Mais forte que o amor.
10 ... uma Visita Intrigante.
Notas iniciais
—... uma visita intrigante.
Camus Point of View.
Afrodite estava aninhado ao meu peito. Eu fazia carinho em seu cabelo, enquanto ele ainda tremia e chorava. Cada soluço seu me apertava o coração. Eu queria poder entender, ao menos saber de onde vinha tanto sofrimento... tanto medo. Com muito esforço, havia conseguido fazê-lo comer alguma coisa e tomar o remédio, para ao menos abaixar sua febre. A preocupação me corroía por dentro e, por mais que tentasse estava sendo difícil seguir a recomendação de Saga. Respirei fundo. Precisava saber o que o torturava tanto.
—Afrodite... – Chamei baixinho, vendo o loiro mover a cabeça, fitando-me com seus belos olhos azul-turquesa marejados. Quando estava prestes a perguntar-lhe o que tanto lhe afligia, ouvimos a porta se abrindo vagarosamente. Dela surgiu uma Lizzie sonolenta, esfregando os olhinhos, com os cachos desgrenhados e agarrada ao travesseiro.
—Flô! Você chegou! – Exclamou ao ver o loiro, o que o fez se encolher em meu peito.
—Shiii florzinha... fala baixinho que o Flô tá dodói. – Falei, aproximando-me da beirada da cama para ajuda-la a subir. Ela engatinhou pelo colchão, sentando-se de frente para Afrodite, que tentava limpar as lágrimas.
—‘Cê tá chorando Flô? Se machucou? Onde tá doendo?
—Eu to bem meu amor...- Afrodite respondeu, tentando acalmá-la. – É só dor de barriga. – A pequena se debruçou e abraçou o loiro, bem forte.
—Ta vendo, não pode fica ‘té tarde na rua, agora ‘ce tá dodói. – Ela bronqueou, de forma branda, o que fez um sorriso mínimo se formar nos lábios de Afrodite.
—Eu não queria preocupar vocês, me desculpa? – Pediu o loiro.
—Discupo. – A menina respondeu, apertando ainda mais o abraço.
—Lizzie? – Chamei. Sem desgrudar de Afrodite, ela levantou o rosto para me encarar. – Posso te pedir um favor? – A loirinha fez que sim com a cabeça, empolgada. – Você cuida do Afrodite pra mim? Eu vou levar essas coisas pra cozinha e fazer seu café...
—Tá! Eu cuido do Flô sim! – Ela disse, soltando ele e se levantando. – Peraí!
Lizzie desceu da cama e saiu correndo, retornando com três bonecos e um bichinho de pelúcia. Aproveitei para me levantar também, deixando Afrodite deitado na cama e ajudando-a a subir novamente.
—Vô conta uma história pra você Flô! – Afrodite moveu a cabeça de forma positiva e a menina começou o conto de fadas. Deixei-os a sós, após recolher a louça suja e encaminhei-me a cozinha.
Enquanto ainda preparava o café de Lizzie, o interfone tocou. Já passava das oito da manhã, mas ainda assim não era um horário em que recebíamos qualquer notificação da recepção ou do síndico. Estranhei e me apressei para atender, anunciando-me.
—Bom dia, senhor Camus, desculpe incomodá-lo há esta hora.— Desculpou-se Renée, o rapaz que cuidava da portaria do prédio.
—Não precisa se preocupar quanto a isso. – Tranquilizei-o — Algum problema?
—Não... é... bem, é que tem um senhor aqui embaixo que insiste em dizer que é amigo do senhor Afrodite e que precisa falar com ele. Seu nome é Mu e ele parece muito preocupado. O que eu faço?
Mu. Lembrava-me pouco dele, havia nos visitado apenas uma vez após nos casarmos. Era amigo de Afrodite, o único da Suécia com quem ainda mantinha contato. “...lembro de ter saído do ateliê, passado no shopping e, quando estava a caminho de casa o Mu me ligou... a partir daí, não lembro de nada.” . A voz de Afrodite se repetia em minha cabeça. Mu com certeza tinha algo a ver com o atual sofrimento de meu marido, ou ao menos deveria saber o que estava deixando o loiro tão transtornado.
—Pode deixá-lo subir. – Dei a permissão e ouvi-o responder com um “Certo” baixo e desligar o aparelho. Não demorou muito para que a campainha tocasse.
Abri a porta, deparando-me com o rapaz de cabelos estranhamente em tons de lavanda com um garotinho de cabelos alaranjados nos braços. Os dois pareciam-se muito, exceto pela cor dos cabelos e as pintinhas que povoavam o rosto do menor.
Mu estava visivelmente ansioso e, assim que me viu, tratou de colocar a criança no chão e estender a mão, em um rápido cumprimento.
—Desculpe-me por vir a esta hora, mas estou muito preocupado com o Afrodite, ele não atende minhas ligações desde ontem. Ele está? – O outro atropelava as próprias palavras e gesticulava de forma nervosa. Indiquei que entrasse e assim o fez, segurando o garotinho pela mão.
—Está no quarto, descansando. A bateria do celular dele deve ter descarregado. É... Mu, certo? Afrodite me contou que conversaram ao telefone ontem à noite...
—Sim! Eu precisava falar com ele urgente! Não podia imaginar que- – O rapaz parou de falar ao encarar meus olhos, enquanto o guiava ao quarto, onde Afrodite repousava. – Nã-não podia deixar de... contar a ele que... estava na França... a-a trabalho.
Mu estava ainda mais nervoso e a conclusão de sua fala não condizia em nada com o inicio dela. Suspirei, tentando entender o que aquilo poderia significar.
—Papai, onde a gente tá? – O garotinho, que agora descobri ser seu filho, indagou ao mais velho.
—Na casa de um amigo. Já te falei dele, Kiki, lembra? O Afrodite.
—Aaa ta! – Exclamou, com um enorme sorriso no rosto.
—Só peço que fale baixo, Afrodite não está muito bem hoje. – Avisei-os, abrindo a porta.
—Aí, a Punzel pegou a espada que os nanões deram pra ela e matou o Daragão! Aí ela subiu na torre para salvar o pirincipe! – Lizzie contava uma história, baixinho. Com uma das mãos, fazia a boneca de cabelos longos subir pelas pernas de Afrodite, parando ao chegar no alto de sua cintura, onde um boneco de roupa azul estava deitado. – Só que aí ele tava dormindo, porque a bruxa deu a maçã com uma agulha, lembra? – Afrodite fez que sim e a menina prosseguiu. – Então, aí a Punzel beijo o pirincipe e ele acodou!
—É mesmo?! E aí? – O loiro indagou, esperando a conclusão da história.
—Aí que eles se casaram ué! E viveram felizes, com um bebe pirincipe e uma bebe pirincesa!
Afrodite riu, levando as mãos às bochechas da menina, que riu junto. Era tão belo vê-los assim que meu peito se enchia de uma sensação calorosa que, por alguns instantes, me fez esquecer de que haviam visitas. Balancei a cabeça, afastando o devaneio.
—Afrodite... – Chamei-o. O loiro virou-se cuidadosamente em minha direção. – Tem alguém que deseja vê-lo.
Abri o restante da porta, dando passagem ao rapaz de cabelos coloridos e sua criança. Os olhos de Afrodite brilharam ao ver Mu. A reação foi imediata: como não aguentava levantar da cama, sentou-se rápido de mais, o que o fez ter uma vertigem e tontear. Corri para segurá-lo antes que tombasse da cama.
—Não se esforce de mais. – Pedi, ajudando-o a se arrumar direito na cama, enquanto o loiro se recuperava. Mu permanecia na porta, estático. Em seu rosto a preocupação estava estampada.
—Dite... Eu... eu..
—Mu! É tão bom vê-lo depois de tanto tempo! – O loiro interrompeu-o. Ainda estava entusiasmado, mas não tão afobado. – Desculpe, parece que eu não acordei em um bom dia hoje. Entre! Precisamos conversar!
Mu hesitou, mas entrou no quarto, aproximando-se e sentando delicadamente na beirada da cama, seguido por seu filho, o qual colocou em seu colo.
—E quem é esse rapazinho lindo? – Afrodite indagou, curioso. Lizzie apenas observava os estranhos a ela, sem dizer nada, meio escondida ao lado do loiro.
—É... meu filho. – Respondeu Mu. Afrodite arregalou os olhos e abriu a boca.
—Você não me contou que tinha casado!
—E não casei! É uma longa história...
O loiro encarou-o, cheio de curiosidade.
—Mu? Posso levar seu filho para tomar café? Assim você e Afrodite ficam mais a vontade para conversarem. – Sugeri. O próprio Kiki respondeu, balançando a cabeça em positivo e descendo do colo do pai. Peguei uma de suas mãozinhas e guiei-o até a porta. – Lizzie, vem? – A loirinha desceu da cama num pulo e agarrou minha mão livre.
Por mais que não estivesse nas melhores condições, ver o amigo havia renovado os ânimos de meu marido e, por mais que meu instinto me dissesse que o tal Mu havia contribuído para que o loiro ficasse tão abatido, o que meus olhos viam agora era apenas um Afrodite cheio de entusiasmo. Deixei-os a sós. Era o melhor a ser feito, pelo menos por hora.
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