Assim que entrei na sala, trinta pares de olhos me encararam. Ou melhor, desceram seu olhar da minha cabeça até os meus pés, abrindo a boca em seguida.

Dei um suspiro quase imperceptível e comecei a andar em direção às cadeiras.

— Com licença. — Falei, passando um olhar rápido pelos olhos da professora de português, que me encarava de modo feio.

— Não, não, não! — Berrou Eliana, a professora, fazendo meus passos pararem no mesmo instante. — Olha o que você está fazendo no chão!

Olhei para trás e vi que eu havia deixado um belo rastro de lama no caminho.

— Opa. — Disse, voltando a olhar para a professora, que agora tinha as duas mãos na cintura e um olhar de repressão.

Tirei meus dois chinelos, ouvindo risinhos dos alunos. Segurei-os com a mão e recomecei a andar até o fundo da sala, dessa vez prestando atenção no meu próprio rastro.

Enquanto passava pelas filas apertadas, escutei mais risos de deboche e alguns comentários.

Virgínia, que era profissional em ser a mais lesada da sala, me olhava com um sorriso brincalhão, muito provavelmente formulando alguma coisa em sua cabeça. Ela não era uma megera, mas soltava comentários absurdos. O pior é que ela nem parecia dar conta que estava afetando as pessoas, apenas achava divertido e imaginava que as outras também.

Sentei-me na última cadeira da fila encostada na parede, em frente à Manoela.

— Meu Deus, você está péssima. — Manoela e suas conclusões incrivelmente óbvias.

— Eu sei. — Afirmei, tirando os livros de dentro da bolsa molhada e colocando sobre a mesa.

— Quer dizer, está molhada e... fedendo! — Ela praticamente gritou, colocando a mão sobre o nariz.

A professora nos olhou feio, assim como o resto da turma, que parecia encontrar qualquer motivo para encarar a mim a minha desgraça.

Sussurrei um pedido de desculpas e comecei a fingir estar prestando atenção na aula.

Virgínia, que estava na fila ao meu lado, sendo que mais na frente, começou a alternar o olhar entre mim e a professora, como quem quisesse chamar a minha atenção. A princípio, ignorei, mas depois decidir encará-la.

— Agora está mesmo parecendo uma pequena órfã. — Ela movimentou os lábios, para não chamar atenção.

Meu Deus, quando ela ia parar com aquilo? Quando perdi a minha mãe, ela até foi legal, deu apoio, mas depois decidiu me apelidar de pequena órfã. E não, ela não fazia por mal.

Ela apenas achava o apelido legal, e pelo visto queria que eu achasse o mesmo. Sempre dizia em um tom feliz e amigável.

Virgínia era tão tonta que não se dava conta da sua própria inconveniência.

Ela olhava para mim, sorrindo, mas eu apenas fechei a cara em sua direção. Ela fez uma expressão de decepcionada e se virou novamente, jogando seus cabelos ruivos para o lado.

Aquele era o aniversário de morte da minha mãe, estava sensível e com uma puta vontade de chorar. Via os olhares tortos das pessoas, algumas até pareciam felizes com a minha desgraça matinal. Mas eu tinha uma desgraça bem maior dentro de mim: a perda do meu maior exemplo, da mulher que se sacrificou tanto sempre por mim.

As lágrimas começaram a brotar quando pensei em seu rosto, no modo como falava, em seu cheiro. Então o engoli, pois não queria chorar ali.

Manoela virou um pouco o rosto em minha direção, e começou a dizer alguma coisa.

— O que disse? — Perguntei, colocando meu ouvido mais próximo dela.

— Disse que estamos combinando de sair hoje à noite. — Afirmou, meio irritada. — Eu, o Lucca e um pessoal da sala.

Franzi a sobrancelha.

— Legal? — Falei.

Ela bufou.

— Olha, depois que você tirar essa roupa e tomar um banho poderá ir. — Resmungou.

— Mas hoje é segunda. Por que diabos sair em uma segunda?

— Porque você é uma chata. — Disse, com cara feia. — Nunca aceita nenhum convite que eu faço. Não sei por que ainda tento.

Ela nem lembrava que fazia um ano do suicídio da minha mãe.

Tá, eu não ia muito por isso, mas também porque odiava sair. Sabe, eu tentativa, tentei até mesmo depois do suicídio, mas nunca me identificava. Sentia-me deslocada enquanto todos pareciam alegres por comentar sobre a roupa de uma determinada pessoa.

Eu não era aquilo, e também não ia me esforçar para ser.

— Olha, no dia que você me chamar para um programa realmente legal, irei. — Falei, por fim.

— Pois pode ir desistindo, pois não vamos sair para nenhum museu ou competição de poesia.

Ela se virou, dessa vez apoiando a sua cabeça nas costas de Lucca, o seu namorado. Talvez eu até devesse dizer a ela que muitas vezes não ia os lugares por conta da vela que eu virava.

Lucca e Manoela eram um casal, ok, tinham que ter privacidade. Mas na maioria das vezes eles se fechavam em um mundo só deles, e eu, que tinha basicamente eles dois como meus melhores amigos, ficava sozinha, claro.

Fora eles dois, só me restava Leila. Mas ela tinha vários outros amigos, não me considerando tanto quando eu a considerava. Nem sabia por que ainda saiamos juntas. Afinal, ela fazia parte de um grupinho mas "cult" da escola.

Mas a verdade é que sem eles três não me restava mais ninguém naquela sala que merecesse minha atenção. Não digo isso me colocando em um patamar superior, pelo contrário. Quero dizer que mais ninguém ali possuía gostos minimamente similares aos meus.

Ao pensar nisso, passei o olhar pela sala e parei em Leila, que mexia no celular disfarçadamente, cobrindo-o com a sua mochila. Manoela continuava praticamente em cima de Lucca, que tentava (ou pelo menos fingia) prestar atenção no que a professora mostrava.

Afundei a minha cabeça em minhas mãos, achando tudo aquilo um tédio é depravador.

Trinta e cinco minutos depois, quando soou o toque para o terceiro horário, os alunos logo trataram de se levantar das cadeiras e formarem grupinhos para conversar.

Alguns passaram por mim, perguntando o que aconteceu, e eu apenas respondia que havia sido problemas com a chuva.

Eu tentava atrair a atenção de Manoela e Lucca, mas eles davam selinhos um no outro, enquanto eu falava de alguma coisa que eles não ouviam. Acabei me dando por vencida e afundei na cadeira.

Virgínia veio na minha direção, com uma cara de quem queria puxar papo.

— E aí, Melie! — Disse, sentando-se na minha mesa.

— Oi, Virgínia. — Respondi, sem um por cento de empolgação.

— O que aconteceu com você, pequena órfã? — Perguntou, fazendo um biquinho triste.

— Chuva.

Cadê o próximo professor quando se precisa?

— Olha, eu não ia dizer nada, mas você tá ridícula. — Comentou, soltando uma gargalhada, como se eu fosse uma grande comédia. — Isso que você tá usando é a calça de um pijama?

Perguntou, parando o riso encarando minhas vestes.

Assenti, dando de ombros.

— Nossa, te deixa mais seca do que realmente é.

Eu não entendia por que Virgínia forçava uma falsa intimidade com todo mundo, nem por que ela insistia em comentários a respeito da minha bunda e meus seios.

Sério, ela fazia questão disso, e em horas mais do que inconvenientes. Uma vez estava reclamando que a cadeira estava dura, e ela gritou para toda a sala que se eu tivesse um pouco mais de bunda talvez amortecesse. Em outra, Érica, a professora de história, estava explicando que uma das torturas da idade média usada contra as mulheres consistia em apertar os seios. E, claro, Virgínia gritou para a turma que "Amélia não teria esse problema!"

E ela achava tudo aquilo engraçado, e, pior, achava que não tinha mal algum naquilo.

— Olha, o professor vai chegar a qualquer momento, por que não vai se sentar? — Perguntei, inclinando-me para frente.

Ela soltou um riso tom mais idiota que podia e saiu.

Eu me sentia toda grudenta por conta da água, e com as roupas molhadas e um ar condicionado bem em cima de mim, posso dizer que estava congelando àquela altura.

Passei as mãos por entre os braços, tentando inutilmente me aquecer. Os alunos começaram a se sentar de volta em suas carteiras, anunciando que o professor tinha chegado.

Olhei indiferente para a frente, até perceber que quem entrara na sala era um professor novo. Quer dizer, eu já tinha visto ele pelos corredores da escola, mas pelo que sabia, ensinava história apenas para os alunos do terceiro ano. Como eu estava no segundo, imaginava que só teria aulas dele no próximo ano.

Ele colocou sua pasta preta em cima da mesa e, em silêncio, ligou o projetor. Todo mundo olhava para ele com a mesma curiosidade, se perguntando o que ele fazia ali.

Teria ele errado de sala? Não, Amélia. Isso aconteceria caso você fosse professora.

Então ele resolveu encarar a turma, batendo as mãos uma contra a outra em seguida.

— Bom... — Disse, com a voz rouca e meio parada. — Eu sou Vicente, professor de história dos terceiros anos. Luiz, o professor de filosofia de vocês, caiu de um palanque na semana passada, e precisou fazer uma cirurgia para colocar um pino na perna. Então, como ele vai ficar impossibilitado de dar aulas, a escola me pediu para concluir o programa de filosofia com vocês, até o final do ano. — Explicou.

Manoela virou o olhar para mim, como quem perguntava o que eu achava daquilo. Ela sabia que eu prezava horrores por Filosofia, e como eu amava Luiz.

Ergui os ombros para o alto, mostrando que ainda não sabia direito.

Poxa, eu já estava acostumada com o outro professor, e o achava incrível. Sentia uma pontada de dor pela troca, e por imaginar que nenhum outro ensinaria tão bem quanto Luiz.

— Mas o senhor é professor de história. — Protestou um dos alunos da frente, chamando atenção do tal Vicente.

— O Luiz também era formado em história. — Falei, arrependendo-me em seguida, após sentir todos os olhares se voltarem para mim.

Tá, eu era a louca que stalkeava os professores, mas é daí?

— Isso mesmo. — Confirmou Vicente, com o olhar voltado para mim.

Quase podia ver o nojo em sua face, mas ele disfarçava bem.

Quase enfiei a minha cara por dentro dos cabelos negros de Manoela, que caiam bem em cima da minha mesa.

— Eu provavelmente não irei ficar nesse horário com vocês. — Afirmou. — Já pedi a coordenação para mudar os dias das minhas aulas, pois também ensino na UFMG.

Começaram a lotar o Vicente de perguntas sobre a faculdade, e até ele conseguir se livrar de todas, já havia passado dez minutos da aula.

Quando enfim ele pôde começar a explicar os slides, comecei a odiá-lo. Quer dizer, ele explicava de uma forma que não parecia apaixonado pelo trabalho, uma coisa que Luiz sempre demonstrava, e, além do mais, o professor novo tinha uma clara explicação de teor marxista.

Sério, eu podia jurar que ele ia pegar uma bandeira comunista e um fuzil a qualquer momento enquanto discursava sobre o comunismo.

Por mais que eu fosse puxa saco de Marx, aquilo estava me incomodando. Principalmente porque não tinha ido com a cara do professor.

Mas, tudo bem. Relaxa, Amélia, é a primeira aula e está em fase de adaptação.

Mas tenta dizer isso para uma pessoa sensível e encharcada de água, que já teve que aguentar poucas e boas durante aquela mísero manhã.

Mas é claro que eu não ia relaxar.

Ergui o braço e esperei.

Ele não deixou eu perguntar até terminar sua explicação sobre o marxismo na economia.

Então, fez sinal para que eu falasse.

— Sim? — Falou, movendo o olhar para mim.

— Dá para ser um pouco menos marxista? — Perguntei, e vi uma leve expressão de susto tomar conta do seu rosto.

Alguns começaram a rir, e Vicente pareceu um pouco incomodado.

— Como assim?

Suspirei, enquanto pensava em como explicar aquilo sem ofender.

Talvez ele fosse até legal, eu que estava com preconceito.

— Assim, você está claramente desprezando outras interpretações em seu explicação. — Argumentei. — Quer dizer, o Luiz explicava de uma forma imparcial, sempre mostrando os dois lados.

O professor ficou um tempo pensando, com a boca aberta parada no ar.

— O Luiz é o Luiz. — Falou, por fim. — Ele tem seu jeito de explicar, e eu tenho o meu. Só posso esperar que se acostume, pois terá que aguentar até concluir a escola.

E então ele se virou para o quadro e recomeçou a explicar o conteúdo, como se não tivesse acabado me dar um coice do tamanho daquela escola.

Ok, ele não era legal. Definitivamente não era.

Afundei-me ainda mais na cadeira, vendo o olhar de todos da sala me fitando, com alguns até sussurrando um "ihuuul".

Agora eu estava molhada e humilhada. Aquele não era o meu dia, não era.

Então decidi ficar calada pelo resto das horas restantes.

Depois de um tempo, quando ninguém nem mais lembrava que eu existia, o professor me solta uma.

— Nossa, só eu tô sentindo um cheiro ruim aqui? — Falou, fazendo uma careta.

Automaticamente alguns olharam se soslaio para mim.

Meu Deus, eu estava tão podre assim que dava para sentir do outro lado da sala?

— Deve ser a Amélia. — Anunciou Virgínia, olhando para mim. — Ela resolveu tomar um banho em algum bueiro antes de vir para a escola.

E então o professor colocou a mão sobre a boca e riu. Riu bem na minha cara! Ele e vários outros alunos.

Aquilo era humilhação demais.

— Cala a boca sua vadia idiota. — Falei, só percebendo a besteira que fiz quando ouvi as minhas próprias palavras.

Eu devia ter continuado calada.

Automaticamente pararam de rir e me olharam sérios, parecendo não crer que eu tinha acabado de dizer aquilo.

Virgínia colocou a mão no peito e fez uma cara que foi um misto de indignação e supressa.

— Saia. — Ouvi a voz do professor ordenar.

Demorou alguns instantes para eu perceber que ele falava comigo.

— O quê? — Perguntando, mais para me localizar.

— Não vou admitir esse tipo de insulto em minha sala. — Ele agora abria a porta e fazia sinal para que eu saísse.

Pela sua barba preta eu via seu queixo duro e a expressão que era mais de decepção que de raiva.

Levantei-me com o rabo entre as pernas (e descalça) e andei pelas filas, até passar pelo professor e sair. Ele encarou os meus pés e balançou a cabeça, parecendo indignado com o meu estado, depois fechou a porta da sala bem na minha cara.

Eu não era do tipo de pessoa que saia de sala, quer dizer, eu só tinha saído uma vez. Aquela era uma situação especialmente rara.

Encarei o corredor vazio e andei até a mesa onde o disciplinador costumava ficar. Era o mesmo que havia conversado pela manhã, e ele olhava rindo para mim.

— Precisa de alguma coisa? — Perguntou.

Dei de ombros.

— O professor me expulsou de sala.

Ele arregalou os olhos.

— O quê? Quem?

— O Vicente.

Ele então começou a rir.

— O Vicente nunca tira ninguém de sala. Hoje não é mesmo o seu dia.

Ótimo.

— Cheguei nessa conclusão há algumas horas, já. — Falei.

— Mas o que você fez de tão grave para ele? — Perguntou, parecendo interessado.

— Xinguei uma colega. — Admiti, sentindo-me idiota.

Ele fez uma cara feia e apontou para a escada.

— Coordenação. — Mandou.

Talvez agora a coordenadora resolvesse me suspender. Eu já conseguia esperar tudo daquele dia.

Desci o lance de escadas e fui até a sala da coordenadora, que ficava na secretaria.

Bati na porta no mesmo instante que um casal de pais abriu a porta pelo lado de dentro, ficando com a mão suspensa no ar.

— Vânia está ocupada? — Perguntei a eles.

— Ela parece livre nesse momento. — Respondeu a mulher, após ponderar um pouco.

Assenti e coloquei a cabeça para o lado de dentro, olhando a coordenadora digitar algo no computador.

— Com licença? — Pedi.

Ela ergueu seus olhos através dos óculos, e quando me viu pareceu surpresa.

— Oh, Amélia, querida! — Disse, levantando-se rapidamente e fazendo sinal para que eu sentasse em uma das cadeiras que ficavam em frente à sua mesa.

Depois de olhar meu estado ela pareceu um pouco afetada, mas apenas sorriu.

Aquela mulher gostava de mim, esperava o meu melhor. Como ia contar que xinguei uma colega de vadia idiota?

Sentei na cadeira e coloquei as mãos sobre o colo, dando um sorriso amarelo e de culpada.

— Está precisando conversar? — Perguntou, oferecendo a mão para mim. — Se quiser eu chamo o psicólogo.

— Não, não. — Falei, negando com a cabeça. — Na verdade eu fui expulsa de sala e fui encaminhada para a senhora.

Vânia inclinou a cabeça para o lado e franziu o cenho.

— O que houve, Amélia? — Sua voz era calma, e me perguntei por que diabos ela era tão gentil comigo, quando os outros alunos a chamavam de severa e grossa.

— Eu xinguei Virgínia. — Confessei, colocando a não na cabeça. — Eu a chamei de vadia idiota. Eu estava estressada, quer dizer, houve uma troca de professor eu gostava muito do Luiz... ah, ela não é uma vadia, eu nem a acho tão mal assim, ela às veze...

— Amélia, calma. — Pediu, meio assustada com a rapidez das minhas palavras. — Eu entendi que você fez um ato muito errôneo. Mas...

— Mas? — Indaguei.

— Hoje é um dia delicado para você, ninguém pode esperar que você aja normalmente, não é mesmo?

Então eu me toquei. Ela sabia que hoje completava um ano da morte da minha mãe, por isso tinha oferecido o psicólogo assim que eu entrei.

— Não, nada justifica o que eu fiz. — Falei, sentindo os olhos marejados.

Vânia comprimiu um lábio contra o outro e me olhou como quem vai explicar algo delicado a uma criança.

— Olha, estou vendo o seu estado agora, sei que não está sendo um dia bom. Sei também que isso não vai se repetir, então não vou puni-la por causa do seu estresse, de forma alguma. — Confirmou. — Vou pedir apenas que se desculpe com Virgínia, explique a ela que hoje é um data complicada, ela vai compreender. Não quero nem mesmo saber os motivos que a levaram a explodir assim. E, por favor, também se desculpe com o seu professor pelo inconveniente.

Fiquei um tempo em silêncio, encarando os seus olhos.

— Estamos entendidas? — Perguntou.

— Ah, acho que estamos.

Ela ajeitou a coluna levantou os braços da mesa.

— Então, maravilha. Pode ficar na biblioteca enquanto não toca para o recreio.

Fiz menção de me levantar, mas então ela pegou a minha mão.

— Espere. Antes de ir, não gostaria de trocar de roupa? Vai ficar gripada assim.

Olhei para os meus trajes e depois voltei meu olhar para a mulher, quase gritando um "ÓBVIO QUE QUERO!"

— Não seria uma má ideia. – Eufemisei.

Então ela se levantou e remexeu em uma de suas gavetas, retirando de dentro uma roupa sequinha, que me fez ter prazer só de olhar.

— Tome, sempre tenho algumas roupas aqui na escola, para no caso de urgências. — Falou, entregando-me.

— Muito obrigada. — Agradeci, pegando as roupas.

— Pode se trocar aqui na minha sala, tenho que conferir uma coisa com a tesoureira. Vou deixá-la sozinha.

Assenti enquanto ela se dirigia para a porta de saída, ouvindo o toque para o recreio ecoar no mesmo instante.

Retirei a roupa molhada, sentindo minha carne tremer de frio, e esperei que eu me secasse um pouco. Era estranho ficar de calcinha e sutiã na sala da sua coordenadora, então até fiz um ula ula de meio segundo, pois sou incrivelmente idiota.

Vesti a calça que ela me dera, que era cinza e de um tecido grosso, daquelas que se usa para correr. Ficava infinitamente larga em mim, e tive que apertar bem o nó que a segurava em minha cintura. A blusa era branca e larga, com as iniciais da escola em preto bem na frente.

Depois que terminei, recolhi as roupas molhadas e, como não sou nada atrevida, coloquei-as dentro de uma sacola de plástico que estava em cima da mesa da coordenadora, e aparentemente não tinha função alguma.

Segurei a sacola com uma mão e com a outra puxei o trinco para sair da sala, começando a caminhar, ainda descalça, para a saída da secretária.

Estava na hora do lanche, então vários alunos passavam rindo em grupinhos. Caminhei na direção contrária, buscando por Manoela, Lucca ou Leila.

Mas eu topei justamente com Virgínia.

Ela ainda me olhava torto, meio triste, para falar a verdade.

Fui até a sua direção com cara de humilde, esperando a sua reação.

— O que quer? — Disse, ríspida.

— Desculpa, tá? — Falei. — Eu não queria dizer aquilo. É claro que eu não te acho uma vadia idiota. Eu que sou idiota por dizer aquilo. Me perdoa?

Bem, Virgínia era bem lesa e quase nunca ficava intrigada com alguém, quem sabe ela não me perdoava. Bem, eu não necessitava do seu perdão, mas apenas para me livrar do peso na consciência. Afinal, ela era inconveniente, mas não merecia ser xingada assim.

— Olha, no momento eu estou ainda muito afetada. — Falou com uma voz dramática. — Mas eu vou acabar de perdoando, pequena órfã.

Então ela saiu, dando uma piscadela para mim.

Bufei quando ela já estava longe o bastante para não ouvir, arrependendo-me de ser tão trouxa por sentir pena de chamá-la de vadia.

Voltei a andar com a sacola na mão, até incrivelmente tropeçar no ar. Não tô brincando, eu estava descalça e o chão era liso como uma folha em branco, mas eu fiz a façanha de tropeçar.

Consegui não ir ao chão por me equilibrar abrindo os braços, que foram parar bem na cara de alguém.

— Menina! — Berrou a pessoa que eu atingi bem no nariz, e eu reconheci a voz. — Tinha que ser você, Amélia!

Leila agora ria, enquanto fazia uma careta e massageava o nariz.

— Meu Deus, me desculpa! — Falei, indo ampara-la. — O vento apareceu na minha frente e eu não o vi.

— Eu já disse que você vai acabar matando alguém ou a si própria. Você é definitivamente a pessoa mais desastrada que eu conheço.

Eu tinha que concordar.

— O que foi aquilo na aula, hein? — Perguntou toda curiosa, esquecendo do nariz que estava meio vermelho.

— Não sei, acho que o diabo resolveu baixar em mim, ou algo do tipo.

Leila se curvou para trás, tapando uma risada, com suas madeixas castanhas voando para trás.

— Cara, você reclamou da explicação do professor! Tem noção que aquilo é o trabalho de alguém?

Apesar da fala, ela parecia mais querer se divertir do que me dar uma bronca.

— Eu sei, eu sou muito idiota.

— E cruel! — Completou. — Também não gostei dele. E ninguém do terceiro ano gosta. Com o tempo todos da sala também não irão.

Dei de ombros.

— Pra mim tanto faz.

Então encarei o pastel que ela segurava em uma das mãos.

— Pode me emprestar dinheiro? — Perguntei, com um riso doce.

Leila revirou os olhos.

— Ok, ok, eu empresto. Só para você não inventar de dar a louca para cima de mim, hoje. — Disse, procurando dinheiro dentro da calça do seu uniforme. — Aqui. — Entregou-me uma nota de dois reais. — E adorei esse seu novo look. — Falou com sarcasmo.

— Obrigada. E eu sei que estou arrasando. — Concluí, jogando o cabelo sugestivamente para o lado, metendo-o bem na cara de uma pessoa que passava ao meu lado. — Ai, perdão!

E então eu vi que a pessoa se tratava de nada mais nada menos que meu novo professor de filosofia.

Ótimo, enfiei todo o meu cabelo na cara da pessoa que naquele momento devia estar me odiando.

Ele ignorou minhas desculpas e apenas saiu andando reto, como se nenhum tufo de cabelo tivesse aparecido no meio do seu caminho.

— Isso ai, continue a dar close certo. — Riu Leila, saindo e me deixando sozinha.

Coloquei a não na cabeça, refletindo o quanto eu era boba, e segui andando até a cantina. Como já estava no final do recreio, a fila estava curta, de modo que consegui comprar meu copão de suco de morango rapidamente.

Sai com ele na mão toda sorridente, e então o toque para subir ecoou, e eu ignorei. O dia já estava um desastre, então, que fique mais desastroso ainda enquanto eu mato uma aula de uma matéria que nem sabia qual.

Enquanto todos os alunos subiam para a sala, fui sorrateiramente caminhando pelo o corredor, bebendo, através do canudo, 500ml daquela maravilha rosa.

Fui até os fundos da escola, onde ficava o estacionamento dos funcionários. Sentei-me em uma paredezinha que separava o local do outro prédio do colégio, saboreando lentamente o meu suco.

Enquanto todos estudavam nas salas, eu olhava para o céu acima da minha cabeça, que ainda estava bastante nublado e ameaça chover, novamente.

Eu gostava do tempo daquele jeito, mas só de pensar em chuva, meus olhos reviravam sozinhos.

Ao longe comecei a ver que alguém vinha na direção do estacionamento, mas antes de me esconder em alguém lugar, esperei a pessoa chegar mais perto, para que eu avaliasse se realmente era um perigo

Logo vi a barba preta aparecendo, assim como a blusa social azul que vestia. Vicente.

Bem, não me representava perigo algum, então relaxei a musculatura e desliguei meu radar.

De qualquer forma ele nem parecia me ver, caminhou rápido até um dos carros pretos, abriu a porta, retirando algo de dentro, e depois a fechou com a mesma rapidez. No caminho da volta ele quase parecia correr, dessa vez com um papel na mão, até olhar para o lado, vendo-me e parando por um segundo.

Então ele começou a vir na minha direção, quase correndo.

O que diabos ele queria?

— Pode me fazer um favor? — Perguntou, enxugando o suor da testa.

Quase gritei um sonoro "NAO!". Mas me lembrei que ele era o meu professor.

— Depende. — Falei, desconfiada.

— É apenas para ir na copiadora da escola e pedir para eles fazerem trinta cópias dessa folha. — Explicou, mostrando o papel que acabara de pegar dentro do carro. — Depois entrega-las na sala do terceiro "b".

Olhei de um lado para outro, querendo fugir.

Não podia nem usar a desculpa de que eu estava ocupada, pois eu estava de bobeira, matando aula. Coisa que ele nem pareceu perceber.

— Pode fazer isso? — Insistiu. — O professor deles de matemática faltou, e a coordenadora pediu que eu passasse alguma lição para eles fazerem. Eu estou dando aula nesse horário na sala do terceiro a, e não posso ficar em dois lugares ao mesmo tempo.

Dei um longo suspiro.

— Tudo bem. — Cedi, pegando a folha da mão dele.

— Ótimo. — Falou, ofegante. — Depois que entregar as folhas na sala, avise que vale nota e que eu mandei eles fazerem. É o único jeito deles ficarem quietos.

— Tudo bem, tudo bem. — Repeti, já me virando para ir até a mecanografia.

— Muito obrigado. — Escutei ele dizer atrás de mim.

Quando cheguei na mecanografia, expliquei à mulher que sempre ficava lá no balcão, com cara de entediada. Ela quase não autorizava as cópias, achando que eu estava mentindo.

— Só me diz uma razão para eu estar mentindo sobre isso. — Falei, fazendo cara de indignada. — Vicente pediu, tem uma sala totalmente sem responsável nesse exato momento!

Ela continuava com a cara de tédio.

Eu devia dar um crédito, eu também não confiaria em alguém andando descalço pela escola.

— Mas você vai ter que me ajudar. — Disse.

Coloquei o suco e a minha sacola em cima do balcão, indo até as máquinas e auxiliando a mulher, que era tão lenta que chegava a ser irritante. Graças a minha rapidez, que mais se manifestou por ódio, e as máquinas incrivelmente profissionais da mecanografia, acabamos em menos de cinco minutos.

— Obrigada. — Falei quando terminamos a última folha. — Nem doeu, tá vendo?

— Vou mesmo conferir se essa histórinha sua é verdade, mocinha.

— Claro que não é, queria trinta cópias de um exercício de história para colar na parede do meu quarto. — Disse, já sem paciência.

Peguei a minha sacola e o suco, saindo da mecanografia e entrando no corredor principal da escola. As salas dos terceiros anos não ficavam muito longe dali, então apressei o passo para prestar o favor pelo menos de modo eficiente.

Então, sabe quando você bate o seu cotovelo em uma parte específica, que faz você parecer que levou um choque? Foi exatamente isso que aconteceu quando o meu cotovelo resolveu beijar a parede da sala do primeiro ano.

— Aí! — Exclamei de dor, esquivando o meu braço o mais rápido possível da parede.

Mas sabe esse braço? Ele tem uma mão. Uma que estava segurando o delicioso resto de suco de morango, que com o choque voou pelos ares, parando bem em cima da cópia de trinta folhas que ainda estavam quentes na minha outra mão.

Olhei todo aquele líquido rosa voando até as folhas, e quase pude ouvir uma trilha sonora de "Naaaaao!"

Não adiantou minha cara de espanto. O rosa melou toda a primeira folha, e eu, desesperada, larguei o grande copo de acrílico no chão, assim como a sacola de roupas molhadas. Deixei apenas as folhas na minha mão, passando rapidamente por cada uma delas, vendo que absolutamente todas tinham uma bela mancha rosa em algum ponto.

Merda!

O liquido tinha ido da primeira à última folha, como quem dissesse "vou ferrar com você, Amélia, você ainda não viu nada."

Derrotada, olhei para cima e deixei os braços relaxados, e pensei o que eu faria para resolver aquilo.

Se eu voltasse na cara de pau para pedir a cópia de mais trinta folhas era capaz da mulher da mecanografia me expulsar de lá sem fazer cerimônia. E, afinal, nenhum folha havia restado para servir de cópia. Não, eu não podia fazer isso.

Procurar Vicente e contar a história era uma opção, assim como ir na sala do terceiro ano e entregar aquelas folhas meladas de suco. Não, definitivamente isso eu não poderia fazer.

Soquei todas as folhas dentro da sacola de roupas molhadas, sabendo que elas estavam perdidas, mesmo.

Fui até a minha sala, passando reto pelas salas dos terceiros anos.

Quer saber? Não liguei. Vicente que resolvesse os problemas dele sozinho.

Bati na porta do segundo ano e a abri, vendo que a aula era da professora Érica. Para a minha sorte.

— Licença? — Pedi. — Não estava me sentindo muito bem no recreio. — Menti.

Ela assentiu e abriu um sorriso para mim. Afinal, era Érica, a professora de história que me adorava.

— Pode entrar, Amélia.

Sorri em resposta, entrando e me dirigindo ao fundo da sala.