Maipetto no Neko
63 Capítulo 63 - Sopro
Notas iniciais
Maipetto no Neko
Capítulo 63 – Sopro
Era cheiro de amônia, formol e álcool. Podia distinguir cada um desses odores como se tivesse nascido dentro do hospital. Suas íris forçavam a abertura das pálpebras, porém uma insistente sonolência mantinha-o desacordado.
Tinha repetidos pesadelos. Começou a se dar conta de que estava dormindo após ver e rever inúmeras vezes as mesmas imagens se repetindo na mente. Alguém chamava seu nome, apesar de nunca saber ao certo quem. Corria na direção de um penhasco, e o corpo caía em direção ao abismo como se não pudesse se segurar, como se estivesse sendo puxado pelo vácuo. Corria sempre, tentando alcançar a mão que se estendia até ele, e no último minuto antes de pegá-la, tudo se desfazia, se quebrando em milhões de pedacinhos, formando outra vez os mesmos quadros, tal como o rolo de um filme antigo preso na máquina.
Queria acorda. Queria sair daquele espaço negro e sem vida, daquele desespero sufocante.
Porque aquela pessoa do penhasco... Ela era importante. Precisava dessa pessoa, precisava vê-lo outra vez!
O corpo doía.
A cabeça girava.
Uma angustia lancinante.
O peito pesou, e o coração batia mais e mais acelerado.
Tum, tum.
O desespero do sonho.
Tum, tum.
O abismo estava vindo.
Tum, tum.
Lá, ele, outra vez ia cair;
Tum, tum.
A mão ergueu-se.
Tum, Tum!
E dessa vez ele jogou-se na direção do buraco, agarrando o corpo que caía.
Tum, tum tum!
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Num extenso e apressado suspiro, Grimmjow abriu os olhos arregalando os globos azuis enquanto hiperventilada, pois não reconhecia aquele lugar. Sentia o braço dolorido vendo uma agulha encaixada na veia presa a uma sacola de soro com o fluido pela metade. Prosseguiu a análise do então quarto percebendo estar num hospital. Ajeitou-se na cama pondo a mão na cabeça. Estava doendo horrores. E foi quando tocou os cabelos que percebeu: tinha dedos, mãos!
Tirou o cobertor de cima do corpo vendo suas pernas, agitando os dedos dos pés. Um alívio instalou-se nele ao saber estar livre daquela prisão em forma de animal, apesar de não compreender muito bem como isso havia ocorrido. Nisso as imagens da noite passada vieram num baque entorpecendo a mente, sendo preciso apertar a testa que ardia com rápidas pontadas alastrando-se pelas laterais do rosto.
Via grades, pequenas e finas o rodeando. Estava preso numa gaiola quando Aizen ainda tinha o controle. Sentia-se fraco há dias, sem comer ou beber nada. Vê-lo no domínio o preenchia de ira, mas bastava se lembrar de Ichigo e a raiva tornava-se melancolia. Ichigo...
Ichigo! Ele estava lá! Recordava isso, de ter visto o garoto correndo atrás de Aizen, buscando por ele. Não estava morto! O maldito homem não tinha conseguido o matar! Grimmjow aliviou-se com essa constatação voltando a se concentrar. Tinham outras coisas acontecendo, lacunas que precisavam ser preenchidas... Aizen fugira, atirara contra Ichigo outra vez. Fúria, uma raiva enorme cresceu dentro dele. Mas então o garoto estava bem, a salvo. Os dois começaram a lutar; Aizen golpeando o ruivo, a cólera nascendo novamente. Então ele correra usando a velocidade felina para saltar até a altura de Aizen arranhado seu rosto, sendo arremessado para longe. Lembrava-se de rolar no piso gelado do telhado da empresa tendo uma linha de sangue escorrendo em cima do olho tampando a visão. Colocou um dos dedos na sobrancelha sentindo um grosso curativo ali e uma ardência. Acontecera mesmo.
Continuou imerso nas lembranças sabendo que dera uma abertura a Ichigo, tudo que ele precisava para se reerguer. O ruivo tornou a golpear Aizen o fazendo se afastar de joelhos no chão. Sim, perfeito, essa cena o fez até mesmo sorrir em satisfação. Depois fora acalentado pelo abraço do ruivo. Sua visão tão próxima era reconfortante, o carinho no seu fragilizado corpo o acalmava quase se entregando ao sono dos justos.
O maldito veio acabando com seu sossego. As pernas do ruivo cederam enquanto ele ainda continuava a protegê-lo num abraço impedindo que Aizen o ferisse. No entanto, ao mesmo tempo, Ichigo recebeu toda a potência de seus golpes escorando-se no chão, cuspindo sangue. Grimmjow ouvia os estalos vindos do garoto, a concentração dele em mantê-lo seguro e ao mesmo tempo a resistência que tinha para não desmaiar.
Sua raiva apenas crescia mais e mais... Foi quando se recordou. Feito um filme tudo passou depressa acontecendo repetidas vezes na sua frente; a esfera multicor cor nas mãos de Ichigo se quebrando, as suas energias adentrando no corpo fragilizado e o anseio, a busca implacável por querer proteger o ruivo.
Estendendo as mãos Grimmjow contemplava seus braços sabendo que na noite passada eles eram as patas de um grande felino branco, atacando Aizen sem trégua. E depois daquilo, depois de saber o que acontecera com Ichigo, só queria afastar aquele homem dele. Não havia mais dúvidas nem remorsos. Jogou-se em cima de Aizen, revendo a queda, os andares do prédio passando depressa por eles como pontos escurecidos, a sensação do vento gélido passando pelos longos pelos do animal. Achou ser o fim, mas seu corpo bateu contra a madeira de um andaime o deixando lá estirado e ferido. Contudo. Aizen não tivera a mesma sorte. Ele caía e caía, indo para baixo, afundando pesadamente, terminando seu trajeto ao submergir dentro de um carro. Grimmjow ainda podia ver, como se o corpo estivesse bem ali ao seu lado: Aizen estirado na rua lançando seus últimos suspiros, com os repórteres em volta rodando as câmeras. A luz forte de um helicóptero e seu som alto o deixara tonto, mas ele continuou no andaime vendo de camarote enquanto ele estrebuchava. Os pedaços de vidro cortando a pele, o peito inchado pelo sangue coagulando nos órgãos, o pulmão afogando-se no próprio líquido vermelho da vida. Ao ter certeza de que Aizen não mais seria um problema deu meia volta entrando pela janela do prédio. Os músculos cansados cederem. Pouco a pouco viu as garras voltarem para o tamanho de unhas normais, os pelos entrarem na pele o deixando com a cútis intacta no lugar. O grande felino ergueu-se ficando de pé num meio termo entre a besta e homem e então por fim ele estava livre da sua forma animal. Soltou um único grito de alívio tendo um solitário pensamento em vista: Ichigo. Mas antes que pudesse dar um passo adiante caiu sem mais nenhuma força nos pés.
Flashes momentâneos da presença do ruivo perto dele o deixavam confuso. Onde ele estava? Teria vindo com ele para o hospital? Tinha se ferido também, então ele devia estar perto.
Respirando fundo, ainda tonto, Grimmjow removeu os inúmeros fios presos a ele começando a sair da cama, ouvindo os bipes das máquinas apitando em frenesi. Apoiou-se no colchão por um tempo e então andou alguns passos na direção da porta.
– Ichigo...
Balbuciava rouco querendo que seu nome desse novas energias a ele. As roupas leves do hospital o deixavam com maior mobilidade, mas ele podia dispensar a blusa verde clara ficando apenas com aquela calça confortável. Balançou a cabeça focando os pensamentos no corredor. Continuava se apoiando nas paredes, sem equilíbrio algum. Girou a maçaneta, precisando usar as duas mãos devido a falta de força nelas. Ouviu o clique da fechadura e então saiu quase indo de cara ao chão. Recostou-se na parede em frente ao seu quarto respirando fundo e apressado. Os pulmões gritavam por ar parecendo não receber oxigênio há anos! Sugou todo o ar ao seu redor começando a rodar o corpo pela parede até ficar com as costas encostadas nela
– Ichigo.
Falou outra vez ainda rouco.
Foi então que vozes conhecidas chegaram aos seus ouvidos, cochichando pelos ecos do hospital vazio, distantes, porém tão próximas. Neriell, o quatro olhos, e a garota peituda, até mesmo o brutamontes... Eram eles quem conversavam em algum lugar daquele labirinto branco. E entre eles sabia que encontraria Ichigo. Respirando apressado ordenou ao corpo que fosse adiante, que ganhasse um novo fôlego, pois ele precisava ver o garoto, precisava dele; não aguentava mais a distância que Aizen provocara entre os dois, não aguentava mais a incerteza de nunca vê-lo outra vez, de ser incapaz de defendê-lo enquanto ele se feria por sua causa!
Queria Ichigo mais do que queria respirar! E os pés tinham de correr, tinham de atravessar o corredor, por Deus! Aquela era a voz dele! Tinha de ir ao seu encontro! Reafirmar a presença dele não apenas como uma esperança, mas sim a certeza de que estava bem; vivo!
– Ichigo!
Falou com mais força, o timbre alcançando um tom audível. Em resposta ele ouviu enfermeiras e todos os outros membros do hospital perguntando sobre o quarto vazio – que supôs ser o seu – mas ignorou todos eles. Só Ichigo importava só ele era capaz de abrandar a dor que sentia viajando por seus nervos, pois apesar de todas as aflições físicas que sofrera nenhuma fora tão forte quanto à sensação de perda do ruivo ao acreditar em sua morte.
De todas as torturas passadas nas mãos de Aizen aquela fora a pior. Ver o tiro atravessando o galpão fétido e acertando o ruivo em cheio no peito. O sangue jorrava feito uma fonte vermelha luminosa tirando os sentidos de Ichigo. Grimmjow via tudo em seus olhos felinos sem acreditar, sem poder nada fazer, apenas o vendo definhar, a morte se aproximando do garoto feito uma sombra de dedos finos e cruéis. A garganta coçava impedida de gritar. Seus pés não podiam ir até ele, pois estavam atrelados ao corpo animal – ao maldito corpo animal! E as grades, ah! Tantas grades o rodeando! Parecia uma piada, preso naquela minúscula jaula sem poder reagir, à mercê de Aizen.
Aquilo foi o fim. Ele queria morrer junto de Ichigo, deixar o mundo que arrancara a única pessoa que ele...
Um engasgo o fez parar. Arregalando os olhos mirou o chão brilhoso do hospital, limpo e bem cuidado, concentrando-se em deixar o ritmo de seu coração normal outra vez. A revelação veio num baque tão forte, que Grimmjow precisou envergar o corpo para não cair. Refez a sentença mentalmente. Ichigo era a única pessoa que ele...
Que ele o que? Qual era o restante da frase?
Oh sim, ele sabia as palavras. Elas brotaram na ponta da língua como se fossem um suave sopro, uma certeza que precisava ser dita, que precisava sair da boca o mais depressa possível ou ele acabaria as engolindo outra vez.
Respirou fundo lançando outro grito no ar. Ouvira seu nome em resposta num tom de surpresa e dúvida. Animou-se eufórico. Os pés tornaram a andar por vontade própria, cambaleantes. Conhecia essa voz, essa pessoa que se aproximava dele. Vinha correndo do outro lado do hospital. Os braços enfaixados, a expressão consternada na face, mas era ele, vindo ao seu encontro como ele também ia ao seu.
A poucos metros o ruivo esticou os braços, notando o estado ainda debilitado de Grimmjow preocupado que ele fosse cair. Viu-o esticando os dedos achando que procurava por seu apoio, mas ao invés disso sentiu seus ombros se esticarem o envolvendo num apertado abraço. A cabeça do maior desceu repousando ao lado de seu pescoço, o peso todo sendo jogado em cima do ruivo enquanto ele prendia um bolo de ar na garganta. Grimmjow tremia parecendo uma criança ao acordar de um pesadelo. Ichigo arregalou os olhos na surpresa, deixando suas mãos deslizarem palas costas dele retribuindo o carinho e em seguida respirando aliviado. A paz que ambos sentiram foi instantânea. O simples gesto os confirmava numa presença necessária, na carência que tinham um do outro.
Pondo uma das mãos na sua nuca, Ichigo o fez erguer o rosto. Levou os olhos na altura dos de Grimmjow. O ruivo os encarou vendo o cansaço nas profundas rodelas escuras debaixo deles, e também enxergou um misto de tristeza e alivio. Respirou fundo sabendo o quão teimoso ele podia ser, no entanto, ficara extremamente feliz ao vê-lo ali, no meio do hospital chamando por seu nome, o procurando num rápido desespero que finalmente tinha acabado.
– Grimmjow você...
– Eu te amo.
Saíram. As palavras escorregaram da boca pairando no ar atingindo Ichigo em cheio. As íris âmbar encaravam o azul no olhar mareado de Grimmjow ainda sem acreditar, ainda incerto do que havia acabado de ouvir. Ichigo piscou os olhos algumas vezes antes de abrir a boca:
– Você disse...
– Eu te amo Ichigo... Te amo, te amo, te amo!
Repetiu aumentando a voz para reafirmar aquilo, para não deixar pontas soltas. O timbre rouco dando lugar a potência de sua voz, retumbando feito uma súplica, querendo se espalhar pelo seu ser.
E nesse instante o ruivo desabou, derrotado pela sinceridade naquelas palavras, pelo poder que elas tinham de fazer seu coração saltar acelerado no peito; pelo tom choroso no timbre do maior que era vencido por sua impulsividade inocente. A saudade era tanta, o que sentia por ele era tão forte, e parecia que nem mesmo essas poucas letras conseguiam expressar todo esse sentimento transbordando dele.
A face do ruivo se avermelhou mostrando uma expressão de carinho junto do sorriso terno que apresentara a Grimmjow. E ignorando qualquer outra pessoa ao redor deles, colocou uma mão em cada lado de seu rosto o acariciando:
– Eu também te amo Grimmjow.
Disse trêmulo, o beijando em seguida.
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Foram duas semanas no hospital pelo o que Neriell havia lhe contado. Depois da pequena fuga de Grimmjow de seu quarto, as enfermeiras deram-lhe um longo sermão o pondo de volta na cama. Claro, elas só fizeram isso depois que Ichigo e ele se desgrudaram do beijo – cena que rendeu inúmeros comentários e risinhos por todo o hospital; e infelizmente dos repórteres metidos. Paciência. Teriam de lidar com eles mais tarde.
Pouco tempo depois os outros chegaram enchendo o quarto que deveria servir para um repouso:
– Como está se sentindo Grimmjow-kun? — perguntou Inoue.
– Melhor.
Respondeu repousando as sobrancelhas envergadas na direção de Ulquiorra.
– E... O que você está fazendo aqui mesmo? — perguntou apontando ao companheiro de classe.
Inoue ficou vermelha no mesmo instante, pondo uma das mãos atrás da cabeça:
– Ah! Ah! — exclamou sem graça – É que ele, eu...
– Estou junto da garota.
Respondeu Ulquiorra rapidamente deixando Inoue ainda mais encabulada.
– Hmm...
Foi a única resposta de Grimmjow – que encarava os dois com um sorriso sacana. Nisso, Rukia interveio, salvando a pele da amiga:
– Então, o médico disse que hoje no fim da tarde você já pode ir pra casa!
A noticia pareceu entusiasmar ele.
– Graças a Deus, detesto hospitais! E quero sair logo dessa cama!
– Tenha calma – comentou a baixinha – você ainda precisa passar por uns exames finais e comer.
– Eca, comida de hospital?! Prefiro ficar no soro!
O riso foi em conjunto, e então Yuzu disse, fazendo Grimmjow acreditar que ela era um anjo:
– Eu fiz um delicioso almoço para você, Grimmjow-san, os médicos disseram que você só precisa ser bem cuidado e ficará bom logo!
Sim, um pequeno anjo com uma auréola dourada. Grimmjow podia ver perfeitamente as asas da garota. Retribuiu-lhe a atenção com um largo sorriso, e depois foi a vez de Neriell falar:
– Quanto à empresa, não precisa se preocupar: ela está muito bem. Se recuperando das noticias bombásticas, mas bem.
– Ainda não acredito que nada foi ao ar... Quer dizer, não as partes... Sobre... Você sabe.
– Isso você deve agradecer ao Byakuya!
O moreno continuou calado num canto, mas só agora Grimmjow tinha percebido sua presença.
– Meu irmão bloqueou o sinal das câmeras assim que viu todo o estardalhaço dos repórteres! — falou Rukia, orgulhosa.
– Eu apenas fui lógico. – disse Byakuya – Se eles tivessem filmado você ou qualquer um de nós teríamos sido incriminados.
– Okay então. — comentou Grimmjow – Mas ainda não entendo como tudo isso deu certo! Quer dizer, o que estão falando de Aizen?
– Que ele teve um surto psicótico. — respondeu Ishida.
– Como é?
– Foi a amiga da Neriell que teve a ideia. — falou Chad.
– Sim, a Matsumoto é muito inteligente! Tem um cérebro por trás daquele peito todo! — Neriell sorriu.
– Achei que essa sua amiga estava morta. — comentou Ichigo.
– Eu também. Na verdade foi uma grande jogada de Matsumoto, apesar dela ter quase me levado à loucura! Até achei que a estava vendo e ouvindo por todos os cantos feito um fantasma! Ela já ouviu poucas e boas de mim! – brincou.
– Mas como ela fez isso? — perguntou Renji.
– Ser policial tem suas vantagens. — piscou — Gin e ela já se conheciam, de longa data, sabe? Ele jamais a machucaria.
– Mas o Aizen não sabia disso. — falou Ishida.
– Em parte, não. Mas ele conhecia o caso dos dois. Resumindo: Gin escondeu a Matsumoto até Aizen se esquecer dela, e então quando a deixa apareceu, ela pode “retornar das cinzas”.
– Foi ela quem te ajudou a colocar os arquivos usados por Aizen na fraude da empresa nos jornais junto com a matéria da morte dele, não foi? — perguntou Rukia.
– Exatamente! Dessa forma, de acordo com as fontes da polícia, Aizen teria ficado louco ao saber que suas trapaças iam ser reveladas, e antes de ser preso, pulou do prédio.
– Impressionante, não é?! — comentou Inoue, fascinada de verdade.
– Depois disso, a sua reaparição foi a cereja no bolo. — comentou Rukia.
– Como assim?
– Matsumoto queria você no hospital o mais depressa possível, onde ela convenientemente deixou um grupo de televisão à postos. — prosseguiu Neriell – Depois foi só encaixar a história dos arquivos o incriminando junto com outra história de sequestro, explicando seu sumiço e a ascensão dele à presidência. A sua fuga aconteceu no mesmo dia em que os arquivos foram “roubados” da empresa. Daí veio à oportunidade de juntar as duas coisas numa só.
Grimmjow fez uma expressão confusa, deixando Ishida continuar o raciocínio de Neriell.
– Na verdade o sequestro aconteceu, ela só omitiu a parte em que você estava na forma de um... Felino.
Por fim Grimmjow relaxou. As probabilidades eram baixas, mas tudo havia se encaminhado para um bom final. Pela primeira vez na vida, ele se viu rodeado de pessoas dispostas a lhe ajudar, e não apenas tirar proveito. Um engasgo veio na garganta batendo junto com seu orgulho. Um pouco encabulado, disse, finalmente, deixando a todos sem reação.
– Obrigado...
Os olhares de descrédito foram seguidos de risos. Principalmente Neriell, incapaz de conceber agradecimento e Grimmjow numa mesma sentença. Riu como nunca sabendo que iria lembrar-se desse dia para sempre.
– Bem, a conversa está muito boa, mas eu preciso ver a Matsumoto. Ela também está internada aqui.
Saindo do quarto Neriell foi seguida dos demais, inclusive a família de Ichigo, insistentes para continuar no quarto, contudo, Rukia os fez recuar dando espaço aos dois, afinal, o que eles mais queriam era um tempo a sós depois de tantos problemas.
– Meu filhinho!!! Papai já volta!
– Cala a boca seu velho chato!
Karin empurrou seu pai porta a fora antes que ele se jogasse em cima de Ichigo. Yuzu tampou o rosto morrendo de vergonha conforme andava atrás dos dois pelo hospital.
– Nós ligamos pra você mais tarde Ichigo!
Falou Rukia dando-lhe um 'tchau', sendo seguida de Ishida e Chad.
– Fique bom logo Ichigo. — comentou o brutamonte.
– Isso mesmo! — interveio Inoue – Vocês dois tratem de descansar!
Byakuya apenas acenou com a cabeça enquanto Renji segurava a maçaneta da porta, o último a sair do quarto.
– Ei.
Chamou-os vendo os dois voltarem a cabeça na sua direção.
– Comportem-se!
O tatuado sorriu no final dando uma piscada vendo as bochechas de Ichigo corarem, conseguindo sair do quarto antes de ser atingido pelo travesseiro arremessado por Grimmjow. Ele estalou a língua cruzando os braços:
– Aquele folgado...
– Bem, foi ele quem te carregou até aqui.
Grimmjow afundou na cama emburrando o rosto ainda mais.
– Não vou agradecer a ele... — retrucou teimoso ouvindo a risada de Ichigo.
– Tudo bem, ele sabe.
Bufando, ele revirou os olhos, levando a mão até a de Ichigo sobre a cama. A apertou com força chamando a atenção do garoto.
– Quero sair logo daqui...
A voz manhosa dele conseguia mexer com Ichigo, ainda mais o vendo tão vulnerável. Respirando fundo o ruivo tentou manter na cabeça que ele precisava se recuperar dizendo:
– Você ainda nem comeu hoje.
Puxando apressado o prato de comida deixado por Yuzu, Grimmjow começou a enfiar tudo na boca sentindo a língua queimar, mas nem assim parou. Em poucos minutos tinha colocado o prato inteiro para dentro, ficando com o estômago pesado. Apertando os olhos ele pôs a mão no peito empurrando o ar para baixo e em seguida voltou-se para Ichigo vendo a expressão de espanto do garoto:
– Podemos ir agora?
Perguntou recebendo um tímido 'sim' em resposta. O médico veio analisando o estado de Grimmjow e finalmente o mandando para fora. O ruivo precisou assinar uma papelada antes de poder sair com o já impaciente Grimmjow.
– Meu deus, isso ainda não acabou?!
– Faltam só mais cinco assinaturas. – comentou a recepcionista.
– Eu já estou bem! J-á e-s-t-o-u b-e-m!
Soletrou para a recepcionista vendo a mulher encolher os ombros, pois o tamanho de Grimmjow, mesmo estando um pouco mais magro, conseguia assustar qualquer um.
– J-já vai acabar senhor!
Ela replicou gaguejando se escondendo atrás do computador.
– Você quer quebrar algum tipo de recorde ou coisa parecida? — indagou o ruivo – Sempre que estamos num hospital você intimida metade do staff!
– Não tenho culpa! — exclamou – Eles que ficam me enchendo de burocracia!
Bufando, Ichigo tratou de terminar tudo o mais depressa possível entregando os formulários a mulher e a agradecendo. Por sorte Neriell havia deixado uma sacola com as roupas mais folgadas de Grimmjow no quarto e ele pode se livrar das vestes do fino tecido do hospital. O único inconveniente eram os repórteres plantados na porta de entrada apenas esperando por seu grande furo. Pensativo, o ruivo puxou Grimmjow pela mão o levando até a garagem. Lá havia inúmeros veículos, ambulâncias, e poucas pessoas circulando, bastava irem com calma e chegariam ao carro de Ichigo. Pé ante pé foram avançando sem emitir nenhum barulho. Foi então que veio o primeiro flash. Uma câmera disparando as fotos rapidamente. Os dois praguejaram começando a correr, afinal, não tinha mais jeito. No meio do caminho encontraram novos paparazzi e muitos, mas muitos microfones pareciam pipocar na frente deles tampando sua visão. Quando finalmente avistaram o carro reforçaram a corrida chegando até ele e abrindo à porta a tempo de ver os repórteres os rodeando.
– Acelera!
Grimmjow gritou vendo Ichigo enfiar o pé no acelerador. No susto dos pneus cantando a intrometida imprensa se afastou deixando os dois livres. Muitos ainda tentaram correr para suas vans, mas eles já tinham se distanciado.
No carro os dois se entreolharam até terem certeza de que haviam escapado. Depois soltaram uma alta gargalhada. Os risos os preencheram por completo, e com eles sabiam que podiam continuar em frente, que podiam superar qualquer coisa, porque o pior, ah! O pior já havia passado...
Continua
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