Mais forte que o tempo
1 Reflexo adverso
Saga abriu os olhos e viu a cascata dourada em sua frente. Estranhou um pouco, não era comum encontrar seu marido ainda ao seu lado ao despertar, o loiro sempre acordava primeiro, às vezes já se encontrava até de café tomado, quando ele finalmente abandonava a cama. Aproximou-se preguiçosamente entre os lençóis e abraçou-o por traz apenas para sentir seu calor e cheiro. Ele ainda cheirava a sexo. Lembrou da noite anterior e um arrepio percorreu sua espinha. O companheiro, sempre muito sério e cheio de pudores era muito fogoso na cama. Nem parecia o mesmo homem. "Nerd ninfomaníaco". Riu lembrando de como o outro ficava irritado de ser chamado assim por ele. Retirou algumas madeixas loiras da face alva, observou o rosto angelical e mergulhou na curvatura de seu pescoço, inalando mais uma vez. O mais novo se remexeu um pouco, balbuciando algo incompreensível antes de voltar ao sono, abraçando o travesseiro. Saga achou graça naquela manha sonolenta, afastando-se sem fazer movimentos bruscos, não queria forçar o outro a despertar. A preguiça excessiva era resultado da noite não dormida dos dois. Não que não transassem com frequência, mas haviam transado a noite inteira. Como hoje era domingo, decidiu deixá-lo dormir, seu companheiro ficava insuportável quando dormia mal.
Caminhou até o banheiro e lavou o rosto. Secando-se com a toalha felpuda viu sua imagem refletida no espelho. Saga estava com quarenta anos. Era um homem belo e viril. Seu rosto possuía traços firmes, nariz angulado, olhar penetrante, queixo marcado. A pele clara era bronzeada do sol que pegava sempre ao correr pela manhã sem camisa. Os músculos eram vistosos, o porte atlético, o abdômen marcado. Aproximou-se de seu reflexo, movendo o rosto de um lado para o outro, reparando as rugas próximas aos olhos. Moveu os lábios em um meio sorriso e depois levantou as sobrancelhas, apenas para observar outras marcas que se formavam a cada expressão: pequenos vincos na testa e marcas de riso. Passou a mão pelos fios escuros, colocando-os para traz, revelando alguns fios brancos que já nasciam desde os trinta e cinco. Estava envelhecendo. Sabia que permanecia um homem muitíssimo bonito, contudo estava bem mais velho que ele. Olhou para figura bonita em sua cama através do ângulo do espelho. Estavam juntos há dez anos e seu marido era oito anos e quatro meses mais novo. Contava os meses, pois estes faziam com que a diferença soasse como nove anos ao dizerem suas idades entre Junho e quase todo Setembro, como neste momento em que seu amado se encontrava ainda com trinta e um.
Todavia não aparentava. O rosto angélico e o porte esguio faziam com que parecesse ainda mais jovem. Aparentava vinte e cinco no máximo, com algum esforço e, ainda que Saga também parecesse mais novo do que sua documentação indicava, era visível que ele estava envelhecendo enquanto o homem em sua cama parecia um garoto. Aquilo estava afetando seu ego, não podia mais negar. Sentia-se inseguro, como se a qualquer momento o outro pudesse simplesmente dizer que cansara, que não queria um velhote, que ele não dava conta do recado... Ainda dava, não dava? Fazia questão de deixar o mais novo bem satisfeito, nem sequer parava com as provocações e carícias entre as relações enquanto ambos davam tempo aos seus corpos para recuperarem as ereções. O beijava, percorria todo corpo de seu marido com suas mãos grandes, mergulhando-o em um prazer contínuo e sem descanso até a exaustão. Ficava extasiado em ouvir seus gemidos aumentando de volume, cada vez mais despudorados, o escutando dizer seu nome repetidamente, como um mantra erótico de satisfação. Gostava de sentir que tinha controle sobre seu loiro, no sentido de o fazer cansar, de conseguir dar prazer ao jovem a ponto de que ele não pudesse se queixar ou pensar em trocá-lo, mas... Será que pensava? Olhou-se novamente no espelho: não o espantaria se pensasse. Vestiu-se e foi para cozinha preparar o café. Tal tarefa era geralmente executada pelo outro, pois sempre se erguia cedo. Gostava quando tinha a possibilidade de fazê-lo, como um mimo ao mais jovem, entretanto, não pensava nisso neste momento. A noite anterior deveria tê-lo posto nas nuvens e de ótimo humor, mas as constantes indagações mudas em sua cabeça o deixavam com uma névoa sobre si. Apenas conseguia se questionar sobre como seria nos próximos anos ou se seu companheiro poderia estar interessado em alguém mais jovem. Há cada dia seu marido conhecia novas pessoas, devido ao trabalho. Certamente homens interessantes cruzavam a porta de seu estabelecimento todos os dias.
O mais novo possuía um comércio próprio. Era dono de um sebo, que também era um antiquário, apesar do foco serem os livros. Reunia toda espécie de obra comum e rara e recebia uma ampla clientela todos os dias. Saga mesmo fora um, fora assim que se conheceram. O mais velho era colunista em um conceituado jornal grego, país em que residia e, acabou entrando no sebo do imigrante indiano por acaso, em busca de inspiração para sua escrita. Acabou encontrando o que viria a ser a maior inspiração de sua vida olhando de volta para ele de trás do balcão ao fim da loja, por cima dos óculos de aro tartaruga. Olhos de turquesa. Olhos de mediterrâneo. Todo o mar de toda a Grécia, de toda Europa, de todo o globo naquelas orbes que pareciam draga-lo. Um mar de ressaca, um convite ao afogamento. E Saga afogou-se. E jamais buscou a margem, queria afogar-se para sempre. Logo ele, sempre frívolo em seus relacionamentos. Um cidadão do mundo, um furacão que apenas passava e ia, deixando tudo de pernas para o ar, sem olhar para trás, nunca. Logo ele que não se prendia ou fixava, que nunca estabelecia ritos e que constantemente mudava de hábitos, que já havia morado em tantos lugares, namorado tanta gente, estava ali: com medo de perder seu amor, sua rotina, sua rigidez, seu homem. Que parecia um garoto...
Saga estava tão imerso em seus pensamentos que não percebera que deixara a omelete que preparava no fogo por tempo demais. Sequer sentiu o odor ou viu a fumaça abundante surgir à sua frente. Foi arrancado de seus devaneios somente pela voz firme do marido, que havia despertado com o cheiro de queimado.
— Lord Ganesha! Saga, apague este fogo!
O loiro aproximou-se rapidamente, com o lençol enrolado na cintura, empurrando o marido para o lado com os quadris, desligando o fogo e colocando a frigideira na água ao que Saga apenas observava, perdido.
— Are baba*, que houve com você, homem?
— Eu.... é... me distraí.
— Isso eu posso ver!
— Desculpe, Shaka!
O loiro abandonou a frigideira com o carvão grudento que há alguns minutos fora um projeto de omelete na pia e voltou-se ao marido, averiguando suas mãos para ver se havia se queimado.
— Você está bem?
Certificando-se de que Saga não se ferira, prosseguiu:
— Podia ter se machucado. Onde anda com a cabeça? Não pode simplesmente “se distrair” na cozinha. Podia ter se queimado ou, se estivesse cortando algo podia ter arrancado um pedaço de si. Você é bem grandinho pra saber disso! Já está velho pra cometer esse tipo de bobagem!
As últimas frases dispararam o gatilho do grego
— Desculpe, Shaka, já disse! Eu não preciso de sermão matinal de um moleque metido!
Shaka arregalou os olhos.
— Are, estou apenas zelando por você! Aliás, como sempre! Eu sou o mais novo, mas sou sempre eu a cuidar de você, que às vezes fica birrento e infantil desta maneira!
Se Shaka soubesse o peso do comparativo das idades não o teria feito pela segunda vez no mesmo minuto. É que isso não era importante para o indiano. Contudo, não era apenas para ele.
— As to thialo**, Shaka!! Se está cansado de brincar com o papai, a porta é logo ali! É só meter seu pezinho juvenil!
— Saga, eu apenas vim lhe acudir! Pare de criancice!
— Criancice? Olha bem pra mim? Veja se tenho cara de criança? Agora olhe para você — disse apontando para o homem à sua frente — VOCÊ parece uma criança! Parece ainda feder à leite!
— Quê?
— Você ouviu bem! Eu deveria ter vergonha de andar com garoto que mais parece um ninfeto ao meu lado!
A crítica era especificamente para si. Saga olhava para o corpo esbelto seminu e para as feições bonitas de seu companheiro — ainda que naquele momento estas começassem a aparentar surpresa e raiva — e ele parecia tão novo, tão delicado, tão melhor e mais vivo que ele. Saga pensava que deveria se envergonhar, parecia um aproveitador. Era muito velho. Ainda que tentasse se convencer de que de fato a diferença de idade não era tão grande assim, o espelho não ajudava, tampouco a expressão jovial de Shaka. Já este, que ignorava as verdadeiras razões do despropósito do outro julgava que o mais velho simplesmente vomitava a vergonha que sentia de andar com ele por o considerar muito novo para si e não o contrário.
— Ninfeto? Ora Saga, eu sou homem feito! — sua voz começava a se alterar — Eu venho e salvo você e sua casa de um incêndio e você me chama de ninfeto e me manda ao inferno? Pois eu tenho seis infernos para mandar você por este mau comportamento!
— Pois é exatamente isso! É o que você acabou de dizer! MINHA CASA! Eu posso incendiá-la! Eu posso me comportar mal ou bem ou o que EU quiser dentro do MEU lugar! Você é só um... Como mesmo vocês dizem na sua maldita terra?... Ah sim, um firanghi***! Um forasteiro intruso de merda! Resolveu empinar o rabo pra um nativo para conseguir sua cidadania, não é? Pois você já a tem! O que ainda faz com o velho aqui? Vai procurar um macho novinho pra te foder bastante!
Shaka não conseguia acreditar na sequência de ofensas e impropérios que acabara de escutar. Era certo que Saga possuía mudanças de humor repentinas, indo da euforia à melancolia ou da mansidão à raiva em intervalos muitíssimo curtos. O mais novo estava acostumado e era dotado de bastante jogo de cintura para adaptar-se ao mais velho com uma fluidez invejável, mas aquilo era demais. O indiano era um homem de brio excessivo e havia limites para pisar em seu orgulho, por mais que o fizesse pelo marido com alguma constância. O grego o havia xingado, ofendido, o acusado de dar o golpe da cidadania e o tratado feito um vagabundo sem nenhum motivo aparente. Ainda havia gritado com ele e, sinceramente, ninguém levantava a voz assim para si. Era o suficiente. Shaka teve ímpetos de gritar também, ofender também, esmiuçá-lo em seus defeitos apenas para degradá-lo como o verdadeiro PhD em críticas ofensivas que era, até mesmo de socar os traços másculos do marido, que tanto o agradavam, mas simplesmente virou-se, dando as costas ao "dono da casa", pisando duro até armário, depois até o banheiro, onde se trancou. Não gastou muito tempo, tomando o banho mais rápido de sua vida. Apanhou algumas coisas, colocou seu óculos de grau e saiu do quarto carregando uma mochila, rumando direto para porta. Saga, que estava na cozinha, tomando uma xicara de café puro, pois havia desistido de comer alguma coisa, ainda tentando reorganizar seus pensamentos e digerir seu próprio destempero, ao ouvir o barulho das chaves, apareceu à porta do cômodo, olhando o loiro com algum espanto.
— Onde vai?
— Para o sebo.
— É domingo.
— Tenho ciência disso.
— E essa mochila?
Shaka bufou, fechou os olhos e respirou uns segundos, tentando manter a calma. Ao abri-los respondeu de maneira serena, porém incisiva. Quase cínica:
— Pois não pretendo ser um estorvo na "sua" casa, — frisou a palavra — na qual na última década o ninfeto fedendo a leite aqui colaborou com as contas, com a troca da mobília, abasteceu a geladeira, limpou, organizou, lavou, cozinhou, mas que sim, está em seu nome. É sua. — atravessou o portal e completou antes de bater a porta — Tenha um bom dia!
E se foi.
Saga voltou para cozinha e se apoiou na pia. Respirou fundo umas três vezes antes de enfim espatifar a xícara, ainda com algum café, contra a parede. Olhou para o escorredor e atirou mais dois copos e um prato antes de finalmente pensar em se acalmar. Olhou para a bagunça e sentiu raiva de seu ataque intempestivo. Estava velho e idiota. "Podia ao menos tentar não ser idiota", pensou buscando a vassoura e a pá a fim de arrumar o próprio estrago. Enquanto embrulhava os cacos em jornal, perdido em seus pensamentos sufocantes, acabou por perfurar a palma de sua mão.
— Puta merda!
Uma quantidade generosa de sangue vertia do largo corte, entretanto convenceu-se de que não iria ao hospital. Já estava pela tampa de aborrecimentos. Gastou uma boa quantidade de tempo e ataduras tentando estancar o sangramento e parecia uma teimosia sem fundamento seguir se recusando a procurar um médico. "Pois sigo sendo um idiota", tomou nota mentalmente enquanto lutava contra seu ferimento.
Durante o resto do dia só conseguia pensar em Shaka, na discussão que tiveram e na maneira como ele saíra de casa. Depois dessa ele provavelmente pararia de fingir que estava satisfeito em estar casado com um homem mais velho. Mas... e se ele estivesse? E se sua insegurança para com o loiro fosse infundada? Aí então ele havia perdido Shaka para os próprios medos. Talvez para sempre.
*do hindi, "meu Deus", no sentido de expressar e espanto ou incredulidade.
** do grego, "vá para o inferno"
*** Expressão indiana para "estrangeiro", com cunho pejorativo/ ofensivo
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