Mais Um Café, Por Favor

1 Mais um café, por favor


A chuva caía serenamente na janela, um barulho tranquilizante surgia e trazia uma calma inigualável. Faltavam apenas dois meses para o fim do ano letivo e as dúvidas surgiam com mais frequência. Uma nostalgia aguda atinge aquela fria garota que, lendo um fragmento de uma crônica qualquer, cessa todos seus pensamentos para viver um instante com um gostinho de passado na boca. Sempre preferia deixar tudo de lado e apenas tentava sobreviver a mais um dia frustrante.

Foi no momento em que pegou a xícara de café e sentiu aquele gosto doce, que a imagem de seu amor passado surgiu e inundou todos os outros pensamentos inúteis. Antonie. Olhos escuros e brilhantes como jabuticabas à luz da lua, um sorriso torto e bem amarelado, covinhas que ele próprio detestava e por fim uma mancha de nascença abaixo da orelha esquerda. Um choque de realidade a trouxe de volta para seu porto seguro. Ela odiava pessoas apegadas a coisas antigas, roupas velhas e até mesmo o ódio surgia por aqueles que se negavam a mudar. Não queria mais do mesmo. Tempo passando. Anseio por inovação.

Pegou sua camisa xadrez favorita no armário, passou um pente nos fios claros e saiu em direção à rua. Não se importava com as gotas escorrendo por sua face e continuou caminhando até não ter mais forças para fugir da rotina. Sentou no banco mais próximo daquela pacata praça. Nada parecia ter cor. Tonta como estava, sentiu de novo aquela incerteza do futuro, mas também não conseguia esquecer-se da paixonite de verão. O vento soprava com mais ferocidade e a instigava a voltar para casa. Mas não, continuou ali, parada e angustiada com aquela força que a puxava de volta ao começo. Ela criava teorias o tempo todo, sobre tudo, e talvez gostar do menino azedo e marrento fosse apenas mais uma consequência disso. Passa tanto tempo criando expectativas, justificando os fatos e se esquecia de conter o sentimento.

A chuva começava a engrossar. Sentiu uma necessidade imensa de entrar na cafeteria mais próxima e degustar aquele líquido doce, seguido de mais uma porção de nostalgia. Iniciou então uma caminha pelas poças lamacentas da calçada toda esburacada. Estava tudo deserto, esse era um daqueles dias em que as pessoas preferiam evitar o suspiro por um dia aparentemente sem cor. O som de um sapato de borracha se aproximando lenta e delicadamente a fez notar a presença de alguém ali por perto. Ela olha para trás e a imagem do ser distante não era ainda nítida. Os traços vão se tornando mais visíveis. A garota encontra o tal café, mas para por um tempo na porta, até o corpo se aproximar mais um pouco. Ele passa, alto e todo confiante em seu andar. Ela sentiu um frio na barriga, um nó na garganta, ao olhar abaixo da orelha esquerda. Segura a respiração por alguns segundos. Não, ele não tinha a tal mancha de nascença. Aquilo não era um conto de fadas e nem teria um final feliz. Entrou no estabelecimento, pediu um chá amargo e apenas se afogou em dias que não voltam mais.

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