Mais Simples

1 A expressão mais simples



Mais simples...

...seria se eu fizesse Regina entender que não haviam perfeições no mundo do amor criado por ela. Quem dera eu pudesse fazê-la enxergar seus defeitos perfeitos – as únicas perfeições dentro da mente frustrada por não ter sido compreendida por quem amou.

Embora eu não fosse diferente e tenha um dia dito as mesmas palavras que ela, sofrido as mesmas dúvidas e desejado ardentemente aqueles que passaram pela minha vida amorosa, me dou o luxo de ser livre para sentir desmedidamente. Talvez ter me libertado foi a descoberta tão almejada sobre o amor e suas lendas. Em todas as vezes eu amei muito mais do que devia e sempre tarde ou cedo, nunca num equilíbrio. A não correspondência parecia-me um veneno ainda mais mortal se eu decidisse ir embora. Eu fui embora em duas ocasiões. Nessas eu soube que não estava amando – porque amar nunca nos escraviza a esperar pelo mesmo. Ele é sentimento de um só para todo um só.

É sobre-humano amar
'cê sabe muito bem...

Reencontro Regina no momento mais conturbado do meu psicológico, prestes a superar as promessas nunca cumpridas do passado, mas infinitamente convencida de que amar está além do que eu fui para qualquer pessoa. Ela está tão próxima de mim e, ao mesmo tempo, tão distante alienada em ansiedade. Minha amiga de infância hoje é uma mulher viajada, infinitas vezes mais bela do que a moça que passava noites dividindo suas expectativas de futuro comigo. Estou feliz por ter sua amizade e tempo de volta, mas custou duas semanas de três meses para enxerga-la em tudo ao meu redor. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, não com Regina, e me convenço de que sempre a amei em segredo.

Mais quarenta finais de tarde sentadas numa mesa para duas pessoas num café e decoro suas façanhas sexuais contadas com muita intimidade. Ela confia em mim, é isso que importa. Nem tanto o arrependimento por ter sido jovem e inconsequente ou a ausência de cartas suas direcionadas a mim. Ela mesma admite que se esqueceu que eu existia. Agora ela é adulta, divorciada e vagamente submissa a uma procura pela felicidade.

É sobre-humano amar, sentir, doer, gozar... ser feliz
Vê que sou eu quem te diz
Não fique triste assim

— Acha que sou eu o problema? — ela pergunta numa dessas tardes, encarando meus olhos pouco marejados.

— Não, com toda certeza. Entramos em relacionamentos às vezes (na verdade quase sempre) exigindo aquilo que nem nós sabemos se podemos oferecer. — sou eu quem falo para ela, e essa é minha primeira opinião.

— É ruim desejar em demasia o que não está ao nosso alcance. — reflete ela, girando a colherinha de açúcar numa xícara.

— É humanamente natural desejar tudo o que não pode ser nosso. Mais difícil aceitar que existe felicidade no que está ao nosso alcance.

Ela concorda com essa afirmação, e nossas conversas sempre terminaram na mesma reflexão. Gosta de comparar o que sentia pelo homem com quem se casou ao seu amor por fotografia. Almejava amá-lo tanto quanto amava sair sem rumo para fotografar paisagens incomuns e revelar as fotos para emoldura-las. Mas eu lhe disse que isso era uma rotina e em relacionamentos rotina não era sinônimo de conforto.

É soberano e está em ti querer até muito mais

Um dia após o quarto mês da retomada da nossa amizade, ela me lembrara da rotina de fotografar lugares exóticos de uma forma muito sutil. Me trouxe um quadro com a paisagem imortalizada, um pôr do sol caindo entre montanhas. Disse-me que era um presente pelas sábias palavras que ela jamais esquecerá, que ela lembra das nossas conversas enquanto fotografa e que sou um presente trazido por um anjo na noite de natal.

Não desejo ser seu presente, muito menos ser vista como a amiga conselheira. Minha pele e peito não deixam dúvidas quanto aos meus sentimentos por ela quando se aproxima e dirige suas mãos em torno de mim.

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Ela me chama para seu estúdio, quer me fotografar para eternizar, como ela mesma gosta de dizer, meu rosto iluminado. Regina não sabe que estou amando cada detalhe seu a cada dia que passa. Quando conheço seu apartamento depois de ter ouvido atentamente tudo sobre sua vida, entendo os riscos em que me coloco se me entregar.

— Sorria, Emma! — ela pede de certa distância. Estou dura, sentada na cadeira sem encosto do estúdio fotográfico. Há uma enorme parede branca atrás de mim, um refletor pouco distante do meu rosto a frente e o tripé com a câmera e ela pronta para disparar. O meu sorriso acontece apenas porque vejo seus olhos por trás da lente da câmera, seu momento mais espontâneo e quando ela pode me oferecer tudo o que é mais importante em minha vida. E ela sorri de volta, sem perceber que está encontrando sua felicidade nesse instante.

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer

A foto fica pronta em três dias. Regina é adepta do modo antiquado de revelação, algo gradual e complexo para mim que não tem qualquer talento para arte. Enfim entendo o amor dela pela fotografia, e entendo ainda mais suas questões amorosas. Ela sempre vai procurar em alguém a proporção de prazer que aquele processo de eternizar, escolher e revelar lhe oferece.

— As pessoas não são como as fotos, Regina. Elas são seres humanos, embora possam ser belas tanto quanto suas fotos. Não podem ser escolhidas por você, não podem ser manipuladas, mudam com o tempo. Os homens com quem esteve nunca se igualariam ao que elas representam. Quando você deixar de tratar a sua vida amorosa como trata a profissional vai ser capaz de encontrar o que está faltando. — digo e noto um nervosismo nela que nunca esteve presente.

— Há algo que preciso dizer — ela interrompe meu raciocínio, levanta os olhos para mim e fala como se eu fosse a única pessoa no mundo capaz de ouvir aquilo. — Estou com medo por que pela primeira vez na vida acho que encontrei quem eu sempre quis encontrar.

Eu sabia que acabaria sendo surpreendida por essas palavras um dia. Regina estava apaixonada, e esse tempo todo meus conselhos só a incentivavam a se dar uma nova chance. Amando escondida, disfarçada de amiga, meu inferno começara a partir desse dia. Regina nunca mais teve palavras sobre si, duvidas que eu pudesse abafar com as minhas reflexões por ter vivenciado quase que exatamente o mesmo. Eram ideias sobre um futuro com o sortudo por quem estava se apaixonando. Eu me convencia de que uma hora nos meses seguintes, nossa amizade seria apenas um detalhe para incluir na minha biografia escrita. Pelo menos algo que eu mesma dissera tinha sido comprovado, eu deixava de ser um mero ser humano quando falava de amor para Regina. Já não me doía ensiná-la que tempo é um remédio abençoado para corações amargurados ou quando dizia que o que ela procurava no outro na verdade era o amor que ela era capaz de sentir por si só.

É sobre-humano viver
E como não seria?
Sinto que fiz esta canção em parceria com você

— Simples assim? — ela pergunta em outra ocasião.

— A beleza da vida está nas coisas mais simples, minha amiga. — Quem me dera poder chama-la de “meu amor” um dia.

Talvez houvesse algo que eu devesse cogitar quando Regina iniciava o discurso de seus planos. Ela nunca se referia a pessoa em questão como um homem. Era sempre “essa pessoa”, “esse alguém” .

— Se está tão envolvida porque não diz logo como se sente para ele?

— Essa pessoa é muito sensível, tenho medo que esse alguém se afaste de mim quando eu decidir abrir a boca sobre o assunto.

Mesmo que me machucasse, decidi ajudar Regina a ter coragem, afinal, eu a amava e na minha cabeça amá-la era deixa-la livre, ensinar a ser livre de corpo e alma. Estava disposta a ajudá-la a se superar depois das más impressões que seus relacionamentos deixaram anteriormente.

— Às vezes precisamos correr o risco. — eu disse entregando um suspiro tolo de voz. — Sofremos por antecipação quando um sentimento muito grande está em jogo. É possível escolher esperar o milagre ou você fazer o milagre, mas nem um dos dois acontece sozinho. Se você tem medo de correr riscos, talvez nunca se iluda, nem sofra como os que têm coragem. Mas um dia quando estiver olhando para trás – pois não há quem não faça isso uma vez na vida – vai escutar uma voz bem lá no fundo dizendo: “O que você deixou de viver jamais deve ser lamentado, foi uma escolha própria, desperdiçada. Não ouse chorar pelo medo de perder o que jamais foi seu.”

— Não sei se suporto não ser correspondida. — Os olhos castanhos dela brilhavam.

— É muito provável que isso ocorra, porque algumas pessoas não entendem que amar é sublime e soberano ao mesmo tempo. Só quem tem hombridade pode assumir um sentimento tão digno. Não sofra, se deixe livre para continuar sua jornada. Há quem mereça muito mais o seu amor. Você quer ser aceita por alguém, apenas liberte-se das amarras que sua alma impõe, e aí quando piscar o olho talvez nem precise amar de perto. — Foi o momento em que quase me entreguei.

Regina deixa a mesa onde estamos sentadas e parte sem me dizer um simples Adeus. Foi como tocar em uma ferida aberta, como vê-la sofrer pela primeira vez. Talvez minhas palavras, por mais delicadas que fossem, tenham a desencorajado.

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Todas as manhãs em diante acordo cedo e saio para escrever sempre no mesmo lugar, onde minha amizade com Regina se iniciou. Um banco na beira de um lago próximo do bairro onde vivemos toda a infância. Coloco nas folhas de um caderno as palavras impossibilitadas de serem ditas a Regina e que talvez eu nunca seja capaz de confidenciar a alguém como ela. Até que em certa manhã, quando meus dedos começam a latejar onde fazem calos, escuto o som de passos triturando folhas velhas no chão. Meu coração dá um salto, mas não me permito acreditar no que ele está pressentindo.

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter como se já não fosse a coisa mais humana
esquecer

Ele está certo, e ela se senta ao meu lado no banco de frente para o lago. Não preciso virar meu rosto para vê-la, ela está me olhando, me esperando. Veio acompanhada de um envelope pardo que retirou do bolso do enorme sobretudo. Suas mãos correm pela aba do envelope e a curiosidade me faz parar para ver. Ela retira a minha fotografia, o meu sorriso e me estende.

É sobre-humano viver
E como não seria?
Sinto que fiz esta canção em parceria
com você

— Sabe quanto tempo levei para saber que você estava apaixonada por mim? — pergunta como se novamente eu fosse a única pessoa capaz de ouvir.

Não respondo. Me mantenho quieta, olhando meu sorriso eternizado na foto. Não esperava nada de Regina, nenhuma palavra de agradecimento, nenhuma declaração. Eu estava convicta de que amava sozinha.

— No momento em que revelei esta foto. É o sorriso mais espontâneo que já vi em toda minha vida. Ninguém nunca sorriu assim para as minhas lentes. Eu não sabia que era possível encontrar o amor na expressão mais simples de alguém.

Me sinto tensa, mas muito pronta para olhar seu rosto e concordar.

— Você não conhece o poder de um sorriso sincero? Nunca experimentou se observar quando olha para a pessoa que ama e se pega sorrindo? Essa foi minha expressão mais simples para você. Achei que disfarçaria bem, mas acabei me entregando.

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Ela se encheu de algo encantador ao me ouvir. Não conseguia disfarçar a emoção, era como se tivesse compreendido meus discursos sobre amar e queria desesperadamente falar sobre aquilo.

Entreguei a ela o caderno.

— São todas as coisas que você me disse esse tempo todo?

— Um resumo em poesia. Um dia pode virar uma música.

Seu sorriso para mim foi espontâneo e ela compreendeu mais uma vez.

— Estava ali na minha frente o tempo todo e eu não enxerguei. A felicidade diante de mim e meu egoísmo me cegou quando eu devia ter notado a forma como me dizia aquelas coisas.

— Porque nós nunca damos valor ao que parece certo. — tento afastá-la.

— O oposto de nós atrai mais. Não devia ser assim. Obrigada. — ela agradece e tenta devolver o caderno.

— Não, fique com ele e termine a música, eu nunca teria pensado nessas palavras se não fosse por você. Quando terminar dedique àquela pessoa por quem você se apaixonou. — Nunca pensei que não fosse doer dizer isso a ela, mandar ela entregar algo que escrevi para ela a outra pessoa, mas não doeu, pelo contrário, me fez bem. Era como estar entregando meu coração para ela tomar conta sem medir as consequências. Meu ato mais nobre.

— Vai ter a audácia de me pedir um favor desses?

— Não é um favor que faz para mim, é um favor que faço para você. Conquiste-o com a música que fizemos juntas. Pelo menos será um presente feito por amor ao amor. Se ele for sensível como me disse, ele vai se apaixonar por você no instante em que ler esse caderno. — eu espero ela me fitar e ela o faz aos prantos, de alegria.

— Então tome, é seu. — Já não pode esconder o que veio fazer ali além de me mostrar minha foto.

Meu peito dá um novo salto, tentando libertar minha alma e correr ao encontro da alma de Regina.

Eu sabia que nada havia sido em vão. Cada lição de amor aprendida na dor me ensinara a construir um novo eu. Consequentemente ensinei Regina a me amar mais livre para se entregar ao que estava preso em nós duas.

É sobre-humano amar
'cê sabe muito bem...

Ela fixou seus olhos nos meus, escorregou pelo banco e estava próxima de mim. Tocou meu rosto, afastou meus cabelos junto ao vento e veio ao meu encontro. Nos beijamos, abraçamos com toda a força. Mordi seus lábios, senti sua língua se mover contra a minha. O beijo que eu havia esperado tanto e nunca tive certeza se aconteceria. Minhas memórias se tornam turvas e falhas, sei apenas que nosso beijo é sua prova de amor e que Regina estava na verdade apaixonada por mim. É como se nossa entrega ao beijo fosse o resumo da minha vida, da vida dela, de qualquer alguém que espera, sonha e busca amar desse jeito. Estamos enlevadas, deixando esse amor reprimido se libertar.

Tudo parece um sonho desde que a reencontrei. Tudo o que imagino esses meses todos é leva-la comigo, antes e depois que as folhas da árvore acima de nós caiam com o peso do inverno.

Estou livre, ainda mais do que achava ser. Livre para virar minha cabeça e vê-la ao meu lado todos os dias a partir de hoje. Livre para sentir esse mesmo beijo outras tantas vezes, casando nossas almas.

Nesse minuto de beijo estão todas as tentativas ditas a Regina no intuito de fazê-la compreender a grandeza do amor e a simplicidade de amar.

Notas finais
Bom, meninas, essa foi minha homenagem a essa canção da minha cantora brasileira predileta e que eu amo tanto, e a vocês também por fazerem do dia de hoje um dia para celebrar Swan Queen evocando o melhor da nossa criatividade. Espero que de alguma forma vocês apreciem todas as ones e se emocionem. Muito obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!