Eram quase três horas da tarde. Saí de meu escritório um pouco cansado, um pouco ansioso, um pouco encantado. Atrás de mim, uma senhora idosa desesperada e chorosa, que suplicava pela minha ajuda na educação de seu adolescente filho.

-O que há? A adolescência é assim! Deixa não só o seu garoto terrível, mas a todos! A arrogância lhes preenche a face quase como um adorno.

-Então faça dele um homem! Suplico-o!

-Farei o possível, mas deve compreender que esta é uma fase por qual todos os homens passam.

-O possível talvez não seja o suficiente, é mais terrível do que aparenta.

-O que tanto o estraga? Tanto, a ponto de fazê-la chorar... deve amar seu filho mais do que o abomina e não o inverso!

-É um alcoólatra! Um alcoólatra! Vive para a noite e morre pelos livros. Não é capaz de suportar uma viva alma ao seu lado sem com ela travar incessante discussão. Juro, não o eduquei mal, tenho outros quatro filhos e nenhum deles apresentou tão inconstante e rebelde comportamento! São os livros que lê que o influenciam daquela forma! Por isso achei mais que sensato pedir-lhe ajuda, um homem culto talvez possa compreendê-lo! Imploro-te que me ajude.

-Farei o possível.

Concordei em ajudar aquela adoravelmente sensível mulher. Disse que o que esperava de mim era contrário ao meu dever, mas que poderia ajudá-lo a superar sua reclusão, conversando e estimulando seu caráter artístico. Ela consentiu e de forma insegura e voz falha, acrescentou:

-É necessário que ele saia da cidade.

-Mas do que está falando?

-Ele precisa afastar-se dos bares e cafés que freqüenta. – sua voz tornou-se séria e decidida – pagar-lhe-ei o triplo se concordar em sair da cidade. Alugo-te uma casa no campo para passar a temporada necessária.

Como achei a proposta conveniente, aceitei. A agitação da cidade começava já a me incomodar. Passar um tempo na isolação e na companhia de um jovem atrevidamente hedonista parecia-me uma espécie de férias. Por interesse e curiosidade prontamente aceitei.

Todos os preparativos foram realizados. Já haviam se passado três semanas desde o meu encontro com aquela mãe desesperada e ainda não havia conhecido meu adolescente digno de tutela. Estava eu na estação ferroviária, esperando por ele, eram nove horas, o trem partiria as nove e vinte, por ora, nada. Nove e dezessete, barulho, tumulto, gritaria. E lá estava ele, esperneado com seus vigias que deveriam, suponho, supervisionar se o trajeto a caminho da estação ferroviária não seria alterado por culpa de um cabaré ou café ao ar livre.

Suas feições não me surpreenderam: pálpebras caídas, queixo e nariz arrebitados, vestes curtas, seu cabelo frisado, todos os traços da juventude estonteante que se apossa das belezas do mundo atual. É o mais lindo dos seres e sabe perfeitamente disso! Esconde em si uma tristeza inflexível e uma instabilidade insuportável! Todos os traços de uma juventude deliciosa. Quando se apresentou com uma quase imperceptível reverencia, encarei-o nos olhos por longos momentos com um sorriso divertido nos lábios.

-Vamos. – disse com um sibilo adentrando ao trem.

O tédio o embriagava, causava-lhe vertiginosa sensação de ódio interno, acumulativo e denso. Cada uma de suas feições me parecia valiosa! Oh juventude precoce e estimulante! Vivaz e incontrolável! O que se passa no coraçãozinho deste incompreendido poeta?

Houve depois um momento em que até tédio o entediou, virou-se inesperadamente e de súbito abordou-me:

-Conheço-o!

-Conhece-me?

-Sim.

-É uma pena que não possa concordar.

-Gosto dos seus poemas. Existe uma libertinagem implícita extremamente atraente em seus escritos, e é atraente porque as oculta.

-Você os interpreta desta forma, não é minha intenção passar tais ideias.

-Não fale como se eu fosse tolo, não se faça de tolo. O mundo está cheio deles! Não os suporto!

-Deveria freqüentar ambientes mais propícios aos seus gostos.

-Esse tipo de ambiente sufoca-me.

-A liberdade está onde você a procura, depende do seu ponto de vista tanto quanto meus poemas. “A fase imperturbável, a pureza, a leveza e o êxtase do amor ao encontrar verdadeiramente minha senhora, minha amada senhorita.” – refiro-me ao coração, mas pode você julgar que me refiro a um milhão de coisas!

-Diz tais coisas apenas para contrariar-me.

Sorri, sua impaciência divertia-me. Seus gestos impressionavam-me o já impressionado sentido.

-Escreve? – indaguei profundamente interessado.

-Sim. – respondeu com uma simplicidade óbvia. – Mas apenas em adequado estado de espírito. Não escreverei durante a viagem.

-Creio que não.

-Pensa que sabe tudo não? Pensa mesmo poder consertar-me dos males que afligem mamãe? Pensa que o respeitarei por sua idade e fama, por sua inteligência e fortuna? Pois está errado.

-Ora, você me faz parecer interessante! Me faz parecer tão egocentricamente genial!

Deu com os ombros, olhando para a paisagem por onde passávamos: árvores aos montes, flores e animaizinhos. Voltou-se para mim com desprezo escorrendo-lhe pelos olhos.

-Pois bem, não sei o que pensa. Mas manter-me trancado em uma casa de campo não me fará mudar, não compartilharei...

-Um segundo Bosie, não se precipite. Educo garotos que estão dispostos a obterem algum tipo de experiência artística. Não o farei mudar, não o farei seguir regra alguma tampouco ordená-lo que deixe de seguir as próprias. Meus serviços são realizados a pedido dos próprios beneficiados, o que não é o caso. Enviarei a sua mãe cartas semanais relatando seu comportamento progressivamente aos meus olhos. Mostre-se apenas levemente interessado neste programa para dar paz pessoal a sua mãe, e facilitarei sua situação, quero voltar para minha escola tanto quanto você quer voltar para a cidade, portanto acalme-se, é tão enfadonho para mim quanto é para você.

A calma na minha voz pareceu incomodá-lo como alguém que veste uma casaca apertada demais, mas não pode se livrar dela, pois sente frio. Sua feição fechou-se em uma irritação silenciosa, desenhando em seus lábios um biquinho infantil. Jovens! Detestam ser contrariados até mesmo em beneficio próprio. Preferem que lhe arranquem o couro se tiverem, ao menos, uma chance de imposição! Maravilhoso é mundo dos jovens, e como me é delicioso observá-lo de tão perto que posso sentir suas baforadas exasperadas! E o esplendor da sua beleza se realçava em cada uma das suas manifestações de superioridade e cada vez que se mostrava completamente abominável, tratava de amá-lo profundamente. O silêncio mais uma vez preencheu o ambiente, cansado de sentir-se irritado, finalmente adormeceu.

Chegamos por volta das sete horas, um carro nos esperava. O cocheiro, um homem idoso e corcunda para quem olhinhos repletos de desprezo foram direcionados, nos deixou no jardim de nosso aposento provisório e se foi.

-É aqui onde ficaremos?! – disse desesperado.

-Creio que sim. Mas veja, há um belo jardim.

Imaginei que tivesse ele, ao menos, algum apreço pela natureza, pelas flores, pela paz que aquele ambiente o traria, afinal, é isso que os livros tanto ressaltam, mas notei que nele o desespero sumiu, assim como a raiva e desprezo. Aquele rebelde anjo de feições belamente desenhadas estava triste! Era então uma infelicidade tamanha, meus sentidos não me enganariam e logo me apaixonei pelo misticismo da sua falta de estabilidade emocional. Queria desvendá-lo, descobri-lo, penetrá-lo. Todo aquele comportamento explosivo, bipolar, intolerante ultrapassava os limites do simples comportamento padronizado para ser o insuportável que os jovens costumavam adquirir. Inclusive segundo sua mãe, seus modos reclusos ultrapassavam o familiar, não tinha contato com rapazes da sua idade tampouco com mulheres. Torna-se a cada minuto mais interessante observá-lo, analisá-lo, seus detalhes estimulam minha imaginação e apaixonam-me.

A manhã seguinte foi tranqüila, pássaros cantavam, e o cheiro de relva preenchia a casa. Levantei cedo e o pobre adolescente ainda dormia, como se estivesse morto, na cama permaneceu até as três da tarde. Levantou-se por fim com os olhos repletos de olheiras.

-Como passou a noite? – perguntei.

-Terrivelmente tranqüila, terrivelmente parada, atormentadora. Não dormi.

Provavelmente habituara-se a pegar no sono com o auxilio da bebida, isso é belo, ora o desfalecer pela ressaca!

-Há muito está acordado?

-Sim. A tranqüilidade do campo habilitou-me os sentidos literários, é fabuloso.

-Não me importo. – olhou para os próprios pés, uma mistura de melancolia e contentamento.

Passei a mão em sua cabeça, meus dedos entre os fios de ouro que eram seus cabelos.

-Logo isso acabará.

E ele riu daquilo, se afastando.

Os dias se passavam com a lentidão do campo. Meu pequeno tutelado mostrou-se irritadíssimo no começo, mas com o tempo acostumou-se e contentou-se com o clima que o campo oferecia. Basicamente não havia muito que pudesse fazer e por isso nada fazia. Estudava suas ações e reações como um livro, e o tempo passava comigo sempre a espreita de seus movimentos, deliciando-me por seu toque.

-Não pense que sou seu criado. – disse quando ordenava que lhe trouxesse um livro.

-Nada penso.

-Arrastá-lo-ei pela língua se não comportar-se.

-Não se faça de grego! – disse ele com uma risada repleta de escárnio – gosto demais deles para imaginá-los em você.

Ria-se abertamente quando comentários como este eram feitos. Dava a ele toda a atenção e se não fosse demais se tratando dele, diria que havia certa afeição.

O tempo passava e tomava por ele um afeto incomum, com os detalhes parecia-me mais atraente. Apegava-me ao seu modo de falar, de andar, de contrariar-me, de escrever e estudar. Reparei que muitas vezes suas mãos tremiam, a abstinência o enlouquecia, mas logo eu tratava de conversá-lo, distraí-lo falando com ele sobre nada mais que ele próprio. Seu ego irremediavelmente enorme se estimulava com aquele tipo de comportamento da minha parte, mas era de fato, delicioso ter com ele tal adoração. Expressava certas verdades repletas de ironia e ele, encantado por elas, concordava plenamente, mostrando-se ainda mais arrogante. Aquela arrogância trazia em mim um interesse maior e mais forte que se pode ser a sinceridade, já que ele fingia acreditar e eu fingia ironizar. Céus, amo a juventude, amo suas facetas!

Certa manhã, enquanto divertia-se com o adorável cão, pus-me apenas a observá-lo. Meu pequeno, tão belo, tão jovem, tão natural! Possuía todas as faculdades necessárias a um adolescente: os sonhos vívidos davam-lhe mais vida que a própria essência e consideraria que Deus não existe para aqueles que são jovens! Não precisam de outras crenças senão as têm em si mesmos. O orgulho que os afoga, torna-os as coisas mais estúpidas, consecutivamente mais belas. Amo-te meu jovem, amo-te devotamente, como amam as flores, o sol, e como necessitam da água, os peixes. Amo-te por sua sutileza e principalmente pela segurança como age sutilmente. Amo-te pela perseverança em sonhos que jamais alcançará e que tampouco fará algo para aproximar-se deles. Amo-te pela crença na infelicidade, onde explora em seu coração os pontos mais sensíveis ao sentimento imaginário e que sem notar e jurando o contrário, emana felicidade pela falta de noção que são reais os sentimentos, as dores, as carezas. Amo-te garoto, amo seus modos ousados e sublimes. Amo a delicadeza da sua face e a expressão rude que nela se desenha constantemente, amo a leveza dos seus passos e a forma atrevida com o qual me encara e me contraria. Amo a certeza de suas condições errôneas até mesmo quando percebe que o contrário é correto, curvando-se enrubescido de fúria a dizer “para o inferno, então, com esse seu tal ‘ponto de vista’”. Amo a força sem igual que exerce sobre mim

O observava ao gramado enquanto o cão lambia-lhe a face, tão bela era a cena que postei-me a fitá-lo com admiração. Seus olhos brilhavam, verdadeiramente divertia-se! Divertia-se! Após a estonteante brincadeira, cansado, levantando-se do gramado verde e úmido, e sentara-se ao meu lado na mesa de chá. Levantou os olhos, secou o suor que lhe escorria a face com um lenço de seda azul e reclinou-se na cadeira, cruzando as pernas.

-Como está quente! – disse num sibilo pessoal.

Continuava a falsamente ler o meu livro, enquanto ele respirava ofegante, abanando-se com as próprias mãos.

-Sirva-me de um pouco de chá gelado... por favor.

O “por favor” parecia lhe engasgar a fala, por isso utilizava apenas quando estritamente necessário, num tom mais baixo que as demais palavras e notei o quão sua feição demonstrava extremo desprezo pela cordialidade. Levantei-me de minha sossegada descançadeira, servindo-o em um copo de vidro desenhado, de um pouco de chá, gelo e suco de limão. Bebeu num só gole, encarando o copo em seguida, desejando profundamente que nele houvesse álcool. Ignorou novamente o copo, não como alguém que compreende os malefícios da bebida e tenta nela parar de pensar, mas como alguém que deve simplesmente aguardar. Encostou-se novamente, retirando do bolso das calças curtas, sua cigarreira.

Era muito cedo para se fumar, era muito cedo para se estar acordado, era muito cedo para se estar no jardim, mas não me intrometi, e apesar de sentir as entranhas arderem de palpitação pela presença daquele jovem diabo ao meu lado, tratei-o com a mesma atenção a que devo prestar a uma sombra. Meus resultados foram frutíferos, sentindo-o incomodado por minha negligência. Passaram-se alguns minutos, fechei o livro e entrei para dentro de casa. Seu olhar perfurava-me, acompanhando-me a medida que eu me afastava.

Subi as escadarias maciças, a caminho do meu quarto, sentei-me na escrivaninha, postando-me a escrever. Pouco depois, o pequeno discípulo adentrou, o esperava, já ouvira seus passos lânguidos do térreo. Fingi mais uma vez não prestar lhe atenção, esperando que ele entrasse a qualquer momento, mas repentinamente, não o fez. Antes, ouvi o som de vidros se debatendo, depois um longo silêncio e por fim o som de seus passos mais uma vez, à caminho da escadaria.

-O que está fazendo? – ele perguntou.

-Escrevendo à minha esposa. – respondi num tom automático.

-Você não tem esposa – disse satírico – tem papéis que falam sobre casamento e uma mulher para lhe dar herdeiros, no entanto, uma esposa, não o tem.

Não respondi.

-Por que me ignora?

-Desculpe?

-Mas... o que?! – havia profunda indignação em sua voz, quanto a mim, continuava de costas para ele.

Dobrei um papel em branco, enfiando-o num envelope.

-Pronto, terminei. Sobre o que falava?

-O que escreve tão repentinamente? – perguntou afetado, transpassando na voz falso tom de deboche para esconder a afetação.

Amo os espíritos jovens! São ousados ao ponto de ignorarem as próprias verdades pela honra da dissimulação.

-Assuntos importantes, coisa o qual você não deve ter conhecimento. Mas não se preocupe, prometo não mais atormentá-lo com nenhum assunto que não seja você, mesmo quando pergunta.

Ignorou minhas palavras, numa pose convicta e satisfeita. Achava então, ou fazia-se acreditar que finalmente eu lhe estava reverenciando, mas não o culpem! É da natureza dos jovens levarem ironia a sério quando querem dar as palavras alheias o significado que melhor os representam.

-Começamos hoje com seus estudos. – comentei.

-Não me sinto disposto.

-Devo “devolvê-lo” a sua mãe educado.

-Eu lhe pedi “por favor” ainda esta manhã. – disse ele naquele tom óbvio repleto de cinismo.

-Por mim tudo bem, direi a sua mãe que você não se empenhou, que meus esforços foram inúteis, ela não se surpreenderá, sabe que você é um caso perdido.

Senti fogo sair de seus olhos quando me encarou antes de virar-se abruptamente, derrubando a cadeira ao lado da porta, descendo as escadas numa rapidez atroz, mais uma vez, o barulho de copos.

Desci lentamente as escadas para observar o que fazia e não me surpreendi. Havia uma cristaleira azul no meio da parede central, em qual se dispunha dezenas de copos enfileiradamente organizados, entre eles, uma garrafa artesanal de água ardente, que não sei se por decoração ou por luxo, os donos da casa que a alugaram para nós, deixaram. O que importa é que nesse momento, havendo derrubado todos os copos para alcançar a tão desejada garrafa, deleitava-se com a bebida. Levava-a aos lábios, vermelhos, úmidos, entreabertos. Existe um misticismo na curva tênue do seu pescoço, quando o inclina! Céus, meu pequeno estremecia profundamente ao terminar cada golada, embebedando-se com um sorriso inseguro, antes de voltar a garrafa aos lábios, transformando a mesma insegurança em satisfação. Postei-me apenas a observar o pequeno alcoólatra que me fora enviado por sua mãe, perturbada, impaciente, enfurecida, decepcionada, quase como um presente.

Meu jovem, my Saint Sebastian as flechas que o atingiram a carne¹ não chegaram ao seu orgulho, não é mesmo? Meu amado, meu querido, pele de marfim e olhos brilhantes, oblíquos, entorpecidos pelo álcool à integridade! Porque molda a felicidade a sua própria alucinação? À realidade de seus romances? Onde e porque a infelicidade o aflige? Como posso educá-lo se é perfeito? Sua melancolia embriaga-me como o álcool que escorre pelos seus lábios, seus modos rudes que nada mais são que sentimentalismo acumulado e mal interpretado. Meu pequeno, desdenha o amor por não conhecê-lo, por idealizá-lo como se deve fazer em romances que tão desesperadamente lê e escreve. Quem com tal vislumbre seria capaz de compreendê-lo como eu compreendo? Eu, um homem de letras, um homem de concepções definidas, um tutor, seu tutor.

-Douglas² não pode continuar a fazer isso.

-O que me impede?! Você?! Poupe seus esforços, desista de mim, procure o que de melhor fazer, enquanto envelheço e tiro a culpa dos ombros alheios para derramá-lo aos meus. Nada quero que faça!

-Tampouco eu, no entanto, como lhe disse, nada tenho a ganhar com a sua conduta.

Seu olhar encheu-se de fúria, encarando-me.

-Preciso sair deste lugar! Maldito lugar! Detesto o campo! Deste as pessoas que aqui vivem! Ora, mas detesto tudo em todos os lugares, não há nada que eu possa fazer, não há lugar onde eu possa fugir, não há quem possa proteger-me do monstro que sou! Minha mente destrói-me, corrompe-me em ódio, em tamanha falta de esperança, em uma generalização abundante, não posso confiar em ninguém, não posso amar ninguém, não posso acreditar em ninguém, não há nada pelo o que eu possa esperar!

-A culpa, de fato, é toda sua Douglas.

Começava a chorar furtivamente, escondendo o rosto nas mãos. Meu pequeno anjo caído, banhado em lágrimas e desespero, a suavidade não fazia parte daquela composição, mesmo que rodeando-a, emanando-a simultaneamente.

-Sim Douglas, a culpa é sua! Essa é a culpa do saber, é o fardo daqueles que sabem, daqueles que lêem, estudam, criam! Baseia-se na realidade escrita, pressupõe o que não se pode ser pressuposto, generaliza um grupo de pessoas como se generaliza uma raça de cães. Deve você criar expectativa para com o mundo, para com as pessoas, para com a vida.

-Queria eu poder acreditar em uma só de suas palavras ao invés de apenas apreciá-las com desprezo.

-Douglas...

-Pare de me chamar assim! Aborrece-me! Aborrece-me de todas as formas! Porque faz tanta questão disso? Qual é o furor de cutucar uma ferida que já tanto sangra? Qual é a sua intenção com tudo isso? O que pensas que sou? Um livro para pajear e analisar a sua forma? Aborrece-me! A forma como fala e anda, a forma como me olha, a forma como me ignora! O que queres? – sua voz saia num suplicio de lágrimas e desespero. Pôs-se a virar novamente a garrafa entre os lábios.

-Sei bem o quero. Enquanto a você? O que quer? Iludir-se com o que? Viver para que? Se lhe falta perspectiva de vida por que não procura a morte? Se sofre, por que então não trata tais dores ou dá a elas um fim? Qual a sua sina? Existem tantas perguntas que deve fazer a si mesmo antes de aborrecer-se. Meu caro, a vida é solitária demais para os que vivem à própria forma, e é isso que pensa, é isso o que o tortura. Não precisa mudar teu jeito para que alguém o compreenda, não precisa desprezar os demais por não compreende-lo! Não precisa desprezar a si próprio por não adaptar-se! Não precisa sentir-se feliz para deixar sentir-se triste.

E ficou paralisado. A garrafa caída das mãos, com um estrondo atingiu o solo sem se partir, deslizando debilmente pela cozinha, deixando como seu rastro, o conteúdo que dela escorria, e como concordo com a ideologia de higiene mental³, me retirei.

Benditos sejam os amores condenáveis! Todos eles!

1- Referência homossexual A forma como é representado, em pinturas e esculturas, quase sempre nu, com um belo corpo musculado, o simbolismo das flechas trespassando-lhe o corpo e a expressão de êxtase doloroso, são provavelmente responsáveis pela atração que este santo tem provocado nos homossexuais desde o século XIX.

2- Nome do Bosie, amante de Oscar Wilde. A figura delicada e esbelta é a quem o interlocutor faz a comparação.

3- Trecho citado no livro “Lolita”, que conta a história de um francês pedófilo na America e seu amor por sua afilhada, Lolita. O interlocutor se diz concordar com a ideologia, traçando um paralelo entre a tal ideia de “higiene mental” e os amores proibidos de ambos.

Notas finais
Pois bem, não estava nos meus planos um próximo capitulo, mas haverá! Estou me sentindo muito orgulhosa por este conto e se o separo em capítulos é apenas pela necessidade de organização, prometo que será bem curtinho, do contrário, eu sei, ficará cansativo. Sua base, inclusive, já está pronta, mas para tornar o texto mais rico estou despojando todas as referencias possíveis ao contexto nesta narrativa, o que a torna deliciosa de se escrever! Espero que para ler também! Pensei em colocar uma imagem de Saint Sebastian como capa, mas detesto capas, e também são muitas imagens, recomendo a quem não conhece que dê uma passadinha no Google imagens só para ter uma noção. Quem tiver uma recomendação de referência que se encaixe no contexto, eu ficaria extremamente contente em recebê-la para acrescentá-la! Hm, acho que é tudo. PS.: Sou muito do que escrevo e é até engraçado escrever também meus próprios sermões!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.