Notas iniciais
Um romance adolescente bem light (e com algumas pitadas de angst em certos capítulos) pra começar a série "Elas" que ultimamente vem tomando conta e forma na minha cabeça e em meus trabalhos.

Acordou com uma mensagem de texto esquisita. “MD 20/20* deveria ser proibido nessa droga de país. -SK” Quando finalmente entendeu, sorriu para a tela do celular enquanto mexia os dedos dos pés por baixo da sua coberta, imaginando seu amigo Sal passando pelo que talvez seria a pior ressaca de sua vida. A noite anterior fora, dentre tantas outras coisas, divertida. Era a festa de despedida de Amanda Kim, uma das garotas mais populares do terceiro ano que estava de mudança para a Califórnia. Seus pais liberaram a casa de praia para uma ‘pequena confraternização’, foi o que estava escrito no convite que recebera das próprias mãos de sua sorridente e simpática veterana. Mas quando Jamie chegou no local da festa, ele quase caiu na gargalhada enquanto tentava associar a palavra ‘pequena’ com tudo aquilo que seus olhos deslumbrados conseguiam enxergar. Fora servido um buffet com 12 pratos diferentes, petiscos, bebidas, sobremesas, tudo do bom e do melhor. Um Dj que Jamie imaginava ser famoso (pela forma deveras calorosa que as garotas o recebiam) tocou por horas, seguido pela banda de rock alternativo The Emmys, que todo e qualquer adolescente de Portland que se prezasse os adorava e sabia no mínimo todas as músicas de cor. E por Deus, tinha até a droga de uma roda gigante no quintal da casa! Sem esquecer do luau à beira mar, ainda com os Emmys fazendo versões acústicas de várias músicas famosas, que foi o que selou o veredicto de Jamie para a entrega do título de uma das noites mais legais de toda a sua vida para aquele domingo. Até conheceu uma garota bacana em meio a tudo isso. Talvez o pouco álcool que bebera apagara o seu nome da cabeça, contudo lembrava-se muito bem de como ela era, do que ela vestia e por mais incrível que parecesse, de sua música favorita.

Dois minutos depois que respondera Sal com um simples “Eu avisei -JB” seguido de outra resposta menos insuportável “Deixei uma aspirina na sua mochila ontem antes de sair. Um café bem forte também vai ajudar. -JB”, as três batidas características na porta que sua mãe sempre dava — essas que já serviam de alerta para que o garoto começasse a se aprontar — não surtiram quase nenhum efeito sob a seu corpo ainda parcialmente dormente. Não era do seu feitio deixar ninguém esperando, entretanto a sua vontade de sair debaixo de suas cobertas naquela manhã era inversamente proporcional a decência de deixar a sua impecável educação nas impressões de seus pais.

Porém antes que Jamie pudesse se revirar mais uma vez na cama para decididamente espantar a preguiça, uma espécie de furação de vestido de algodão florido entrara pelo seu quarto indo diretamente para a janela estrategicamente acima de sua cabeça, escancarando-a como se a cura do câncer estivesse lá fora no seu jardim passeando com o cachorro.

— Socorro! Tem uma mulher louca dentro do meu quarto tentando me matar! — Jamie gritou, colocando o cobertor sob a cabeça, que logo foi retirado pela sua graciosa mãe, que sabe Deus de onde tirava forças todas as manhãs para esse tipo de exercício.

— A boa vida acabou, senhor lorde vampiro James Anthony Brecht. Sua primeira aula começa em quarenta minutos e o café já está gelado na mesa esperando a vossa majestade há outros quarenta. — a mãe disse bem humorada, chacoalhando o garoto pelas pernas, que ronronava como um gato mimado.

— Mããããe, eu já estava levantando...

— Claro, e eu sou a Britney Spears de um universo paralelo que se preocupa com os filhos e que os obriga a estar no horário para as aulas. — Junto de uma careta, Jamie observou de sua janela um céu feio e cheio de nuvens negras. Parecia mesmo que até o clima não estava de bom humor para seguir com a essa volta à rotina.

Primeiros dias de aula eram sempre dolorosos, pra não dizer desnecessários. Dizer adeus às férias de verão era algo tão triste para Jamie quanto a perda de um ente querido. Um cerimonial inteiro em memória à sua falecida folga de três meses rolou em sua cabeça antes de dormir, com direito a discurso piegas e enterro debaixo de chuva. “É um momento muito difícil para todos nós, estudantes de todo os Estados Unidos da América, termos que dar adeus à nossa tão querida e estimada férias de verão. Eu me lembro como se fosse ontem da primeira vez que a conheci...” Mas vendo por um outro lado, Jamie sentia falta do ambiente escolar em geral. Mesmo que o reencontro com a maioria de seus colegas acontecera na festa da noite anterior, Jamie ainda sentia falta de alguns rostos familiares todas as manhãs.

— ­­­Eu não vou chamar outra vez. — a mãe voltou a alertá-lo, usando o tom que sempre funcionava na hora de uma básica ameaça embutida dentro de uma afirmação, só que dessa vez dando as costas para Jamie e saindo do quarto.

O adolescente tratou logo de levantar, seguir para o banheiro para a sua higiene matinal, para depois tomar uma duxa rápida, colocar seu clássico jeans e a camisa polo e correr para a cozinha.

— Como foi ontem? A festa nos Kim. Não escutei você chegar. — o pai o questionara quando percebeu Jamie sentando-se a mesa apressado, sem retirar os olhos por trás das lentes dos óculos quadrados da folha do jornal.

— Foi ótimo pai. Cheguei bem tarde, na verdade. Tive que levar o Sal pra casa dele, por que eu não ia deixar ele dirigir nas condições que estava. Você precisava ver... — o garoto ria enquanto contava ao mesmo tempo que se lembrava de tudo em sua mente o que seu amigo aprontou, e obviamente o que o seu pai não poderia nem sonhar que havia acontecido.

— Pois é, você precisa colocar alguma coisa na cabeça desse seu amigo, James. Tomar todas antes do primeiro dia de aula é uma coisa no mínimo estúpida de se fazer.

— Foi o que eu disse pra ele. Mas você conhece o Sal, não é pai? — Jamie comentou enquanto lambusava a sua torrada com manteiga de amendoim, dando uma generosa mordida logo em seguida.

— Conheço e confesso que não sei como vocês são tão grudados até hoje, sendo assim como água e óleo desde sempre.

— Eles não são tão diferentes assim, Richard. — a mãe entrou na conversa, enquanto lavava a pouca louça que restava na pia da cozinha. — Os dois são muito inteligentes quando se trata de video games idiotas e ambos não sabem lidar de forma alguma com as garotas.

— Mãe! — Jamie exclamou com boca cheia de café da manhã.

— Ei Susan, vai com calma. Você ainda vai deixar esse menino traumatizado jogando essas verdades na cara dele todos os dias.

— Pai?!

— Tudo bem, tudo bem. Já terminou de comer? Não quero que se atrase.

Jamie olhou no relógio do celular e arregalou os olhos. Teria que pisar um pouco no acelerador se quisesse chegar a tempo. Limpou a boca com a manga da camisa e saiu correndo de casa para a garagem onde seu Volvo estava parado, não sem antes dar um beijo no rosto de seu pai e sua mãe, que mesmo que com relutância, ainda a deixou ajeitar a gola de sua camisa.

Doze minutos e alguma coisa depois e já estava na frente do majestoso prédio da West Bromwich High, estacionando seu veículo enquanto procurava por rostos conhecidos em meio à quantidade absurda de gente que se encontrava por lá. Observou Victoria Pefferman e suas amigas líderes de torcida colocando as conversas em dia como se fosse o último dia da vida delas; os garotos do time de futebol, Barrie Williams, Jackson Maynard, Eric Cockley e o capitão Jay Eberline provavelmente criando planos para atormentar a vida de algum calouro ainda naquela manhã. Noutro canto do estacionamento, Jamie viu Clair Doniel, Alan Kross e todos os geeks do terceiro ano juntos, o professor Kosten de Literatura com seus alunos favoritos falando sobre algo que ele provavelmente nunca iria entender de fato; viu o principal jogador do time de hockey, Dan O’Brian, que acenou para ele quando também o viu, e finalmente a senhora Poehlman, inspetora de alunos, que já estava no portão do colégio gritando a plenos pulmões para que os infelizes começassem a seguir rumo às suas respectivas aulas.

Jamie se esgueirou para dentro do portão assim que avistou Sal do lado de dentro, de óculos escuros e um copo de café em mãos caminhando sem rumo pelo corredor principal.

— Você tá péssimo cara. — Jamie constatou o obvio sorrindo compadecido, colocando o braço direito sobre os ombros de seu melhor amigo, enquanto os dois caminhavam.

— Eu só quero a minha cama. — o garoto de cabelos claros e cacheados se limitou a dizer. — E um cigarro, se não for pedir demais.

— Tenho uma diferente proposta. Aula de Biologia com o professor Díaz, terceiro andar, sexta porta à esquerda.

Sal revirou os olhos.

— Ugh, você é doente, Brecht. E eu mais ainda por ter bebido ontem. Se você quer mesmo saber, eu não lembro nem como eu cheguei em casa.

— De nada. Larguei você no portão, apertei a campainha e saí. — Jamie riu com a cara de espanto que recebera do amigo. — O que? Queria que além das aspirinas que eu te deixei, que eu ainda tivesse te colocado na cama e te dado um beijinho de boa noite?

— Seria de bom grado! — Sal reclamou ainda incrédulo com a atitude do outro rapaz. — Eu não sou uma encomenda qualquer pra você me despachar assim na calçada de casa. Ah droga... agora eu sei por que o meu irmão estava me olhando feio hoje cedo. O coitado deve ter me carregado escadaria acima. E provavelmente aquele favor que ele me devia foi quitado. Argh, sua culpa Brecht! Sua, da maldita da Amanda Kim e seus milhões e daquela desgraça de MD 20/20 de groselha.

Jamie só podia rir da situação cômica de Sal, por mais que o outro não aprovasse o seu divertimento. E foi assim que chegaram na sala de destino, um reclamando de como a sua vida estava uma grande porcaria, assim como o seu estômago, e o outro deliberadamente se deliciando com a desgraça alheia.

Os dois escolheram os seus lugares ao fundo da sala como de costume, ficaram conversando entre si, em meio a um “bom dia” e outro para os colegas de classe, até o momento em que Heitor Díaz entrou na sala, trazendo uma surpresa em seu encalço.

— Bom dia pessoal. — o jovem professor começou. — Eu espero que essas férias tenham sido muito bem aproveitadas por vocês e que todos estejam prontos para uma nova fase de comprometimento e responsabilidade com essa nova etapa de suas vidas acadêmicas. Nunca tive do que reclamar de vocês, e todos estão cientes de que são uma ótima turma, por isso eu espero que continue assim, e que apenas aconteçam melhorias daqui pra frente. — Enquanto o homem deixava suas gentis e encorajadoras palavras fluirem pela classe, todos pareciam apenas prestar atenção na figura tímida que estava do lado dele na frente de toda a sala. Quando ele notou, deixou escapar um sorriso constrangido. — Bom, antes de começarmos realmente o semestre, gostaria de lhes apresentar, ou para a maioria reapresentar, uma antiga aluna aqui do Bromwich High. Como vocês sabem, ela esteve fora do país durante todos esses anos, mas agora está de volta para concluir o ensino médio aqui conosco. Então, seja bem vinda de volta Maggie.

— Obrigada, professor. — a garota de olhos verdes e cabelos escuros agradeceu e finalmente olhou para a sala que estava mergulhada em um silêncio incômodo, onde ninguém parecia estar de fato assimilando o acontecido.

Sal queria que por algum motivo inexplicável, ele pudesse adquirir poderes psíquicos e telecinéticos, apenas para saber o que estava se passando na cabeça do seu melhor amigo naquele momento. Ele trocaria qualquer coisa por esses poderes. Tudo o que ele conseguia observar pela face subitamente pálida de Jamie, era um grandioso e inquietante assombro, uma mistura de incredulidade e deslumbramento. Ao passo em que acompanhou a garota com os olhos, enquanto ela seguia para a única carteira vazia da sala, Sal limitou-se a torcer para que o pouco que prestara atenção em suas aulas de primeiros socorros não tivessem sido em vão, por que Jamie estava prestes a ter um derrame cerebral.

Tudo por que Magnolia-Coração-De-Pedra estava de volta.

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Notas finais
(*MD 20/20 (também conhecido como bum wine que significa algo como vinho vagabundo) é um famoso vinho americano, que em suma só serve pra deixar a pessoa ruim no dia seguinte.)

Ficarei muito feliz se quem leu deixasse a sua opinião sobre a história (: Vai ajudar bastante para os próximos capítulos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.