Maipetto no Neko
19 Capítulo 19 - Distância
Notas iniciais
Depois de dias de estudo, sem descanço, sem vida social, eu consegui terminar o capítulo nesse fim de semana!
Espero que gostem dele, porque as coisas estão começando a complicar para o lado do Grimmjow =XX
Maipetto no Neko
Capítulo 19 – Distância
O parque a noite ficava mais deserto, porém ainda mantinha poucas pessoas caminhando em seus arredores. Talvez por ser um dos poucos seguros da região, além é claro, do fato de ser próximo a uma estação da polícia. Praticamente não se tinha ocorrências ali, assegurando a todos um bom fim de noite. A falta de ambientes barulhentos ajudava a manter a quietude do lugar e apenas alguns vendedores das guloseimas costumeiras ficavam constantemente caminhando pelos arredores. Quisera todas as vizinhanças fossem assim.
Naquele clima um pouco frio do outono com o inverno chegando lento, Ichigo esperava debaixo de uma das árvores com a típica folhagem amarelada com as mãos dento dos bolsos da calça, a figura de Renji aparecer a qualquer instante. Tinha de admitir estar meio nervoso para o então “encontro” deles, afinal, era como se estivesse alimentando as chances de Renji. Não queria deixar-se levar pelas emoções do momento como sempre o fazia, mas se ficasse dentro de casa mais um minuto, enlouqueceria. E também já havia se decidido: precisa largar de Grimmjow e seguir em frente.
Pegou o celular para ver a hora, nove e doze. Estava ficando tarde, mas ainda bem que era sexta-feira; não tinha de se preocupar em acordar cedo no dia seguinte, afinal, era sábado...
Num estalo, lembrou-se da lojinha. Merda! Como pudera esquecer?! Tinha prometido cumprir hora extra para compensar sua saída de mais cedo na semana passada – culpa de Grimmjow, de novo, diga-se de passagem. Droga. Teria de aguardar a chegada de Renji apenas para dispensá-lo. Tudo bem, sabia que ele entenderia, mas se tivesse recordado antes poderia ter evitado essa confusão toda.
Praguejando em sua mente, despertou ao sentir uma mão tocando-lhe o ombro. Voltou-se rápido para trás vendo o rosto sorridente de Renji o encarando – a uma distância nada segura.
- Esperou muito? – perguntou com a voz falha devido a uma ligeira corrida que dera para chegar lá.
- Só alguns minutos nada de mais.
- Ótimo! Está pronto para irmos então?
- Sobre isso Renji, eu...
- Nem adianta tentar perguntar: é surpresa.
Como poderia cortar a alegria dele dessa maneira? Vendo-o tão feliz com o repentino encontro, o mínimo que poderia fazer era acompanhá-lo um bocado antes de despedir-se, afinal, uma parte da culpa também era dele.
Andavam juntos para mais dentro do parque conversando sobre bobagens da vida, e é claro, do tema mais irritante: as provas da faculdade. Nossa! Quanta matéria a troco de nada. Óbvio, Ichigo chegou a brigar uma ou duas vezes pelo relaxamento de Renji, mas no final acabava rindo com as piadas dele. Esquisita sensação essa de prazer em estar junto dele. Já havia percebido antes, mas agora podia atestar melhor que ficar perto de Renji o acalmava, e acima de tudo: dava-lhe segurança.
Depois de uma meia hora na contagem de passos do ruivo, Renji o fez cerrar os olhos, a muito custo, pois o outro não gostava muito de ficar sem saber o que estava acontecendo. Foi o guiando até a ponta de um declive e ao estarem perto o bastante, pediu-o que abrisse os olhos, vendo o brilho de surpresa e estonteamento neles:
- Bonito, não é? – comentou em tom de pergunta a Ichigo.
- Sim... – respondeu quase inaudível, perplexo com o local onde estavam.
Aquela era uma das pontas da baía distante da onde a maioria das pessoas circulava, além das pistas dos carros e livre dos ruídos irritantes do trânsito da cidade. Podia ver a ponte que ligava as duas extremidades, e o fluxo intenso de veículos, mas o som nem chegava perto deles.
Árvores esquecidas do cuidado humano – e mais belas devido a esse fato — adornavam o pequeno espaço onde podiam ver a água reluzir prateada, tanto pela luz da noite, quando pelas artificiais da cidade. Algumas delas produziam um sutil arco-íris divertido no centro e poucos barcos passeavam remexendo em pequenas ondas a calmaria do ambiente.
Tinham flores perto de seus pés, amarelas e destoantes do verde da grama. Mesmo com a escuridão noturna podiam enxergá-las claramente. Era realmente bonito.
- Como descobriu esse lugar? – indagou Ichigo sem desviar o olhas da baía.
- Eu sempre caminhei no parque. Um dia desses acabei parando numa estrada quase apagada e vim para cá. Foi uma surpresa, mas desde então quando quero relaxar ando por aqui.
- Parece ser bom mesmo, ter um canto onde se esconder.
- Não é como se me escondesse. É só... Algumas vezes é preciso ficar só com você mesmo, sabe?
- Sei como é isso.
Renji encarou a face longínqua de Ichigo. O ruivo ainda pensava, e muito, em Grimmjow, dava para dizer apenas de vê-lo. Mas também percebia a tristeza dele, e era essa a parte mais chamativa e de seu interesse. Se fosse capaz de fazê-lo sorrir, de sentir-se bem ao estar com ele, poderia apagar a memória do outro.
Acordando do leve transe Ichigo voltou-se para Renji, meio sem graça, e falou-lhe tentando parecer natural:
- Desculpa, mas eu preciso ir andando.
- Mas já? – indagou em tom de tristeza.
- Esqueci que tinha de trabalhar na lojinha amanhã cedo, então não posso ficar até tarde.
- Ah, é verdade, desculpa, eu te chamei sem pensar nisso.
- Tudo bem eu aceitei também. Mas obrigado de qualquer forma.
- Sem problemas! Amanhã então – disse chegando um pouco mais perto de Ichigo – eu passo lá para te ar um “oi”.
As bochechas, lógico, ficaram vermelhas e sem um lugar para fugir desviou o olhar voltando à cabeça para baixo. Apertou as mãos nos bolsos pelo nervosismo e no minuto seguinte já caminhavam para fora do pequeno santuário de Renji. Desejava que fossem juntos até a entrada do parque, mas claro, a vida não era perfeita e ele fez questão de acompanhá-lo até a divisão de seus bairros. Despediram-se por fim e ao chegar à porta de casa verificou a hora no relógio; onze e quarenta e oito. Ficaria um pouco cansado pela manhã, mas tinha valido a pena.
O movimento do escritório estava acelerado naquela manhã. As caixas de e-mail entupiam-se com as respostas das reuniões que ocorriam no exterior, além, é claro, das análises feitas sobre o desempenho de Grimmjow em cada uma delas. Aizen analisava com toda a calma do mundo cada uma as linhas, deixando os óculos pender quase na ponta do nariz, e os lábios esticarem-se num sorriso malicioso conforme lia os parágrafos.
Gin preparava o chá, como de costume, no canto da sala. Não era secretário pessoal de Aizen, mas por ser um dos poucos serventes da família de Grimmjow, acabava cuidando desses assuntos mais triviais. Lógico, ninguém achava esse comportamento estranho, afinal já estavam acostumados a ele. No entanto, nos últimos dias, uma nova funcionária parecia soltar olhares suspeitos para cima os dois e seu estranho relacionamento. A falta de Neriell e seu competente desenvolvimento acabaram por obrigar Aizen a chamar a moça, recomendada pela própria.
Na verdade, já estava na hora em que ela costumava entrar na sala, sem nem ao menos dignar-se a bater na porta, ou notificá-lo antes. Era um habito incomodo, porém como tinha sido uma indicação, e além do bom trabalho exercido por ela nos últimos dias, Aizen se via na obrigação de apenas aceitar esse pequeno deslize dela, ou poderia acabar ele mesmo se expondo a mais alguma coisa.
- Senhor aqui estão os documentos que pediu! – disse ao mesmo tempo em que abria a porta com vontade, balançando o bolo de papel ao lado da cabeça.
- Matsumoto-san. – replicou Aizen – Como sempre energética.
- É claro, afinal, é a melhor maneira de começar o dia. Gin! Já está preparando a primeira rodada de chá? – indagou voltando-se para o homem.
Sem parar sua tarefa, deixando os olhos de raposa esgueirarem-se apenas para encarar a mulher, e respondeu, implicando com a fala dela:
- É a melhor maneira de começar o dia.
Formando um bico com a boca carnuda, ela retornou a atenção para Aizen, pondo as mãos na cintura delineada:
- Precisa de mais alguma coisa, Aizen-san?
- Por enquanto está tudo correndo como o esperado.
- Que maravilha! Parece que a empresa consegue funcionar muito bem sem o futuro presidente por perto.
O brilho castanho dos globos de Aizen desfez-se por um instante ao fitar a expressão de entusiasmo dela. Desde sua contratação tem percebido pequenas sutilizas em suas ações que acabavam por deixá-lo um tanto quanto suspeito. Mas deveria ser paranóia, pois era difícil acreditar em como seus planos estavam correndo tão bem. Não havia mais motivos para tanto alarde.
- Temos de zelar pelo bem estar da empresa, principalmente agora que o presidente está afastado. – respondeu ajeitando os óculos e sorrindo á ela — Os empregados têm de mostrar serviço, se não o crédito da empresa vai embora.
- Sei bem como é isso. Mas o clima daqui é sempre sério demais, já ouvira falar em diversão? Em saque?
Pronto, esta era sua prova definitiva. A mulher de curvas generosas não passava de um furacão passageiro. As palavras eram ditas da boca para a fora, sem significado algum. Como a boa e maioria parte dos funcionários, ela estava alheia a qualquer que fosse sua intenção. Riu devido ao comentário dela para não passar por indiferente, e respondeu:
- Tem razão, seria bom sair de vez em quando. Mas infelizmente eu não tenho muito tempo livre. Porque não organiza uma pequena festa com os outros secretários depois?
- Oh! Esta me parece uma excelente idéia Aizen-san! Vou chamá-los depois! – explanou alegre ao sair do escritório.
Mas antes, não pode deixar de soltar um rápido comentário:
- Não se esqueça do chá das cinco Gin! Experimente o de pêssego, e uma delícia!
A porta se fechou e o silêncio tornou a instalar-se no cômodo, não fosse pelo gotejar da chaleira dentro das xícaras.
- Ela é bem enérgica, não é senhor? – comentou Gin ao depositar o pires sobre a mesa dele.
- De fato, mas isso apenas a deixa menos entediante do que a maioria das pessoas daqui.
- Oh, acha que ela seria útil de alguma forma?
- Duvido muito, afinal é muita beleza e pouco cérebro dentro daquela linda cabecinha loira.
Gin não pode evitar o riso. Apanhou a argola da xícara levando o líquido quente até a boca, sentindo-o escorrer pela garganta e aquecendo-o. O outono estava mais frio do que de costume.
Numa das salas aleatórias desse mesmo andar, Matsumoto discava diversos números apressados em seu celular pondo o aparelho na orelha e aguardando a outra linha atender, com aquele zumbindo lhe irritando.
- Alô? – disse a voz do outro lado.
- Só estou ligando para contar as novidades.
- Ah!!! Finalmente descobriu alguma coisa?!
- Nada fora do comum, ele continua com o sorrisinho sínico, mas sem nenhum deslize.
- Será que eu estava enganada?
- Pelo contrário, todos os sentidos de meu corpo dizem que tem algo de errado com esses dois.
- Mas o que vamos fazer agora?
- Não se preocupe, em algum momento aquela cara de bunda dele vai acabar se desfazendo, e quando isso acontecer, eu estarei por perto.
- Você é mesmo uma amiga e tanto Rangiku!
- E o que você faria sem mim, não é?
Matsumoto apertou o botão vermelho encerrando a ligação. Descruzou as pernas que balançavam sobre a mesa e desceu dela caminhando até a porta. Pôs cuidadosamente seu celular de volta em seu local mais seguro: a circunferência de seus seios, e antes de sair analisou por um segundo os arredores. Sem mais ninguém por perto, voltou para o corredor como se nada tivesse acontecido, aparentando sua costumeira graça e alegria. Sentou-se na mesinha de carvalho onde exercia sua pequena função de secretária, convenientemente posta próximo ao escritório de Aizen. Estava gostando muito de seu novo trabalho... Os dois deles.
A lojinha era calma como sempre. O sábado começava monótono e sem vida, mas aos poucos o espaço se enchia com as pessoas à procura dos pequenos prazeres do dia a dia – chocolates, balas e doces diversos, as melhores comidas pré-prontas, e é claro um coquetel de bebidas de todos os tipos. Saúde? Para que!
Ichigo batia no teclado da caixa registradora apenas sorrindo – habito que adquiriu depois de muita insistência de sua chefa – computando os preços na notinha amarela. Esticando os lábios e mostrando os dentes para o próximo cliente, corou ao ver a face alegre e risonha de Renji o encarando de perto.
- Dormindo acordado? – brincou o maior ao vê-lo constrangido.
- Sabe como é, fui dormir tarde ontem.
- Ah...
Coçando a nuca sentindo-se sem graça, Renji apoiou-se no balcão virando um pouco as costas para Ichigo.
- Você poderia ter ido embora mais cedo... – comentou sem graça.
Soltando um rápido riso pela reação exagerada de Renji, Ichigo parou no minuto seguinte ao ver sua chefe se aproximando:
- Desde quando eu te pago para conversar em serviço?!
- Desde o momento em que de caixa, eu me transformei em ajudante faz tudo.
- O contrato dizia muito bem sobre essas mudanças de itinerário.
- Mudança de área, você quer dizer.
- Está reclamando? – exclamou pondo as mãos na cintura.
- Tem razão, eu deveria parar com isso me desculpe.
- Hmm! Acho bom!
- Afinal eu sou apenas um moleque, você merecia um empregado melhor, acho melhor ir embora e procurar outro emprego.
Num estalo a mulher correu para frente de Ichigo, trajando sua melhor expressão de serenidade, e num sorriso ameno, foi lhe falando:
- Ora, vamos Ichigo-kun... Não precisa ser tão dramático, não é mesmo?
- Estou apenas me desculpando por ser um empregado ruim, é a verdade.
- Que nada! Para um rapaz tão jovem e vigoroso como você, suas faltas nem são tantas e são sempre compensadas.
- Mas isso deve ser difícil para você, então é melhor eu ir andando.
Terminou de retirar o avental verde que ficava como uniforme pondo-o sobre o balcão. Renji o acompanhava com os olhos sem entender onde toda aquela discussão iria parar – ou melhor, nem entendera como havia começado.
Adiantando-se até ele, a mulher pôs-se diante dele novamente,tentando manter-se o mais amável possível:
- Vamos chega de se menosprezar, Ichigo-kun! Seu trabalho é maravilhoso! Venha, venha, volte ao seu posto, e esqueça essa pequena conversa!
Foi o empurrando de volta para trás do caixa eletrônico, onde aguardou até que as linhas contorcidas da face do ruivo se acalmassem, e o avental fosse posto de volta. Respirou aliviada, pegando a vassoura de um canto ao lado de uma das estantes, e ainda sorrindo, tornou a varrer a lojinha.
- Você realmente não consegue arrumar mais ninguém para trabalhar aqui, não é mesmo? –comentou por alto, vendo as costas da mulher estremecerem.
Nenhuma outra pessoa tinha suportado tanto tempo ali antes. Os constantes furtos, as brigas de rua, os clientes metidos e os requerimentos abusivos da chefe sempre acabavam “obrigando” a demissão precoce de todos os outros funcionários. Ichigo era o único com quem podia trabalhar sem ter quase nenhum desses problemas, e ainda não sabia se era pela perseverança do garoto, ou pelo pouco humor dele. Apenas ignorou a última fala dele, passando as cerdas amareladas no piso branco como se nada tivesse acontecido, afastando-se aos poucos daqueles dois.
- Sua chefe gosta muito de você. – disse Renji ao presenciar o fim de toda a cena.
- Nos damos bem e isso ajuda. Sabemos entender um ao outro.
- Hmm. Pelo menos você não tem um daqueles chefes abusivos. O meu adora pedir tarefas impossíveis.
- Verdade, eu ainda nem fui conhecer a loja de cd´s onde você trabalha.
- Temos de passar lá outra hora. Aliás, quando seu turno acaba, ta me devendo uma saída.
- Ué, e a de ontem foi o que? – ironizou.
- Não conta, mal ficamos meia hora juntos.
- Nesse caso, qual é a sua definição de perfeição?
- Um encontro.
Encostando o cotovelo no balcão ao apoiar a mão no rosto, Renji esperou pela reação de Ichigo, fitando sua face avermelhada com um sorriso estampado nos lábios. Divertia-se cada vez mais que via essas feições de quase desespero dele quando soltava essas frases constrangedoras.
Engolindo seco, Ichigo coçou o nariz virando-se para o lado. Uma parte dele queria aceitar o convite de Renji, no entanto ainda sentia o peito arder ao pensar nisso. Era estranho, de fato, porém mais cedo ou mais tarde, teria de deixar de lado as memórias de Grimmjow.
- E... Aonde você quer ir? – perguntou com a voz vacilando um pouco.
“Isso foi um sim?!” Pensou Renji, arregalando os olhos, animando-se. Ergueu o corpo mostrando os dentes em felicidade:
- Podemos passar numa cafeteria nova que abriu! Depois dar uma volta, quem sabe.
- Achei que fosse me chamar à uma festa.
- Fica para o segundo encontro, isso é, se você gostar desse... – terminou a frase com as maçãs do rosto vermelhas, coçando a bochecha.
Ichigo podia sentir-se até lisonjeado com os esforços de Renji, afinal, estava fazendo isso por ele. Gostava da sensação de ser importante à alguém, ou melhor, de ter conhecimento disso. Talvez não fosse má idéia no fim das contas. Dessa vez tinha começado as coisas do jeito certo. Renji era seu amigo, conhecia-o bem antes de tentar qualquer outra coisa. E aquilo que o deixava mais acomodado, era o fato de poder confiar nele.
Após uma nova bronca devido a conversa exagerada dos dois, Renji resolveu por ir embora deixando Ichigo terminar o dia de serviço. Combinaram de encontrar-se mais tarde já na cafeteria.
As quatro da tarde, o ruivo avisava ao seu pai da saída. Estava alegre ao falar e sabia disso, mas não pode deixar de irritar-se com as piadinhas e insinuações de Ishinn sobre o tão misterioso encontro. Desligou na cara dele mesmo, pois o importante já havia sido comunicado. Aquecia as mãos esfregando uma na outra e depois as pondo dentro dos bolsos; precisa comprar um par de luvas depois.
Renji o aguardava frente as portas da cafeteria com a felicidade transbordando ao seu redor – sem importasse em demonstrar isso. Ichigo chegou a sentir-se constrangido, pois sabia que era por causa dele tamanha alegria. Não tinha mais como duvidar das intenções de Renji: ele estava realmente apaixonado pelo ruivo, se não, para que tanto esforço?
- Dessa vez eu que te deixei esperando. – brincou ao chegar ao lado dele.
- Tudo bem. – disse Renji – Você tava terminando com as coisas na lojinha, e além do mais, eu esperaria aqui por mais cinco horas se fosse para te ver.
— Ah... – corou novamente evitando os olhares das pessoas perto deles – V-vamos entrar?!
Uma sineta tocou ao passarem pelas portas. Era um típico ambiente daquelas cafeterias antigas. As mesas dividiam-se por biombos brancos medianos, adornados com desenhos leves de flores e árvores. O balcão tinha algumas cadeiras altas para os solitários sentarem-se, e até mesmo o caixa tinha o aspecto antigo. Um ambiente muito aconchegante.
Escolheram um local num canto afastado, onde não pudessem ser incomodados, ou vítimas dos comentários e olhares curiosos sobre eles. Era uma das situações mais desagradáveis, todavia impossível de ser evitada sempre.
O café amargo e quente aqueceu-os no dia frio. A conversa também fora animada e divertida; claro, Renji não se segurou nos elogios e brincadeiras mais “interessantes” a cerca de Ichigo. Até chegou a ser repreendido algumas vezes, pedindo desculpas em seguida. Era inevitável não querer agradar o garoto. A inexperiência dele nesses assuntos tornava-o fascinante.
Quando a noite caía devagar, os dois saíram aos risos da cafeteria. Caminhavam devagar pela calçada, propositalmente a fim de prolongar mais a saída. Estavam sem rumo certo, na verdade, apenas acompanhavam o ritmo de algumas pessoas, para depois mudar bruscamente de direção. Sabiam onde estavam, mas a incerteza dos passos deixava tudo mais emocionante.
- Então, fui aprovado? – Comentou Renji ao estarem num local mais vazio.
- Aprovado?
- No encontro. Se divertiu nele?
- Bastante. Mesmo sem estar em uma festa ou bêbado, você até que sabe ser bem legal.
- Nossa, que impressão você tem de mim.
- Tu construiu ela tão bem que agora é difícil me desfazer da imagem.
- Engraçadinho.
Riram juntos, desacelerando o passeio mais um bocado. Podiam ver as proximidades do bairro do ruivo chegando, apesar de nem saberem quando haviam chegado por aqueles lados.
- Mas sabe de uma coisa? – continuou Renji indo para frente do outro – Um encontro de verdade só termina bem com um beijo no final.
O rosto de Ichigo aqueceu de imediato. O suor escorria dentro do casaco mesmo com o frio, escorregando pelas suas costas. A desculpa da presença de outros era inválida, afinal estavam sozinhos no meio das luzes dos postes – parecia um palco armado. Poderia ficar com Renji? Ir além da amizade? Já tinham se beijado uma vez, mesmo que por impulso do outro e de maneira bem rápida. Ainda estava confuso em seus sentimentos, e o reboliço interior nesse instante era incomensurável. As pernas bamboleavam um pouco e o coração saltou para a garganta. O nervosismo havia se instalado no ruivo com a simples imaginação brotando em sua mente.
- Foi brincadeira. – completou Renji chamando a atenção dele ao vê-lo tão desesperado – Você não tem que fazer isso se não tiver a fim.
O maior rodou com os pés na procura do caminho de sua casa, porém sentiu um leve puxão na barra de seu casaco:
- E-espera! – falou Ichigo com a voz baixa.
Renji parou sem hesitar e girou o tronco para a direção dele. A cabeça de Ichigo estava baixa, e não podia ver ao certo qual era a expressão trajada por ele, mas seus dedos apertavam o tecido de sua roupa com vontade. Decidiu esperar qualquer avanço dele, ou acabaria traumatizando o garoto de vez.
Os olhos âmbar esticaram-se para cima mirando os de Renji. O rosto dele avermelhara-se ao ver as feições do ruivo – ele era lindo, e estava tão perto, diferente daquele dia no parque. Os narizes encontravam-se no mesmo ângulo e pouco a pouco os centímetros entre eles iam se desfazendo, tanto por Ichigo quanto por Renji. Sem pensar muito o tatuado ergueu a mão devagar até tocar a lateral do rosto do morango, apenas com um sutil contato dos dedos na pele.
Fechando os globos ao ver os lábios rosados de Renji próximos aos seus, Ichigo aguardou algum movimento dele – o que eu não tardou a acontecer.
A carne macia do ruivo parecia mais suculenta do que o normal. Nem se importaram ao sentir a pele fina um do outro rachada pelo frio. Iam devagar, encostando-se calmamente, até Renji começar a abrir a boca, incitando um beijo mais profundo. Apenas acompanhando-o, Ichigo fez o mesmo tocando a língua aquecida, ouvindo os estalos de cada um dos encontros e desencontros delas. A mão de Renji deslizou para o pescoço do menor apoiando a cabeça dele que pendia para o lado, como se sem força para manter-se firme. Ichigo apertou mais ainda o casaco dele, e com a outra mão abraçou sua cintura, achegando os corpos, sentindo o frio passar pelo calor proveniente deles. Ao ter sua face afagada por ambas as mãos de Renji, Ichigo deixou-se levar mais por ele, prolongando o beijo e as trocas de carícias.
Renji ouvira um gemido ser emitido por Ichigo no meio de ósculo, esticando os lábios num sorriso. Ele estava gostando, ou melhor, ele havia procurado pelo beijo.
A respiração acelerada batia na face de ambos ao separarem-se. O ruivo tinha o rosto em brasa e os olhos caídos como se apenas o simples beijo o tivesse cansado. Renji chegou a lamber a ponta de sua boca, como se tentasse sentir os últimos resquícios do outro ali e sem soltar Ichigo, disse:
- Isso quer dizer que podemos ter um segundo encontro?
Meneou que sim com a cabeça. O ruivo ainda estava absorto, mas aos poucos foi se acostumando com a sensação.
- Me deixa te levar em casa? Quero ficar mais um pouco com você.
- Vai ficar ruim para você voltar depois. – retrucou Ichigo.
- Relaxa, minha casa é mais perto do que a sua daqui, não vai ser um caminho tão longo.
- Se você diz.
Ele também queria ficar mais tempo com Renji. Pela primeira vez em muito tempo, seus pensamentos tinham se esvaziado por completo e nem mesmo a presença de Grimmjow o atrapalhara naquele momento. E o beijo. Tinha sido muito mais do que o esperado. Não ia admitir isso a Renji, mas ele sabia muito bem o que fazer e como fazer. Ou seria o ruivo apenas ingênuo demais para essas coisas ainda? Que seja! O importante de tudo era que havia sido bom... Muito bom.
Conversavam no meio dos passos, um ao lado do outro, quando uma fina camada de neve começou a cair. Parte dela enfeitava os telhados de branco, e logo seria o chão completamente coberto por ela. Apressaram-se para a casa de Ichigo a tempo de evitarem os ventos mais fortes. Renji esperou Ichigo abrir a porta para dar meia volta, porém surpreendeu-se ao ter o casaco puxado com força para dentro.
- Ta maluco?! Não ta vendo que vai começar uma tempestade?! – esbravejou Ichigo.
- Mas minha casa é perto, eu não quero incomodar.
- Vai me deixar incomodado se sair no meio dessa neve toda! Vem, deve ter algum chá na cozinha.
Sem protestar Renji o acompanhou vendo a televisão ligada num canal qualquer sobre seres sobrenaturais – peculiar o gosto. Foi quando avistou a cabecinha morena de Karin levantando-se do sofá e indo até o irmão:
- Ichi-ni, não apresenta mais as pessoas não?!
- Foi mal nem te vi sentada.
- Er... Meu nome é Abarai Renji, prazer.
- Onde você conheceu meu irmão?
- Estudamos juntos na faculdade.
- Sério? Nunca te vi com ele.
- Isso é porque essa é a primeira vez dele aqui em casa, gênio. – implicou Ichigo estendendo uma caneca de chá verde para Renji.
- Não foi isso que eu quis dizer. Você andava mais com aquele outro cara o de cabelo az-
Ichigo tampou a boca da irmã com os dedos, e com o braço envolveu seu pescoço fazendo um cafuné nela, bagunçando seu cabelo.
- Tenho o direito de ter quantos amigos quiser, não seja indelicada, monstrinha. – disse a soltando.
- Na próxima vez eu te dou um soco!
- Eu me esquivo e te bato de volta!
A discussão e troca de elogios dos dois durou mais algumas cenas. Renji os observava bebendo o chá, divertindo-se com a briguinha de família, até Karin retornar ao seu posto de direito no meio do sofá com o controle na mão, e salgadinhos dispostos na mesinha de centro.
- Desculpe por isso. – falou à Renji.
- Gostei da sua irmã. Deve ser divertido ter alguém com quem conversar.
- Conversar? Nós só sabemos brigar.
- Mesmo assim. É uma boa companhia.
- Verdade, você disse que morava sozinho. Não tem irmãos ou família que more perto?
- Minha mãe faleceu a alguns anos e meu pai vive numa clínica para idosos... Eles não eram muito jovens quando eu nasci e por isso não tive irmãos.
- Ah, entendo.
Falavam conforme subiam as escadas para o quarto de Ichigo. Renji já o conhecia muito bem, mas estar ali naquelas circunstâncias era algo completamente novo e excitante.
- Me espera um pouco? Vou trocar de roupa. – comentou Ichigo indo ao banheiro – Quer uma blusa emprestada?
- N-não eu to bem!
- Okay.
Saindo do cômodo, Renji respirou aliviado, soltando o ar que prendera. Como se pudesse usar uma roupa com o cheiro dele, só pioraria mais a situação, pois não iria querer sair dali com apenas um beijo.
Foi até a janela vendo a neve cobrir mais ainda do espaço lá fora. O vento batia forte nas árvores e até mesmo os fios dos postes balançavam, vacilando na luz deles. Empurrou o fecho para fechar o vidro e evitar uma abertura violenta dele. Olhou para o quarto pensando se poderia sentar-se na cama de Ichigo enquanto o esperava, Achou melhor puxar a cadeira do computador e finalizar com o chá quente – gelado nessa altura.
No meio de sua distração passageira ouviu um zumbido acompanhado de uma música boba eletrônica. Olhou para o lado e viu o celular de Ichigo tocando. Talvez não fosse prudente atender a ligação, mas poderia ser algo importante, como sua chefe, por exemplo... Puxou um papel e caneta e apertou o botão do telefone:
- Alô, celular do Ichigo.
- Quem ta falando?! – gritou a voz do outro lado.
O timbre rouco, o jeito impetuoso e ousado, a ignorância irrefutável daquelas palavras e a total falta de educação... Era ele.
- Grimmjow? – indagou engrossando a voz.
- Você... Tu é aquele cara, o amiguinho do Ichigo! Ta fazendo o que aí?!
- E você porque ta ligando para ele?
- Vai se fuder! Não te deve explicação nenhuma.
- Pois nem eu devo.
- Que direito de merda você tem para atender o telefone dele?! Chama o Ichigo!
- Você quer falar de direito? Que eu saiba você e o Ichigo já não tem mais nada um com o outro, quem ta incomodando aqui é você.
- Seu filho da puta! Só tava esperando eu sair de perto para dar o bote, né? Covarde da porra!
- Deixa de ser metido. Eu nunca faria nada com o Ichigo sabendo que ele tava com outro – ao menos até certo ponto – para de querer mandar nele.
- Escuta aqui seu merdinha...
- Não, escuta aqui você. – esbravejou ouvindo o silêncio do outro lado devido a surpresa – O Ichigo não quer mais saber de você, ele ta melhor agora, finalmente ta conseguindo te esquecer, e não quer mais falar nem saber qualquer coisa ao seu respeito. Vê se deixa ele viver a vida dele e toca para frente com a sua. Para de bancar o babaca, porque agora ele ta comigo, sacou? Ou o orgulho te deixou surdo também?!
Sem aguardar uma resposta desligou o aparelho pondo-o de lado na mesa. A porta do cômodo se abriu e Ichigo apareceu trajando uma roupa mais confortável.
- Ouvi meu celular tocando.
- Me desculpa atendi porque poderia ser algo importante, mas era trote.
- Ah sim. Tudo bem, eu não me importo.
- Parece que vou ter de ficar aqui mais um tempo, a tempestade ta forte. Quer preparar alguma coisa para comermos na cozinha.
- Leu a minha mente, to morrendo de fome!
Saíram do quarto apagando as luzes. Renji agia como se nada houvesse ocorrido. Se Ichigo soubesse da ligação, se ele tivesse atendido, poderia ter sofrido alguma recaída. Não poderia se arriscar agora, não estando tão perto de ter pela primeira vez em sua vida a pessoa por quem estava apaixonado. Estava jogando sujo, mas é como dizem: no amor e na guerra, vale de tudo.
A cama do hotel era enorme. Os travesseiros pareciam ser extremamente macios, convidando a qualquer um deitar-se neles, com a coberta sobre o corpo, afogando-se nas plumas, sendo levado pelo sono. As janelas, proporcionais ao seu tamanho, mostravam a vista para a cidade iluminada e as ruas apressadas do centro da cidade grande.
O sol cuidava de iluminar o ambiente atravessando a penumbra das cortinas brancas. Uma mesinha com os restos de um almoço alojava-se num canto dali. A garrafa de vinho encontrava-se pela metade, sem contar nas roupas espalhadas num bolo em cima da poltrona aveludada.
Era um dos quarto de luxo, dignos dos mais importantes clientes dele. E Neriell havia recomendado em particular aquele andar devido a quietude, pois os barulhos dos carros e a fumaça nem chegavam perto dali.
Grimmjow permanecia de pé ao lado das vidraças segurando o telefone ainda encostado em seu ouvido. A linha tinha ficado mudo fazia algum tempo, mas as últimas palavras de Renji deixaram-no sem ação alguma, sem resposta.
Juntos, ele disse. Ichigo estava junto daquele cara. Mas como?! De que forma?! Porque isso havia acontecido?! Tinha decidido acertar as coisas com o ruivo assim que pusesse os pés de volta no país, porque agora tinha de lidar com isso?!
Per Ichigo para outra pessoa?! Vê-lo sendo tomado assim, sem mais nem menos por conta de diversos desentendidos!? Isso não! Era a única coisa em sua vida que não permitiria acontecer! Seria capaz de suportar perder tudo, qualquer coisa... Menos Ichigo!
Num rompante de raiva, a mão, em uma força sobre humana, apertaram o fone, trincando o corpo do aparelho do hotel. A outra mão arrancou da tomada a parte mais pesada num único puxão, e no segundo seguinte, ele espatifava-se na parede, caindo com suas pequenas peças ao seu redor, a roda transparente num tom antigo desprendeu-se, e foi rodando até os pés descalços de Grimmjow.
Em seus dedos, as unhas estavam maiores, afiadas. Cerrava os dentes com força, emitindo o que parecia ser um rosnado de sua garganta. Os olhos azuis em fúria eram minúsculos em suas órbitas, adornados apenas por uma fina linha preta em seu centro, parecendo um animal descontrolado; um felino enraivecido.
Poderia até mesmo perder sua sanidade... Mas perder Ichigo?... Jamais.
Continua
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— Bônus -
Notas finais
O Renji tá se dando bem!! Aproveitando a falta do guarda costas do Grimmjow =DDD
E o pior é que ele tá perdendo cada vez mais o controle, e agora? =XXX
É isso minha gente, ou ele volta, ou tá tudo perdido!
Ainda estou com trabalho, seminários e afins em mente para me preocupar... Vou ficar atolada assima té novembro!
Por isso tenham paciência! A história continua em tempo mais estendido de um capítulo para o outro, mas nunca morrerá!
Agradeço ao apoio de v6, e por não desistirem de ler a fic! Obrigada!
Kissus até o próximo o/
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