Notas iniciais
Nota astrológica para melhor entendimento do capítulo ✩ Segundo a Astrologia, todos os signos são regidos por algum astro. Existem os que são os domicílios destes signos (os que chamamos de regente), bem como os que exaltam os signos. Há também relações negativas que chamamos de queda e exílio, mas aqui vamos fazer referência à regência. Todos os planetas influenciam e se relacionam com todos os signos. Mercúrio diz respeito à comunicação e razão. A eloquência em transmitir uma mensagem, bem como o bom entendimento do que é apresentado. Também a inteligência, lógica e cognição. Estes são os principais temas relacionados ao planeta que rege dois signos: gêmeos e virgem. O importante aqui na fic é saber que ambos os signos são regidos por mercúrio. Divindades são comumente associadas aos planetas e seus feitos correspondem com os assuntos destes astros. Mercúrio, na mitologia romana é correlato a Hermes na mitologia grega: o mensageiro dos deuses - entre mil e uma atribuições, porque vou contar pra vocês, esse era hiperativo. Tudo isso é um resumo básico do básico para vocês entenderem a cena com a tatuagem, que até já foi pincelada, mas que aqui neste capítulo é dito sua verdadeira razão de ser. Só que a citação precisa desse background, que nem todos possuem. Aí vocês também já sabem que se, futuramente for dito "Fulano de Hermes", é com alguém de virgem/gêmeos, utilizando a referência da regência. Assim como se fosse "de Zeus", a referência seria à um sagitário ou peixes, o que é pano para outra manga.

Kanon estava sentado à mesa de café. Sua esposa o acompanhava, ainda vestindo uma camisola que lhe ressaltavam os seios. Admirou-a por uns segundos. Era uma mulher jovem e linda e o grego realmente a desejava, porém, na noite anterior não era nela em quem pensava, enquanto transavam. Deu um suspiro profundo. Também sentia desejo por homens, mas jamais pensava nisso enquanto estava com ela. Terminou seu café e voltou para o quarto. Era manhã de terça estavam hospedados na casa do sogro, em Atenas. "Mais uns dias e vocês voltam pra Santorini daí você esquece tudo isso", pensou. Mas a verdade é que não queria voltar pra casa sem sentir o gosto daquele homem.

O grego sentia raiva por desejar pessoas do mesmo sexo e transferia este sentimento ao trato com os que passavam por sua cama, sempre objetificados. Eram só uma coisa que ele usava para ter prazer. Não havia sentimento bom algum, o que queria dizer que não havia respeito, empatia ou qualquer coisa que pessoas são capazes de sentir por desconhecidos. Era desejo e raiva que movia seu corpo para dentro dos rapazes pagos para isso. Não necessariamente profissionais, o dinheiro era o preço do silêncio. Mas o dono do sebo era diferente. Ele queria escutá-lo dizendo seu nome, que era a coisa mais gostosa que havia provado na vida. Kanon o desejava como nunca havia desejado nada ou ninguém.

— Quem é Shaka?

A esposa o havia seguido de volta ao quarto. Parecia irritada e ficava perigosíssima quando irritada.

— Do que está falando?

— Você fala dormindo, sabia? Isto não é novo. Mas nunca falou nome de macho durante o sono, isto é a novidade. Quem é Shaka? É aquele homem da loja em que comprou o livro para meu pai, não é?

— O que te leva a pensar isso?

— Não sou idiota. Conheço muito bem teu gosto pra coisa, sei que prefere os loiros angelicais. Também não sou cega, é um dos homens mais bonitos que eu já vi, até eu o comeria.

Sentiu-se enciumado. Não era ciúme da esposa.

Ela prosseguiu.

— Por que não come o vagabundo de uma vez e a gente acaba com isso? Não quero você pensando em homens na minha cama.

— Ele não parece ser do tipo.

— Que tipo? Vagabundo? Todo mundo tem um preço, Kanon. É só fazer a oferta certa. Faça, divirta-se e esqueça. Nós temos um trato, não me importo que você queira foder uns garotinhos por aí, mas se você se envolver com um deles eu ferro a vida do desgraçado. E a sua também.

Ela não estava brincando. A verdade é que ficara alarmada desde que entrara naquele comércio. Seu dono era bonito demais e ouvir seu marido dizendo seu nome durante o sono só confirmava o problema. Pensava que se transassem logo, o marido poderia esquecê-lo. O que não podia era aquele homem tornar-se um desejo proibido. Desses que só instigam e tiram o juízo. Se eles fossem logo para cama até ela poderia tirar algum proveito disso, poderia pedir para o marido subjugá-lo bastante. Ela até gostaria de assistir.

— Eu já disse, ele é diferente.

— Diferente? — olhou fundo nos olhos do grego — Eu já disse... Eu ferro vocês dois. Melhor você tratá-lo como se ele fosse igual, tua saúde agradece!

Ela definitivamente não estava brincando.



No sebo, mais uma vez Shaka acordava sozinho, amargo e desnorteado. Não encontrava palavras para expressar o que sentia e, sinceramente, adoraria não estar sentindo coisa alguma. O turbilhão de sentimentos só lhe passava o atestado de fraqueza e sentia-se falhando miseravelmente na sua meta de estar acima de toda ela. Não podia ser fraco. O mundo não era para fracos. Levantou-se, arrumou tudo em volta e a si mesmo. Estava com muita dificuldade em executar tarefas simples, seu pulso estava pior que no dia anterior. Tomou o anti inflamatório que já havia comprado na noite de segunda, após sair com Camus e abriu seu comércio pontualmente às oito horas, traçando as metas do dia, focando na rotina de trabalho, que lhe dava alguma estabilidade mental. Precisava terminar de dar entrada nos últimos exemplares que adquirira para venda e começar as planilhas, estratégias e especulações para sua sociedade com seu amigo francês. Começou o dia com uma vasta pesquisa sobre o mercado de cosméticos e medicamentos naturais na Grécia. Era um mercado em ascensão em diversas partes do globo. As pessoas pareciam ansiosas por um "back to basics", retornando às receitas da vovó. Comprometimento ambiental e cuidados na manufatura também eram observados pelos consumidores mais do que nunca. Buscou entender melhor sobre os investimentos necessários em números. Focado em seu objetivo, viu sua manhã passar ligeira.

Foi desperto de suas pesquisas pela sineta. Olhou para a porta e viu para seu desagrado a loira bonita, porém perigosa, com outros dois homens Ela havia feito uma compra no dia anterior, julgou ser o motivo da aparição.

— Bom dia, senhora Thetis. Veio buscar seus móveis?

A moça sorriu amável. Usava uma blusa fúcsia e uma calça rosa clara, retirava os óculos de sol e tinha os cabelos presos em um rabo alto. Parecia uma versão humana da Penélope Charmosa.

— Bom dia! Exatamente, posso pedir que retirem?

— Sim, claro.

Os homens puseram-se a trabalhar e rapidamente removeram a escrivaninha e o abajur.

— Vocês podem levar para o escritório do papai. Já avisei por lá. Vai ficar muito bom no gabinete dele.

Os homens se retiraram. A loira olhou para Shaka.

— Agora meu assunto é com você.

— O que deseja, senhora?

— Quanto você quer?

— Do que falamos?

— Quanto você quer para transar com ele?

O indiano simplesmente não acreditava no que havia acabado de escutar. Ajeitou o óculos, como se a ação fosse capaz de trazer a realidade de volta, pois novamente sentia-se como um drogado em uma bad trip.

— Tenho certeza que não entendi direito.

— Entendeu, sim. Meu marido, Kanon, quanto quer para transar com ele e ficar com a boca fechada?

Shaka jamais ouvira tamanho ultraje.

— A senhora está cafetinando para o seu marido? — era tão ultrajante quanto insano.

— Não seja tão antiquado. Ele só tem os fetiches dele e eu não me importo que os realize. Acho até bonito de ver. — olhou novamente para Shaka como um doce na vitrine — vou gostar de ver você. Faz um contraste interessante com ele, são belezas diferentes, que se somam.

Realmente, concordava com a última frase, mas não com Kanon, achava que formavam belo par com seu marido.

— Eu não estou à venda. E exijo que quem atravesse aquela porta aja com o mínimo de decoro. Se isso é tudo, retire-se.

— É uma pena para você. Deveria estar.

Era uma ameaça? A aparência poderia ser até de Penélope, mas o caráter estava mais para Dick Vigarista.

— Retire-se. — repetiu seco, apontando a porta.

A mulher obedeceu, sorrindo, como se tudo aquilo fosse normal e ela estivesse pedindo uma receita de bolo. O indiano ficou francamente perturbado, a sucessão de acontecimentos bizarros não parecia ter fim precisava voltar a focar em sua rotina se não quisesse perder a calma. Não podia perder a calma. Olhou para seu relógio, estava próximo a hora do almoço. Ainda devia ter um ou dois pratos congelados no frigobar. Não gostava de almoçar fora sempre e era comum ter coisas para o almoço que fazia e trazia de casa em sua pequena geladeira. Mas estava ficando muito difícil trabalhar com a tala improvisada. "Seria melhor comprar uma decente e uma pomada mais potente". Justo quando pensava, entrou pela porta um garoto jovem, de pele bronzeada e cabelos curtos cacheados. Possuía um semblante muito alegre e trajava uniforme escolar. Era o filho do casal do comércio ao lado.

— Bom dia, seu Shaka!

— Bom dia, Felipe!

— Temos revistas novas?

— Temos sim, chegaram mais algumas semana passada. Alguns HQs e mangás, nem todos estão em grego, mas sei que seu inglês é bom! Fique à vontade.

— Nossa, o que houve com sua mão?

— Um acidente! Estava justamente pensando em comprar uma tala adequada, para não acabar forçando muito esse pulso. — olhou para o simpático jovenzinho e lhe ocorreu a ideia — À propósito, se importaria de ficar um pouco aqui enquanto vou à farmácia? Aviso aos seus pais na cafeteria que você está aqui, serei rápido.

— Claro que posso, seu Shaka! — disse endireitando a coluna — deixa comigo!

— Ótimo, se algum cliente aparecer, diga que não demoro! — disse já saindo apressado.

Mais cedo, pela manhã, Saga rumava para o jornal. Não conseguia parar de pensar na carta e sentiu raiva de estar fazendo doutorado, cogitou desistir pela terceira vez. Sua mente fervilhava tanto que perdeu o ponto de seu ônibus.

— Cacete, só faço merda.

Voltava a distância excedida de seu destino com a mente trabalhando mil hipóteses.

"Se eu largasse tudo, poderíamos nos mudar".

"Mas ele já perdeu a inscrição. Você está sempre destruindo a vida do homem que ama".

"Não é verdade! Construímos muito juntos, superamos muito juntos. Nos amamos"

"Amam? Está certo disso? Alguém amaria mesmo um homem doente da cabeça feito você? Duvido muito"

"Não seja idiota e não faça pouco dos sentimentos e honra de seu marido. Se ele não o amasse, jamais cuidaria de você como cuida, lembra de ontem? Mesmo com raiva dedicou-se ao seu ferimento. Por que estaria consigo se não o amasse"?

"Estabilidade, rotina, hábito! É um virginiano, afinal! E você parece que ainda o satisfaz... Espere só até não dar mais conta do recado".

"Pare com isso! Um homem de brio feito Shaka jamais se permitiria ficar tanto tempo imerso e dedicado só por uma foda boa".

"Ele é muito bonito, não teria nenhuma dificuldade em arranjar outra pessoa. Agora mesmo algum cara bacana deve estar dando em cima dele no sebo. Isso deve acontecer sempre".

"Eu também sou bonito pra cacete. Dão em cima de mim o tempo todo. Jamais cogitei trair meu marido".

"Mas você tem muito a perder, não é? Ao contrário dele"...

"Ele também não quer me perder"!

"Perder você? Ou a cidadania, o sobrenome grego, a casa bem localizada"...

"Que inferno! Shaka não é assim, é um homem virtuoso"!

"Claro que é, o indecoroso é você. Shaka abriu mão de seus estudos e você sabe que não é a primeira vez. Se nunca tentou voltar à universidade antes é porque você dava trabalho demais. Sempre instável, sempre em crise, sempre com medo ou com raiva. Lembra de quando bateu com o carro? Meses de fisioterapia e reabilitação, quem estava lá? Shaka. Quando seu estresse e insegurança lhe adoeciam o corpo e lhe deixavam de cama, quem ficava à cabeceira, cuidando de você? Shaka. Quando você pensou em desistir de tudo e dar fim à sua existência medíocre, quem estava lá de novo? Pois é! Shaka não é seu marido, é seu enfermeiro"!

"Acha que eu deveria libertá-lo disso"?

"Ainda tem dúvidas"?...

Foi travando uma batalha consigo mesmo que entrou no prédio, subiu de elevador até o andar do jornal e entrou direto para sala do colega que substituía, sem cumprimentar ninguém. A cada passo que dava podia escutar o tic tac dentro de si. Era uma bomba relógio, uma explosão eminente.

"Agora não, Saga, por favor, só mais um dia".

Em momento algum suas palavras o acalmaram. Passou o resto da manhã na sala, sem conseguir produzir muita coisa.

Enquanto isso, no sebo, a sineta anunciava a entrada de Kanon.

— Oi seu Saga! — a voz vinha de um rapaz jovem, devia ter uns dezoito anos, atrás do balcão — O seu Shaka foi até a farmácia, pediu que eu desse uma olhadinha.

O garoto claramente o confundira com seu irmão.

— Tudo bem, eu o espero. Posso cuidar das coisas também.

— Desculpe, seu Saga, mas sabe como é seu digníssimo, não é? Nunca se larga uma tarefa no meio. — disse a última frase imitando o tom do loiro.

Kanon riu para o menor, passando então a olhar o sebo. Atravessou o balcão, olhando a mesa de Shaka. Viu uma foto dele com o irmão e uma gata de três cores. Pareciam felizes. "Sortudo filho da puta". Havia outras duas. Uma de um Shaka criança no colo de um homem de aparência asiática, parecia indiano, com cabelos muito escuros, olhos idem e pele morena. Tinha o mesmo sinal na testa que Shaka, olhando bem, possuíam também o mesmo maxilar marcado. Julgou ser seu pai, já sabia que Shaka era indiano, sua mãe poderia ser uma mulher de pele clara, ele devia ter herdado as cores dela. A outra foto era de Shaka e Saga com outros dois rapazes, um loiro e um ruivo. Eram muito bonitos, pareciam todos amigos. Virou-se e deu uma olhada nas portas atrás da mesa, era uma copa e um banheiro. Decidiu esperar na copa. Só a lembrança daquele homem já lhe exitava, queria senti-lo, mas o indiano não lhe dera o menor olhar interessado no dia anterior. Passou a manhã pesquisando sobre Shaka. Tinha lá seus contatos, devido a influência do sogro. Conhecia todo tipo de gente em todo tipo de cargo, honesto ou corrupto. Gostava mais dos corruptos, lhe rendiam boas informações. O país de origem do outro era a Índia, chegara com um visto estudantil e posteriormente se envolvera em um escândalo na Universidade de Atenas, um caso com um professor. Relações entre docentes e alunos não eram permitidas por conduta ética, muito embora pelo que tenha entendido, Shaka e o homem chamado Átila não houvessem se relacionado do portão para dentro, o que configuraria a tal falta de ética. Nem sequer chegaram a pertencer ao mesmo departamento. Ainda assim, o caso tomou proporções enormes, fazendo até com que o professor fosse transferido, sendo impedido de lecionar em Atenas. Descobriu que tudo só chegou a esse ponto pois o mais velho possuía desafetos na universidade. Já Shaka teve problemas no país de origem, um golpe que levou sua família à falência. Não possuía nenhum parente vivo, ninguém a quem pudesse recorrer, isso era simplesmente maravilhoso. Tinha apenas Saga. Um homem. E de sanidade duvidosa, o que era ainda melhor. Na sua terra, seria preso justamente por ser casado com um homem, aqui na Grécia a única pessoa com quem contava podia ter facilmente até sua última gota de sanidade extorquida pelo próprio Kanon. Era só coagir o belo loiro da maneira certa que suas calças se abaixariam. Sua esposa estava certa: todo mundo tem um preço.

Não demorou muito até ouvir a voz grave do dono do sebo.

— Obrigado, Felipe! Só preciso trocar de roupa, tomei um banho de café de um desastrado desavisado. As pessoas não olham por onde andam.

— Nossa, mas quanto café este ser carregava? Deve ter molhado até sua cueca, Deus pai!

— Pois é, vou trocar isso!

Ouviu passos e a porta ao lado bateu. A imagem do homem nu no cômodo ao lado golpeou a mente do grego, despertando seus instintos maliciosos. Ele queria agora. Kanon se levantou, o garoto ainda estava no balcão e agora sabia o nome dele. Aproximou-se tomando cuidado para não falar muito alto.

— Obrigado, Felipe! — repetiu a frase de Shaka — Agora ele já está por aqui, você pode ir!

O garoto sorriu e se convenceu, levantando e rumando porta afora, a mesma que Kanon trancou a chave em seguida, indo direto para o banheiro, encontrando o outro sem vestimenta alguma. O indiano sobressaltou-se com o barulho da porta, porém teve muito pouco tempo de reação, sendo rapidamente prensado pelo invasor, de costas para ele.

— Que porr... — foi calado pela mão direita do maior, que imprimia força no corpo inteiro para mantê-lo colado à parede.

— Eu nunca vi nada tão bonito.

O grego manteve os corpos juntos, Shaka tentava livrar-se, mas a posição e seu pulso machucado dificultavam. Precisava se controlar e manter a calma se desejasse que aquilo não fosse adiante. Kanon aproveitou que os cabelos loiros estavam presos com lápis, em um coque improvisado que exibia a nuca alva e percorreu a língua pelo pescoço do indiano, provando-o.

— Você é tão delicioso. Fica comigo, que tal? Vai ver que eu sou muito melhor que ele!

Kanon afrouxou o contato, esperando uma resposta, Shaka virou-se e fez menção de empurrá-lo. O grego segurou seus pulsos com as mãos, fazendo o outro sentir uma dor forte ao ter o que estava machucado pressionado. Voltou a fixá-lo na parede com seu corpo. Seus olhares se cruzaram. Kanon pode ver todo o desprezo impresso neles através das lentes embaçadas dos óculos. Aquilo o atingiu. Ele queria que aquele homem o desejasse tanto quanto ele o desejava.

— Não me olhe assim, eu quero tanto você.

— Mas eu não quero.

Kanon afastou-se e Shaka podia jurar que seu olhar, libertino há um minuto atrás, estava decepcionado.

Colocou-se em frente a porta e entregou-lhe a calça e a roupa íntima que estavam em cima da pia, próximos a ela.

— Vista.

Shaka já começava a desistir de encontrar senso nos acontecimentos, definitivamente estava perdido em alguma dimensão paralela. Aquele homem estava tentando forçar uma relação não havia um minuto, agora lhe estendia sua roupa para que se vestisse. Não querendo dar chance à uma nova mudança de comportamento, pegou-as e obedeceu de pronto, ainda sob o olhar do grego. Sua mente estava a mil, buscava algo com o que pudesse se defender, pois sabia que poderia voltar a ser atacado. Não queria tentar simplesmente empurrá-lo, ele estava travando a porta e era visivelmente mais forte que si. Mas estava alerta, esperando uma mínima brecha. Kanon reparou no desenho nas costelas do mais novo e aproximou-se subitamente esticando a mão para tocá-lo ali. Shaka segurou o pulso do grego a centímetros de seu objetivo, assumindo prontamente a defensiva, mas o outro não ofereceu resistência, interrompendo a investida. Seguia olhando para o mesmo local

— Uma marca de posse.

Kanon havia concluído à primeira vista o que Saga não enxergava há cinco anos, desde que Shaka havia feito sua tatuagem. "Ok, ele não sabe que sou virginiano, só lhe resta gêmeos, isso facilita", pensou o indiano, mas não pode evitar de encontrar tempo para se chatear um pouquinho com o marido, mesmo inserido naquela situação completamente insana e perigosa onde estava no momento. Todos os pensamentos percorriam sua cabeça muito rápido, Kanon estava próximo demais, porém havia saído de frente da porta. Distraí-lo poderia ser uma tática.

— Uma marca de pertencimento. — retrucou — Não sou gado. E você tem sérios problemas com a nomenclatura correta para as coisas. — completou empurrando rudemente a mão do outro, que se afastou uns dois passos.

Ali estava sua brecha, puxou sua sua blusa em cima da pia e saiu, mas não foi longe, sendo puxado bruscamente pela mão machucada, sentindo outra onda de dor lancinante.

— Você vai pertencer é a mim. Não deveria ser tão resistente, acho que você quer jogar, não é? — torcia o pulso de Shaka para provocar-lhe dor — Pois então vamos jogar! A partida começa com os meus contatos no departamento de imigração. Entende o que isso quer dizer?

Kanon empurrou Shaka contra o batente da porta, ainda torturando seu pulso esquerdo com uma das mãos e segurando o maxilar com a outra, tomando-lhe os lábios. O menor que desta vez já havia cogitado ser atacado de novo reagiu rapidamente. Levou a mão direita aos cabelos, segurando o lápis e cravou-o com toda força que conseguiu nas costas do grego, entre o ombro e a escápula, o perfurando. O geminiano vociferou após um urro de dor, soltando-o.

— Seu filho da puta!

Shaka não perdeu um segundo, entrando na porta ao lado e saindo com uma faca de corte, enquanto o outro se livrava do lápis.

— Saia daqui agora! — bradou empunhando o metal — Ou esteja certo que lhe arranco as tripas. — completou, dessa vez com uma calma assustadora.

— Não faria isso com o irmão do seu maridinho.

— Você não é irmão do Saga! Você é um acidente de percurso, uma má formação genética, um parasita banhado em perversidade e devassidão! — sua voz saia limpa e clara, como quem explica uma lição à uma criança, o mar em seus olhos parecia congelado e aquela frieza gelou a espinha do grego — Saia daqui com as próprias pernas, vai ser melhor pra você.

Kanon deu por fim a primeira partida e rumou até a porta segurando o ferimento ao mesmo tempo em que Milo chegava ao sebo, com o capacete de sua moto em um dos braços. Olhou pelo vidro e viu Shaka sem camisa, empunhando uma faca grande e "Saga" indo em direção à porta. Kanon destrancou-a e olhou mais uma vez para o indiano, vestindo seu mais malicioso sorriso antes de abrir-la e dar de cara com o loiro da fotografia.

— Puta merda, Saga, você está sangrando! O que está acontecendo aqui?

Kanon, que segurava o ombro machucado com uma das mãos, empurrou o grego mais novo com a outra que ainda segurava o lápis, sujando sua blusa de sangue e saindo com uma ira que Milo desconhecia nos olhos. O psicólogo entrou no sebo, correndo até Shaka, que permanecia na mesma posição.

— Shaka — segurou delicadamente a mão erguida — abaixe essa faca, amigo. — desceu a mão do indiano, sem desfazer o contato. — O que houve aqui? — o timbre era de sincera preocupação. — O que o Saga lhe fez?

Milo podia sentir o corpo do amigo levemente trêmulo, como de quem sai de um pico de adrenalina, mas seus olhos não lhe revelavam absolutamente nada. Ele demorou um pouco até responder:

— Não era o Saga.

Terminou a curta frase entregando a faca ao maior e voltando para o banheiro. Abriu a torneira e começou a lavar a boca e o pescoço, esfregando-os repetidamente com alguma força. Aquilo não tranquilizava Milo em nada. Como assim não era o Saga? E por que Shaka se lavava daquela maneira? Friccionava o pescoço com tanto afinco que estava vermelho. Então entendeu o que havia acontecido. Preferia não ter entendido.

— Era o gêmeo do mal? O irmão que armou para expulsar o Saga de casa? — conhecia a história — Ele... Ele tentou... — Não conseguiu completar a frase, só a ideia lhe horrorizava — Pare com isso, homem, está se machucando — fechou a torneira e lhe ofereceu a toalha. — Eu vou fechar o sebo. — não esperou resposta.

Milo fechou as persianas, virou a placa e trancou a porta, atravessou o salão de volta e olhou para Shaka que já havia vestido sua blusa, sentado no chão entre as duas portas, olhando para o nada.

— Como ele te encontrou?

Shaka deu um longo suspiro.

— Foi uma coincidência infeliz. Ele veio comprar um livro.

— Hoje?

— Ontem.

— O Saga já sabe?

Shaka negou com a cabeça. Abraçou o joelho com as mãos e desviou o olhar de Milo, num gesto que o grego já sabia reconhecer como um "aí tem coisa".

— Não quero que ele tenha contato com o irmão.

— É, mas o irmão em questão tentou forçar você! — aquilo era absurdo demais, precisava ter certeza — Não tentou?

Shaka acenou que sim com a cabeça, sem olhar para o amigo.

— Aquele homem é cruel, Milo, não tem nada de bom dentro dele. É como um negativo de Saga, está ao contrário. Meu marido é justo e bom, tudo que o Kanon não é. Meu marido tem crises de culpa por seus erros e dificuldades, pois tem honra. Aquele lá é um jogador perverso. — olhou finalmente para o grego — Eu não quero que eles se encontrem. Saga vai retomar a análise, eu não vou permitir que aquele vadio o perturbe, só por cima de mim. E ninguém passa por cima de mim.

Era um aviso ao ausente. Mas à Milo também. Ele não ia contar a Saga, ao menos por hora e, se Milo o fizesse sofreria consequências.

O telefone de Shaka tocou na mesa e seu amigo levantou para pegá-lo. Entregou ao indiano, que não conhecia o número.

— Pleno 2017 e todos resolveram fazer ligações? O que aconteceu com os aplicativos de mensagem? — não podia deixar de reclamar antes de atender — Sim?

— Shaka?

— Sim.

— Meu nome é Aiolos, eu trabalho com o seu marido. — sabia quem era, tratava-se do editor chefe do jornal — É que deu uma merda violenta aqui. O Saga está fora de si, querem chamar a polícia, mas eu não deixei. Só que se ele não se acalmar vai foder a porra toda, por favor, vem pra cá. — desligou assim que terminou sua fala.

— Eu estou em qual inferno? — perguntou ao Milo, levantando-se de pronto e começando a desligar as luzes e a ventilação.

— O que houve?

— O Saga. Não sei, mas não é bom. — já estava se encaminhando para a porta, pegando o capacete do amigo — Empresta sua moto? É urgente.

Milo entregou-lhe as chaves e saiu do sebo com ele.

— Tome cuidado, você não está bem.

— Bobagem, eu estou ótimo, ninguém derruba Shaka. Até e obrigado!

Shaka estava sempre ótimo, pensou Milo preocupado. Ninguém podia se manter ereto o tempo todo, todos possuem um limite. Preocupava-se pois sabia que, quando o indiano atravessasse o seu, — e aquilo não parecia distante — seria uma força devastadora da natureza, faria os rompantes de Saga parecerem brisa.

Quando aquela represa jorrasse, não sobraria nada em volta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.