Magia Negra
8 Morfelino
Notas iniciais
Amarrei o cabelo – que estava desalinhado no estilo pós-chapinha – em um rabo de cavalo e vesti uma camiseta branca qualquer e um short básico, enquanto me dirigia à sala de aula, ainda mastigando o doce que peguei na máquina.
“Alunos de Pratica de Encantamentos, por favor, se locomovam até a área ao ar livre da Ala Fogo”, dizia um aviso pregado na porta da sala; não fazia idéia do que seria a “Ala Fogo”, mas devia ser o mesmo lugar onde foi à parte prática da aula anterior, e eu sabia onde era.
Chegando lá, o pessoal estava reunido em um círculo e no centro, o professor, até então novo para mim, um homem de meia idade muito branco e de cabelos lisos bem alvos. Não demorou a que meu olhar cruzasse com as duas Kent, que estavam uma ao lado da outra em um canto do campo de gramado verde. Usavam roupas curtas – o dia estava ensolarado e quente – deixando bem visíveis suas curvas de corpos de modelo.
Eu podia jurar que a nossa “amizade” (que já era fake) não existia mais, e que nunca mais conversaríamos e provavelmente seríamos inimigas daqui pra frente. O professor começou a fazer a chamada, e novamente a garota de nome estranho não estava presente.
– Muito bem jovens, a atividade de hoje é muito simples. – pronunciou o homem depois de terminar — Eu vou solicitar que demonstrem os seus poderes de bruxo pra mim, tocando nesta bola-de-cristal. – Ele tirou o tecido que escondia um volume na bancado ao lado, e uma esfera luminosa apareceu.
“Não tem mistério nenhum, só coloquem suas mãos nela e uma coloração vai surgir, o que dirá se estão aptos aos estudos no campus ou não.” – disse por fim, causando um burburinho na multidão de alunos.
Então, era isso. Sem exibicionismo de poderes, como eu pensei; os bruxos daqui devem estar decepcionados, devem ser todos egocêntricos como as irmãs Kent. Mas eu estaria preparada; agora eu sei que eu tenho poderes e sou uma bruxa.
– Nina Kent! – exclamou o instrutor, a bruxa já se dirigindo à bancada com um sorriso prepotente no rosto – Pode colocar a sua mão ali. – a palma da mão da morena pousou na bola, produzindo um tom vermelho-escarlate, por ironia do destino, a cor que ela mais usava – Vermelho... É boa, esta cor representa quem sempre estará no centro das atenções. Não há dúvida de que será uma grande bruxa, Nina como todos os Kent são. – disse o professor enquanto fazia anotações; ele disse o mesmo pra Shirley, quando fez a esfera se tornar rosa Pink como as suas unhas e todo o seu look. Provavelmente era a cor da conquista, coisa que ela sabia muito bem fazer com garotos.
– Sunori Kimonno! – torci o nariz ao escutar meu sobrenome, mais uma vez com medo de que reconhecessem o que não aconteceu. Respirei fundo e comecei a andar, as pernas levemente bambas apoiadas no gramado; Shirley passou por mim lançando um olhar nada amigável enquanto desfilava como se estivesse na São Paulo Fashion Week (eu vi sobre isso na TV).
– Sabe o que fazer – os olhos azuis dele me encararam, então toquei a bola-de-cristal com os dedos fazendo-a piscar em tons de azul, então apoiei a palma toda na esfera, o que provocou uma mudança de anil para turquesa, roxo-púrpura e depois lilás. Sabia que tanto meu olhar como o do professor estavam fixos naquele objeto, tentando descobrir se eu tinha estragado ele ou não.
– Eu... Eu não fiz nada. – gaguejei.
– Não há nada de errado, criança. – o homem piscou sorrateiramente e falou a próxima frase em voz baixa – você tem algo que poucos bruxos possuem, um dom místico. E faz parte de uma das famílias mágicas que eu mais estimo a família Kimonno! – engraçado como elevou a voz agora, e não teve quem não ouviu.
“O seu pai é um grande bruxo, se quer saber, e eu conheço tanto ele quanto sua mãe” o cabeludo me puxou pra perto dele, continuando – se precisar da minha ajuda, é só pedir.
– Vou me lembrar disso – me despedi dele, já sentindo olhares em minhas costas, se aproximando – Sunori, querida – exclamou Shirley – por que não nos disse que fazia parte de uma linhagem tão famosa de bruxos? – “porque nem sabia que era famosa” pensei, me virando em frente a elas.
– Bom isso muda tudo. Você vai ficar popular agora e nós precisamos disso, popularidade – continuou a loira.
– É realmente importante pra vocês não é? Ser popular.
– Não é importante, é indispensável. – interveio Nina – além disso, ainda não resolvemos a questão do seu dom místico. – as duas me cercaram segurando cada uma em um braço meu me levando da área, sendo seguidas pelos olhares de todos os alunos (que com certeza deveriam estar falando sobre mim).
– Até lá, estará conosco – disse por fim a morena.
*
Depois do almoço eu aproveitei pra ler alguns livros que eu tinha sobre a cabeceira da cama (e por sorte aquela garota estranha não estava no quarto), entre eles “Criaturas Místicas e Não Místicas”, no qual listava que todo bruxo, fada, elfo, centauro, sereia, bárbaro, vampiro, lobisomem entre outros poderá ou não possuir um dom místico; quem possui pode praticar um tipo de magia que nenhum ser mais pode, bem como aprimorar esta prática.
Então era isso que significava o que eu era, aquelas bolhas d’água que eu usei na festa nada mais eram do que dons místicos. O único detalhe era que eu não sabia se era capaz de fazer de novo.
Alguém bateu na porta e eu levantei pra atender. Era aquele instrutor de novo.
– Senhorita, você recebeu um presente de alguém. – o homem estendeu uma caixa sem tampa com um gato bem espaçoso dentro. Na coleira estava preso um bilhete; eu o virei com a mão e no verso estava escrito “Desculpe – Mamãe”. Soltei um longo suspiro de repulsa, percebendo que minha mãe iria começar a fazer tentativas de me fazer perdoá-la e que isso iria me cansar.
– Muito obrigada – tomei a caixa pra mim, sentindo o peso do animal – me diga uma coisa, — o interrompi antes de ir embora, notando o crachá em seu terno escrito “William Wilson” – Sr. William, o senhor sabe quem pagou meus materiais?
– Ora, foi o seu pai, quem mais seria? Aliás, ele é um grande homem e tem a minha admiração. – eu agradeci e ele se despediu, indo embora. Fechei a porta do quarto, o gato pulou da caixa e caindo de pé no chão, derrubando a mesma. Até que era bonito, pelagem longa de um amarelo-dourado e olhos verdes-esmeralda, não fosse o seu tamanho meio descomunal pra um gato.
– Ah! – tomei um susto quando minha visão periférica notou a presença daquela garota estranha deitada na cama ao lado da minha – de onde você surgiu?
– Eu estava no banheiro, sua aberração. – disse ela com sua cara azeda maquiada de preto. Fiz a cara mais feia que consegui e saí de lá. Tinha um homem inserindo uma placa no quarto ao lado, usando uma furadeira pra pregar a mesma.
Ele fez tudo muito rápido e eu percebi que na placa estavam escritos os nomes dos alunos que dormiam ali. Logo ele estava fazendo o mesmo no meu quarto, e então eu finalmente descobri o nome da esquisita:
Kimonno, Sunori
London, Kamome
O nome conseguia ser mais estranho do que ela, mas me era familiar. Não conseguia lembrar, mas já o tinha escutado. É claro, a única aluna que nunca estava presente nas chamadas, era ela!
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