

— Se você não cuidar bem dela eu te mando de volta para o mundo do fogo! — Lenny empurrou Cal de brincadeira e me abraçou novamente. — Ainda bem que foi você, eu sempre temi que Alice um dia pudesse conquistá-lo — ela sussurrou no meu ouvido e lembrei que nos últimos dias Alice, a garota que estava comigo quando acordei e havia chamado Cal de coisa, se comportava de modo insuportável. Lenny havia me explicado em sua linguagem adolescente que Alice sempre havia dado “mole” para Cal, mas que ele nunca tinha dado “bola” para ela e por isso ela estava com “dor de cotovelo”. Lenny era mesmo uma figura.

— Eu venho fazer uma visita e te buscar — prometi a garota. — Você vai gostar de conhecer a minha família — eu disse e Nate riu com o fato de eu assumir que agora tinha uma família.

— Vou esperar — Lenny respondeu e eu abracei algumas outras pessoas que havia conhecido. George, Cora, Amy, Brad... Outros que assim como eu ainda lutavam pela vida. Outros que assim como eu buscavam o perdão a cada dia.

Entramos no carro e seguimos viagem, Cal sem deixar Nate dirigir mesmo que ele insistisse em dizer que estava tão bem quanto um garoto. Eu estava ansiosa para ver os outros, ver seus rostos ao saber que Nate e tudo estavam salvos, ver que dessa vez, embora tivéssemos passado perto da morte, tudo estava bem outra vez. Chances nos eram dadas todos os dias e se dependesse de mim todas elas seriam aproveitadas.

Eu queria abraçar Adam e bagunçar os cabelos de Jamie, queria trocar alguma piada de duplo sentido com Kyle e rir do embaraço de Sunny, queria ver a cara de Jeb quando entrássemos novamente em seu reino e o sorriso torto de Jared indicando que já sabia que tudo ia dar certo. Tudo seguiria como antes, mas agora eu teria para onde correr caso precisasse, teria braços para repousar no fim do dia. Não havia mais ódio em mim, apenas resignação, e essa sensação de liberdade me permitiria viver feliz o resto dos meus dias, mesmo que tivéssemos que correr perigo e sentir medo em algumas ocasiões. Era o que havia sobrado, então só nos restava a adaptação. Além do mais, por mais egoísta que isso pudesse parecer, se as almas nunca tivessem encontrado a terra eu jamais teria conhecido Cal. Perguntei-me se, caso fosse possível, eu deixaria de conhecê-lo em troca de milhões e milhões de vidas.

Nem precisei pensar.

A resposta era não.

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— Você está bem? — Cal perguntou a Nate quando já estávamos na metade do caminho. Sem querer correr riscos, não havíamos parado em nenhum lugar para descansar e por isso tínhamos dormido dentro do carro, em locais abandonados. Minhas costas já pediam clemência e Cal ficou com medo de Nate passar mal, não sabíamos se ele havia adquirido alguma sequela.

— Estou tão bem quanto vocês dois — ele respondeu. — Acham que só porque são jovens são mais espertos, não é? Mas aposto que se me deixarem na estrada eu acabo chegando primeiro do que vocês. Preocupe-se com a sua namorada, Cal, e me deixe em paz. — Nate deu uma risada alta e rouca que nos fez o acompanhar. Era estranho estarmos todos tão bem, como se a incursão que tínhamos feito outrora jamais tivesse sido interrompida bruscamente.

— E você, como está? — Cal dirigiu a pergunta a mim e fiquei pensativa. Já era possível ver os contornos do deserto e o cheiro de poeira que entrava pela janela do carro era confortador. Dentro de mim um turbilhão de coisas estava acontecendo ao mesmo tempo e eu nem sabia como expressar isso em palavras.

Pensei na nossa primeira noite de amor e em todas as outras que se sucederam. Lembrei de suas palavras ao me buscar quando eu me senti desesperada e com medo o suficiente para ir embora, e da sensação de alívio por não ter conseguido partir. Eu jamais me perdoaria se tivesse conseguido fazer essa burrada, Cal me aceitava como eu era e ele era a única coisa na terra capaz de me fazer feliz. Eu o amava mais que tudo.

— Melhor impossível — olhei para ele e ganhei como resposta seu sorriso mais apaixonante.

Eu queria muito estar logo em casa, segura em seus braços, e por isso fiquei contando cada pedra que passava, cada elevação que pudesse me parecer meramente familiar. Quando saímos da rodovia e seguimos pela estrada de terra foi como tirar um enorme peso de dentro dos pulmões e eu me permiti dar um suspiro de alívio. Ao chegarmos finalmente à caverna menor, escondemos o carro e nos apressamos para aproveitar o restante das últimas horas de sol.

— Estamos mesmo voltando, não estamos? — Nate perguntou e compartilhamos um sorriso.

— Estamos — respondi melancólica. — Estamos.

Cal apertou ainda mais a sua mão na minha, como se para ter certeza de que eu estava realmente ali. Dei-lhe um olhar garantindo que agora tudo ficaria bem e aspirei bem forte o cheiro do deserto. Não estava mais tão seco como antes, o ar parecia úmido, doce, quase palpável e a temperatura já estava um pouco mais amena. Algumas nuvens, ainda tímidas, anunciavam que o período de chuvas estava chegando outra vez e isso me pareceu um tanto simbólico.

Um novo ciclo se iniciava novamente.

— Queria pedir um favor a vocês dois — pedi antes de entramos em casa e tanto Nate quanto Cal me fitaram curiosos. — Não contem a Adam sobre o que aconteceu comigo, por favor. Está tudo tão bem que não gostaria de preocupá-lo com algo que já passou. E nem eu mesma quero relembrar aqueles momentos horríveis. Vocês podem fazer isso por mim?

— Ambos balançaram a cabeça e Nate afagou gentilmente o meu ombro. Ele entrou primeiro e eu e Cal ainda ficamos do lado de fora, apreciando um pouco as primeiras estrelas que surgiam acanhadas por entre as nuvens. Cal então se aproximou de mim e me deu um beijo suave, seus lábios quentes me fazendo ter certeza de que não era uma ilusão.

— Pronta para entrar? — ele perguntou e eu me aconcheguei à curva do seu pescoço.

— Se você for comigo eu vou a qualquer lugar — respondi e ele sorriu em meu pescoço. — Ela te conheceu por apenas cinco segundos e isso foi suficiente para também se apaixonar por você — eu disse e ele se afastou, franzindo as sobrancelhas.

— Ela quem?

— Luz. Antes de ser retirada ela acordou. Quer dizer, eu a despertei.

— Por que você não me contou nada? — Cal questionou aflito. — Como assim você a despertou?

— Shh, fique calmo — coloquei meu dedo em seus lábios e o fiz se calar. — Eu queria que ela visse o que tinha acontecido na minha vida, e que visse você através dos meus olhos. Achei que com isso ela se redimiria, mas não foi o que aconteceu. Ao ver tudo o que eu havia conquistado ela quis tomar novamente tudo o que eu tinha. Inclusive você — contei e ele me apertou para mais perto de si.

— Eu jamais ia querer outra pessoa além de você — ele falou e sua mão foi acariciando gentilmente meu pescoço até se colocar firmemente atrás da minha nuca. — Eu disse que seria para sempre seu e isso é mais do que apenas meras palavras, é uma promessa. Eu, a alma Flores Vivas Calcinadas — ele disse seu nome verdadeiro e rimos juntos, pois ele sabia que eu o achava muito engraçado —, amo você, humana Samantha Collins. Para sempre. Ou até quando você cansar de mim.

— Idiota — eu gargalhei e dei um tapa de leve em seu braço. Nós ficamos com as testas coladas e senti como se mais nada no mundo pudesse nos fazer mal. — Eu também amo você, Cal. E não vou cansar de você nunca.

Mal terminei de proferir essas palavras e ele infiltrou sua mão em meus cabelos, me deixando presa a seu corpo da maneira que ele sabia que eu gostava. Éramos um só agora e nossos corpos se pertenciam da melhor maneira possível, da maneira humana. Cada toque seu era capaz de me tirar o fôlego e me deixar sem pensar, por isso, quando as chamas começaram a arder demais eu interrompi.

— Melhor irmos logo antes que mandem alguém atrás de nós. E... bom, isso seria um pouco constrangedor.

— Tudo bem, agora teremos tempo — ele disse de maneira maliciosa e balancei a cabeça, divertida.

Eu sabia que a vida não seria fácil nem maravilhosa, afinal, morávamos em uma caverna sem estrutura e corríamos risco de morte a todo instante. Porém, isso não significava que eu deveria desistir, viver somente na defensiva e sempre odiando tudo e todos. Tínhamos pouco, mas era o suficiente para continuarmos, o suficiente para sermos felizes.

Só era necessário querer.

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Eu e Cal seguimos pelos corredores de mãos dadas e antes de chegarmos à cozinha já foi possível ouvir a comoção que a chegada de Nate gerara. Todos o rodeavam, o abraçavam, e eu sabia que isso era um misto de alegria por verem o amigo vivo com alívio por sua mente ainda lhe pertencer, guardando todos os nossos segredos. Havíamos sofrido, mas éramos resilientes, mantínhamos a fé e a esperança não importando o que acontecesse, por isso tive a certeza de que em pouco tempo as feridas adquiridas sarariam novamente.

Antes que eu pudesse me soltar de Cal, um furacão loiro veio em minha direção e me abraçou tão forte que eu fiquei sufocada, no entanto não reclamei do aperto. Aspirei o cheiro de shampoo e terra que emanava de Adam e me senti completa, me senti em casa.

— Sam, nem acredito que vocês estão bem! — ele exclamou no meu ouvido e eu o abracei forte também, aproveitando o amor fraternal. Ficamos ali bastante tempo e ficaríamos muito mais se o ar já não estivesse começando a me faltar.

— Está bom, agora me deixe respirar — reclamei e ele riu. — Eu disse que tudo ia dar certo, não disse? — passei a mão em seu rosto que há muito abandonara a infância e ele respirou fundo.

— Você conseguiu trazer Nate de volta, conseguiu nos manter seguros. Acho que agora começo a acreditar que você é capaz de fazer qualquer coisa, Sam.

— Na verdade nós conseguimos. Eu não estava sozinha — entrelacei a minha mão na de Cal e Adam sorriu cheio de cumplicidade. Não era preciso explicar nada a ele.

— Contem como foi. O que aconteceu? — Jamie, sempre curioso, foi o primeiro a perguntar depois de me dar um abraço. Dei um beijo em sua bochecha e ele ficou vermelho.

— Calma, deixe-os descansar primeiro — Jeb interferiu e eu fiquei grata. Realmente estávamos cansados e precisávamos muito dormir e comer antes de responder a todas as perguntas que eu sabia que viriam. — Amanhã cedo nós ficaremos sabendo o que houve — Jeb continuou e gostei dele ter se incluído entre os curiosos.

Nate ainda ficou abraçando algumas pessoas enquanto eu, Cal e Adam seguimos pelos corredores escuros até nossos quartos. Outros vinham atrás de nós para também se recolherem, dizendo como era incrível poder ver Nate após pensarem que ele estava morto, e demonstrando alívio e gratidão por termos tido coragem de “roubá-lo” das almas. Antes de entrar no meu dormitório, me despedi de Cal com um abraço e ele me deu um beijo demorado na boca, o que fez algumas pessoas cochicharem. Kyle, que era o mais indiscreto de todos, acabou falando “eu sabia” alto demais, e com isso não conseguimos evitar rir.

Então, finalmente tive a certeza de que havíamos voltado.

Tudo estava igual a antes, mas eu estava diferente.

E a minha nova vida estava apenas começando naquele momento.

Notas finais
Finalmente eles voltaram pra casa, já era hora haha. Ah, uma pergunta: vocês gostariam que a história tivesse continuidade com numa nova fic, contada pelo ponto de vista do Adam e do Jamie? Deixem suas opiniões! Enfim, obrigada a todos que leram e gostaria de apelar aos leitores fantasmas que apareçam ao menos agora no final, gostaria de conhecê-los. Bjos a todos e até o fim...