Magic runs in all
1 Petúnia era magia. Sempre fora.
Notas iniciais
Apesar de Petúnia alegar com todos os argumentos possíveis que jamais seria uma bruxa, Lílian sabia que a irmã estava plenamente errada.
Lílian começara a enxergar a magia em Petúnia quando mal batia nos joelhos rotos de seu pai. Quando as outras crianças lhe maldiziam o cabelo, Lílian corria com os olhos ensopados de lágrimas salgadas para o colo reconfortante de Petúnia, que com sua voz mágica de fada conseguia afogar os sentimentos ruins que nasciam em seu pequeno coraçãozinho.
Lílian não gostava de deitar na grama do jardim, mas Petúnia gostava. Ela pintava as unhas de preto – enquanto todos os outros se viam em cores coloridas demais — e pegava ramos de alecrins para colar em seu caderno. Ela dizia para Lílian escutar o vento que se apressa pelas copas das árvores e para saber quando fosse chover semanas antes, apenas por analisar as posições das rochas nas hortas alheias.
Quando Lílian estava triste, Petúnia lhe preparava uma poção mágica. Apesar de Petúnia dizer que era apenas um chá de maçã e canela, Lílian sabia que a menina colocava todo o afeto ao fazer aquela mistura, tanto quanto se estivesse em um caldeirão, em noite de lua cheia, mexendo-a com uma colher de pau. Quando Lílian bebia aquele líquido morno, sentia-se imediatamente segura. Petúnia era segurança. Sempre fora.
Petúnia era magia. Sempre fora.
Quando Lílian cresceu mais um pouco, alcançando a cintura do pai, Petúnia já estava em seus ombros.
Ela tinha uma aparência de bruxa. Os cabelos enroscados e negros lhe cobriam os olhos nevoentos quando a brisa lhe atingia o rosto, em crepúsculos recônditos. Ela sempre parecia dizer algo de interessante, seja sobre o movimento dos pássaros ou sobre algum filme novo. Era tão estranho ela tentar disfarçar seu apreço pelos pinguins ou pelos lagos cheios de musgo quando se encontrava com suas amigas, vestindo vestidos cheios de babados e com blushes alaranjados em seus rostos simplesmente humanos. Petúnia tentava disfarçar sua magia, mas ela sempre estava ali. Lílian percebia isso. Quando Petúnia colocava flores em seus cabelos e lhe segurava as mãos no parquinho, quando suas amigas metidas em suas botas de franja e seus looks malfeitos da Cyndi Lauper não estavam ali, elas rodavam e rodavam, até a lua minguante surgir no céu, um sorriso iluminado.
Quando Lílian tinha onze anos, tudo mudou.
Lílian era realmente uma bruxa. Petúnia não era. Lílian iria ganhar uma vareta mágica, uma escola de bruxaria e poderia fazer encantamentos, tomar poções e comer alimentos desconhecidos e com efeitos mágicos. Petúnia viveria em uma escola, fadada a fazer economia doméstica, indo a bailes enfadonhos e conversando com pessoas medíocres, nunca crescendo, nunca indo além. O remorso e a inveja moldaram o coração da bruxa que Lílian tanto admirava. Ela parecia desequilibrada, arrogante e até desgostosa com sua presença. A cada ano que passava, Lílian tornava-se mais distante de Petúnia, vendo outros bruxos e conhecendo a fundo sobre plantas mágicas. Não precisava mais dos chás de Petúnia. Não precisava.
Petúnia irritou-se com o tratamento excessivamente bajulador de seus pais para com Lílian. E, apesar da sua pequena irmã não ter culpa alguma, acabara descontando em alguém. E, também, acabara descontando na magia. Não gostaria mais de ler os horóscopos para a irmã (‘’Lily, sabia que você é de escorpião? São pessoas bem meticulosas.’’ ‘’O que significa meticulosas, Tunny?’’), porque ela já lhe desmentia, afirmando que existia outro horóscopo bruxo. Petúnia estava cansada de desconhecer tantas coisas. Petúnia estava cansada de sua irmã ter um futuro brilhante pela frente enquanto ela estaria fadada a ter um esposo asinino e uma rotina infernal. Mas, para mentir para si mesma, afirmou que adoraria ter uma vida normal. Sem misticismo, sem essas bobagens.
Quando Lily retonou para casa nos outros verões, encontrava cada vez uma versão nova da Petúnia. Nenhuma era a Petúnia verdadeira, sacerdotal. Todas eram falsas e todas odiavam a Lílian. A relação das irmãs tornou-se um fio tênue, quase quebrando. Mas a magia nunca os deixaria quebrar. Nunca.
Houve um verão – E talvez o último verão em que Lílian e Petúnia não brigaram. E talvez o último verão em que elas se viram – Lílian estava uma pilha de nervos. Quando Petúnia, inquieta e raivosa, naquela cozinha pequena, perguntara o que havia de errado com Lílian, ela chorou. Chorou tanto que Petúnia achara que ela iria encher a cozinha de água e, que nela, vagueariam as maiores feras do oceano. Chorou tanto que Petúnia não sabia o que fazer. Já não se importava com a irmã, certo? Já não se importava se a irmã vinha obtendo mais olheiras ou se ela parecia assustada com cada estalo dos carros nas ruas ou com o barulho da televisão. Já não se importava, certo?
Errado.
Lílian parecia farta, cansada e abatida. Sentou-se na cadeira da cozinha, escondeu o rosto entre as mãos e ficou ali, trêmula. Petúnia suspirou, livrando-se de quaisquer ressentimentos enraizados em seu miocárdio, e pegou a chaleira. Fazia tanto tempo que não pegara a chaleira! Vagueou pela cozinha, pegou um pote de ervas, escolheu as melhores camomilas e preparou um chá como um deus que cria algo novo e bom. Pegou a xícara preferida de Lílian, despejou o chá e colocou-o secamente na mesa.
— Beba.
Lílian ergueu os olhos, aflita e surpresa. Petúnia ergueu a sobrancelha e meneou a cabeça para o chá. Lílian pegou-o lentamente, sentindo o morno da xícara como se fosse um abraço de sua irmã. Há quanto tempo não a abraçava? Bebeu o chá como se fosse feito de risadas flutuantes das duas, de confissões e de histórias deslumbradas. A expectativa de guerra, as mortes e a tensão, James lhe pedindo em casamento urgentemente porque eles poderiam estar mortos no dia seguinte, tudo isto... Dissolveu-se.
Petúnia já iria sair da cozinha. Iria passar o ferro de passar roupa nos cabelos e vestir-se adequadamente para uma visita do Válter (Que sempre trazia caramelos, rosas vermelhas que ela tanto detesta e conversas fiadas), quando ouviu a voz de Lílian.
— Em todos esses anos que estudei em Hogwarts... Nunca conheci alguém com uma magia tão forte quanto a sua.
Petúnia, sentindo a emoção lhe sufocar a garganta, sem virar seu corpo para que a irmã não pudesse ver as lágrimas surgindo em seus olhos, disse simplesmente:
— Não diga bobagens.
E foi-se.
Fale com o autor