Mais forte que o amor.
19 ...um doce Sonho.
Notas iniciais
—Mas que porra é essa Milo?! Primeiro a menina, agora o Afrodite também?! O que caralhos você está fazendo?! – O loiro escutou pacientemente enquanto o outro lhe desferia palavras ferinas do outro lado da linha.
—Já estou cuidando disso, meu amor – Respondeu, em tom de deboche, após um longo suspiro.
—É melhor mesmo! Se esse filho da puta fizer algum mal-não, se ele tocar no Afrodite... É você quem vai se foder, Escorpião. Eu acabo com você.
—Você sabe que eu sou profissional, meu bem.
—Estou vendo o belo profissional que você é! Até agora só tem mostrado ser uma ótima puta!
—Não me lembro de ouvi-lo reclamar na cama, querido! – Rebateu, sentindo o seu sangue começar a ferver. Não conseguia entender a obcessão que o outro tinha pelo estilista. O rapaz não tinha nada, absolutamente nada de especial. Respirou fundo mais uma vez, tentando se controlar – Olha aqui, logo o seu loirinho vai estar livre de novo. Inteirinho e feliz, pronto pra correr para os braços daquele ruivo gostoso! Tá bom assim pra você?! E se continuar enchendo a porra do meu saco eu largo tudo do jeito que está e sumo sem deixar rastro! O garoto que se foda nas mãos daquele psicopata e você que vá tomar no meio do seu cu, ouviu?!
Sem esperar uma resposta, encerrou a chamada. Estava farto de ouvir reclamações. Resolveu voltar a se concentrar em procurar incansavelmente onde Máscara da Morte havia se enfiado.
Não podia se deixar abalar, tinha que continuar seu trabalho, mas aquela irritação não iria abandoná-lo tão cedo. Tinha ciúmes e inveja de Afrodite por, mesmo sem saber, dominar completamente o coração e a mente daquele que estava por trás de seus serviços. E isto era algo que dificilmente Milo conseguiria arrancar de dentro de si.
—--x---
Eu estava pirando de adrenalina e êxtase. Minha criança, minha bela rosa logo estaria novamente em minhas mãos. Mal conseguia controlar os impulsos de possuí-lo. Mas precisava ter paciência. Só mais um pouco e poderia desfrutar de todo o prazer de tê-lo mais uma vez só para mim.
Observei atentamente enquanto o carro que havia preparado para ele estacionava aos fundos da fábrica abandonada. Todas as câmeras instaladas me permitiam admirar perfeitamente o quanto ele havia ficado ainda mais belo e angelical. Deixei um pequeno sorriso se formar em meus lábios, levantando-me da cadeira onde estava sentado e deixando a pequena sala para trás. Queria ver com meus próprios olhos o momento em que ele entraria pela porta da frente do saguão, o qual eu havia iluminado especialmente para sua chegada.
Quando cheguei ao cômodo não precisei esperar muito. Seus passos se tornaram audíveis em questão de poucos minutos. Logo a porta de vidro estava sendo arrastada pelo loiro e a visão era uma verdadeira obra de arte. Um pedaço do paraíso parecia estar diante de meus olhos.
A luz alaranjada do nascer do sol era como se Deus estivesse abençoando aquele momento. Afrodite estava lindo em uma roupa simples e de cabelo curto. Seus olhos pareciam desprovidos de vida e sua expressão ao me ver, me deleitava. Observei cada mínimo detalhe, gravando tudo minuciosamente em minha memória. As pontas de meus dedos formigavam, meu coração palpitava e a única vontade que eu tinha era de correr até ele, arrancar-lhe as roupas de uma única vez e atacá-lo ali mesmo, sem me importar com mais nada e mais ninguém.
Respirei fundo, passando as mãos pelo cabelo com força e dando o primeiro passo em direção ao loiro.
—Seja bem vind-
—Cadê ela? – Ouvi-o indagar, o que fez com que eu interrompesse minha caminhada. – Cadê minha filha?
—Ah, a garota...- desdenhei, voltando a andar. — Tenha paciência mia rosa. Deixarei que a veja. – Respondi, parando a poucos centímetros de distancia de Afrodite, admirando-o vagarosamente. Não consegui conter-me e quando vi minha mão tocava a pele quente e macia de seu rosto. – Tão lindo...
Ao contrário do que eu imaginava o outro não me repeliu. Apenas senti sua mão cobrir a minha, afastando-a delicadamente. Seus olhos me encaravam sem o menor medo ou hesitação, o que foi suficiente para me fazer salivar.
—Primeiro a Lizzie. Depois você pode fazer o que quiser comigo.
Não contive uma gargalhada. Afastei-me alguns passos, sem tirar os olhos de si. Mal podia esperar para destruir toda aquela confiança, para transformar aquela expressão indiferente em um terror tão intenso que faria sua mente em frangalhos!
—Tudo bem... deixarei você vê-la. – Afastei-me a passos lentos, sentindo-o me seguir. Atravessamos o saguão e o guiei corredores adentro, depois de dois lances de escadas, parei diante de uma porta branca, destrancando-a. Saí de sua frente, indicando que Afrodite mesmo a abrisse. – Fique a vontade. Terá quinze minutos com a menina. Existem câmeras lá dentro, estarei monitorando-os aqui de fora.
Assim que o loiro entrou, saquei meu celular, observando tudo o que acontecia do lado de dentro. Observei a menina agarrar Afrodite em um abraço apertado e os dois chorarem por um tempo, conversaram sobre alguma coisa que não dei muita importância. E antes de seu tempo acabar, vi Afrodite entregar a pequena um objeto que guardava em seu bolso.
—O que foi que deu a ela? – Indaguei, assim que atravessou a porta.
—Apenas a chave de casa. Precisava tranquilizá-la de alguma forma. Se quiser pode verificar, não há nada de mais. – Respondeu, simples. Sorri, negando com a cabeça.
—Não, está tudo bem. Não há como rastrearem nada deste lugar. Estamos completamente isolados, isso não importa. Vamos? – Estendi minha mão e ele a pegou, caminhando ao meu lado. As pontas de seus dedos estavam frias, mas não havia qualquer tremor ou hesitação. Seus passos eram firmes e decididos e toda a sua postura era altiva, como eu nunca havia visto antes. Ele estava mesmo determinado a fazer o que fosse necessário, para o bem da menina. Não contive o pequeno sorriso que se formou no canto de meus lábios. Logo eu o teria apenas para mim, em meus braços. Quebraria cada pedacinho de sua alma e seria aquele que o faria suspirar pela ultima vez. Mal podia esperar para realizar esse tão esperado sonho.
—--x---
Eu não conseguia entender. Aquele monstro... por que apenas não me usava logo?! Eu sabia o quanto torturar e abusar alguém lhe dava prazer, havia passado por isso na pele antes, por que então fingia que nada iria acontecer?! Isso me deixava completamente confuso.
Estávamos em um quarto improvisado numa das salas da antiga fábrica. Uma cama dossel ocupava parte do ambiente, ao seu lado uma escrivaninha e do outro uma penteadeira, um pouco mais afastado estava uma mesa de vidro circular, de dois lugares, do lado oposto, uma porta de vidro.
Senti um leve toque em meu braço e, quando me virei, lá estava ele, bem a minha frente. Matteo, Carlo... ou qualquer que fosse o nome que estaria usando agora. Em suas mãos, uma muda de roupas.
—Tome um banho. Irei preparar o nosso jantar. – Falou, entregando-me a muda e apontando para a porta de vidro. – Ah, mas tire a roupa aqui. Quero me certificar de que não está escondendo nada.
Um sorriso se formou no canto de seus lábios. Finalmente estava começando e, mesmo sabendo disto eu não tremi. Havia ido até ali e não iria esmorecer agora. Arranquei a camisa que usava, por cima da cabeça, de uma só vez e abaixei as calças, junto com a cueca. Não iria dar o show que ele tanto esperava. Joguei minhas roupas num canto qualquer e dirigi-me ao banheiro ouvindo-o rir pelas minhas costas.
Encarei meu reflexo no espelho. Queria ter um plano, qualquer coisa que pudesse livrar a mim e a minha pequena das garras daquele sujeito sujo. Mas não havia brechas, não havia nada que eu pudesse fazer. Era me entregar pela liberdade de Lizzie, da minha florzinha, que já sentia como filha mesmo com tão pouco tempo de vivência. Enfiei-me embaixo do chuveiro, deixando que a água quente levasse as lágrimas e os pensamentos de como seria minha vida com ela e Camus, como seria nosso futuro se nada disso estivesse acontecendo, deixando que levasse os últimos resquícios de pensamentos bons que eu poderia ter.
Saí do banho com a mente em branco, completamente focado. Lizzie e Camus vivos e bem, era nisso que eu me agarrava para estar ali, era o que me dava coragem para continuar. Peguei as roupas que me foram dadas e foi quase impossível não ter uma reação. Meu coração parou por um instante e meu sangue gelou. O uniforme do colégio onde eu estudava na Suécia. Engoli seco. Ele queria que as coisas fossem assim, então assim seriam. Meu corpo tremia enquanto vestia as primeiras peças, mas em algum momento aquilo tinha se transformado em um ritual. Eu estava abandonando a nova vida que havia ganhado ao mudar para a França e agora vestia a pele do mesmo Afrodite de dez anos atrás. Alinhei o uniforme, observando-o cair perfeitamente em meu corpo, e abri a porta.
—Gostou da surpresa? Mandei fazer especialmente para esta noite. Não foi difícil achar suas medidas na internet. E, como me lembrava, ficou ainda mais belo com esta roupa. – Falou, aproximando-se e tocando uma mexa de meus cabelos. – Gostava mais dele longo, mas mesmo de cabelo curto, você não deixa de ser o ser mais lindo que já vi em minha vida. – Sua mão deslizou por meu rosto e alcançou uma de minhas mãos, puxando-a para cima e beijando-a. – Venha, vamos jantar.
Fui guiado até a mesa que estava devidamente posta. Dois pratos com um aparentemente delicioso spaghetti, acompanhados por um caríssimo vinho tinto, servido aos meus olhos, em duas taças de cristal. Eu o acompanhei naquele teatro, fingindo apreciar a comida, enquanto ele parecia saborear não apenas ela, mas sim tudo o que estava acontecendo.
—Você não imagina como foram difíceis os anos que passei sem você. – Falou, assim que se satisfez com o jantar. – Foi um longo tempo, e tortuoso também. Tive que ficar escondido, esperando a poeira abaixar. Não podia me dar ao luxo de ser pego, queria reencontrá-lo! – Ele se levantou, estendendo a mão para que eu o seguisse. Saímos do quarto, caminhando por novos corredores enquanto ele me contava o que havia feito no tempo em que se manteve escondido. — ... ai que percebi que não iria encontra-lo se continuasse no anonimato. Mas não podia ser um assassino qualquer, não acha? Foi então que experimentei algo novo. – Entramos em um novo ambiente, parecia um laboratório, mas com as luzes apagadas mal dava para ver qualquer coisa. — A primeira foi aquela mulher... minha intenção não era dela e sim da menina. Mas, mesmo assim, a sensação de cortá-la... não existe nada igual! – Ele alcançou o interruptor e as luzes se acenderam. Não consegui conter o grito que escapou de minha garganta, era um verdadeiro cenário de horror, que fez minha visão se turvar. Cabeças flutuavam em diversos tanques cilíndricos, algumas já em estado de decomposição. Meu estomago se revirou e senti meu corpo se dobrar para frente, o jantar voltando e sendo posto para fora. – Olhe! Consegue entender por que me chamam de Máscara da Morte?! Por que sempre levo as faces de minhas vítimas comigo!
Aquele homem era completamente demente! E mesmo eu sabendo do que ele era capaz, não havia conseguido me blindar totalmente. Estava sendo manipulado mais uma vez e não conseguia pensar em como não me deixar atingir. Não queria ver, nem mesmo respirar mais naquele ambiente.
—Mas você é especial, Afrodite. Você é a minha criança, o primeiro por quem eu me apaixonei e quem eu busquei em cada uma dessas pessoas. Todos eles estão aqui por sua causa!
—Cale a boca! – Gritei, sentindo meus olhos arderem. Não queria carregar aquela culpa, não queria ser o motivo de tantas mortes.
—Esta é a verdade! Eu matei todos eles por que queria você! E você é meu agora... Poderei amá-lo quantas vezes eu quiser! Poderei ouvir sua voz, sentir seu corpo... Fazê-lo gritar e destruí-lo pouco a poucos, cada vez mais...
—Para! Apenas... faça o que quer logo! – Eu não aguentava mais. Queria poder suportar tudo aquilo, mas era uma ilusão achar que poderia ser forte. Eu era apenas um homem quebrado, sendo feito em pedaços novamente. Senti as lágrimas quentes correrem por meu rosto. Não queria dar aquele gosto, mas já não suportava mais. Deixei minhas pernas cederem, caindo sentado no chão. Matteo abaixou-se, segurando meu rosto entre seus dedos.
—Finalmente está aqui... Estive ansioso para ver esses olhos. Os olhos de alguém completamente desesperado.
—--***
Não resisti quando ele me pegou nos braços e me carregou. Me sentia fraco e sem voz. Já havia desistido de tudo, deixei apenas que as lágrimas viessem. Fui colocado sobre a cama e o observei abrir as gavetas da escrivaninha, uma a uma, colocando diversos instrumentos sobre a mesma.
—Não precisa chorar agora, mia rosa, estamos apenas começando. – Falou. Com uma corda nas mãos, puxou meus braços para cima, amarrando os punhos na cabeceira da cama. Fui vendado e esperei pela mordaça, que não veio. – Quero ouvir sua voz, seus gritos implorando para que eu pare. – Ele disse, tocando meus lábios com as pontas dos dedos, como se lesse meus pensamentos.
Um cheiro estranho se fez presente. Era como algo queimando.
—Sabe, aprendi uns truques novos, acho que você vai gostar. – Dizendo isso, senti sua mão tocar meu peito, escorregando para meu mamilo esquerdo. Logo veio a dor, como um ferro quente atravessando minha pele e ali ficando. Um grito horrendo rasgou minha garganta e outro veio em seguida, quando o mamilo direito teve sua vez.
—VOCÊ. É. UM. MONSTRO!! – Meu corpo reagia sozinho e meus gritos saíram entrecortados. Minhas pernas tentavam acertar qualquer coisa que sentissem, para afastar. Não queria mais aquilo. Só queria ser deixado em paz. Senti meus tornozelos serem agarrados.
—Ainda não, bebê. Achei que aguentaria um pouco mais, mas já vi que terei de amarrar as pernas também...
—Me solte! Me deixe ir embora!! Eu não quero isso! – Gritei, meu corpo já doía de tanto tencionar e minha mente se embaralhava. Como ele queria que eu suportasse?!
Uma nova ferroada, dessa vez na mão. Senti meu dedo ser invadido por aquela peça minúscula e dolorosa, provavelmente uma agulha aquecida. Tentei impedir que continuasse, dobrando os dedos, mas só serviu para que eu sentisse minha pele se rasgar e um novo grito deixar minha boca.
—Era isso o que eu esperei por tanto tempo! Nunca pensei que seria tão maravilhoso ser paciente!
Ele se vangloriava e eu me sujava. Sentia-me ser tocado e machucado, minha pele sendo magoada por pancadas de chicote, meus músculos serem atravessados por qualquer objeto pontiagudo, meus punhos e tornozelos se rasgarem do esforço em me livrar das amarras. Sentia-me desfazer pouco a pouco. A medida que cada nova onda de dor era imposta contra meu corpo, minha mente se esvaía. Eu não era mais eu. Apenas uma casca insana.
Aquele som. Um leve zunido. Meu corpo estremeceu, um arrepio gelado subindo por toda a minha pele.
—Não. Não, não, não, não! Por favor, por favor!! – Implorei. Eu já sabia o que era. A dor que aquilo causava ainda bem viva em minha memória.
—Parece que você se lembra bem, não é?! Veja, como estou duro apenas de imaginar como isso vai te deixar por dentro! – Ele esfregou aquele falo nojento em mim. – Prometo que será enlouquecedor.
E, em um único impulso me sentir ser violado, completamente rasgado por dentro, o sangue escorrendo por minhas pernas. Um grito rouco saiu de mim. Eu não aguentaria mais. Eu não aguentava mais. Senti meu corpo flutuar e meu coração parar de bater.
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