Andava pela feirinha pensativa como sempre. Observava as barraquinhas a céu aberto que se espalhavam de forma mais ou menos ordenada, acumulando pessoas ao redor de si. Crianças passavam correndo pra lá e pra cá, brincando, e nem se importavam com os gritos esbravejados de suas mães, que tentavam conter a euforia dos pequenos. Ali, os mais variados produtos eram vendidos: frutas, legumes, alguns grãos, além da típica barraquinha de pastel e das banquinhas de jornais e revistas, que também vendiam livros e que atraíam a atenção de Sofia mais do que qualquer outra coisa no local.

Procurava caminhar pelo ambiente da forma mais discreta possível. Já tentara fugir uma vez, mas sabia que estava sujeita a olhares dos capangas espiões que se camuflavam no meio da pequena multidão, atentos a qualquer movimento que despertasse desconfiança.

Dessa vez dará certo – pensava, agarrando entre os nós dos dedos um pouco de dinheiro que juntara nas últimas semanas. Chegou perto de umas das bancas, onde se encontravam vários livros; tomou um em suas mãos e, como de costume, começou a ler a contracapa. Não estava lendo de fato, pois seus pensamentos vagueavam nas lembranças da vida que possuía poucos meses antes de estar ali, naquela cidadezinha tão diferente e tão pequena da qual vivia antes. Estava acostumada com a vida movimentada da metrópole e da correria que sempre fazia indo de casa para o teatro. Como amava o teatro... Os ensaios faziam parte da rotina e, mesmo que exaustivos, ainda traziam a maior satisfação, só superada pela energia passada pelo público enquanto se apresentava. Mas eu preciso sair daqui. Seus pensamentos misturavam-se com a angústia. Dessa vez dará certo.

Colocando o livro no mesmo lugar, virou-se e viu sentada em um banco uma menina que a observava com inocente curiosidade. O olhar era puro e doce e, de certo modo, convidativo também. Decidiu aproximar-se, e quando estava a poucos passos do banco, percebeu que um dos capangas mudara sua posição, se encontrando agora mais perto de Sofia. Não se atreveu a olhar para sua direção, mas pôde sentir a raiva do olhar espião sobre si. Mesmo assim, aproximou-se mais da criança e sentou-se junto a ela.

Sentiu-se muito satisfeita ao ver a pequena garota sorrindo alegremente enquanto balançava os pezinhos que mal alcançavam o chão. O gesto lhe fez sorrir também e, quando ia dizer alguma coisa, a garota se precipitou, e mais que depressa se pôs a conversar:

- Você gosta de ler? Também acho gostoso ficar olhando os livros na banca. – disse a garota num tom entusiasmado que Sofia não ouvia há muito tempo. Mal abriu a boca para responder e a coisinha pequena de olhos brilhantes já começava a falar novamente.

- Tenho um livro aqui. Ele é bonito, pequeno, fica sempre comigo. Gosto muito dele – dizia enquanto procurava o livro na bolsinha que se encontrava ao seu lado. – Achei! Achei! Olhe!

Sofia pegou o exemplar em suas mãos e demorou menos de um segundo para descobrir que livro era não precisando nem ler o título. Já estava muito familiarizada com aquela história que, por ironia do destino, lembrava em certas partes a sua vida real. Mantendo o olhar atento ao objeto em suas mãos, o qual folheava sem a mínima pressa e entusiasmo, fez a primeira pergunta à criança:

- Onde você conseguiu este livro? Acredito que ele não seja muito adequado para alguém da sua idade. Desconfio que mesmo se o lesse, não entenderia a narração que ele contém.

A menina baixou os olhos, envergonhada. Havia encontrado o livro na rua, porém não era disso que sentia culpa.

- Eu... Eu... Eu nunca pude lê-lo – ela soava triste. — Eu não sei ler, por isso sempre estive por aqui procurando alguém que o lesse para mim. Pode ficar com o livro. Não estou muito mais interessada. Deve ser chato, já que é para adultos – Ao dizer isso, cruzou os braços e ficou balançando os pés.

Realmente. As histórias de crianças são mais leves e belas do que as de adultos. Soam como brincadeiras e aventuras. Transportam-nos para um mundo de fantasia extremamente belo e reconfortante... Um mundo que não condizia com o que Sofia estava. Um mundo que ela almejava estar. Um mundo seu, sem capangas ao seu encalço vigiando cada ação do seu dia. Um mundo em que poderia ser livre para escolher ser quem quisesse ser. O retrato de Dorian Gray... Tantas vezes já lera aquele livro. Achava-o fantástico sem sombra de dúvidas. Admirava o autor, admirava a escrita e o fim trágico. Admirava a Londres vitoriana e tinha um pequeno encanto por Sibyl Vane... Que fim horrível tivera a atriz de teatro no livro. Que fim escuro terei eu agora...

- ...mas você pode me contar, se quiser.

Sofia olhou para a criança que ainda permanecia ao seu lado no banco, que por alguns segundos havia desaparecido dando lugar aos seus devaneios.

- Não posso te contar sobre o que estava pensando.

A criança soltou um risinho: – Não era sobre isso que eu estava pedindo pra me contar. Era sobre o livro. Não deve ser tão mau eu saber a história dele.

Não é mesmo de todo o mau, mas eu preciso sair daqui. Estou esquecendo completamente quais eram meus planos. Não posso perder mais tempo, por mais que eu queira ficar aqui conversando com esta criança; a única pessoa que se interessou em me fazer companhia. Eu preciso ir.

- Me conta? – a menina esperava uma resposta e Sofia começou a falar ao mesmo tempo em que se levantava e caminhava para longe da praça em que se encontravam.

- Dorian Gray era um ingênuo que conheceu as malícias da vida e ficou fora de si –Sofia recitava as palavras em meio aos passos acelerados. A pequena a acompanhava desviando das pessoas que se encontravam na praça. – Ele não envelhecia, ele não sentia dor, ele não tinha uma alma! – disse estas últimas palavras quase como um grito, enquanto virava-se de costas para encarar a face da garota, que ao perceber a expressão transtornada de Sofia, soltou um pequeno gemido de medo e parou pálida como uma escultura de gesso, enquanto observava a jovem desaparecer de vista contornando uma barraca.

Ele não tinha alma. Não tinha pena das pessoas. Fez mal a Sibyl Vane e a mim. Pegou-me no teatro. Eu era tão feliz... Pegou-me e me trouxe pra cá. Deixou-me aqui, num lugar onde não posso ser feliz, onde não posso pisar no palco, onde não posso ser quem eu gostaria de ser; uma personagem diferente a cada noite... Ele dizia que me amava, mas tudo o que ele queria era tirar de mim o meu dom mais precioso; a minha atuação. Ele mentiu e me trouxe pra cá. Falou que era para o meu bem, mas agora eu sei que não. Eu sei que estava tudo errado, e eu posso fugir. Agora vai dar certo.

Ela andava acelerando os passos cada vez mais; não chegava a correr para não chamar a atenção, mal percebendo que já fizera isso há muito tempo. Continuava recitando as palavras em pensamento e abraçava seu próprio corpo, enquanto olhava para trás procurando vestígio dos seus vigilantes. Estes não estavam à vista, o que lhe deu um alívio em meio à angustia e ansiedade que vivia. Aproveitando-se da distância em que se encontrava dos olhares públicos, começou a correr, ficando cada vez mais longe da feira e cada vez mais perdida nos becos. Nunca havia passado por ali antes. Suas tentativas anteriores de fuga a haviam ensinado a nunca seguir por caminhos fáceis. Dessa maneira, desbravava uma rota quase que sem rumo. Ao menos está dando certo. O pensamento a animava e em seu rosto começava a desabrochar um sorriso.

— Aaaah!

A dor foi tanta que a derrubou no chão. No primeiro momento, Sofia apenas se lamentou vendo que mais uma vez havia falhado. Já ia ficar ali, estirada de bruços, quando ouviu um segundo disparo. – Será que há alguém do meu lado? – a esperança retornou para si, fazendo-a virar-se para encarar o que estava acontecendo.

Viu apenas uma silhueta. Sua visão estava obscurecida e já não conseguia enxergar nada muito bem. Porém, em poucos segundos deduziu o que se passara. Seu lamento foi extremamente profundo e, pela primeira vez, não desejava correr, nem fugir, nem tentar retornar para a vida alegre que possuíra. Só queria continuar ali deitada e esperar pelo momento mais temido por todas as pessoas do mundo. Talvez a morte sempre fora a solução e ela nunca a havia considerado. Na verdade, isso lhe passou pelo pensamento, mas não queria entregar-se tão rapidamente. Tinha que tentar. Era a sua obrigação, mas agora não via nenhuma outra possibilidade de se ver livre daquele maníaco.

- Alguém achou que fugiria de mim e alguém, ainda mais idiota, achou que possuía o direito de lhe dar esse tiro na perna a fim de lhe parar. Pobre homem tolo! Quantas vezes avisei que não lhe fizessem mal mesmo em momento de fuga? A verdade é que animais nunca entendem ordens. Teve o que mereceu – a voz soava entediada, porém calma. – Quantas outras fugas frustradas você terá até perceber que não pertence mais ao seu mundo e que na verdade o seu mundo agora é meu? Não entendo porque alguém gosta de causar a si mesmo tanto sofrimento... – a figura se aproximava e seu sorriso debochado podia ser notado sem muito esforço agora. – Sibyl, voltemos para casa. Não me faça insistir muito.

A garota arrastou seu corpo pelo chão, conseguindo dessa maneira subir o meio fio da calçada e encostar-se a uma parede próxima. Mantendo seu corpo encolhido, abraçou os joelhos. O ferimento na perna era grande, mas não fatal. Doía e sangrava, formando assim uma pequena poça vermelha sobre o chão.

- Você não precisa ter medo, Sibyl. Sabe que a minha casa é o melhor para você e lá eu te mantenho segura.

- Eu não sou Sibyl, Dorian. Não sou quem você quer que eu seja e nunca serei. Pare de acreditar nisso! Pare de me prender como se eu tivesse culpa do que você causou anos atrás. Não posso substituir ninguém e não quero isso para a minha vida. Acreditei em você no começo, Dorian. Por favor, volte a ser como antes. Volte a ser aquele moço compreensivo que conheci e que me admirava enquanto eu atuava nos palcos. Não peço seu amor, pois essa seria a última coisa no mundo que despertaria meu desejo. Só quero uma chance para poder continuar minha vida como ela era antes de você aparecer.

A expressão de Dorian Gray se tornava mais intensa a cada palavra que Sofia dizia e o descontentamento deixava-o extremamente irritado, fazendo com que repetisse coisas para si mesmo enquanto andava de um lado para o outro, aparentando internalizar as próprias expressões. Enfim, parou, parecendo encontrar plena lucidez dentro si.

- Eu sei que você não é a Sibyl, acha que sou idiota? Sei que você não passa de uma atriz boba que me serviu de passatempo enquanto eu buscava conforto para a culpa que há dentro de mim desde que Sibyl morreu. Mas já faz tanto tempo... Faz muito tempo que conheci Sibyl e aquele ingrato do Wilde. Estive sempre ao lado dele enquanto ele vivia em Londres e até depois, quando se casou. Éramos amigos e companheiros. Dividíamos os prazeres da vida juntos – a voz era amargurada e causava certa pena. – Ah se ele soubesse quanta liberdade teríamos hoje em dia... Vivemos tudo intensamente, mesmo encobertos aos olhos do povo. Wilde foi capaz de desvendar meus segredos mais obscuros. Ele viu o fundo da minha alma. Pobre infeliz. Aquele livro foi o único romance que publicou, me expondo mesmo eu sendo contra... Sua ganância em publicar algo novo acabou com o que tínhamos. Não deveria ter ido tão longe... – agora seu olhar mudara totalmente, revelando a raiva que possuía dentro de si. – mas eu vi sua glória acabar. Fui testemunha dos julgamentos que ele passou. Ajudei a justiça a colocá-lo em seu lugar.

- E isso não te ajudou em nada.

- Realmente – disse Dorian se aproximando da moça sentada ao chão. – realmente isso não me ajudou em nada. Vivi feliz por um tempo, mas depois a felicidade foi se tornando solidão e amargura. Depois se tornou paranoia e eu simplesmente me deixei levar. Poderia ter morrido como no livro, no entanto era muito mais interessante viver e caçar atrizes e escritores por aí; para me satisfazer – agora o homem encontrava-se agachado à sua frente, olhando no fundo dos seus olhos. – Creio que mereça ter o fim que deseja, pequena Sibyl, mas temo que não poderei lhe deixar ir, uma vez que sabe de todos os meus segredos.

- E eu creio que você esteja muito enganado.

Dizendo isso, Sofia deu um empurrão em Dorian com força suficiente para lhe fazer cair de costas e bater a cabeça no meio fio. Enquanto isso se levantou o mais rápido possível. A perna latejava, o que dificultava ainda mais aquela que talvez fosse sua última tentativa de fuga. Mas terá que ser assim. Começou a correr desajeitadamente, olhando de esguelha para trás com a intensão de saber se Dorian levantaria para lhe conter ou não. Felizmente o rapaz encontrava-se ainda sem reação, estirado ao chão, o que deixou a fugitiva mais confiante. Mancando e procurando tirar a dor do seu pensamento, Sofia contornou uma esquina olhando pela última vez seu opressor estirado ao chão.

Ele não morreu, nem morrerá. Mas ao menos, estarei livre agora.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!