—Você e seu pai estão bem? – Natsu me perguntou quando teve a oportunidade de estar sozinho comigo.

—Sim, melhor do que antes... eu acho. – contei a ele sobre a conversa.

—Uau... eu sinto muito Lucy. – Natsu falou honestamente.

—Sei que sente. – sorri humildemente enquanto apertava o ubre da vaquinha. – Obrigada.

O restante do dia passou rápido, ajudei Natsu nos afazeres da fazenda e perto do anoitecer eu o ensinei a fazer pão, nos divertimos monte, estávamos cobertos de farinha e ovo, mas o que importa é se divertir certo?

—Por que toda vez que eu deixo vocês sozinhos ficam cobertos por alguma coisa? – Papai entrou na cozinha e colocou as mãos na cabeça.

—Desculpe pai, o Natsu disse que iria limpar tudo. – falei docemente para Jude.

—O que? – Natsu exclamou.

—Acho bom. – Jude deu a volta e foi para o banheiro.

—Você está pensando que é quem? – Natsu jogou leite em mim, eu pisquei para não ir nos olhos e senti o gosto do liquido na boca.

—Seu... – peguei um ovo, mas minha mão estava escorregadia e o ovo caiu no chão e quando fui desviar pra não acertar no meu pé eu escorreguei, e Natsu tentou me agarrar mas não obteve sucesso, caiu em cima de mim.

Nossos rostos estavam muito próximos, embora o cheiro de massa e todos os ingredientes, pude sentir seu hálito quente e a respiração ofegante, senti e ouvi seu coração ritmar mais rápido e minha barriga esfriar, ao contrário de minhas bochechas que estavam quentes e da cor do cabelo de Natsu.

Quando ele percebeu que estava muito perto, rapidamente se ajeitou sentando em cima da sujeira no chão da cozinha e ajudando-me a levantar.

—Obrigada! – exclamei ao sentar ao seu lado.

O que eram esses sintomas que eu tinha ao ficar próxima de Natsu daquela maneira? E mais importante, por que sempre que isso acontece, eu me lembro de Gray?

—Será que você poderia me ajudar a limpar a cozinha? – Natsu perguntou para quebrar o silêncio, olhei pra ele achando estranha a pergunta e suas bochechas estavam mais coradas que as minhas.

—É claro que ajudo. – ri então decidi brincar com ele, fui mais próxima e percebi que seus olhos abriram um pouco mais, levei a palma de minha mão até sua testa. – O que você tem que está tão vermelho garoto? Ahahahahahaha.

—Muito engraçado Lucy. – Natsu pegou minha mão e aquele toque foi delicado e sereno. – Você não tem ideia do quão ruim é ficar assim e não poder fazer nada.

—Do que está falando? – perguntei recolhendo minha mão e olhando atenciosamente para Natsu.

Ele não quis responder, apenas levantou e começou a guardar o que sobrou dos ingredientes, quanto a mim, comecei a limpar a cozinha. O silêncio estava estranho entre nós, então decidi quebrar de alguma maneira.

—Ahm... sabe por que a Cana teve essa ideia de irmos na casa dela?

—Cana é festeira... – Natsu respondeu levantando os ombros, como se fosse normal.

—Não. – respondi um pouco estúpida. – Eu e ela estamos com planos de juntar Jellal e Erza.

—Deviam deixar que eles se acertem sozinhos. – Natsu argumentou.

—Por que está tão frio? – perguntei já de saco cheio. – você caiu em cima de mim e ficou com vergonha, o que tem demais nisso pra ficar irritado e estranho dessa maneira?

—Por que as vezes temos sentimentos escondidos que preferimos que fiquem escondidos. – Natsu respondeu elevando um pouco a voz. – Talvez Jellal e Erza queiram permanecer quietos no canto deles, sem mexer com sentimentos que eles não entendam.

—Está falando deles ou de você? – exclamei olhando seriamente pra ele.

—Talvez eu esteja falando de mim. – ele respondeu um pouco bravo e largou a vassoura no chão e foi pra fora de casa. Tentei ir atrás dele mas, meu pai me impediu.

—As vezes os homens precisam de um tempo pra compreender as coisas, principalmente sentimentos. – Jude falou olhando para mim e piscou com um dos olhos.

—Por que ele não me conta o que é, posso ajuda-lo. – argumentei com meu pai.

—Como ele poderia falar pra você? – meu pai riu de canto e suspirou. – Se esses sentimentos são relacionados a você.

—O que? – fiquei sem entender, o que Natsu sentia por mim que era tão confuso pra ele? Será aquele medo de perder meu pai que ele comentou? Será amizade? Será...

—Deixe eu ir falar com ele, se não se importa em ir limpando a cozinha... – meu pai interrompeu meus pensamentos e indicou a sujeira no chão, então apenas concordei e deixei que fosse conversar com Natsu.

Passaram-se alguns minutos e eu já havia limpado toda a cozinha, e os dois ainda estavam de papo, decidi deixa-los e ir para meu quarto pegar algumas roupas limpas e ir tomar um banho, no mesmo deixei meus pensamentos rolarem como as gotas passavam pela minha pele lisa.

Por que Natsu estava agindo daquela maneira? Por que eu sempre me lembro de Gray? O que isso tem haver comigo? De repente ouço o trinco da porta do banheiro baixar e sorte que tinha a cortina para esconder meu corpo nu, mas logo percebo a porta se fechar muito rápida e um grito de desculpe do outro lado, era a voz de meu pai, enfim os dois terminaram a conversa.

Saí do banho, me vesti e fui até a cozinha ver como as coisas estavam, mas no corredor, Natsu passou por mim, sem me olhar e foi direto pro banho, franzi o cenho e fui atrás de meu pai, o achei arrumando a mesa pro jantar.

—Por que Natsu está agindo estranho comigo? – perguntei sem rodeios com direito de colocar até as mãos na cintura.

—Huhu... não tenho o direito de falar isso a você, isso é uma coisa que vocês dois tem que resolver. – Meu pai falou rindo enquanto fazia suas tarefas. E antes que eu pudesse argumentar ele prosseguiu. – Mas peço querida, que de tempo a ele, o coitado está apavorado, por favor, de tempo a ele.

Ergui uma sobrancelha sem entender nada, homens.

Suspirei e comecei a ajudar meu pai com a janta, fui até o forno retirar o pão que estava pronto e bingo, ficou exatamente da cor que eu costumava deixar, um pouco dourado por fora, espero que o sabor esteja tão bom quanto à aparência.

—Ah Lucy? – meu pai chamou por mim enquanto arrumava os condimentos para passar no pão. Virei-me pra ele dando-lhe a oportunidade de continuar a falar. – Aquele rapaz que você disse que gostava de Era... você ainda... gosta dele?

—Ahm... – estranhei a pergunta de meu pai, mas mesmo assim quis responde-la. – não tinha parado pra pensar nisso desde que vim pra cá, meus pensamentos estavam em outro lugar, mas eu acho que sim.

—Acha? – meu pai ergueu uma sobrancelha, exatamente como eu faço, acho que herdei isso dele. – já não é certeza.

—É, como eu disse, não parei pra pensar nisso ainda... – fiquei um pouco encabulada de falar sobre isso com Jude, mas fazer o que.

—Certo... – ele concordou e se retirou da cozinha. – Vou lavar as mãos e chamar o garoto pra comer.

Fiquei ali pensando no que meu pai me questionou, ele estava certo, eu não tinha certeza, estranho, pois na escola eu estava tão convicta que era um amor tão grande, como se nunca fosse acabar, mas desde que cheguei em Magnólia, as únicas vezes que lembro dele foram as quais Natsu estava muito próximo a mim, geralmente eu sinto os mesmos sintomas que sentia por Gray, a meu Deus, será que eu...?

—Oi... – Natsu me despertou, olhei para ele e o mesmo estava com a cabeça um pouco baixa, mas fez um esforço para olhar pra mim, então percebi que meu olhar estava analisando todo o seu físico, os cabelos molhados caindo sobre os ombros e a testa, a pele um pouco úmida, os olhos verdes brilhantes que eu tanto admirava, e não posso deixar de comentar, seu corpo escultural, era como se ele fosse desenhado. – Me desculpe por ter gritado com você mais cedo.

—Ah... – ele me despertou, e entendendo onde meus pensamentos estavam, senti minhas bochechas esquentarem, tentei disfarçar virando pra janela, mas foi muito bobo, pôs através do vidro ainda conseguia vê-lo e ele também. – Não foi nada.

—Como assim nada? Eu gritei com você, com uma mulher. – Natsu veio até próximo a mim, colocou sua mão no meu ombro e depois me forçou a olhar em seus olhos intensos cor de esmeralda. – eu nunca vou me perdoar.

—Olha Natsu, está exagerando. – olhei para o lado, por que eu não conseguia encará-lo? – não foi nada mesmo, fico feliz que esteja arrependido, mas eu o provoquei.

—Não é desculpa para isso, me perdoe Lucy. – ele estava realmente arrependido, bem eu ainda achava que era exagero tudo aquilo, mas pra conseguir me livrar de seus braços fortes.

—Sim, eu te perdoo. – eu falei olhando em seus olhos, assim ele suspirou e relaxou os braços, me libertando da pressão de encará-lo.

—Tudo bem por aqui? – meu pai entrou na cozinha olhando para nós.

—Tudo sim. – Natsu respondeu sorrindo e indo sentar-se em seu lugar, fiz o mesmo tentando esconder ao máximo meu rosto vermelho, desaparece logo cor.

Quando estávamos todos sentados, em silêncio, cada um fazendo seu café e cortando o pão, papai resolveu me surpreender.

—Bem, eu andei pensando sobre o assunto de vocês dormirem fora, sei que disse que não iria deixar e tudo mais. – ele começou e nossa atenção estava com ele. – Mas vou deixa-los dessa vez, com uma condição.

Eu engoli em seco e Natsu estava com os olhos arregalados esperando pelo que vinha.

—Quero que os pães da casa sejam todos feitos pelos dois de agora em diante. – ele disse sorrindo e tanto eu quanto Natsu soltamos os ombros de alívio. – Hahaha, Lucy está incrível, sua receita é maravilhosa, é o melhor pão que já experimentei, você tinha razão.

—É verdade. – Natsu disse ao engolir a sua fatia quase inteira. – Você está pronta pra casar.

—O que? – Jude esbravejou, e Natsu arregalou os olhos, eu sabia que era apenas uma expressão, mas acho que meu pai não aceitou tão bem, não pude me conter.

—Hahahahahahahahaahahaha. – ri muito aquela noite, chegaram a sair lágrimas de tanta risada, eu precisava daquilo e ajudou a abafar o comentário de Natsu.

O restante da janta tudo ocorreu muito bem, papai e eu rimos com as piadas de Natsu, nem eu sabia, mas ele era um comediante, papai ficava me perguntando o tempo todo o que mais eu sabia fazer de culinária, eu bem humilde disse que sabia fazer praticamente de tudo, e assim ele se empolgou e quis saber as guloseimas da cidade grande.

Quando vimos já era passado da meia noite e meu pai estava babando na mesa, Natsu me ajudou e levamos ele para seu quarto, lá enquanto meu amigo o deitava na cama e ajeitava os cobertores, explorei um pouco o cômodo que eu ainda não havia entrado.

No recinto havia uma cama obviamente, um armário velho e pequeno, mas suficiente para guardar suas roupas, e uma pequena cômoda, parecida com a minha, mas em cima dela, ao invés de ter livros, espelho e alguns acessórios femininos, havia apenas um pente, um desodorante que provavelmente era trazido de fora por mensageiros uma vez a cada seis meses e um porta retrato.

Cheguei mais perto e tive muita coragem para olhar atentamente para a foto que meu pai e minha mãe estavam sorrindo e abraçados, felizes e jovens, como se fosse o primeiro encontro e ao lado uma pequena foto, um pouco gasta e levemente úmida de um bebê, imediatamente me reconheci na imagem, cabelos loiros, olhos grandes e castanhos cor de chocolate e sorrindo pra quem tinha tirado a foto, não sabia se foi mamãe ou papai, mas eu estava feliz naquele dia, pequenos dentes estavam aparecendo na parte inferior da minha boca, dando mais alegria ao meu pequeno sorriso.

Natsu tocou meu ombro, olhei para ele e o mesmo percebeu que em meus olhos haviam pequenas e teimosas lágrimas que queriam sair, eu as limpei e segui para o corredor com ele.

Depois que ele fechou a porta, me abraçou, obrigada Natsu, era o que eu estava precisando, de um abraço, ficamos ali um tempo, até lembrarmos que a louça e a comida na mesa ainda tinha que ser lavada e guardada.

Fomos até lá e em dois deixamos a cozinha novinha em folha em poucos minutos.

—Boa noite Natsu. – eu desejei indo para meu quarto, percebi que ele queria falar alguma coisa, tanto que sua boca se abriu, mas logo se fechou sem expressar nenhum som.

—Boa noite Lucy. – ele disse enfim, a vontade era ficar ali na cozinha e conversar mais com ele, tentar descobrir o que se passava em sua cabeça, mas meu corpo estava cansado e eu precisava dormir, afinal amanhã era sábado e algo me dizia que a noite iria ser longa.

Cheguei no quarto e já deitei na cama, embora o cansaço fosse eminente e o sono estivesse a postos, eu sentia muita vontade de ficar acordada, então busquei meu celular que por incrível que pareça não tinha acabado a bateria ainda, e coloquei minha música preferida, que iria me fazer adormecer mais fácil, All my days – Alexi Murdoch.

Ao som da melodia, os sentimentos invadiram minha mente, fazendo-me vagar para meu subconsciente, tentando desvendar todo o mistério dentro de mim, dentro de todas as pessoas. A vida do ser humano é divida em fases que é composta por acontecimentos, nos quais gravamos de acordo com as emoções, se foi algo que te machucou muito ou te fez muito feliz, você vai lembrar para o resto da vida ou por muito mais tempo do que uma lembrança comum, como escovar os dentes ou almoçar. Diante disso tentei acessar minhas lembranças felizes e tristes da infância que eu havia esquecido propositalmente, para não sofrer, mas agora eu queria saber se eu realmente era feliz aqui.

E como fragmentos de um espelho quebrado, reflexos da minha vida a tanto vivida, foram aparecendo, lembro-me da sensação de chorar por querer mais um biscoito, lembro-me do dia que fui com papai nas plantações e ele me explicou sobre a fauna e flora, lembro-me de mamãe me pegando no colo para me acalmar quando me assustei com o cavalo, lembro-me do choro, da tristeza e dor que senti quando da carrocinha vi meu pai pela última vez.

Esses sentimentos eram meus, unicamente sentidos por mim há muito tempo, e acessá-los foi doloroso, mas revigorante de certo modo, pois através deles pude perceber que eu tinha uma vida boa, e ainda tenho, sim, sofri uma perda insuperável, mas ganhei outras alegrias em troca, não estou dizendo que fazer amigos compensa a perda de uma mãe, mas tudo acontece como deve acontecer, estou triste por perder minha mãe e não poder vê-la novamente feliz ao lado de meu pai, mas os sentimentos são uma coisa engraçada e misteriosa, pois não sabemos como controlá-los, podemos até fingir, mas uma boa risada não é a mesma coisa que você apenas mostrar os dentes, um abraço é mais do que contato corporal, um beijo sem amor é completamente diferente de quando amamos a pessoa e uma lágrima verdadeira, seja de tristeza ou de felicidade, tem um peso muito maior do que se chorarmos por birra.

Sentimentos são para serem sentidos intensamente e verdadeiramente, e é isso que venho fazendo para continuar minha vida de onde ela parou ou melhor, de onde ela apenas começou.