Magos Vs Bruxas interativa
3 O Despertar
Notas iniciais
Além de qualquer montanha, fora do mundo conhecido. Este era o lugar de onde ninguém retorna. Nesta terra não há sol ou lua, a luz vem de nuvens roxas que pairam por aí. Não podemos dizer que há céu, pois tudo aqui é relativo e confuso. Há momentos em que se acredita olhar para o céu, mas pouco depois você se sente dentro de uma espécie de tubo sem fim. É um lugar em tons de roxo e azul do qual parece fluir uma energia das trevas. O tempo aqui não passa e nem é sentido, tornando-se apenas uma vaga lembrança dos sobreviventes. Não há plantas, animais ou rios, pois é um enorme deserto sem areia feito do que hora parecem rochas, hora parecem corpos. Este mundo de energia estranha é vagamente comentado nos livros sendo tratado como uma teoria louca e sem sentido. Contudo existem aqueles que podem provar sua existência, porém estes se encontram loucos.
Se você sobreviver a Arret, perderá boa parte de sua sanidade. Não é só por ser um mundo louco, mas porque é a própria energia estranha que alimenta o corpo dos que ali habitam. Hora é como se você adormecesse e estivesse num sonho ruim. Hora você vaga por aí buscando a saída. Mas aqui é um lugar que parece vivo, pois de vez em quando o espaço se deforma. Não da pra encontrar a saída. Os anos se passam na Terra, e você se perde em toda essa confusão achando que permaneceu por poucos minutos aqui. Assim estão os loucos. Aqui estão as bruxas. Cada qual vagando ou dormindo, porém chegou a hora do despertar de suas consciências. Algo está pra ser liberto de seu selo devolvendo as bruxas para a realidade.
De vez em quando, as deformações imitam alguns espaços terráqueos. Isso ocorre quando uma luz mais forte vem de uma nuvem, o que significa que algum espelho da Terra está ligado a ela. Neste mundo confuso atrás dos espelhos, uma dessas luzes iluminou uma caixa velha de madeira. Essa luz acordou um ser que há muito tempo estava preso ali. Seu espectro escapava por uma fresta minúscula e ia hipnotizado pela iluminação tão bela. Do outro lado do espelho, uma jovem ajeitava os cabelos negros sem nunca imaginar o que estava provocando ao arrumar-se frente ao enfeite da porta de seu armário da escola. O espectro, ainda em um tipo de transe, imitava a forma da garota tomando um corpo idêntico ao dela. De repente, a luz cessou-se, pois a jovem voltou normalmente para a sua vida humana, porém isso cortou o transe daquele ser. Num impulso, agarrou a caixa antes que a perdesse. Já com mais calma, conseguiu ler as runas na tampa.
“O mal aqui se encontra selado eternamente. Nunca abra esta caixa e deixe-a longe da luz terrestre.”.
Aquilo lhe soava como uma piada infantil. A voz da cobra ressurgiu aos risos.
— Pobre velho. Achava mesmo que podia deter-nos. Usou as sombras contra nós e nos baniu, mas isso não adiantou.
O cadeado estava partido. Com um sorriso satisfeito, deu um leve empurrão na tampa que, ao liberar uma pequena fresta, provocou a explosão da caixa jogando diversas cartas para cima.
— O Baralho das Bruxas... –pensou alto pegando aleatoriamente quatro das cartas que já voavam pelos ares e colocando-as em seu capuz. –Isso deve atrair meus irmãos pra cá num instante.
Um rugido ensurdecedor despertou a Virgem que se encontrava coberta por rochas. Por uns instantes, organizou sua mente e analisou a situação com calma. Concentrou-se. Ainda de olhos fechados, sentiu suas trepadeiras a desenterrarem e a erguerem colocando-a de pé. Novamente o rugido incomodou-a obrigando-a a enroscar o Leão com suas trepadeiras.
— Se não te calares vou arrancar-te os dentes. –ameaçou-lhe tentando manter a calma apesar de já ter veias saltadas e um sorriso sádico no rosto.
O Leão rosnou desvencilhando-se das amarras que logo se desfizeram com a ordem da moça.
— Estou tentando reunir nossos irmãos. –justificou-se contrariado com a donzela, mesmo mantendo um tom de voz mais brando. –As cartas não estão mais seladas na caixa. A Serpente deve tê-las soltado. De qualquer forma, precisamos reuni-las e sair daqui.
Tal informação fez a Virgem silenciar-se por um instante.
— Sabes onde os demais se encontram?
— Até agora, só encontrei você.
— Consigo senti-las. As cartas atrai-los-ão. Não se preocupe.
Naturalmente, seguiram atrás das cartas que se concentravam perto de uma pilha de corpos frios. Algumas ainda pairavam caindo lentamente. Outras já estavam pelo chão aguardando seus donos buscarem-nas. Aquela bagunça incomodava a donzela que, na tentativa de não estressar-se, foi juntando-as num pequeno monte, ajoelhada no chão. O Leão parecia mais satisfeito ao ver tantas cartas ao seu redor, mas o grande rei que era não poderia abaixar-se para pega-las. Um rei nunca se ajoelha. Então, saltava buscando as que pairavam mais alto. Foi quando três vultos o atropelaram, por sorte ele caiu de pé.
— Olhem por onde andam! –ordenou o felino que foi ignorado fazendo-o rosnar contrariado e voltar a procurar algo útil.
Câncer e Peixes tinham posto as mãos na mesma carta. Nenhum deles estava disposto a soltá-la. Eles se encaravam com raiva como se um mandasse o outro desistir, afinal era uma ótima carta de prata.
— Tenha santa paciência. –disse Capricórnio que estava em meio aos dois.
Rapidamente ela pegou a carta para si irritando ambos.
— Sejam menos infantis. Tem carta pra todo mundo. –disse ela virando as costas e procurando algo com os olhos.
— Neste caso, devolva-a para mim e vá buscar outra pra você. –falou Câncer tentando não voar no pescoço dela.
— Nada disso! Eu peguei primeiro! –retrucou o peixe.
A bruxa olhou-os da cabeça aos pés como se os medisse. Sorriu irônica.
— Acontece que ela já é minha. –ironizou indo apropriar-se das preciosas cartinhas que tinha avistado ao longe.
Mesmo furiosos, Peixes e Câncer decidiram buscar outras cartas antes que nada mais restasse.
Cada um dos irmãos foi chegando e pegando as suas cartas. Uns discutiam, outros pegavam o que podiam. Apenas a serpente mantinha-se escondida observando-os de longe.
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