Magnésio 12
6 A Mutação
Notas iniciais
Seu corpo tremeu em convulsões. As veias brilhavam e apagavam. Por baixo da pálpebra do olho esquerdo, uma luz azulada brilhava e as pontadas de dor lutavam contra a mutação, que tentava se manifestar em desespero. Numa forte convulsão, Ellen se sentou rapidamente, arfando, arrancando o capacete e os outros “tentáculos” horrendos conectados a sua cabeça. Seus ossos doíam e a pele queimava. Celiny entrou apressada na sala.
– Ellen, querida sente-se.
Mas Ellen já retirara as coisas que a prendiam a máquina e estava prestes a se levantar e sair da sala.
– Ellen, por favor, eu sei que foi um pouco traumático, mas deixe-me explicar e...
– Pra que isso? – Sua voz tinha um veneno contido. – Pra que as injeções de dor?!
– Ellen, nós te mandamos impulsos para ver sua reação. É algo que nunca vimos antes. É como se você tivesse criado uma barreira contra sua própria mutação.
Ellen parou. Ela sabia que iria ter um resultado no mínimo estranho mas não sabia como reagir. Assustada? Surpresa? Desinteressada? Tudo isso junto?
– É normal não gostar da mutação ou evitar utilizar mas isso é algo totalmente diferente. Toda vez que sua mutação tenta se manifestar você a inibe. Você deve ter passado por algo bem traumático a ponto de ser algo tão entranhado em você.
– E daí?
– Ellen. Você está excluindo uma parte de você mesma e não pode continuar fugindo. Nós mandamos impulsos para ver como sua mutação reagia a tal ameaça e o que nós vimos... Não foi bom. Você precisa aprender a controlar sua mutação urgentemente se não, cedo ou tarde, você vai explodir. Já aconteceu uma vez não é?
Ellen hesitou. Ela lembrou do resgate, de como, sem estar com nenhuma emoção forte, ela explodiu e matou todos aqueles homens e teria matado seus colegas (amigos?) também se eles não estivessem com Ayuna. Ellen balançou a cabeça uma vez em concordância.
– Vamos ajuda-la com sua mutação. Tem uma amiga que pode te ajudar com isso e faremos novos exercícios, mas por hoje chega. Descanse, almoce e se quiser passear pela Resistência, fique a vontade. Volte amanhã aqui no mesmo horário.
Ellen concordou e saiu. Suas pernas estavam meio bambas e ela sentia uma leve sonolência, como Celiny havia avisado. Fata um pouco para o almoço e os outros mutantes deviam estar nas suas respectivas atividades. Ellen se dirigiu para um andar acima do refeitório, para pegar roupas novas e depois se dirigiu ao seu quarto, onde organizou o armário. Tudo ficava bem silencioso sem as crianças correndo e rindo pelos corredores.
Ellen atravessou o corredor até o prédio da coordenação, onde entrou na biblioteca. Era grande e bem iluminada, com várias estantes cheias de livros, poltronas espalhadas e hologramas touch flutuando sobre as mesas. Tudo de última geração. Tavo deveria adorar tudo aquilo. Ellen estava observando as estantes quando alguém se aproximou.
– Procurando algo? — Era uma mulher de vinte e poucos anos, tinha um longo cabelo castanho escuro preso numa bela trança, pele clara, olhos cor de mel e lábios que formavam um coração quase perfeito. – Posso te ajudar?
– Ah, não, obrigada. Só estou olhando.
– Qualquer coisa, me consulte está bem? Sou Flair Spawood.
– Ellen Henrich.
Elas chacoalharam as mãos.
– Ah, a novata? Eu vi quando você chegou. – Ellen concluiu ser uma das pessoas na sala de reunião da noite anterior. – Gostando da Resistência?
– Ah, sim. É muito bem organizada.
– Que bom. Sabe, eu era colega da Celiny, no governo. Descobri o plano contra mutantes junto com ela e juntas construímos a Resistência.
– Você é mutante também?
– Não. Não sou. Mas não concordo com o que o governo está fazendo. – Elas ficaram em silêncio por um segundo. — Pois bem, fique à vontade.
– Obrigada.
Flair se afastou. Ellen virou-se e passeou por entre as prateleiras, sem procurar nem pegar nenhum livro. Ela caminhou entre as fileiras sem fim, tocando a lombada dos livros. Diziam que os livros iriam sumir naquela época mas eles ainda estavam ali, firmes, e Ellen adorava isso.
Ela caminhava distraída no último corredor quando notou uma figura sentada numa poltrona afastada. Um garoto, mais ou menos com sua idade, cabelos negros como carvão, olhos igualmente negros e pele pálida como mármore. Tinha uma postura desafiadora e mesmo sobre as páginas do livro ela pode notar o olhar afiado. Ele trouxe a ela um mal pressentimento. Ellen deu a volta e se afastou.
Após a saída da menina, o garoto, que se chamava Dieter, ergueu os olhos. Desde o momento que Ellen tinha entrado no corredor ele havia parado de ler e havia observado. Só observado. Era comum aquela reação quando as pessoas viam ele. Não que ele se importasse. Muito pelo contrário. Dieter abaixou o livro e sorriu. Um sorriso lento e de puro prazer, mostrando dentes perfeitos e imaculadamente brancos. Seu pai o havia forçado a usar aparelho durante a infância, mesmo sabendo o quanto o garoto odiava. Seu pai. Seu odioso pai morto. O mesmo que havia lhe dado aquele nome. Seu nome, na verdade, era Keane. Keane Dieter. Mas poucos sabiam seu nome e muito poucos o usavam. Era melhor que continuasse assim. Não era para fazer amigos que ele estava ali, do mesmo jeito.
Ellen passou mais um tempo na biblioteca e saiu quando percebeu que era horário do almoço. Ela encontrou Marly a caminho do refeitório.
– Onde está Anne? – Perguntou Ellen.
– No treinamento de mutação.
– Qual a mutação dela, aliás?
– Ela consegue criar explosões. É um poder complicado e que requer muita experiência, afinal, não se pode sair explodindo as coisas toda vez que você estiver brava não é mesmo?
Elas se serviram e sentaram-se. Neste momento Felipe entrou no refeitório e se aproximou delas.
– Marly! Ellen! Posso me sentar aqui? – Perguntou ele, sem esperar por uma resposta. — Então? Como foi a primeira aula de treinamento de mutação?!
Ellen remexeu a comida no prato.
– Digamos que... Eu vou precisar de aulas extras.
– Ah, não se preocupe! É sempre difícil da primeira vez! E você, Marly? Como foram suas aulas até agora?
– Bah! Muita história se quer saber. O treinamento de mutações vai bem, acho.
– É, o meu também. Estou tentando modificar metais, sabe? Complicado. E aí, Ellen? O que achou da Resistência? Bem completa não? Celiny teve o maior trabalho para construir. Ela e os outros membros do conselho.
Ellen se lembrou das pessoas em volta da mesa, na sua primeira noite na Resistência.
– Quem são as pessoas que fazem parte do conselho?
– Ah, os chefões? – Disse Felipe entre uma garfada e outra. – Bem, tem Celiny, Pandora, Andrew, Flair e... Ah! Rhuan. Você vai conhecer a todos. Cedo ou tarde. O Andrew é bem legal, acho que vocês vão se dar bem. E sua próxima aula?
– Não. Hoje Celiny me liberou das atividades.
Felipe tentou não parecer surpreso mas Ellen percebeu.
– É bem cansativa o primeiro dia de treinamento de mutação. Bem, eu vou indo, se não vou me atrasar para a aula de tiro ao alvo.
Disse ele, se levantando.
– Tiro ao alvo?
– É. Sabe, atirar com uma arma de fogo. É bem legal. Tchau, até!
Marly se levantou.
– Eu também vou indo. Vou me atrasar para a natação.
– Natação?
– Celiny diz que todos devem saber nadar, que é importante para a vida. – Ela deu de ombros. – Vai saber. Tchau, Ellen! As 18:00 agente se encontra na sala de jogos, ta bem?
Ellen concordou e se despediu. O resto do dia foi tranquilo e Ellen explorou um pouco mais a Resistência, se sentindo em casa.
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