Mais forte que o amor.
20 ... um único fim
Notas iniciais
Meu pé afundava o acelerador do carro. Não me importava nem um pouco com Shaka agarrado ao cinto de segurança e muito menos com as outras viaturas que eu deixava para trás. Queria apenas chegar logo, encontrar Afrodite e Lizzie ainda a salvo.
Eu não sabia qual a sua pretensão, mas com certeza estava devendo uma ao Escorpião. A localização que me enviara mais cedo era minha única esperança.
—Tenho algo para você, Detetive Camus. – A voz distorcida anunciou do outro lado da linha.
—Você não se cansa de desperdiçar o tempo da polícia com os seus joguinhos?!
—Acalme-se. Com certeza é algo que vai lhe interessar, e muito. Uma localização. Mais especificamente, o paradeiro do Serial Killer.
—O que?! O que você quer em troca? – Indaguei. Nada vindo dele era de graça.
—Nada. Apenas... deixe-me cuidar dele e o prêmio será todo seu. Mas é melhor que chegue o quanto antes, ou pode ser tarde de mais.
Ele respondeu, encerrando a chamada em seguida. Segundos depois uma mensagem com um mapa e o endereço chegou ao meu aparelho celular. Não pensei duas vezes em mobilizar as viaturas e correr para o lugar. Shaka estava na delegacia na hora e, por bem ou por mal, agora me acompanhava a caminho do meu destino.
Como era de se esperar, a pista estava deserta. Aquela era uma rota antiga, o caminho mais longo para a saída da cidade, uma região repleta de prédios de fábricas abandonadas. O GPS apitou, indicando a proximidade com o ponto de chegada. Ao longe pude ver, um prédio isolado, de tinta descascada e ferrugem por grande parte de sua extensão. Enterrei ainda mais o pé.
—Camus! Precisamos chegar lá vivos, o não adiantará de nada! – Ouvi Shaka praticamente gritar ao meu lado, os olhos saltados e as mãos segurando com firmeza no painel do veículo.
—Ele está com Afrodite! Se não chegarmos logo...
—Primeiro precisamos chegar! Meu amigo, por favor se acalme!
Não houve muito tempo para calma, cada metro passou em milésimos de segundos e o desespero me fez rodar o carro em um cavalo de pau ruidoso em plena avenida. Abandonei o veículo com a arma em punho, Shaka me seguindo de perto.
A porta de aço que deveria proteger a entrada estava levantada, deixando amostra a porta de vidro. Do lado de fora era possível ver que não havia nada nem ninguém lá dentro, porém, ainda devia haver câmeras de vigilância.
Não demorou muito para que as outras viaturas chegassem ao local, cercando o prédio.
—Camus! Tem certeza de que este é o local? – Dohko indagou, aproximando-se, também alerta.
—Iremos descobrir agora, senhor – Respondi, vendo-o dar o sinal positivo para que entrássemos. Deixei Shaka para trás, invadindo a fábrica. Meus olhos vasculhavam cada canto, observando com enorme precisão cada centímetro do lugar, mas parecia completamente abandonado. O coração batia forte no peito e meus instintos estavam todos extremamente aguçados. Seguimos para os próximos andares, arrombando portas e mais portas, sem nada encontrar.
—Detetive Camus! – Ouvi Shura chamar, ele estava de frente a uma porta ao final do quarto andar. – Encontramos algo. — Corri até ele. A porta era exatamente igual as outras, de aço sem tintura ou qualquer fresta que indicasse o que havia do outro lado. – Esta daqui está realmente trancada. Acha que-
Bati na porta com força, ouvindo o baque reverberar pelo corredor. Meu peito doía, o coração sendo esmagado por um sentimento indescritível, como se eu estivesse prestes a enfartar. Queria estourar o trinco da porta e ver com meus próprios olhos o que havia do outro lado, mas precisava ter o mínimo de cautela.
—Se houver alguém ai, por favor responda! – Gritei, ficando em silêncio em seguida. Então pude ouvir um choro baixinho. – Lizzie? Lizzie, é você?!
—Cami... ra...qui... corro.. – A voz doce era quase inaudível, mas para mim já havia se tornado quase impossível não ouvi-la. Um enorme alívio se apossou de mim e senti meu peito esvaziar em um suspiro.
—Pequena, se estiver me escutando, bata na porta com força. – Pedi, falando o mais alto que pude. Um baque veio do outro lado.
—Certo, preciso que se afaste, está bem? Vou tirá-la daí. Quando eu terminar de contar até cinco é para você estar o mais longe que puder! Um. Dois. Três. Quatro. Cinco!
Apontei minha arma para o trinco, dando um tiro e estourando o mesmo. A porta se escancarou e eu entrei, procurando ávido pela menina, que se encontrava agachada no canto, escondida atrás de uma cama.
—Lizzie! – Chamei, pegando-a nos braços e apertando-a contra o meu corpo. – Minha pequena!
—Cami! Eu tive tanto medo! – Ela falou, chorando e agarrando-se a minha farda. – O Flô! Ele levou o Flô!
—Vai ficar tudo bem agora meu amorzinho... Eu vou pedir para você ir com o tio Shura, o tio Shaka está esperando lá fora e vai cuidar de você. O Cami tem que ir resgatar o Flô. – Olhei Lizzie nos olhos. Ela parecia entender o que eu realmente queria dizer. Apesar de ainda parecer estar com medo ela me soltou, mas antes de ir, tirou algo do bolso do vestido puído que usava. Era a chave de Afrodite.
—O Flô me deu. Nós vamos voltar pa casa juntos. – Ela apertou o objeto contra o peito e seguiu até Shura. O policial levou-a pela mão.
Segui com a busca. Nossos homens já haviam dissecado quase todo o lugar, sem sinal de Afrodite ou do Serial Killer. Mas se Lizzie estava ali, meu marido também devia estar. Meu coração me dizia isso.
Nos deparamos com um corredor iluminado e bem arrumado no ultimo andar. Todas as portas trancadas e fomos arrombando uma por uma.
—Camus! Veja isso! – Dohko me chamou e eu corri até ele. Do outro lado da porta havia um laboratório com vários tanques enfileirados. Em cada um deles havia uma cabeça, mais especificamente as cabeças das vítimas de Máscara da Morte. Mas um tanque permanecia vazio. Cerrei os punhos, deixando a sala.
—Precisamos encontra-lo logo Dohko! Ele está aqui, tem que estar! – Caminhei a passos largos para a próxima, abrindo-a no chute. Nada, apenas outra sala vazia. Atravessei o corredor, mirando na ultima porta que restava daquele lado, já impaciente, Aldebaram cuidava de abri-la no braço.
—Deuses... – Ouvi-o murmurar ao me aproximar, seus olhos arregalados e a expressão de espanto. Meu coração saltou no peito e eu corri, empurrando-o e adentrando o cômodo. Eu não queria acreditar no que os meus olhos estavam vendo. Um misto de alívio e ódio me tomou. Caminhei vacilante, abaixando-me ao chegar próximo a cama. Afrodite estava lá amarrado, vendado, deitado e inconsciente. Seu corpo cheio de marcas, feridas e hematomas. Agulhas perfuravam diversas partes de seu corpo, cera de vela e pontas de cigarro espalhavam-se por sua pele. Um chicote com pontas de ferro jazia entre suas pernas, ao lado de um cinzeiro e uma espécie de controle. Um zumbido contínuo me fez entender o que era. Peguei o objeto entre os dedos, apertando o botão de desligar e ouvindo o zumbido cessar.
—Camus, é melhor...
—Deixe-o Aldebaram, ele precisa disso, vamos procurar o maldito. Mandarei a equipe médica subir. – A voz de Dohko foi desaparecendo aos poucos e eu o agradeci.
Senti minhas narinas arderem e meus olhos se encherem d’água. Minha garganta se fechando e as mãos tremendo. Aproximei-me de seu rosto, tocando a pele macia e retirando a venda de seus olhos. Lágrimas secas marcavam a pele branquinha e intocada. Acariciei seus cabelos, sentindo-os curtos, mas não me importei. Soltei seus braços das amarras, tocando com delicadeza em suas feridas. Queria arrancar tudo aquilo que o estava fazendo sofrer, mas não devia, poderia apenas machucá-lo ainda mais. Cobri seu corpo com um lençol e sentei-me ao seu lado, acariciando seu rosto suavemente e deixando as lágrimas transbordarem de meus olhos. Nunca perdoaria quem havia feito aquilo com meu marido. Faria questão de vigiar para que pagasse por tudo, por toda a dor que Afrodite havia sofrido, em dobro.
Afrodite se mexeu, seus olhos se abrindo assustados e seu corpo se debatendo em terror. Gemidos e gritos escapavam de seus lábios, até que consegui segurá-lo pelos ombros, fazendo suas íris se encontrarem com as minhas.
—Ca...mus...
—Está tudo bem, eu estou aqui. – Pedi, encaixando seu rosto entre minhas mãos. Afrodite tentou se afastar, mas gemendo de dor e abraçando o próprio corpo no processo.
—Não... vá embora... você não pode me ver assim... estou tão sujo... – Os soluços engoliam suas palavras e as lágrimas vertiam por seu rosto. – Por favor... É tudo culpa minha...
—Ei, eu não vou a lugar algum. Ficarei ao seu lado. Nada disso é culpa sua.
—É tudo culpa minha. Eu sou imundo... – Ele moveu a cabeça em negativa.
—Não, não é. Vai ficar tudo bem agora, mon ange. Vou cuidar de você e da nossa pequena. Vamos voltar para casa.
—Eu não posso. É a mim que ele quer! Enquanto não me tiver, nunca nos deixará em paz! – O loiro se agitou novamente, derrubando um frasco de lubrificante, o que fez meu olhar se desviar. Sobre a penteadeira uma polaroide assinada para mim. Na foto, Carlo Benetti sendo eletrocutado.
—Não precisa mais se preocupar com isso. Ele já foi capturado e irá pagar por tudo o que fez. – Falei, convicto. Mesmo sabendo que era errado, meus pensamentos torciam para que o Escorpião torturasse aquele maldito até ele suplicar pela morte.
—Então... acabou? – Seus olhos bem abertos me encaravam cheios de expectativas.
—Sim, finalmente acabou, meu amor. – Selei um beijo em sua testa e finalmente Afrodite me abraçou. O pesadelo havia acabado, finalmente tinha o meu amor de novo em meus braços e iria cuidar para que isso nunca mudasse.
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