Magic Mystery Theatre

6 Capítulo 6 - Sopro de Dragão.


– Aqui estão! Uma pena de Fênix e sangue de Unicórnio, Valéria. – diz uma voz forte e determinada.

A garota de cabelos encaracolados estanhos, óculos de lentes enormes e de olhar malicioso encara a sua fornecedora de produtos alquímicos. A sua famosa birra e antipatia infantil a faz encantadora, mas os seus sentimentos não são nada nobres.

– Se soubesse o trabalho que foi conseguir assistir as aulas daqueles professores chatos? Aposto que me faria um belo desconto. – retruca a garota que aparenta onze anos.

A garota de cabelos negros, longos e presos num tipo de penteado chamado “rabo-de-cavalo”, cruza os seus braços e dá um sorriso de desdém.

– O seu olhar “fofo” não vai me seduzir como faz com a maioria dos alunos e alunas... – denuncia a garota de roupas camufladas e botinas eqüestres.

Irritada e derrotada, Valéria retira uma pilha de cadernos de sua mochila.

– Droga, Mercury! Eu ia te entregar os cadernos, afinal, estavam muito pesados. Todavia, na próxima vez poderia dar um desconto na quantidade. – reclama.

A garota de cabelos negros sorri, recebe os cadernos, os guarda e retruca:

– Deixa de choro... Sei que são as coitadas de suas fadas que fazem todo o trabalho pesado. Além do mais, deveria trazê-las aqui para eu possa alimentá-las de uma forma decente. – pede Mercury.

– Que raro?! A grande desprezadora de tratamentos formais, pedindo educadamente uma intervenção para alimentar as minhas Sprites? É final dos tempos! – e Valéria ri.

Uma mão se enfia no cabelo na criança e começa a puxar com certa brutalidade.

– “Fofa”... Eu não estou pedindo. Estou MANDANDO! Eu não gosto de sua exploração excessiva com as coitadas para os seus ganhos pessoais. Sei que você não presta, garota. Todavia, sei que usa essa carinha de anjo para enganar todo mundo e obter vantagens de toda espécie.

Infelizmente, estou ligada a uma promessa ao professor Castanheira. Se não, eu ia te encher de tanta pancada que precisaria de milhares de encantos mágicos para reconstituir a sua face. – ameaça.

Valéria faz uma expressão engraçada de horror, mas a sua “mascara” cai, literalmente.

– Dane-se! Eu estou pouco ligando se as MINHAS Sprites estão morrendo de estresse. A minha reputação de aluna gênio é muito maior do que as suas supostas acusações de exploração animal. Todavia, concordo que elas estão cansadas e assim eu as trarei para uma semana de SPA no seu “risort” neste zoológico. – e abre os seus braços para apresentar o local de trabalho de Mercury.

Antes que as duas alongassem ainda mais a discussão, o diretor da Academia Arcana se aproxima do local. As duas terminam a sua discussão como num encanto.

– Espero vê-la novamente, Amiga. – diz Mercury com toda a meiguice possível.

– Eu vou trazer as minhas amigas aladas. Eu confio totalmente em minha colega do meu grêmio. – e dá um sorriso tão falso que qualquer um saberia que é uma mentira, mas como ela tem a aparência de uma menina de onze anos; fica fofo...

Corações flutuam no local quando o diretor aproxima das duas. Com direto a beijinhos no rosto de cada uma e aquele clima de “amigas para sempre”. Uma despedida simpática marca a chegada do diretor Talude ante a presença de Mercury.

Experiente, o poderoso Mago olha para a Mercury e comenta:

– Essa garota nunca me enganou... Problemas com ela? – pergunta.

– Nada. Ela é um Amor. Escrota, mas um doce. – foi a resposta.

O diretor ri.

Talude se encosta-se ao cercado que prende a maioria dos animais do zoológico da Academia Arcana e fica admirando os animais livres e tranqüilos. O clima é tão calmo que o poderoso Mago comenta:

– Eu fui contra a sua entrada na Academia Arcana, sabia? – confessa o diretor.

– O que fez mudar de idéia? – pergunta Mercury em um raro momento de cordialidade.

– Não sei. Acho que é o desejo de desafio do Professor Castanheira contaminou-me. – e ri. Que bom que estava equivocado, nunca pensei que um Dragão Negro pudesse conviver tão bem com os meus alunos. – comenta o diretor com certo orgulho.

Mercury escuta as palavras do diretor e as suas lembranças a levam a um passado distante e traumático da existência dela.

Tudo começa quando era um bebê dragão. Assim que saiu do ovo, a sua mãe a observou e a viu devorando a sua casca. Atitude comum a qualquer dragão recém-nascido, pois a primeira alimentação é fundamental e decisiva para a formação e desenvolvimento do indivíduo.

Depois há uma disputa pelo espaço dentro do ninho contra os seus irmãos. É uma luta instintiva. Todavia, Mercury tinha sido expulsa do ninho devido à força dos seus irmãos. Os Dragões Negros são territorialistas. Uma perda de espaço é o segundo teste para sobrevivência da ninhada. Por isso, Mercury perdeu a sua chance de se auto-afirmar dentro de sua família. Portanto, é uma postura comum a mãe rejeitar o filhote mais fraco. As opções são abandonar ou matá-lo.

A mãe de Mercury optou pela primeira alternativa.

Como não queria que a rejeitada voltasse para o ninho, Mercury foi levada para um ponto distante do pântano, as quais viviam e jogada de uma altura incrível. Certamente, bebês normais não sobreviveriam a uma altura dessas, mas Dragões são uma espécie poderosa e inteligente. Por mais cruel que possa parecer, é uma tradição e um rito de passagem.

Mercury tirou uma mão ruim no jogo dragoniano de sobrevivência.

Todavia, a sua Sorte a sorriu novamente, pois em sua queda, seu corpo atingiu um javali a qual matou instantaneamente. Atordoada, Mercury dormiu devido ao estresse da rejeição e a queda. O seu sono foi revigorante, o corpo estava deliciosamente quente e, com o tempo, ficou apodrecido.

O cheiro fétido atraia muitos animais e própria carne podre servia de alimento para ela. Durante uma semana o pequeno Dragão se fartou de nutrientes. Mas a sua inteligência precisa de estímulos. Sem a sua mãe para nutri-la disso, Mercury precisava de outras formas cultura.

Logo a criatura observou o modo de vida dos humanóides. Mesmo capturando pequenos animais, ela precisava de mais variações alimentares. Ovelhas, porcos, aves em geral... Os humanos criavam isso e tinham um estoque permanente de comida. Além de uma construção que os abrigam da chuva e das intempéries climáticas.

Como uma expressão cínica e corajosa, Mercury resolveu seduzir o fazendeiro a adotá-la como um animal de estimação. Levou certo tempo, mas conseguiu o seu intento. O Dragão foi adotado como fosse um cão de guarda. A sua presença intimidadora ajudou muito o fazendeiro contra diversas adversidades. Ao mesmo tempo, a sua inteligência aguçada aprendeu a língua utilizada pelos humanóides.

Um dia, o fazendeiro morreu de causas naturais.

Sem nenhum sentimento de perda ou humanidade, Mercury comeu o seu corpo apodrecido, como também todos os animais da fazenda. Depois testou o seu hálito de Dragão queimando e destruindo toda a fazenda.
Foi um bom dia, pois Mercury se sentiu viva novamente, afinal, ela podia voar.

E passaram quinze anos, a jovem dragão estava apta para conseguir informações de dragões mais experientes. Talvez até copular com eles...

Durante o seu vôo descobriu que entre os dragões não tem essa de amizade ou solidariedade como os humanóides. Há guerra, luta e traições. Depois de tantas aventuras e aborrecimentos, Mercury encontra o seu Mestre. Um Dragão ancião verde chamado Stmigou.

Egoísta, mau e inescrupuloso. Perfeito para o seu desenvolvimento intelectual. Ainda mais sendo um Dragão fêmea negro e jovem. Ela esperava seduzi-lo com a sua juventude, mas descobriu que não é só de sexo que os animais como eles vivem...

– Foste abandonada por sua mãe... – e ri o velho Dragão Verde. Eu não sabia que dragões negros jogavam fora os seus filhotes rejeitados? Normalmente, elas os comem...

– O venerável Mestre poderia me ensinar tudo que sabe? – pergunta à jovem.

– Não seja idiota! Não vou te ensinar nada que possa me roubar depois. – retruca. Olha aqui, comedora de carne podre, o mais importante é juntar tesouros e construir a sua própria cova. Procure machos de sua espécie, mas sei de fêmeas que se prostituem para obter proles mais poderosas. Ou pode viver entre os humanos e roubá-los, tomando suas riquezas, traindo as suas confianças e manipulando com a sua beleza e juventude.

Mercury sorri, ela gosta das palavras daquele Dragão.

– Como faço isso, Mestre? – pergunta.

– Simples. Vou iniciá-la há muitos dons e talentos mágicos de nossa espécie. Construa a sua riqueza e um séquito poderoso de servos. Como é uma comedora de carne podre, pode fazer isso no meio do pântano. Estes humanóides são arrogantes e muito fácil de manipulá-los. Aprenda a sua ética e sua estrutura de crenças e ideologias. Conviva e construa vínculos, mas quando for chegada a hora de ter os seus objetivos realizados. Chute-os, mate-os e os devore com a sua carne apodrecida. – instrui o velho dragão verde.

– Mestre... Posso copular com os humanos? E ter filhotes com eles? – pergunta a jovem um pouco envergonhada.

A risada foi tão alta que a caverna tremeu ante o som.

– Não só pode como deve. – foi a sua resposta. Os meus filhos draconianos me deram grande parte dessa riqueza a qual estou deitado. Além do mais, não vou ficar chateado se tiver a sensação deliciosa de repousar sobre um tapete de ouro, querida...

Mercury se deita sobre as moedas de ouro e tive a sensação mais deliciosa que um dragão pode ter. É uma sensação de domínio e poder que ela nunca tinha experimentado em sua Vida.

– Agora entende o porquê que somos assim. Somos Deuses. Não precisamos de outros Deuses para nos incomodar. Os FRACOS precisam, nós, não! – foram as suas palavras.

A jovem réptil compreende que foi fundamental a sua convivência com aquele fazendeiro. Pois aprendeu que pode usar os humanos com a sua tola ética e sua moral falida e fraca. Os Dragões são os verdadeiros Deuses antigos de Arton.

Depois de aprender a Magia secreta draconiana, Mercury rumou para aprender outras técnicas culturais humanas e suas magias. A sua sede de poder culminou na sua entrada na Academia Arcana. Com uma aparência humanóide e atraente, e fingindo que é gentil e confiável. O Dragão Negro convenceu ao professor Carlos Castanheira que é uma perseguida por sua mãe e contou uma história triste de ódio e vingança. A qual que a mesma tinha jogada a própria Sorte por ser rejeitada e acabou matando uma ninhada inteira de sua mãe, por engano, pois pensou que sua mãe fez isso por desprezo. No final, era um ritual draconiano.

A história de dor e culpa sensibilizou todos os magos humanóides e abrigaram-na. Então, Mercury ficou como uma espécie de zeladora do zoológico e acabou sendo amiga da maioria dos membros da instituição.

Na verdade, Mercury tem tudo que precisa. Conhecimento, contatos e comida... Muitos animais morrem e sua carne podre e deliciosamente nutritiva. Não custa nada ser “boazinha” e “ajudar” os meus “amigos”. Um dia ter o seu covil e MUITAS moedas de ouro.

– Com certeza, Diretor. É uma honra ser amigo de todos vocês. – e sorri com um sorriso largo.

Mas quando o diretor vai embora o seu rosto sombrio revela uma caveira típica dos Dragões Negros estilizada em sua face, bela e ilusória.

Notas finais
(Continua.)