Mais Que O Sol
3 Happy B-day
Notas iniciais
Pov. Mili
E hoje foi só mais um dia insignificante como todos os outros. Sim, eu sei que é ingrato da minha parte dizer isso já que muitas outras pessoas tem problemas muito maiores que o meu. Mas estou nesse orfanato há quase 17 anos e nada me acontece. Ser adotada? É até uma piada, já que ninguém quer adotar alguém da minha idade. Achar os meus pais? Só se eu cavasse um buraco e encontrasse o resto dos seus corpos, pois com certeza eles já estão mortos, nunca achei nenhuma pista mesmo.
– Mili? – Vivi entrou no quarto, tirando-me dos meus pensamentos.
– Que foi? – Cochichei, já que todas as outras meninas já estavam dormindo.
– Advinha? Já é meia noite!
– E... ? – Eu sabia do que ela estava falando, mas essa é a última coisa da qual eu queria lembrar.
– Como assim Mili? É seu aniversário! – Ela sentou empolgada.
– Já tinha até me esquecido. – Menti ao colocar o travesseiro na minha cabeça, mais uma tentativa frustrada de fugir dali.
– Pois eu não me esqueci. – Vivi começou a me desejar parabéns, o mesmo discurso de todos os anos. Mas pelo menos eu sei que foi sincero e é isso que conta.
– Obrigada Vivi. – Sorri e logo depois voltei a pesar. Faltavam exatos 365 dias.
– Que foi Mili? Você nem parece estar feliz.
– Talvez seja porque eu não esteja. – Fui rude. – Desculpa, não quero descontar em você.
– Tudo bem, mas me conta o que está acontecendo. – Eu não queria falar.
– As meninas vão acordar, melhor falar outra hora. – Levantei e coloquei a pantufa.
– Onde você vai?
– Tomar água.
– Ótimo. Eu vou junto. Assim você pode me contar essa história direito. – Me convenci e fomos para a cozinha.
Peguei um copo, enchi de água e sentei na mesa. Vivi fez o mesmo. Nós ficamos um pouco em silêncio, enquanto eu pensava na melhor forma de dizer o que sentia. Até porque ela está na mesma situação que eu.
– Vai me contar ou não? – Ela insistiu.
– Olha Vivi, hoje eu faço 17 anos, ou seja, daqui um ano faço 18.
– Mas isso até eu que não sou das mais espertas sei, né.
– Não é isso que eu estou querendo dizer. Já se esqueceu que nós só podemos ficar no orfanato com até 18 anos? – Ela ficou em silêncio.
– Eu não tinha pensado nisso ainda. E agora Mili? O nosso tempo está acabando. – Ela começou a se desesperar.
– Era por isso que eu não queria te contar, não queria te deixar preocupada.
– Tudo bem, você não tem culpa. Mas uma hora a gente sabia que isso aconteceria.
– Eu tinha a esperança de ser adotada, mas agora nem isso. Acho que meu destino é viver na rua mesmo... Nem deve ser tão ruim. – Me joguei em cima da mesa, presa em meus pensamentos.
– Que? Você ta louca? Sabe muito bem como é morar a rua.
– Sei não. Eu nunca morei lá.
– Mas já teve amigos que moraram. – Lembrei da Pata e do Mosca, que eu nem sei por onde andam... – E de qualquer forma, você tendo uma família ou não, é uma menina inteligente que com certeza vai se dar muito bem na vida.
– Obrigada Vivi... Eu nem sei oque dizer. Fui uma idiota em pensar na possibilidade de morar na rua. Depois de tudo que o Rafa passou...
– Só o Rafa? Acho que você está se esquecendo do Binho, do Mosca e da Pata.
– Eu nem sei mais quem são essas pessoas.
– Você não consegue mesmo perdoar eles né?
– E eles por acaso me pediram perdão? Não né, nem pra isso deram as caras.
Pov. Ana
Acordei com o meu lindo despertador. Hoje é um dia especial, aniversário da Mili. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para ela no WhatsApp desejando felicidades, depois vou lá no orfanato para dar um abraço e ver o pessoal.
Levantei, me arrumei e fui para a escola. Como cheguei mais cedo pude ficar de bobeira no corredor, mas logo o Thiago veio até mim...
– E aí ruivinha!
– E aí... – Disse um pouco desanimada, já que ele vive dando em cima de mim e eu não quero nada.
– Você é linda, mas hoje se superou, sabia?
– Obrigada, eu acho.
– O que você acha de sairmos hoje á noite? Sei lá, para onde quiser.
– Sabe o que é? Eu não vou poder. Hoje é aniversário de uma amiga minha e eu vou ver ela. – Graças a Deus não posso.
– Que pena, mas eu ainda não desisti. – ele disse piscando e pegado no meu queixo.
– Thiago? – Tati disse ao se aproximar.
– Que foi? – Ele finalmente largou do meu queixo.
– A gente ia resolver aquele problema, lembra? – Coitada da menina, deve estar muito afim dele mesmo.
– Ah é mesmo... Até mais gatinha! – Disse para mim e eu apenas acenei.
O sinal já estava quase batendo e eu resolvi ir para a sala. Quando cheguei ela estava quase vazia, apenas com alguns grupinhos de pessoas dentro. Sentei na minha carteira e fiquei esperando que o professor chegasse.
Quando todos os alunos já estavam lá esperando, o diretor entrou na sala nos fazendo ficar em absoluto silêncio.
– Olá alunos. – Ele disse e nós respondemos, é claro. – O professor de Química não poderá vir hoje, por isso vocês ficarão livres na primeira aula – nos entreolhamos alegres. — mas essa aula será reposta em contra turno na semana que vêm, não se esqueçam. E nada de bagunça. – Saiu sem nem mesmo se despedir.
Quando o diretor bateu a porta todos saíram de seus lugares gritando. Como eu ainda não conheço muita gente para socializar resolvi ficar no meu lugar ouvindo música. Fechei os olhos para sentir melhor ela dentro de mim, mas depois de alguns minutos fui interrompida por alguém puxando um de meus fones.
– Oi. – Disse Binho.
– Oi- Respondi sorrindo.
– Ouvindo música?
– Acho que sim, né? – Fui irônica, já que era óbvio que eu estava ouvindo. Ele riu.
– Eu tava aqui pensando... Bem que a gente podia fazer alguma coisa hoje né? Quer dizer... Eu Você e a Bia.
– Na verdade eu sei exatamente o que nós vamos fazer.
...
– Se nosso pai descobrir nos mata. – Binho disse ao descer do carro.
– Ele não vai descobrir. – Encorajei-o
– É Binho, fique tranquilo. – Bia tranquilizou. – Tudo que eu quero agora é reencontrar todos eles.
Nos posicionamos frente as grandes portas e tocamos o interfone. Pouco tempo depois Fábio abriu a porta, ficando surpreso com a minha visita.
– Fábio! – Eu disso ao abraça-lo.
– Ana! – Ele disse. – Já faz tempo que não vêm nos visitar. – Nos separamos do abraço.
– Sem drama Fábio. Só fazem uns quatro dias.
– Já é tempo de mais.
– Nada a ver. – Eu ri fraco. – Fábio, esses são Bia e Binho. Você não os conhece, mas alguns daqui sim. Aliás, cadê o pessoal?
– Estão todos no pátio por causa do aniversário da Mili.
– É claro! – Eu disse com um sorriso, percebi que Bia e Binho estavam nervosos.
Fomos até o pátio e eles olhavam por tudo, deveriam estar morrendo de saudades desse lugar. Assim que chegamos todo o pessoal nos olhou, sem saber se acreditavam no que seus olhos mostravam.
Continua...
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