Magnólia, minha cidade do interior
16 Confusão de pensamentos
A noite foi tranquila, sonhei com um garotinho que brincava comigo correndo atrás das galinhas, ríamos muito quando elas tentavam proteger seus ovos e vinham correndo atrás de nós, parecia mais uma lembrança do que um sonho, mas ignorei essa parte e tentei abrir meus olhos.
A claridade ofuscou minha visão por breves instantes, e aos poucos foi se acostumando, observei onde eu estava e lembrei que eu tinha vindo á uma festa na casa de Cana e por alguma razão, eu peguei no sono na sala, encostada no sofá.Tentei levantar, mas senti um peso na minha cintura, olhei para trás e Natsu estava de conchinha comigo. O que diabos...?—Bom dia... – ele sorriu quando percebeu que eu acordei, mas sequer abriu os olhos. – Dormiu bem?—Ahm.. – eu queria perguntar por que estávamos dormindo juntos, mas acho que eu ainda não acordei direito e ele parecia tão feliz, admito, eu nunca dormi de conchinha com ninguém, era uma das melhores sensações do mundo, e Natsu era quente, tudo fazia ficar melhor. – Bom dia... ahm... então pegamos no sono no sofá né?—Sim... quem diria...- ele disse abrindo os olhos e se espreguiçando, então seu rosto ficou vermelho, ele pareceu reparar que estávamos abraçados. – Ahm... desculpe por isso, eu acho que depois que nos abraçamos, pegamos no sono...—É nos abraçamos... – eu comecei a me lembrar que ele havia chorado por causa da música que toquei no violão.—Você está com fome? – Natsu perguntou quebrando o clima tenso.—Estou com muita fome... – me levantei e Natsu também, ficamos um na frente do outro, algo estava estranho entre nós, bem talvez seja por que dormimos juntos.—Ok, eu vou pra cozinha preparar algo... – Natsu passou por mim e abriu a porta da sala. Então eu fui atrás dele, mas dobrei a curva para ir até o banheiro no segundo andar, passei pelos corredores e as portas dos quartos estavam todas fechadas, bem recapitulando o que houve ontem a noite que eu me lembre, Erza e Jellal tinham se acertado, mas não tenho ideia se dormiram no mesmo cômodo, e Cana e Laxus estavam nos abraços e beijos, então deviam estar juntos agora.Fui até o banheiro e fiz minhas necessidades matinais, então quando fui lavar minhas mãos, observei meu reflexo no espelho, e lembrei-me da foto em cima da cômoda de meu pai, quando eu era pequena, e como se fosse uma pancada, minha cabeça latejou naquele instante, levei minha mão ao local e tentei lavar meu rosto com água gelada, mas de nada adiantou, será que eu bebi ontem? Não, Natsu e eu combinamos de não tocar em nada alcoólico, apenas ele teve que beber uns goles por causa do jogo de Cana, mas fora isso não colocamos uma gota sequer de álcool na boca.Desci as escadas e fui até a cozinha, lá encontrei Jellal e Natsu conversando.—Bom dia... – cumprimentei o rapaz, ele olhou pra mim e sorriu, parecia muito feliz.—Bom dia Lucy... então como foi dormir com o garanhão aqui? – Jellal riu e Natsu ficou vermelho e evitou olhar para minha expressão.—Ahm... tive um sono tranquilo... – eu não sabia o motivo do comentário de Jellal, mas decidi ignorar por hora. – E você, dormiu com a Erza?—Ah não, é claro que não, eu a respeito muito... – Jellal comentou e olhou para Natsu como se o reprovasse por ter dormido ao meu lado. – Ela e Cana estão dormindo no quarto dela, eu dormi no mesmo que Laxus.—Oh... e você está feliz agora que finalmente se acertaram, digo eu sei que vocês não estão juntos, mas que a amizade tenha voltado e coisa e tal? – perguntei puxando um assunto menos embaraçoso.—Muito, você não faz ideia do tempo que eu esperei por este momento, vou fazer valer a pena cada segundo que passei longe dela... – sorri com o comentário do rapaz, eles mereciam ser felizes, esses dois eram boas pessoas, e amigos insubstituíveis.—Que fofo...– Erza apareceu atrás de mim e vai até o rapaz e da um tapinha nas costas dele gentilmente, o garoto apenas sorriu com o gesto.Natsu olhou pra mim e sorriu, neste momento eu senti minha barriga embrulhar, mas já aconteceu antes, fui até ele e sentei ao seu lado, para tomar o café com ele, enquanto Erza e Jellal conversavam sobre algo de ontem a noite.—Então Lucy, Natsu? – Erza chamou por nós, e ambos olhamos para ela. – O que aconteceu ontem depois que saímos da sala? —Ahm... nos abraçamos e ficamos conversando até pegarmos no sono... – Natsu respondeu intrigado e olhando pra mim.—Vocês não se beijaram? – Cana chegou na cozinha já fazendo uma pergunta dessa ao invés de nos desejar um bom dia. – Eu jurava que vocês iam se beijar.—Ahm... – Natsu começou a tentar explicar, coitado estava vermelho como um tomate, mas eu decidi interferir.—Nós estamos bem Cana, não precisam se preocupar com a gente. – olhei para ela fazendo sinal para pararem com esse assunto, estava desconfortável, afinal eu sei que elas queriam isso, mas nós não tínhamos conversado nada sobre isso e agora Natsu estava estranho é claro.—Ok, vamos mudar de assunto, o que vai ter de almoço hoje? – Erza pediu para que o assunto não fosse mais a noite passada. Agradeci a ela mentalmente.
—Lucy vai fazer o almoço? – Jellal pediu olhando para mim como se implorasse para que eu cozinhasse, doido para experimentar mais um toque de culinária meu.—Bem, eu acho que Lucy e eu vamos pra casa agora na parte da manhã... eu estou com dores de cabeça e bem, é melhor irmos. – Natsu comentou olhando solidariamente para mim, reparando que eu levava minha mão à cabeça indicando que a minha doía também.Sorri pra ele como agradecimento e afirmando que era melhor irmos, por que por mais estranho que pareça, Natsu e eu não estávamos nos sentindo bem, pelo mesmo motivo, dores de cabeça.—Ah sério? – Erza pediu um pouco triste.—Desculpem. – Eu exclamei enquanto Natsu subiu até os quartos de cima pegar nossas coisas.—Bem Cana, eu acho que vou pra casa também, vou deixar você aproveitar seu namorado dorminhoco. – Erza disse sorrindo.—Eu acompanho você então. – Jellal falou indo até o andar de cima, assim como Natsu pegar suas coisas e a de Erza.—Tem certeza que querem ir mesmo? – Cana perguntou um pouco triste.—É melhor, me sinto mal vendo os dois indo embora e nós curtindo sem eles. – Erza justificou olhando pra mim.—Foi mal, eu também estou com dores, e esta um pouco forte. – Exclamei.—Mas eu tenho alguns remédios aqui. – Cana falou indo procurar por eles.—Não precisa, eu não gosto de tomar remédios, prefiro descansar. – expliquei as meninas.—Tudo bem, melhore pra amanhã estar nova em folha na aula ok? – Cana veio até mim me abraçar e Erza aproveitou da situação para fazer o mesmo.Então os dois rapazes voltaram pra cozinha e viram o abraço triplo e se abraçaram os dois pra não ficarem só observando.Sorrimos pra eles e tanto Erza quanto eu pegamos nossas bagagens e nos despedimos de todos.Passou-se algum tempo estávamos em silêncio fazendo nossa rota de volta para casa.—Está melhor? – Natsu me pediu.—Na verdade não está doendo agora, parou. – estranhei e olhei para ele.—A minha também parou. – ele franziu o cenho. – quer voltar?—Não, vamos deixar Cana e Laxus curtirem o namoro deles. – sorri para ele.—Se você deseja. – ele comentou sorrindo e virou novamente para a estrada.Seu rosto parecia angelical quando os raios de sol passavam por entre os galhos das árvores e sumiam de repente devido a carroça em movimento. Eu não pude deixar de olhar para ele, além de ser bonito, era sereno, sua expressão passava paz e conforto, eu não podia negar que gostava do rapaz, não depois de tudo o que ele disse ontem, me defender com honra daquela maneira e depois me comparar com alguém tão respeitável como sua própria mãe e depois literalmente confessar seus sentimentos para mim.Bem, eu sou uma trouxa, você tem razão, você deve pensar, “ meu deus ele praticamente disse que te amava e vocês quase se beijaram, por que tanta enrolação?”, bem como eu já disse, eu tenho uma estranha sensação sobre isso e por mais que eu goste de Natsu e queira abraça-lo, eu vou respeitar essa minha sensação.—Chegamos.. – a voz de Natsu me despertou e acordei dos meus pensamentos quando já estávamos em casa, papai não estava ali por fora, então talvez ainda estivesse dormindo, portanto entramos sem fazer quaisquer barulho. – Você vai querer tomar um banho?—Com certeza... – respondi sorrindo ao lembrar que o cheiro de bebida da casa de Cana estava instalado em nossas roupas.—Pode ir primeiro se quiser. – ele ofereceu solidário.—Não, obrigada, mas vou ajeitar algumas coisas antes e preparar um café enquanto você vai primeiro, sem problemas. – eu argumentei e então Natsu sorriu para mim, um sorriso encantador e apaixonante.Então ele passou por mim e foi até seu quarto pegar suas coisas e eu fui levar as minhas até o meu quarto e depois voltar para a cozinha ajeitar nosso café da manhã.Deixei tudo pronto enquanto ele tomava banho e quando ouvi o barulho do chuveiro desligar, fui até meu quarto pegar minhas roupas e me aprontei em frente ao banheiro.A porta se abre e Natsu sai de lá vestido e totalmente tranquilo, parecia que agora ele se prevenia, para que não esbarrasse comigo na casa seminu, um lado de minha consciência gostou de sua atitude, o outro queria ver o corpo dele novamente.Balancei a cabeça para espantar as imagens de Natsu quase sem roupa de minha imaginação e entrei no banheiro, me despi e liguei o chuveiro, deixando a água quente levar todas as impurezas de meu corpo e me deixei relaxar por alguns instantes, tentando pensar em outra coisa que não fosse o rapaz de cabelos rosas.Foi então que minha mãe voltou a morar em meus pensamentos, mas não lembrei de sua morte ou qualquer coisa do gênero, eu lembrei do seu sorriso, de quando dormimos juntas na sala pela última vez, de quando eu ia acordá-la para ir ao trabalho, eu simplesmente não consigo descrever como sinto a falta dela, acredito que ninguém possa descrever esse sentimento. Eu só posso dar certeza a vocês, que é um pedaço de nós que nunca mais vai se recuperar, uma dor que nunca some, não importa o que você faça, não há remédio que ajude, você nunca mais será o mesmo ou verá a vida da mesma forma.Sem chorar, sem sorrir, eu apenas deixei que a sensação que me lembrava a mamãe me tomasse por completo, e então como mágica, meu pensamento foi levado a uma memória muito antiga, que eu não fazia ideia que estava guardada em meu subconsciente.—Filha, você não pode fazer isso meu anjo, quase machucou ele, você não iria querer machucar ele não é?Eu compreendia o que ela falava, mas gostava de prestar atenção no seu sorriso e nada mais importava, de seus olhos eu podia ver me reflexo, eu era apenas uma criancinha que aparentava ter uns dois anos e ela falava comigo me repreendendo sobre algo que fiz, que eu podia ter machucado alguém, será um animal?—Você é tão linda querida, tenho certeza que vai virar uma moça encantadora quando for mais velha, vai ser determinada e forte, e lembre-se meu anjo, nunca deixe ninguém lhe dizer o que você é ou não capaz de fazer, você é uma Heartphilia, nós somos incontroláveis...—Você escuta o que diz? Desse jeito a menina vai ser uma adolescente rebelde... – a voz de meu pai entrou em cena e ele estava sorrindo bobamente para mim. – Mas você tem razão, nossa filha vai ser uma fazenda completa.—Como assim Jude? – mamãe olhava estranhamente para o comentário de meu pai.—Haha, ela vai ser livre como os cavalos, protetora como os galos, sonhadora como os pássaros, saudável como os porcos e como você disse, forte e incontrolável como um touro... – papai explicando seu elogio. – E linda como você Layla...—Esta dizendo que sou como uma fazenda? – mamãe ainda estava estranhando o comentário de papai.—Estou dizendo que a fazenda é minha vida, e você é parte insubstituível dela, você é minha fazenda! – Papai disse e lhe deu um beijo caloroso e apaixonado.—Ah Jude, eu te amo... – Mamãe retribui o olhar de puro amor e sorriu pra mim, mas então seu olhar cruzou com alguém no outro lado da sala, e seu sorriso desapareceu.Olhei para onde mamãe estava olhando, mas não consegui ver rosto algum, devido à ofuscação em minha visão, a luz do quarto veio diretamente na minha direção, a única coisa que consegui ver foi à silhueta de uma mulher com uma de mãos dadas com ela.—O que você está fazendo aqui? – meu pai se virou para ela a tempo de segurá-la pelos braços, a mulher caiu no chão e falou algumas palavras em sussurro, não pude compreendê-las, então olhei para mamãe e de seus olhos saiam lágrimas, pareciam de tristeza e decepção ao mesmo tempo. – Layla, eu...—Lucy... você está bem? – a voz de meu pai juntamente com as batidas forte na porta do banheiro me fizeram voltar do longo transe que eu me encontrava.—Sim, estou bem... – gritei de volta e olhei para minhas mãos, estavam enrugadas devido ao tempo que passei em contato com a água, ou seja, o motivo de meu pai ter acordado e estar me pressionando para sair do banho.Quando desliguei o chuveiro, senti minha cabeça doer no mesmo lugar de hoje mais cedo, como se lembrar do passado acessasse minha memória guardada pela dor, se é que você me entende. Seria algo do meu passado que eu mesma não queria lembrar, por isso minha própria mente tenta me avisar com dores? Uau, olha só o que se passa pela cabeça de uma jovem adolescente quando ela não está no seu melhor momento emocional.Tentando esquecer minha imaginação fértil, lembrei-me da expressão de mamãe quando aquela mulher entrou no recinto, e eu simplesmente não conseguia compreender a cena, talvez fosse minha imaginação, mas pareceu tão real, porém tantas dúvidas ficaram vagando pelos fragmentos daquela memória. Porque minha mãe estava triste? Quem era aquela mulher? O eu ela fazia na nossa casa? De onde meu pai a conhecia? O que aconteceu com aquela criança que estava com ela?
Quando terminei de me vestir, sai do banheiro e fui até o quarto deixar minhas roupas sujas num canto para depois eu lavá-las, então arrumei meu cabelo e fui até a cozinha encontrar com os dois.—Por Deus Lucy, não faça mais isso, quase me deu um troço no coração. – Meu pai veio correndo me abraçar e colocando suas mãos em meus ombros me observou como um objeto vulnerável.—Desculpe, eu acho que peguei no sono, sei lá.. – tentei me desculpar.—Pelo menos você está bem.. – Jude suspirou aliviado. – Pense, eu acordo, vocês em casa, Natsu disse que vieram antes devido a vocês dois estarem com dores de cabeça e de repente tu não sai mais do banho, eu fiquei preocupado.—Desculpa mesmo pai, prometo que não vai acontecer novamente. – coloquei minha mão em suas costas e o conduzi a se sentar na cadeira para tomar seu café.Olhei para Natsu e ele ergue as sobrancelhas para mim como se tivesse preocupado também, mas neguei com a cabeça para lhe dizer que não era nada.Assim nós três nos sentamos à mesa e desfrutamos dos alimentos dispostos.—E então, como foi à festa? – meu pai perguntou entusiasmado.—Ahm... foi divertido. – Natsu respondeu simploriamente.Meu pai ergueu uma sobrancelha e então olhou pra mim desconfiado. Droga Natsu.—Jogamos alguns jogos envolvendo perguntas sobre os outros, comemos bastante, mas Natsu não quer falar muito sobre isso por que a ex dele surtou e os dois discutiram. – respondi meu pai com quase toda a verdade. Eu acho, bem quer dizer tenho quase certeza que se eu contasse para meu pai que nós dois quase nos beijamos, Natsu não passaria do almoço.—Sinto muito meu jovem, essa garota parece descontrolada mesmo, você devia investir em alguém melhor. – Jude aconselhou o jovem e o mesmo olhou pra mim.—Estou fazendo isso senhor. – Natsu sorriu e olhou para meu pai, sim, aquilo foi uma indireta bem direcionada para mim.—Huhu, tenho certeza que sim. – meu pai riu para si mesmo e depois olhou para mim. – E você? Algum engraçadinho veio tentar algo com minha Lucy?—Ahm, não, bem quer dizer um rapaz veio até mim, mas Natsu fez questão de mantê-lo bem longe com uma ameaça bem intrigante pai... – sim eu iria me vingar pela resposta dele.—E o que o nosso Natsu disse? – papai sorriu pra ele e voltou seu olhar pra mim.—Disse que se fosse meu namorado o cara já estava morto. – contei, sim alterei um pouco as palavras dele, mas basicamente foi isso que ele disse.—Hahahahaha. – meu pai riu, o que eu não esperava que ele fizesse, pensei que ele iria surtar, mas então ele disse algo que me surpreendeu mais ainda. – Pois então namorem logo para que ele possa matar todos que se aproximem de você.Sim, tanto eu quanto Natsu não esperávamos por essa, nos olhamos vermelhos e depois observamos papai rir descontroladamente, onde ele estava com a cabeça? Será que estava bêbado? Mas ele recém havia levantado.—Desculpem a brincadeira, desculpem... – Jude secou as lágrimas do riso e voltou a comer, depois desse episódio cômico, o restante do café passou-se num silêncio total, apenas com o barulho de alguns potes se abrindo, pão sendo cortado e talheres, mas nenhuma palavra a mais foi mencionada.Um tempo depois, papai levantou e disse que iria trabalhar e como era domingo nós estávamos de folga, mas não demos muita bola para o que ele disse, afinal hoje ele estava dizendo coisas sem sentido, Natsu foi ajuda-lo lá fora e eu arrumei a cozinha e fui catar toda a roupa suja da casa para lavar, sim tinha que ser no tanque a moda antiga, mas tudo bem, precisava me ocupar, por que hoje o dia estava confuso, todos estavam confusos e principalmente em minha mente havia uma confusão de pensamentos.
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