Magnésio 12
10 O Jogo - Parte 2
Notas iniciais
Ellen estava atenta, os músculos tensos. Marly estava ao seu lado, os olhos indo de um lado ao outro, esperando. Então uma explosão as pegou de surpresa. Elas foram jogadas para trás e rolaram no chão, se ralando nos galhos e pedras. Ellen, Atordoada, só pode ver um borrão de cabelos loiros correndo.
– Anne! — Ela ouviu Marly gritar e se levantou com um salto, a adrenalina acordando-a do susto. — Ela levou o medalhão!
Ellen e Marly saíram correndo atrás de Annemarie, tentando impedi-la. Foi quando Ellen viu um borrão negro à esquerda. O garoto sinistro da biblioteca.
–Siga-a!
Gritou Ellen, mudando de rota e correndo atrás de Keane. Ele a viu com o canto dos olhos e movimentou o braço, cortando três enormes árvores. Ellen parou aos tropeços e o tempo pareceu parar. As árvores caíam em sua direção, prestes a esmagá-la. Ela tropeçou num galho e caiu sobre os cotovelos, vendo a si própria sendo empalada pelos enormes galhos das árvores gigantesca, quando algo aconteceu. Os galhos das arvores se retorceram estranhamente, evitando-a, como se tivessem braços. Ellen virou a cabeça e viu Marly, ao lado de um enorme amontoado de pedras que prendiam Annemarie ao chão, como se a estivessem abraçando. Ellen agradeceu com um movimento da cabeça.
– Leve o medalhão ao pedestal!
Gritou para Marly, enquanto se levantava para continuar a perseguição. Keane havia ganhado uma boa vantagem. Ellen corria a toda velocidade, tentando acertar um raio em Keane, mas ela tinha ter uma mira perfeita. Se acertasse uma árvore ela pegaria fogo e iniciaria um incêndio. Suas pernas estavam doendo e os pulmões queimando, mas ela esperou. Esperou o momento certo, mira perfeita. O raio atingiu Keane, que convulsionou violentamente e caiu no chão, imóvel. Ellen diminuiu o passo e se aproximou do garoto. Esperava que o raio não tivesse sido forte demais. Os olhos dele estavam abertos, dando a terrível aparência de morte. Ela arrancou o medalhão de seus dedos pálidos e estava voltando para Marly, tentando recuperar o fôlego quando ouviu um som horrível, uma mistura de grito e apito. Algo havia ocorrido. Ela saiu correndo a toda velocidade. Encontrou Marly perto do pedestal, o medalhão no punho cerrado, olhando pro céu, os olhos arregalados.
– O que houve? O que foi isso?!
Perguntou Ellen.
– Eu... Eu não sei! Nunca ouvi antes! Não sei!
Ellen estava tentando controlar o medo que começava a crescer dentro dela. Aquele som não era normal e não devia ser coisa boa.
– Você verificou os outros pedestais? — Perguntou Ellen.
– Não, eu estava indo quando ouvi aquilo.
– Vamos.
Elas correram até o pedestal com os corações nas mãos. Algo havia ocorrido. Quando chegaram elas se depararam com uma briga entre Pietro e Addam Deckster, um garoto mais velho que Ellen havia visto nos corredores. Os olhos de Pietro brilhavam com uma luz branca intensa, enquanto soltava poderosos feixes de luz e explosões colossais. O outro garoto, Addam, atacava com enormes bolas de fogos roxas e brancas, os olhos roxos se destacando no rosto sério. Era uma batalha acirrada, ambos tinham quase a mesma idade e poderes de mesmo nível. Ellen e Marly se jogaram no chão para não serem atingidas.
– O que vamos fazer?? Eles vão destruir a floresta inteira assim!!! – Berrou Marly, sobre o som de explosões.
– Vamos imobilizar o Addam! – Logo após ela dizer isso, uma rajada do fogo de Addam desviou em sua direção. Ela conseguiu se jogar no chão, mas não antes de ser atingida na mão. Ela reprimiu o grito de dor e se negou a olhar o ferimento, não era a hora. Ellen se arrastou pelo chão, para se aproximar, e lançou uma descarga elétrica em Addam. Ele caiu de joelhos, o rosto distorcido de dor.
– Agora Marly!
Enormes pedras se moveram e o prenderam. Ellen e Marly se levantaram. Os olhos de Pietro voltaram ao normal.
– Bom raio, Ellen.
– Obrigada.
Eles se aproximaram de Addam. Ele tinha cabelos na altura dos ombros, pele levemente morena, olhos roxos e uma expressão hostil no rosto. Pietro ajoelhou em sua frente.
– O som. O que era? — Addam somente deu um olhar afiado. — Não quer que Ellen te eletrocute de novo, não é?
Addam tremeu levemente.
– E então? — Perguntou Pietro
– Era o nosso aviso.
– Pra que?
– Para voltar para a área verde. Conseguimos o medalhão. Vocês já perderam.
Eles engoliram em seco.
– Mas, se era pra você voltar para a área verde, por que não fugiu? — Disse Marly.
– Eu tentei, mas ele me impediu. — Disse Addam, olhando de soslaio para Pietro, que sacudiu a cabeça negativamente:
– Não adianta, já perdemos.
– Não. — Disse Ellen. — Eles tinham um número mínimo de participantes ativos para vencer, ainda temos chance.
Eles esperaram alguns segundos até a sinal soar.
– Vamos. Temos que nos encontrar com Flair no lugar inicial. — Disse Pietro.
– E oque fazemos com ele? — Perguntou Ellen, apontando para Addam.
– Temos que tentar levar os imobilizados conosco, se possível. Depois eles fazem uma verificação, para ver se ninguém está inconsciente e esquecido por aí. Vamos.
Ellen se lembrou de Keane, mas não disse nada. Marly soltou a pedra de Addam e prendeu suas mãos com algemas de galhos. Eles seguiram até a clareira inicial, onde todos estavam reunidos. No centro de todos estava erguida uma bandeira azul ao centro.
– Vencemos! — Exclamou Marly — Vencemos!
Marly deu um abraço apertado em Ellen, que ficou sem jeito.
– Você foi ótima, Ellen! Parabéns!
– Obrigada. — Ellen deu um sorriso torto. — Você também.
Eles se reuniram com os outros. AnneMarie estava com um corte profundo próximo a um olho roxo, mas fora isso estava bem. Deu um pequeno sorriso e cumprimentou-os com um aceno de cabeça. Natalie estava vitoriosa. Aproximou deles coma cabeça erguida.
– Viram? Eu disse que iríamos vencer!
– Por pouco, Natalie. Não se esqueça que eles pegaram o medalhão principal. Onde estava a sua elite? — Disse Pietro.
Uma sombra passou pelo rosto de Natalie.
– Mas nós vencemos. E não graças a vocês.
Ela deu as costas e saiu andando. Pietro suspirou.
– Vou ver como está minha irmã, com licença.
Ele se retirou. Quando todos se aproximaram Flair começou a falar:
– Este foi um desafio diferente dos demais. Ambas equipes tiveram que manter uma postura agressiva e defensiva de maneiras diferentes e ambas foram muito bem. A vitória, como sabem, foi da equipe azul de...
Gritos de vitória e alegria impediram Flair de terminar sua frase.
– Caham. Devido a falta de dois participantes ativos. Mas foi um desafio acirrado e muito equilibrado. Uma salva de palma para todos.
Palmas e gritos e felicidade encheram o ar.
– Agora, libertem seus companheiros. Os enfermeiros já estão aqui, para ajudar aqueles com ferimentos graves. O resto formem uma fila em ordem alfabética e esperem na enfermaria.
Marly soltou Addam, que se retirou. Os enfermeiros já estavam examinando quem estava com graves ferimentos e os encaminhando.
– Eu estou bem, só com alguns cortes superficiais. E você Ellen? — Perguntou Marly. Então Ellen lembrou de sua queimadura, que com tudo que estava acontecendo, havia se tornado somente uma dor aguda. Ela olhou para sua mão e o que viu a deixou tonta. Estava extremamente vermelho, com muitas bolhas.
– Ellen! Como você fez isso? Porque não me contou?! — Perguntou Marly.
– Não era a hora e estávamos no meio do jogo, eu... não achei que era nada de mais!
– Nada de mais?! — Marly levantou o rosto para chamar um enfermeiro, que já estava vindo. O enfermeiro levantou a mão de Ellen com cuidado.
– Isso não está nada bom. Aqui, siga aquela enfermeira com aquela menina loirinha ali. Elas vão levá-la até Andrew.
A "menina loirinha" era AnneMarie, que não conseguia abrir o olho direito, o sangue do corte escorrendo pela bochecha, pingando sobre a camiseta.
– Vamos, querida. — Disse a enfermeira, levando as duas para a enfermaria da Resistência.
– Você entre na sala 4. — Disse para Anne. — E você na sala 6.
Ellen entrou e Andrew estava lá, lavando as mãos com gel.
– Ellen! O que ocorreu com você desta vez? — Ela lhe mostrou a mão machucada. — Hum. Fogo infernal. Addam , não é? Nada legal. Eu posso amenizar o efeito da queimadura, mas não posso fazer muita coisa. Com licença.
Andrew tirou a luva com cuidado.
– Bendita luva! Te salvou de ter isso um machucado bem pior!
Ele encostou a mão na de Ellen por alguns segundos. O efeito foi o mesmo de por embaixo da água, deu um alívio instantâneo. Ellen nunca tinha visto a mutação de Andrew funcionar, ela ficou deslumbrada. Quando ele tirou a mão, a vermelhidão e as bolhas haviam diminuído bastante. Ellen ficou boquiaberta.
– Eu sinto muito não poder ajudar mais.
– O que? Não, não! Está ótimo! Obrigada!
Ele sorriu:
– Que bom. Agora, ponha esta pomada o máximo de vezes possível por dia e evite contato na área machucada. — Ele se virou para buscou a pomada numa gaveta.
Ellen ainda olhava estupefata para a mão praticamente curada em poucos segundos.
– Sua mutação... é incrível!
– Am? O que? Ah, sim obrigado.
– Você também tem fator de cura em si mesmo?
– Tenho sim.
– Puxa! Isso deve ser maravilhoso! E quando você cura as pessoas não afeta sua própria mutação?
– Não. Não afeta nada.
– Até que ponto sua mutação vai? Você pode curar doenças? Eliminar veneno? Curar células doentes?
– Uou! Eu não sabia que você era tão falante!
Ellen se calou. Ela não se lembrava da última vez que havia falado tão animada e tão aberta com alguém. Mas Andrew lhe passava segurança, ele tinha uma boa índole que se mostrava em seu sorriso frequente.
– Bem, eu posso, sim, curar algumas doenças. Aids, por exemplo, que afeta o sistema imunológico, eu posso reverter. Veneno não, pois é algo além das defesas do corpo. Posso sim, aliviar os efeitos por um tempo, mas é adiar o inevitável. E sim, posso curar células doentes. Na verdade, meu sonho é, após toda essa guerra contra mutantes acabar, eu conseguir encontrar uma cura para o câncer.
– Isso é... lindo! — Ellen nunca tinha sentido tanta admiração por alguém. — É um lindo sonho.
– Obrigado. Agora, eu preciso atender outros mutantes machucados. Não se esqueça da pomada!
– Okay, obrigada, Andrew! — Disse Ellen, fechando a porta trás de si.
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