Magia ao entardecer
4 Uma xícara de chá.
O frio finalmente chegou a Ternapolis, uma pequena cidade há uns 500 km da capital da Bahia. A chuva precipitava cada vez mais e as gotículas caiam sobre mim, molhando o meu casaco azul.
Enquanto caminhava pela larga avenida principal, muitos guarda-chuvas pairavam. Eu estava só, em um casaco azul de capuz e uma calça jeans lavado preto.
Todos caminhavam apressados com medo da água molhá-los, mas eles não sabiam como era bom se molhar. Até as crianças concordavam... Pulavam nas poças, riam ao se melar de lama.
Aquilo me lembrava o bosque, minha antiga casa. As árvores, a grama verde, todo o campo colorido em flores... A ventania e a chuva, cujo também se encontrava as chamas.
Antes que se volta ao meu presente mais que imperfeito, esbarrei em algo me fazendo ir para o lado e segurando o que quase me derrubou. Não era poste ou plantas, era algo macio. Um braço.
—Nossa! Hã, desculpa. – Gesticulou a moça quando sentiu o impacto e depois olhou nos meus olhos.
—Não, não. As desculpas são minhas. — Responde retribuindo o olhar.
Antes que falasse algo, ela saiu. Pelo meu ver, a garota chorava e o encontro de nós dois, acompanhado com o olhar, para mim, parecia ter feito o mundo parar naquela hora.
Continuei o meu trajeto, assim como a mesma fez. Não tinha como negar, aquela garota mexera comigo. O meu tocar em sua pele, a nossa aproximação, me fazia recordar de algo sem sentido. Loucura? Amor a primeira vista? Essas babaquices de terrenos. Pois é... Qualquer ser está provável de sentir algo assim por um estranho.
Só que eu nunca esqueceria seus olhos azuis. Azul como o céu límpido e o mar cristalino azulado.
***
—Você é muito louco de sair nesse fim de mundo.
—A chuva é uma dádiva que devemos concebê-la. É uma maravilha do mundo.
Jacques encontrava-se parado com uma toalha na mão, olhando para a pessoa a sua frente, encharcada.
—Quer chá? – Perguntou ele.
— Pode ser.
A caminho da cozinha observei como Jacques não mudava nada. Sua pele branca e pálida, alto e cabelo negro comprido, seu físico era um pouco próximo do que o meu, mas nunca tentei testar a sua força.
Aparentava ter 25 anos... Nunca envelhecia... Dádiva para a luxúria.
—SE eu não te conheço, pensaria que está me cobiçando. – Verbalizou Jacque, entornando de perfil.
Ao abrir a porta da cozinha, nos encontramos como Genevive. Baixa, olhos claros com filamentos vermelhos na pupila, loira, vampiro.
—Olá meninos. – Respondera ela.
—Olá. – Respondemos em um único som.
Jacques foi até o armário pegou duas xícaras e uma caixa de sache de chá. Colocou água em cada xícara e depois disse:
—Poderia?
Seus olhos apontaram para as duas xícaras, com água, de qual forma ele me pedia para esquentar a água. Assenti.
Seus olhos eram castanhos com filamentos vermelho-sangue. Em cada mão coloquei uma xícara e das palmas das minhas mãos faiscaram chamas tremulantes e depois chamas intensas de cor alaranjada.
—Posso lhe fazer uma pergunta? – Dissera antes dele pega o açúcar.
—Para quem? – Gesticulou Genevive.
Ponderei um pouco. Para quem? Talvez pudesse ser para os dois. Eles me fitaram, mesmo sem eu olhá-los e quando a água deu sinal de está fervida e antes de crepitar a primeira bolha de ar.
— Como foi à transformação de vocês? – Fixei meu olhar em direção para os dois e depois entreguei as xícaras para Jacques, que aparentava sorrir, mas Genevive, pelo contrário, parecia tensa.
—Minha transformação é o que você quer saber? – Respondera Jacques, com um tom sarcástico e colocando o sache em cada xícara.
O chá era de romã.
—Sim, mas se não for...
— Nasce assim. – Respondera ele entrecortando minha fala. —Quando um vampiro tem um filho à criança já carrega os genes vampirescos. Alguns deles vêm com algum “toque” especial.
—Você quer dizer dom? – Gesticulou Genevive, mastigando o cereal com leite a sua frente.
—Sim, a casos em que crianças têm telepatia e os mais conhecidos, sensitivos.
Comecei a pensar como aquilo tudo, juntando como resto da pouca coisa que sabia era louco. Não existiam só vampiros ou fadas. Tinha lobisomens, metamorfos, mutantes, terrenos, celestiais, infernais e muito mais do que podemos imaginar, além dos mestiços. Tudo aquilo era muito perigoso.
—Foi no ano de 1993. – Começara Genevive, passando suas mãos pelo pescoço onde se encontrava uma pequena marca de mordida, mas a mesma que se encontrava na pena, virilha, pulso, coxa... —Trabalhava na contabilidade de uma empresa. Meu patrão Carlos era reservado e pedia que levássemos os saldos para a casa dele com o objetivo de se manter informado nas últimas atualizações. – Ela parou, e respirou fundo — No dia de quarta-feira, de noite ele me mandou ir a casa dele... Podia ir de noite, mas estava muito cansado por motivo da festa na terça. Ao adentrar no quarto...
—No quarto? – Dissera Jacques com uma cara de “você é idiota ou se faz?” — Hã, desculpa, continue.
Dei uma risadinha pelo motivo do rosto de raiva transparecido nela, ela arfou e continuou:
—Ele tinha justificativa pra tudo. A do quarto foi por está doente, em repouso. As luzes estavam apagadas e só uma lamparina encontrava acesa no criado mudo ao lado da cama... Tudo foi tão rápido. – Ela abraçou-se — Primeiro a posta se fechou e depois ele me levantou agarrando-me pelo pescoço até a cama, onde me abusou e deu a primeira mordida, seguida de outra e outra e outra... Meu sangue misturava com sua saliva, onde ele lambia cada parte do meu corpo e eu. Chorava. E debatia-me pela dor até tudo cessar-se.
Primeiro o local ficou todo em silêncio, mesmo que a sua transformação em fala tinha sido muito sucinta, não tinha como não pensar na dor que uma pobre moça sentira. Genevive tinha apenas 19 anos na época. Tudo era novo para, ou era como eu pensava pela questão a fora.
—Como é hã... A transformação? – Perguntara Jacques, quebrando o silêncio soturno.
A pergunta veio aos nossos ouvidos de uma forma inesperada, mas logo entendemos o porquê da pergunta. Ele já nascera assim, não sabia o que era a dor... Bem, eu sabia? Pra ta pensando nessas coisas?
—Como beber água benta, ou tentar pregar uma estaca no seu coração. Macabro, tenebroso, doloroso... Horrível. – Dissera Diana atrás de mim.
Por acaso eu ou ninguém tinha notado sua presença, mas acreditava muito que Jacques sim. O seu “toque” era bem interessante, além de ser um poder que eu trocaria com qualquer um. Ser sensitivo.
—Tudo bem Diana? – Fiz um gesto de saudação.
—Tudo Natanael.
Diana assim como a dupla a minha frente, era vampiro. Sua pele negra com seus cachos modelados cor de carvão, dava um contraste entre uma deusa e uma estátua de Michelangelo. Diana era uma das mais sombrias criaturas que morava ali. Mas a mais romântica. Quanta vez não escrevera quinhentas e uma juras de amor para mim.
—Já que falamos de nós mesmo, sem ressentimento fada, mas Jacques existe algum mestiço? – Perguntara Diana.
—Entre minhas desventuras e últimas informações, não. – Respondera Jacques em uma profunda amargura.
— Mas se existir, seria imortal? – Perguntara Genevive, mais calma e curiosa.
—Genevive, minha criança. Não existe imortalidade, bem, que eu saiba não. Mas nós seres sanguinários só temos a capacidade para o envelhecimento quando transformados ou nascidos assim. – Respondera em alto e bom som, de forma impecável. — Se formos decapitados, queimados, estacas no coração, água benta... Morremos. Bem você não.
Jacques apontou para minha direção onde todos os olhares foram pra mim. Odeio ser chamada atenção. Mas o que ele queria dizer era que eu não podia morrer da mesma forma que eles, por ser fada.
—Bem não paramos no tempo. Envelhecemos de forma lenta, comparados aos seres humanos. Mas e o que aconteceu com Carlos Genevive? – Retruquei tirando toda a atenção de mim.
—Arranquei seu coração e fiquei com os caninos. – Respondeu ela, puxando uma corrente com dois caninos como pingente.
Por mais horrível que fosse sua objetividade me fizera rir.
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