Mais forte que o tempo

2 Confissões no sebo da esquina.


Notas iniciais
Bom, eu li em uma atualização que assim que o novo formato do site entrar no ar as notas dos capítulos vão morrer, então pra você que chegou aqui antes disso, que bom. Como não sei se posso jogar os esclarecimentos no final do texto corrido do capítulo, as notas vão ficar em seu lugar, quando forem deletadas eu decido o que eu faço. Ou você pode ir no Spirit, onde a obra está postada com as notas na íntegra. Algumas considerações para o capítulo: ✩ Sobre visto e cidadania grega: o visto categoria estudantil precisa ser renovado regularmente, chegando até 3 meses de validade apenas, mas não cito na fic sobre validades, fica a título de curiosidade. Visto de permanência para trabalho ou empreendedorismo existem também, todos os 3 são emitidos apenas com comprovação de renda, averiguação de ficha policial e entrega de uma pá de documentação. ✩ A legalização da união civil homoafetiva na Grécia é recente, do fim de 2015. Neste caso, ainda que a história da fic se passasse exatamente agora, não haveria como o casamento citado ter ocorrido há 10 anos. Rola então uma licença poética, mas não quero trazer desinformação, por isso o aviso. ✩ Licença poética também para cidadania dada a um homem casado com outro homem. Não encontrei, na verdade, nada específico sobre isso, as regras de consentimento de cidadania não citam se contemplam ou não homossexuais, mas creio que seja difícil, com a oposição marcando em cima. Aqui na fic, ela só é concedida porque há uma pressão por um dos envolvidos ser uma "pessoa pública". ✩ Na Índia, a união homoafetiva só foi descriminalizada (que é diferente de legalizada) em setembro deste ano (2018). Homossexualismo era crime e dava xilindró até 2009. Foi descriminalizado entre 2009 e 2013, quando voltou a ser crime, voltando a não ser somente agora. ✩ A fic se passa em 2017, a fim de curiosidade. ✩ Existe o curso de História em ambas as faculdades e é possível um aluno tentar transferência de uma universidade para a outra. O de Psicologia eu já não sei, mas é bem provável que exista. É Athenas, afinal.

Milo caminhava apressado ao mesmo tempo que digitava no smartphone, seus longos fios loiros e cacheados esvoaçavam acompanhando seu ritmo acelerado. "Acabei de sair, mon cher, topa um cineminha"? Sorriu enquanto enviava a mensagem ao namorado pelo aplicativo. Havia conseguido finalizar os reparos em seu consultório naquele instante. Pagou ao homem que os executara pelo serviço, deu uma olhada para o consultório, agora sem pisos soltos, e rumava para casa a fim de aproveitar o resto do domingo.

Virou à direita e continuou caminhando contente, conferindo o próprio porte alto e forte refletido nas vitrines, ajustando a blusa escura de botões no corpo quando reparou que uma das persianas do sebo da esquina estava levantada, o que era muito estranho: primeiro pois era domingo, segundo pois não estava assim quando passara mais cedo, de modo que não poderiam apenas terem "sido esquecidas" daquela maneira. Aquele era um bairro tranquilo, então antes de cogitar uma invasão olhou em volta e localizou a bicicleta com a cestinha com penduricalhos — todos presentes que ele ganhava e amarrava ali — do amigo. Estava então descoberto o motivo da persiana levantada, Shaka estava no local, mas não o porquê daquilo. Por mais viciado em trabalho que seu amigo fosse, ele não trabalhava aos domingos.

Tentado a solver o mistério voltou-se novamente para o estabelecimento. Olhou para dentro através do vidro descoberto, mas não havia ninguém no balcão no fim da loja ou na mesa atrás dele. A placa fixada por dentro na porta seguia marcando "fechado". Ainda assim, tentou a maçaneta e esta abriu. Ao entrar, a sineta presa à porta anunciou sua passagem e pôde finalmente ver um homem de fartos fios loiros muito lisos presos de qualquer maneira em uma tentativa de coque, pendurado em uma escada acoplada a uma estante de livros. Vestia uma calça vinho e uma blusa branca de corte canoa amplo que lhe evidenciava as escápulas e, provavelmente as clavículas, se visto de frente. Estava com um pé no degrau outro suspenso no ar e abraçava uma das hastes da escada com o braço direito, o mesmo em que segurava um tablet, no qual digitava com a esquerda.

Apesar da sineta, Shaka não notou a entrada de seu visitante, que o observou ainda por quase um minuto. Milo pensou que ele deveria estar anotando algo, ou inserindo algo no banco de dados do sebo, ou estudando algo, ou refazendo algo, ou uma mistura qualquer de todos "os algos", afinal o indiano estava sempre produzindo alguma coisa — ou muitas coisas. Pronunciou-se finalmente:

— Trabalhando em pleno domingo, Shaka? Seu marido dormiu de jeans, foi?

O susto de Shaka foi tamanho que ele quase caiu da escada, precisando segurar-se com ambas as mãos, derrubando o tablet no chão!

— Merda, Milo!

O grego ajudou o amigo a descer a escada e a recompor-se, aguardou que ele averiguasse se o tablet continuava a funcionar, suspirando aliviado ao perceber que sim. O de cabelos lisos respondeu secamente assim que se restabeleceu

— Dormiu sem nada, como sempre. Eu gosto de trabalhar, você sabe, não é novidade. O pitoresco é você aqui sem seu francês. Não deveria estar com ele? Está dando consultas domingo, agora? — ponderou um pouco antes de completar — Não que seja da minha conta.

Saiu andando em direção a mesa atrás do balcão, virando novamente as costas ao amigo, carregando alguns livros consigo com o tablet em cima destes. O mais alto o seguiu notando que Shaka parecia alterado, nunca se distraía, como não percebera sua entrada?

— Não, por enquanto não há tanta gente precisando de psicólogo na cidade. Por enquanto. — riu — Estava trocando uns pisos soltos no consultório, daí voltando agora vi seu sebo aberto. Pensei que uma hora dessas você e o maridão estariam se curtindo. — disse para o homem de costas à sua frente.

Houve um silêncio antes que o indiano voltasse a se pronunciar.

— Curtindo... Só se for curtindo com a minha cara.

Shaka colocou os livros sobre a mesa e atirou-se na cadeira. Agora que estava de frente para si, Milo podia notar o amigo com a expressão bastante abatida e o olhar, sempre vivaz, um tanto distante. Tomou uma cadeira próxima à mesa e sentou-se.

— Quer conversar, amigo?

Era tudo que Shaka queria ou não queria ou queria não querer.

— Está tudo bem, Milo. — disse retirando os óculos e massageando o ponto do nariz onde estavam apoiados, com os dedos polegar e médio.

Era impressão de Milo ou seus olhos estavam um pouco inchados?

O grego conhecia Shaka há muito tempo, desde que ele chegara à Grécia transferido da Universidade de Delhi, na capital indiana, para a Universidade de Athenas. Não eram inscritos no mesmo curso, o recém-chegado fazia História enquanto Milo fazia Psicologia. Em verdade, apesar de tê-lo visto aqui e acolá nos arredores da faculdade, só foi trocar a as primeiras palavras com ele na casa de seu professor de Psicopatologia, que viria a ser seu orientador nos anos seguintes. Átila engatou um namoro com Shaka, coisa que Milo descobriu ao chegar na casa do professor e encontrá-lo aos beijos com o mais novo. O que começou com uma apresentação um tanto constrangedora acabou virando uma amizade sincera, incentivada pelo próprio Átila. No início, o grego estranhou que o professor não sentisse ciúmes, afinal ele sabia que era um jovem muito atraente, mas não demorou muito a entender o porquê: Shaka realmente preferia homens mais velhos, nunca direcionou um olhar desejoso sequer ao amigo, quando este ainda não era exatamente um amigo. Milo achava graça, pois o indiano aparentava ter uns 16, não os 19 anos que ambos tinham na época, o que tornava ainda mais impressionante vê-lo ao lado de um homem quase duas décadas mais velho, mas eles se entendiam. O humor ácido do loiro o fazia até parecer "mais velho que o mais velho", às vezes. Não havia como negar: Shaka era muito chato e cheio de manias! Mas, possuía um coração tão bom e um caráter tão ímpar que Milo enfrentava feliz a rigidez das primeiras camadas. Sentia-se honrado por ser seu primeiro amigo em terras estrangeiras. Ele e seu professor namoraram durante um ano antes da coisa desandar. O desfortúnio foi a relação dos dois ter vindo à tona na Universidade, justo quando acabara e nenhum dos dois saiu ileso do escândalo subsequente.

Este foi apenas o inicio da montanha-russa que o ano seguinte fora para Shaka e Milo bem se recordava. Seu pai, na Índia, sofrera um golpe de um sócio e perdera todo seu montante. Nessa época, o imigrante já tocava o sebo, um negócio que havia começado com sua mania de garimpar livros, aliada ao seu tino comercial, mas isso não o impediu de sentir o baque da falência de seu progenitor. Sem a ajuda, acabou despejado de onde alugava para residir e indo morar no sebo, que passara a ser seu único sustento. A coisa com seu pai piorou rapidamente e ele faleceu, forçando Shaka a voltar para Índia no meio do período. Apesar de Milo ter conseguido alguém para cuidar do comércio do amigo na época, isso não impediu tudo de piorar. O pai era luz para Shaka, que sentiu imensamente a perda. Todavia, não pôde se abater: havia um avô doente no hospital e o indiano gastou todo o restante da soma da família cuidando do único parente que ainda possuía, mas que infelizmente não durara muito. Raspou então o tacho do que sobrara com os ritos funerários de ambos. Gastou muito tempo e energia no seu país natal e quando voltou à Grécia era um homem completamente sozinho e sem um centavo. Apesar de ser extremamente independente e detestar pedir ajuda, Shaka era muito ligado aos seus e sentia-se como uma árvore que levara machadadas nas raízes, parecia tombar. Foi nessa época que conheceu Saga, — pessoalmente no caso, pois já lia sua coluna semanalmente no jornal e admirava profundamente o escritor — quando estava recém retornado, despejado, falido, ferido e com um período e meio perdido na faculdade. Tentou justificar-se e recuperar, mas não deu certo, ninguém afrouxava com imigrantes, ainda mais um invertido que outrora havia se dado à promiscuidades com um professor. Perdeu a matrícula e, para coroar o pesadelo, o visto estudantil. Havia vendido tudo que possuía na Índia e sequer havia para onde retornar. Foram nessas condições adversas que casou-se com Saga. Com tudo acontecendo neste ritmo de avalanche, Milo estava certo de que aquilo não iria durar. Contudo, seguiam casados até hoje e Shaka conseguira manter e comprar o local do sebo. Embora nunca tenha conseguido voltar a Universidade, prosperara em seu comércio e mantinha um relacionamento sólido, além de ter conseguido a cidadania grega. A árvore deitara novamente suas raízes. E Milo tinha muito orgulho de seu amigo.

À julgar pelo semblante e pelo comentário de Shaka, parecia que agora o casal estava abalado e Milo queria muito ajudar o indiano que sempre o ajudara a lidar com seus sentimentos e desavenças com seu namorado, Camus. Suspirou profundamente e olhou em volta notando algo que não havia reparado até então: o sofá que ficava abaixo da janela de vidro ao lado da porta estava puxado, tomando o formato de uma pequena cama e havia uma mochila em cima deste.

— Espera, você vai ficar no sebo? — disse voltando o olhar do sofá para o amigo.

— Por hora.

— Não vai voltar para sua casa?

— Não é minha casa.

— Claro que é, você mora lá há dez anos.

— Explica isso para o Saga.

— Ele te expulsou? — perguntou aumentando o tom de voz, chocado.

— Não. Só disse que a casa era dele e que eu era um firanghi intruso de merda que dava o rabo pra ele em troca da cidadania grega. — disse com seus típicos sarcasmo e cinismo estampados em sua fala.

Shaka desviou o olhar para o lado antes de dar a última resposta, não conseguia falar aquilo olhando nos olhos de Milo e se arrependera de tê-lo dito assim que o fez. Detestava se expor. Fora que reviver os acontecimentos daquela manhã o embrulhava o estômago e fazia seus olhos arderem. Milo não deixou de notar que o outro estava segurando as lágrimas. "Sempre durão, feito uma rocha" pensou o grego em meio a toda repulsa e fúria que sentia ao ouvir aquilo.

— Aquele filho da puta não te disse isso!

— Disse mais que isso.

Aquilo não fazia sentido algum. Era verdade que Saga e Shaka não passavam muito tempo sem trocar farpas, mas nunca ofendiam a honra um do outro. Geralmente Saga reclamava que o indiano era chato, metódico e paranóico, enquanto as queixas de Shaka eram que o grego era instável, desorganizado e inconsequente, mas nunca, de maneira alguma rebaixavam um ao outro e, ainda mais, nunca nesses dez anos haviam deixado de dormir na mesma cama, independente de guerra ou paz — salvo casos de viagens a trabalho. Agora Shaka estava disposto a passar a noite na loja e o grego o havia ofendido intensamente. Estava tudo de cabeça para baixo e Milo precisava entender o motivo, caso contrário não conseguiria ajudar.

— Dá para piorar? — disse o cacheado

— Sempre dá para piorar.

Milo precisava fazer com que o outro se abrisse.

— Olha, por que você não me conta tudo, desde o início? Não é você mesmo que diz que a melhor ótica para uma confusão é a externa?

Shaka respirou fundo. Confiava no amigo, mas aquilo era desconfortável e dolorido. Contou que encontrara seu companheiro "incendiando" a casa com a cabeça em outro espaço-tempo, que ralhara com ele pela irresponsabilidade, pois se preocupava com ele e zelava por seu bem estar e sobre a maneira intempestiva com a qual fora ofendido. Citou ter sido chamado de moleque, de ninfeto e de fedido a leite antes da derradeira ofensa que já havia citado quando só faltou ter sido chamado de prostituta pelo marido. Na verdade foi chamado, Saga apenas usou outras palavras.

Milo, que ouvia atentamente, não pôde deixar de notar a relação entre os desaforos, todos com conotação etária. Estava certo de que a idade do marido estava incomodando Saga, mas... em que sentido exatamente?

O indiano havia posto os pés, agora descalços, na cadeira e abraçava os joelhos. Evitava a todo custo olhar para o amigo. Uma lágrima insolente percorreu seu rosto solitária.

— Ele quem quis casar. Céus, você é testemunha, Milo, eu não pedi nada, a gente só estava junto há cinco meses. Eu nunca transei com ele por favor nenhum, a gente sempre teve química. Muita química. Are baba, ontem tivemos uma noite tão boa, para hoje ele simplesmente me mandar arrumar um "novinho pra me foder bastante", parece um pesadelo! Se eu estivesse disposto a foder com qualquer um só pela cidadania, eu casaria com uma mulher ora, seria bem mais simples, num país tão ortodoxo. Você lembra o inferno que foi? Ele quase perdeu o emprego e eu quase perdi tudo! Se aquilo houvesse dado errado eu terminaria pedinte ou preso em um país ou no outro! Imagina ser deportado pra Índia após um escândalo homossexual? Eu provavelmente seria violentado, esfaqueado e morto em pleno mercado por uma horda selvagem qualquer em plena luz do dia! — Milo tremeu ao ouvir essa parte. O falecido pai de Shaka sempre estivera certo em dizer que a Índia não era lugar para ele — Sinceramente, acho que essa loucura só deu certo por ele ser, de certo modo, famoso. A Grécia inteira lê o Saga semanalmente. Agora, passar por esse calvário para ele fazer toda aquela balbúrdia e me acusar de interesse? Dizer que eu só queria "brincar com o papai"? Como ele consegue ser tão leviano comigo?

Outras lágrimas desafiavam o autocontrole de Shaka naquele momento. Brotavam sem permissão alguma enquanto ele atropelava as frases, em uma confissão estrangulada e ressentida. Seu amigo escutava cada frase, recordando-se de toda epopéia atravessada na época, reparando também nas expressões utilizadas por Saga, que pareciam frisar a idade do mesmo também, mostrando em definitivo que aquele era o motivo de tudo.

Shaka ficou um minuto em silêncio, recuperando o fôlego depois de desabafar tudo. Milo pegou um pouco d'água no pequeno frigobar e deu ao amigo que bebeu de pronto. O cômodo continuou em silencio por mais um tempo.

— Ele tem vergonha de mim. — disse quase em um sussurro.

— Não é verdade. — Foi só o que Milo conseguiu dizer.

— Eu também teria no lugar dele... — dessa vez foi tão baixo que Milo quase não o escutou.

— Que porra é essa agora? Por que teria?

— Ah... Ele é bem sucedido.

— Você também.

— Mas ele é jornalista, tem uma coluna no periódico mais respeitado do país.

— E você é dono do comércio mais próspero da cidade, que você construiu sozinho, do zero.

— Ele é interessante, conhecido, respeitado...

— Ora Shaka, você não é alguma dessas coisas?

— Ele está fazendo doutorado...

Era isso, Shaka sentia-se menor por ter abandonado os estudos. Ainda que em circunstâncias tão severas.

— Shaka, eu não entendo. Você recentemente teve um requerimento de bolsa aceito naquela faculdade em que o Átila foi lecionar há anos atrás. — o indiano olhou abruptamente para ele, recolocando os pés no chão ao ouvir o início da fala, ao que Milo não se abalou, prosseguindo — Você não me contou, mas ele sim. Ele casou-se com o diretor do Departamento de História de lá, sabia? Sem alardes, claro, ele não iria querer ser afastado de outra universidade. Ele viu seu nome na lista e veio me perguntar por que motivo você não havia se inscrito, uma vez que seu requerimento havia sido aceito, o que eu certamente não soube responder.

— Pois é, Milo... — não imaginava que o outro soubesse — Fica na outra ponta do país, teríamos que nos mudar.

— E por que não se mudam?

Milo juntou as pontas assim que fez a pergunta, emendando outra.

— Há quanto tempo Saga está no doutorado?

— Começou mês passado.

Um mês. Justamente o tempo que seu ex professor o havia contactado.

— Contou ao Saga que negou a bolsa para que ele pudesse seguir com os próprios estudos?

— Não! — Shaka praticamente gritou, a primeira palavra, acalmando o tom antes de prosseguir — Por Brahma, por Zeus, por todo panteão grego e hindu juntos! Ele nem sabe que eu requeri esta bolsa, não diga nada, por favor! — estava praticamente implorando — Não quero que ele se sinta culpado! Abdiquei da bolsa pois achei que era o melhor a fazer, por favor.

— Acalme-se, homem, tudo bem! Sinceramente, foi o que imaginei.

O grego sentiu uma pontada de fome e olhou para o relógio, que marcava cinco da tarde. Lembrou que a confusão na casa de Shaka e Saga fora antes do café e se bem conhecia o amigo, ele estava em jejum. Sua investida investigativa sobre persianas abertas havia se transformando em uma consulta grátis sem divã no sebo da esquina e ele sabia que teria que mudar de planos. Queria ouvir mais do amigo e ajudar, retribuir a amizade incondicional e prestativa do outro, mas conhecia Shaka bem o suficiente para saber que caso ele se sentisse como se estivesse "incomodando", recuaria no ato. Precisava agir com cautela.

— Shaka, amigo, gostaria muito de poder conversar mais com você. Sei que nos vemos sempre, mas é na nossa correria. Pensei comigo que já que você vai ficar por aqui, eu poderia me estender mais um pouco, depois volto de taxi, claro, se você permitir.

— Não vão encontrar meu cadáver no freezer do Camus?

— Não, ninguém jamais encontraria, ele sabe esconder muito bem!

Ambos riram, o que aliviou um pouco o coração do grego, pois Shaka estava com todas as nuvens da Grécia em cima da cabeça.

— Vou ligar para ele e providenciar nosso jantar, sim? Enquanto isso você pode fazer uma daquelas infusões esquisitas, mas que me ajudam a não ter azia!

— Pode deixar comigo! E meus chás não são esquisitos!

— Ah sim, claro, esquisito é você! — disse já fechando a porta

Novamente sozinho, Shaka sentiu-se nauseado. Pois sim, precisava de um chá também.

O sebo era equipado com um topo de fogão de duas bocas, destes de acampamento e possuia também um banheiro, muito pequeno, mas com chuveiro. Shaka já morara ali afinal. Colocou a chaleira no fogo e entrou no banho, precisava afastar a lembrança do grego de sua vida da cabeça.

Mas seria difícil tirar da cabeça o que não saía do coração. Saga era dono e senhor dos seus mais doces sentimentos nos últimos dez anos.

E tudo indicava que o seria para sempre.