Mais que o Tempo
8 Oito
Notas iniciais
Júlio sentiu uma eletricidade que foi direto ao coração. No entanto, sabia que o rapaz em seus braços delirava. Chamava-o de Luccino. Ele só se deu conta do que havia acontecido quando se deparou com Ricardo ao seu lado. Até então, o tempo tinha lhe pregado uma peça, pois tudo, desde a procura por Délia até a visão de um desconhecido quase desmaiado numa ruína, pareceu ter acontecido num milésimo de segundo.
“Que diabos você está fazendo?” Ricardo esbravejou.
“Ele me beijou do nada, está ardendo em febre. Vamos levá-lo pra casa de Délia. Rápido!”
“O quê? Mas nem sabemos quem ele é, Júlio! Que ideia!”
“Não vou discutir com você no meio de uma chuva! Vamos!”
Júlio entrou no carro depressa. Pediu para que sua filha, Bel, fosse para o banco ao lado do motorista. Ele posicionou Pietro no banco de trás e ficou ao seu lado enquanto Ricardo dirigia a caminhonete. Acomodado o rapaz febril, Júlio e Ricardo arrastaram a moto até traseira do carro e seguiram a viagem.
A chuva não dava sinais de trégua.
“Luccino... Luccino...” Pietro continuava a delirar, os dentes batendo de frio. Júlio pegou um lençol quente em sua mala e cobriu Pietro.
“Quem é esse, papai? Um assaltante?” Bel, a filha de Júlio, perguntou. Era uma menina curiosa, negra e na faixa dos nove anos.
Júlio riu.
“Não, não é um assaltante, Bel. É um homem que estava desmaiado aqui perto. Vamos levá-lo junto conosco.”
“Quem sabe se é um assaltante, filha? Seu pai abriga os outros sem se dar conta do perigo” Ricardo falou, contrariando o marido.
“Ricardo” Júlio interrompeu, sem paciência “Agora não”.
“Agora sim. Que merda foi aquela? Você tava beijando outro cara?”
“Ricardo, você falou palavrão na frente da Bel, pelo amor de Deus.”
“Você beijou ele, pai?” Ela retrucou. O marido olhou-o, questionador.
“Eu já disse, Ricardo, esse homem está delirando. Menos, bem menos.”
Ricardo bufou. Júlio sacudiu negativamente a cabeça, impressionado com a capacidade do marido de ser insuportável quando queria. Na verdade, de uns anos para cá, ele se provava um intragável. Primeiro, porque se considerava um ótimo advogado e fazia pouco da profissão de Júlio: escritor. Quando se conheceram, Júlio começava as primeiras linhas de O Pacifista, seu maior sucesso. Até então, se concentrava em romances policiais de publicação independente. Mas O Pacifista, a história de dois soldados gays lutando juntos na guerra, rendeu-lhe bons comentários no cenário cultural.
Ricardo lidava com os livros como um passatempo. Nunca incentivava o sucesso do marido e achava a mais pura bobagem. O pior: queria sufocar em Bel, em verdade sobrinha de Júlio que este adotara com a ocasião da morte da irmã, toda e qualquer vocação “artística”. Este era o objeto de maior conflito entre os dois, apesar de amarem a menina cada um a seu modo, e, algum dia, terem se amado mutuamente.
“Tem certeza que a Cordélia vai aceitar um estranho na sua casa?”
“Ela costuma ser mais generosa do que você é. A não ser que tenha mudado tanto de ontem pra hoje, quando a liguei para avisar que estávamos chegando. Do mesmo jeito que você mudou.”
Ricardo nada disse. Júlio encarou-o pelo retrovisor, mas seu reflexo o enojava, por hora. O desconhecido tombou para seu colo. Começava a secar, mas alguns pontos do corpo continuavam encharcados. Pegou outra toalha e secou o que podia: não queria que o estranho pegasse pneumonia por sua causa. Eis sua surpresa quando Pietro, que continuava a delirar com o nome de Luccino, agarrou os quadris de Júlio, no abraço mais constrangedor da vida daquele escritor. Ricardo notou a movimentação pelo retrovisor, enciumado.
“Era só o que faltava, o bêbado é carente”.
“Gostei do bigode dele” Comentou Bel.
E só para provocar o marido, Júlio respondeu:
“Também gostei.”
x-x-x
Ironicamente, a chuva parou assim que chegaram à casa de Délia. Vitor e ela vieram recebê-los, mas Ricardo apenas acenou de maneira brusca e disse que levaria o carro para uma oficina depois da “sujeira que o assaltante fez”.
“Assaltante?” Délia assustou-se.
“Ricardo é exagerado, além de desagradável. Foi alguém que encontramos desacordado na estrada. Se você puder abrigá-lo também, eu agradeceria. Não podia deixá-lo pegando esse temporal. Venha, olhe, está aqui dentro.”
Délia quase pulou quando viu que era Pietro.
“Meu Deus! Pietro! Quase morro de preocupação, ainda bem que o acharam! Estávamos na moto pela manhã, fomos até o galpão da estrada velha e ele resolveu ficar. Nós viemos embora e então a chuva caiu. Estava aflita pensando que tinha se machucado ou se perdido!”
“Você o conhece?”
“Sim, é nosso amigo, o Pietro!”
Vitor carregou Pietro até seu quarto. Júlio se surpreendeu ao ver seu livro na cabeceira do desconhecido.
“Olha o que temos aqui. O Pacifista.”
“Sim, dei pra ele ler enquanto se recuperava de um desmaio. Mas esse exemplar é meu. Meu Deus, vou obrigar esse garoto a fazer exames quando acordar! Ele está ardendo em febre...”
“E delirando.”
Délia notou que ele continuava a repetir o nome de Luccino.
“Vou buscar os remédios”
“Obrigada, querido. Bom, foram bem de viagem, Júlio?”
“Sim, a viagem foi ótima. Desculpe trazer o Ricardo.”
“Que nada. Bel! Você está tão linda! Quando Vini chegar da escola, vai ficar feliz em te ver.”
“Ela só falava nele a viagem toda. Nele e em andar de moto.”
“Oh, tia Délia! Eu quero ao menos ficar em cima da sua moto!”
Délia riu.
“Minha pequena transgressora. É quase a minha filha.”
“Se o Ricardo deixar. Não era pra ele ter vindo. Você é minha amiga, não dele. Além do mais, essa é uma viagem de trabalho. Vamos na livraria assim que este rapaz melhorar.”
“Ah! Obrigada pela parte que me toca, viu? Pensei que tivesse vindo porque estava com saudade de mim!”
“Quê isso! Eu te amo, você sabe” Júlio beijou a amiga na bochecha. “Mas tem um certo magnetismo nessa história que você me contou também. Imperdível.”
“Luccino e Otávio, o amor proibido e gay do século XIX, Vale do Café. Prato cheio pro meu escritor favorito.”
Júlio assentiu, feliz. Délia era boa em levantar seu astral.
“E você, Pietro?” Ele olhou para o homem que delirava “Quem é você, hein?”
x-x-x
Ricardo procurava de uma boa oficina para lavar o seu carro da imundície em que ficara depois do resgate na chuva. Ah, delirando! Alguém que delirava ia beijar um cara comprometido! Ah, ia sim! Júlio falava que ele havia mudado, mas Ricardo acreditava no oposto: era Júlio que tinha se entregado a essa fantasia de viver de livros, um sonho infantil, e desde então andava com a cabeça na lua. Será que Bel era a única razão para ele manter esse casamento?
Perdido em pensamentos, ele enfim encontrou uma oficina.
“Boa tarde. Queria lavar o meu carro.”
“Bom dia. Novo na cidade?” Caetano perguntou.
“Sim, sim. E já fui recebido com essa chuva infeliz.”
“Ah, aqui demora a chover, mas quando chove... Sai de perto!”
Caetano deu uma olhada rápida na caminhonete.
“É pra lavar a moto também?”
“Sim, lave também. Felizmente meu marido fez um bom estrago em tudo.”
“Marido?”
Caetano franziu o cenho, demorando a processar a informação. Ricardo o olhou com sua melhor expressão de por acaso isso é problema seu? Caetano apenas assentiu e obedeceu, afinal, era um cliente como qualquer outro.
“É, uma bela sujeira. E o que o seu... Marido... Fez?”
“Tinha um bêbado na estrada e ele trouxe. Um amigo de Délia, que é amiga dele, o senhor deve conhecer.”
“Délia e Vitor são nossos vizinhos, bons vizinhos. O senhor disse bêbado?”
“Sim, estava delirando na chuva.”
“Não é o Miguel?” Indagou o mecânico com alguma preocupação.
“Sei lá, esse tinha um bigode.”
“Ah. Só pode ser o meu... Filho...” Foi sua constatação seca.
“Vai lavar o carro ou não? Estou com pressa.”
“Sim, é pra já. Mas não sei se termino hoje.”
Caetano oscilara da sincera preocupação ao desprezo completo. Era de se imaginar que, para o filho, suas emoções se resumiriam ao rancor. Até um mero desconhecido lhe despertava mais empatia e disposição para conversar.
“É seu filho, então? Por que o deixa beber?”
“Desandou na vida depois que... Começou a vir com certos gostos...”
“Ah.”
“Ele é como o senhor, a respeito das opções.”
Ricardo entendeu.
“Não é bem uma opção, mas ok. Não foi uma questão pra mim, desde que eu vivesse fora desse mundo escandaloso. Não sei o senhor, mas acho que temos de nos dar o respeito. Assim todo mundo nos respeita. Não é?”
“É o que eu acho. Felizmente o senhor se dá o respeito. Também acho que não precisa ser tão... Isso... Assim...”
Ricardo assentiu. Júlio deveria escutar essas palavras uma vez na vida. Sentou-se na oficina para esperar o término da lavagem. Enquanto isso, ficava a se perguntar... Pietro, Pietro, quem é você?
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