Magic Mystery Theatre
13 Capítulo 13 - Para Elisa...
Muita gente acha que morrer é algo legal ou o fim de todas as coisas. Eu te digo. A Morte é algo que é natural e bizarro. Todos passam pelo processo mais cedo ou mais tarde. Posso dizer que é passar do dia para noite e depois vice-versa. Muitos afirmam que tudo isso é uma grande tolice. Não sabemos de nada, pois tudo é uma armadilha ilusória de nossa mente para não enlouquecemos ante o processo da finitude existencial.
A Mente é algo muito engraçado. Da mesma forma que temos medo do fim, poderíamos ter a ignorância ou um desprezo de viver. Como os insetos ou outros animais que nem percebem que existiram e só fazem ações mecânicas e instintivas. Por que temos este “privilégio” de termos conhecimento desse “fim”?
Sou um fantasma. Estou entre dois planos de existência. Moro na mente de minha irmã, nado no inconsciente coletivo e fujo da grande entropia. Sinceramente, não tenho muito que fazer por aqui. Toda a ação está na existência. Neste plano de existência é muito similar como estar sonhando. Não tem como ter “pontos de referência” é desvantagem, mas não existe distância ou tempo.
Na verdade, a minha ligação com a mente de minha irmã, me dá uma âncora existencial que permite ter um tempo mental e referências psíquicas das mentes de outros. Isso é uma vantagem muito grande.
Eu sou uma invasora do inconsciente.
Todos pensam que fantasmas são aquelas criaturas que arrastam correntes e fazem fenômenos paranormais. Alguns são assim, mas não é a maioria. Todos ficam confusos depois que saem do casulo existencial.
Os mais atordoados são absorvidos pela grande entropia, outros procuram ajuda e acabam indo para as cidades espirituais ou tribos mentais. Há certos casos que não vão para lugar nenhum e vagam a esmo. O destino delas é tornarem-se criaturas monstruosas que escravizam e vampirizam outras como eles; descobrem um meio de ficar entre dois mundos, seja como lugares ou objetos; ou, como no meu caso, habitar a mente inconsciente de alguém.
Para falar a verdade, eu vivo na mente de minha irmã desde momento que eu morri no parto. Acho que foi a minha mente que confundiu na hora de ir para a grande entropia. Sabe como é a nossa mente prega peças. Podemos cometer equívocos. Se for, foi o melhor equivoco que cometi. Pois pude aproveitar a minha existência ou não existência de uma forma única.
Você deve estar perguntando como é morar no inconsciente de minha irmã? É como morar numa casa de bonecas, só que sem precisar dormir, comer ou agir. Isso é função dos vivos, os mortos só olham. Isso é um pouco frustrante. É como estar fora do jogo e estar sentada num lugar vago na mesa de jogo. Como gosto de minha irmã, não a incomodo muito, mas conheço casos que os fantasmas perturbam muito inconsciente do coitado. Fazendo uma verdadeira bagunça lá, levando a loucura.
Eu sou um fantasma “limpinho”. Não contamino a mente dela com as minhas duvidas existenciais ou conversas enfadonhas. É uma relação de coexistência pacífica. Moro na mente dela e a ajudo no que for preciso.
De vez em quando, dou uma voltinha nos arredores do inconsciente coletivo...
Passeios no Inconsciente Coletivo, não é como dar uma volta numa montanha ou entrar numa floresta. É outra realidade. Os únicos pontos de referências são as imagens mentais que a minha irmã empresta para mim e construo este mundo de sonho. Os símbolos são fundamentais para localizarmos e não perdemos no caos mental coletivo.
Por causa disso, construí imagens para cada um dos amigos e colegas de minha irmã. Afinal, de contas, ninguém me conhece, só se for nos sonhos.
Normalmente, costumo colocar placas e avisos nas entradas das mentes inconscientes dos colegas de minha irmã. Por exemplo, o elfo Tensey, coloquei uma caixa de correio e um cenário vitoriano. A lefou Jeniffer pus engenhocas e engrenagens. Coisas assim...
O interessante são as representações da Valéria, Mercury e Cordélia.
Valéria tem uma mente estranha e perigosa. Eu represento-a uma floresta negra e assustadora. Tenho muito medo dessa garota.
Mercury não é humana. Nunca foi. Mas os seus pensamentos são complexos até para mim. Normalmente, uso a representação de uma caverna uma montanha de ouro e a Mercury, em sua forma humana, deitada no topo dela. Só assim que posso entender o inconsciente dela. Se não tiver essa imagem, fica impossível entrar lá.
E na Cordélia, um mundo arrasado é a melhor descrição para apresentar com é a mente da Qareen.
Eu poderia descrever a mente de um monte de pessoas que a minha irmã conhece e admira. Todavia, existe uma mente em questão que não consigo invadir por mais que eu tente. O seu nome é Louise Burker...
Uma misteriosa barreira extraordinária que impede a minha entrada no seu Inconsciente. Nem entrar, ver ou colocar os meus marcadores mentais. Isso me frustrou por diversas vezes. Por um tempo achei esta mulher muito suspeita e ser a responsável pelos acontecimentos vividos por minha irmã. Aos poucos, notei que, mesmo sendo uma pessoa de personalidade forte e racional em determinados momentos, ainda havia uma garota sensível e que lutava para provar que é digna e admirável.
Até um dia, a barreira caiu...
Da mesma maneira misteriosa que foi colocada, acabou sendo retirada.
Ao olhar para terreno desconhecido, acabei sendo apresentada pelo responsável da barreira.
– Garota natimorta, seja bem-vinda. – diz uma voz feminina, mas com grande sabedoria.
Eu procurei a origem daquela mensagem que surgiu no interior de minha mente, pois nesta realidade, não se “ouve”, “vê” ou “perceber” as coisas.
Tudo é mental. Acredito que seja uma mensagem telepática ou algo assim.
Não importa. Estabeleci a comunicação com o estranho ser. Que é, na verdade, um animal totêmico. Uma pantera. O mais estranho é a cor... Rosa.
– Saudações, senhora. – respondo. Peço desculpas por minha invasão e as inúmeras tentativas para entrar neste território. Eu sou a contraparte de uma das alunas do ex-marido de sua afilhada, Grande Caçadora... – explico com todo cuidado e respeito.
Uma coisa que devo explicar sobre animais totêmicos. Eles não são humanos. Isso é óbvio, mas não pense que são ignorantes. O que é peculiar para estes animais é a inteligência que é superior a humana. Não só a inteligência como também os seus poderes mentais. O termo melhor para defini-los são Quase-Deuses. Digamos que seja dois-terços divino e o restante a ligação coletiva dos animais representados.
Acredite, não queira ser inimigo desse tipo de criatura.
Então a grande gata desce de sua árvore e começa a me cheirar.
– Gostei de você, Natimorta. – diz a felina. É feia, assustadora e tem uma aura medonha. Tudo que a minha protegida precisa para sair dessa apatia e traumas infantis devorando a sua mente neste momento.
– O que houve? – pergunto esperando ajudar a criatura.
– Descobriu que errou em uma avaliação lógica. Por mais que pudesse ajudá-la, ela amava o seu ex-marido. A dor da perda foi grande demais. Somada ao seu orgulho ferido e culpa por sua falta de fé. Em suma, uma idiota. – rosna.
Contive o meu riso e continuei a seguir o animal totêmico até uma casa.
– O que é isso? – pergunto.
– Lembranças amargas. – disse a grande gata.
Logo vejo uma menina encolhida e outras tripudiando dela. Só a minha presença e da pantera espantou as crianças deixando a garotinha de cabelo rosa sozinha, mas na mesma posição.
– Crianças sabem ser cruéis... – comento.
– São humanas. Está na Natureza de vocês. – decreta a felina.
Eu me encolho e me sento ao lado da garotinha rosada.
– Oi. – cumprimento.
A reação da garota a me ver foi de horror. Afinal, quem não teria medo de ver uma boneca de porcelana proporcional a uma mulher adulta, branca, cheia de desenhos bizarros em todo o corpo e um vestido preto de seda todo roto e podre?
– Tá... Eu sou feia. Mas fui convidada por seu guia para te ajudar. – respondo.
– Credo... O seu cabelo tá sujo! A sua dona não te limpa? – pergunta a garota limpando as lágrimas.
– Minha irmã esquece-se de cuidar de mim. Mas tenho que concordar. Debaixo desse cabelo sujo tem um cabelo negro e liso, acredita? –digo.
Súbito, um pente aparece na mão da menina e começa a pentear o meu cabelo.
– Não pode abandonar as bonecas. São as nossas filhas. – diz a garota.
Eu entendi o plano da grande gata... Esperta. Muito esperta...
– Ninguém pode abandonar os nossos brinquedos. Pois assim quem vai cuidar deles? Vai deixar tudo bagunçado? Estes são os seus brinquedos. Se tiver quebrado, conserta. Se tiver sujo, limpa. Se tiver esquecido, lembra-se. – decreto.
– Tá. – diz a garotinha de cabelo rosa concentrada em pentear o meu cabelo.
Depois de um tempo, como mágica, torno-me uma linda boneca de porcelana, limpa, brilhante e com um vestido lindo e perfeito. Estou arrumada para uma festa de gala, ganhei até um chapeuzinho!
Então foi chegada da hora de minha partida. Eu beijei o rosto da criança rosada e sai dali acompanhada da grande pantera.
– Entendeu o porquê não te deixei entrar aqui? – observa o animal totêmico. Sonhos devem ser apresentados nos momentos certos na hora que devem ser apresentados.
Eu aceno afirmativamente.
– Sabia que vai acontecer mais alguma coisa que vai ser uma provação muito maior para a Louise, Grande Gata? – aviso.
– Sei. Por isso que precisei de ti, Natimorta. Pois sonhos são sonhos. Mas alguns são mais estranhos do que outros... – e ri.
Acompanho na risada do animal.
Quando Louise acorda. Ela se lembra que estava sonhando alguma coisa sobre bonecas e arrumar as coisas. Os seus olhos estavam mareados e cheios de secreções. Uma lavada rápida neles foi à solução. Porém existia outra que precisa ser feito.
A investigadora se levanta e arruma-se para se encontrar com os seus parceiros de investigação. A primeira reação de todos foi de alivio. Pois, mas do que nunca, o grupo precisa de sua líder e a aquela mulher forte que tem que lutar contra as adversidades da Vida.
– É o seguinte, rapazes! Quero rever o depoimento de todos os alunos! De TODOS os grêmios! Tem algo que não encaixa. Depois quero um encontro com a senhorita Lordanna. Tive uma idéia... – decreta a investigadora.
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