Magic Insurgence: The Rift - Interativa
2 The Wonder Black Coffe
Notas iniciais
As cidades grandes parecem ter um certo prazer em mostrar a irrelevância humana perante aos números. Ao caminhar entre aquele turbilhão de pessoas que há nos momentos mais agitados, se parar para olhar ao redor perceberá que não é diferente deles. Rostos sem nome, sem destino ou qualquer coisa que importe. Pode parecer um sentimento esmagador inicialmente, mas é fácil se distrair e esquecer dele.
Entre aquelas milhares de pessoas murmurando em seus telefones, andando em diversas direções, entre os enormes arranha-céus e carros barulhentos, entre a fumaça tóxica emitida por eles, no meio de toda aquela grandeza, estava alguém que apenas podia ser descrito como minusculo. Ou minuscula.
A jovem Mirai se destacava por alguns motivos, nada extraordinário, mas no meio de Nova Iorque poderia se dizer que não era tão comum. Com um metro e sessenta parecia ainda menor do que deveria graças a enorme altura dos outros ao seu redor, não era exatamente magra, mas estava perto disso. A pele não era branca também, mas nem escura o suficiente para ser parda, parecia apenas bronzeada. As suas outras características entregavam um pouco de sua descendência asiática, os longos e lisos cabelos negros chegavam a parecer tintados de tão escuros iam até metade das costas, e seus olhos castanhos estreitos e puxados. A camiseta amarela que usava também destoava um pouco das cores escuras e cinzentas ao seu redor, o jeans azul colava em seu corpo evidenciando um pouco de suas coxas que eram meio grossas. Em seu pescoço era possível ver uma tatuagem escrita em uma fonte curvada e sofisticada as palavras "if you dream on it, you can do it". Uma pequena mensagem de esperança que certamente podia motivar muitos que a vissem, se tivessem o tempo de olhar para baixo e ver a mulher de vinte e dois anos ali.
Tirou um papel de seu bolso na calça e leu mais uma vez para se certificar do endereço. "72 Saint Carley, Coffe Wonder Black". Olhou para frente para encontrar a placa no cruzamento que dizia o nome da rua, com um pouco de dificuldade graças as pessoas em seu caminho, indicando que devia dobrar a direta.
Assim que dobrou pareceu sair do centro da cidade em segundos, o movimento diminuiu a menos de um terço do que era antes e os prédios suntuosos começaram a diminuir e ficar menos chamativos, mais semelhantes a alojamentos de periferias americanas. Mirai mantinha os olhos nas entradas dos estabelecimentos identificados para encontrar o que buscava, e viu no fim da rua. Acelerou seus pequenos passos para chegar lá rapidamente e se certificou que estava tudo certo olhando ao redor, já estava anoitecendo e assim que chegou a frente do local as luzes se acenderam, quase assustando ela pela coincidência.
O Wonder Black era um pequeno coffe shop, não tinha nada muito chamativo sobre o local. A tabela de preços na frende indicava que faltava clientes ou qualidade nos produtos dele. Havia decorações pretas na porta de vidro, com o nome do local estampado nela. Abriu a porta e entrou, fazendo o sino acima dela tocar para avisar que havia chegado. Dentro era um local climatizado, um pouco frio se comparado ao lado de fora. Mesas redondas estavam espalhadas com duplas e quartetos de cadeiras por todo o pequeno espaço, duas pessoas estavam conversando num canto, enquanto um trio de amigos estavam sentados nas cadeiras na frente do balcão. A mulher que os atendia parecia extremamente incomodada pelas risadas altas e gritos que davam. Outro homem caminhava até a dupla no canto levando seus pedidos.
— Olá... eu vim falar com a... Anne. — Sua voz delicada e suave saiu um pouco baixa, enquanto ela apoiava as mãos no balcão e a mulher que atendia os jovens veio até ela.
— Como é? — A voz dela parecia o contrário, grave e grossa. Quase bruta. Os cabelos loiros e ondulados dela estavam amarrados em um rabo de cavalo. Parecia ser bem jovem também, a mesma idade de Mirai. Usava um uniforme de trabalho que era apenas o avental preto, mas por baixo era possível ver a camisa branca e colada que acentuava suas curvas na cintura e o peito... avantajado. Sua pele era bem clara e os olhos azuis e brilhantes.
— Falar com a Anne. — Mirai respondeu se esforçando para elevar o tom de sua voz, mas saiu quase igual ao anterior. A atendente apenas a olhou, esperando que falasse mais alto, a asiática respirou fundo, mas quando estava prestes a falar sentiu algo apertar seu braço e ouviu as risadas dos garotos que estavam próximos a ela.
— Adoro as japas. Ainda mais novinhas como você. — O que parecia ser o mais velho dos três a apertava seu braço com uma força exagerada, ela tentou puxá-lo mas ele era fisicamente mais forte. Pensou em fazer aquele negócio, mas as pessoas ao redor...
A atendente pulou o balcão em segundos, agarrou o braço do homem, o fazendo soltar Mirai, que recuou e colocou uma mão sobre a marca vermelha que havia ficado no seu.
— Me solta, sua vagabunda machorra! — Ele falou enquanto puxou com força seu pulso da mão da loira. — Agora eu vou te dar o que merece. — Ele levantou sua mão e sussurrou algo, Mirai não ouviu, mas pela leitura dos lábios dele conseguiu identificar o que ele falou. Sentiu o mana se acumulando na mão dele, que começou a emitir um brilho muito fraco. Ela se preparou também, levou a mão atrás das costas oculta da atendente e o homem e sussurrou algumas palavras também.
— Acho que estamos um pouco exaltados demais. — O homem que servia o casal no canto havia misteriosamente aparecido atrás do que estava prestes a atacá-las com uma magia. Segurava a mão dele por trás, no pulso, o impedindo de completar seu movimento. Mirai interrompeu o seu, e deixou o mana que juntou em sua mão escapar para não realizar a magia. — E sempre sobra pro Joe aqui limpar a sujeira da Anne. Então acho melhor não deixá-la sujar. — Ele era alto, mas da mesma altura da loira, um metro e oitenta provavelmente. Parecia mais velho, cerca de vinte e seis anos. Tinha cabelo castanho e curto, um pouco bagunçado. Olhos da mesma cor que o cabelo, usava o mesmo "uniforme" que a mulher, e por baixo dele uma camisa rosa e uma calça jeans.
— Parece que a bichinha também vai entrar na briga. — Outro do trio se levantou e bateu suas mãos, como se as limpasse preparando-se para algo. Mirai preparou sua mana novamente, enquanto sentia a de Joe se acumular em seus pés. O terceiro se levantou também, mantinha um sorriso debochado em seu rosto.
Não precisaram de um sinal para iniciar. Assim que o segundo homem do trio começou a realizar um encantamento, Joe soltou o braço do primeiro e chegou até ele em menos de um segundo. Mirai mal viu ele se mover, tamanha velocidade que havia usado para se aproximar. Saltou e colocou seus dois pés para frente, um famoso chute alto voador. Atingiu ele no peito e o estrondo foi ouvido pelo ambiente todo, graças a combinação de velocidade e força o homem foi jogado metros para trás e caiu no chão sem conseguir respirar direito.
— Aqua, audierit a me! — Mirai entonou as palavras em latim com força, como se fosse uma ordem de algum tipo. A torneira que ficava do outro lado do balcão explodiu, mas ninguém deu atenção aquilo. A água que começou a vazar ficou estática no ar, até Mirai apontar para o outro homem do grupo deles, o terceiro. Obedecendo ao comando dela, o liquido avançou contra ele com tamanha velocidade que o impacto o empurrou até a parede.
O primeiro, que havia agarrado Mirai, ficou apenas observando seus amigos serem derrubados em segundos, boquiaberto começou a gaguejar e dar passos para trás. Podia sentir facilmente a quantia de mana que Anne estava colocando em seu punho, e mal viu ele chegando em seu rosto. O soco foi tão forte que um dente saltou de sua boca enquanto seu corpo virava no ar e caia no chão, espirrando um pouco de sangue no piso do local.
Poucos segundos depois os três estavam saindo, apoiando ao colega que havia sido atingido por Anne.
— Voltem sempre. — Joe ainda falou enquanto o trio saia pela porta sem olhar para trás. O casal no canto retornou a beber seu café como se nada tivesse acontecido.
Sem dúvidas aqueles caras eram o tipo de pessoa que Mirai mais desprezava. Não era exatamente violenta, mas ter dado uma pequena surra neles havia feito aquele dia valer a pena.
— Desculpe o transtorno. Mas cara... eles estavam pedindo. — Joe estava retirando seu avental, e após dobrá-lo, colocou em uma gaveta atrás doo balcão, junto com o de Anne. O casal se despediu deles enquanto saiam, e a loira foi até a porta mudar a placa de "aberto" para "fechado", enquanto trancava a porta e descia as cortinas. Já estava noite, e o movimento fora do estabelecimento era quase nulo.
— Acha que eles podem contatar a Sociedade? — Anne puxou uma cadeira e sentou-se, enquanto dirigia a questão a Joe.
— Duvido. E falarem que iniciaram uma briga usando magia? — Joe pegou uma vassoura do canto, e começou a limpar o local enquanto conversava com Anne.
Mirai deixou seu coração parar por um momento. Eles eram magos da Sociedade, de onde ela era uma foragida há um bom tempo já. Se a reconhecessem, estaria entregando a posição daquele esconderijo dos Insurgentes e sua, mas o argumento de Joe serviu de alivio, e fazia sentido.
— E você deve ser Mirai Nishikawa Williams, certo? — Anne virou os olhos desinteressados para a mulher, que respondeu com um aceno positivo enquanto desviava seu olhar, evitando contato visual prolongado. — Nos disseram que vai trabalhar conosco por alguns dias.
— Isso mesmo. — Ela cruzou as mãos na frente de seu corpo, olhando para baixo.
— Seja bem vinda ao nosso grupo então. — Joe continuava a limpeza e falava sem olhar para ela, o que era de certa forma um alivio, já que era tímida demais para agir normalmente com eles.
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