Magia Negra
4 Colega de Quarto, parte I
Notas iniciais
Entrei no meu quarto, jogando as malas onde podia e me jogando na cama, razoavelmente macia. O primeiro momento sozinha desde que cheguei à Academia, e algumas lágrimas escorreram do meu rosto, lembrando dos problemas com a minha mãe, aquela ingrata que me escondeu tudo e ainda me jogou em uma escola como essas, onde eu serei uma deslocada. Escola de riquinhos. Saí sem me despedir dela, e chorei exatamente por me arrepender. Chorei mais ao lembrar de Ricardo, meu primeiro amor; furtei uma foto dele antes de sair de seu apartamento. Ele nunca permitiria pouco lhe agradava tirar fotos, mas precisava ver seu rosto mais uma vez.
Estava abraçada à fotografia quando escutei um barulho no quarto, e a porta do banheiro se abriu. Virei-me devagar para ver quem era a vista ainda molhada de lágrimas. Uma garota morena da mesma idade que a minha saiu do cômodo notando a minha presença, fazendo uma cara de poucos amigos.
– Seja quem for você não invada meu lado do quarto – disse já se dirigindo à sua cama ao lado da minha, decorada de objetos sombrios assim como suas roupas obscuras; se ela fosse uma adolescente de Satterford, a chamaria de “gótica” ou “punk”, mas se ela era uma jovem rica como todos nesta academia, por que a rebeldia?
Agora me veio à mente que quando tomei a chave do meu quarto no alojamento de bruxos, havia o meu nome e o de mais alguém — que eu não prestara atenção, que obviamente pegou a cópia da chave. Não queria ter de dividir o quarto com alguém; na verdade não queria nem uma vida social mais. No entanto novamente coisas que eu não queria estavam acontecendo.
– Meu nome é Sunori... – parei antes de pronunciar meu sobrenome; se meu pai fosse mesmo tão importante para os bruxos era melhor não dar tanto alarde. – pode me chamar de Su. – Não tive resposta.
– Silêncio, eu quero ler. – Ela segurava um livro grosso de capa preta e um pentagrama alvo gravado na mesma. Claro que a achei muito esquisita (e antipática), mas tentei não incomodá-la e permanecer em meus pensamentos até o horário da primeira aula, quando deixei o quarto e fui assisti-la, mas não era bem uma aula e sim uma recepção aos calouros e introdução para o início do ano letivo.
O encontro foi ao ar livre, na praça principal do colégio, que, aliás, parecia mais um castelo de tão monumental; era imenso e imponente, repleto de torres de pedra, espaços para as salas de aula e os alojamentos de quartos. Todos os alunos ocupavam os corredores que levavam ao arbóreo local, também entravado pela multidão no gramado, formando um círculo, onde no centro deveria estar a autoridade que faria o discurso.
Não gostava de tanto público, não queria interagir com ninguém nem permanecer mais um minuto ali, mas voltar para o quarto também não me seria muito útil. Andei até a curta escadaria que induzia o corredor à praça e sentei, isolada e longe do grande público.
Coloquei as mãos nos bolsos e escutei algumas vozes balbuciarem algo sobre os diretores de cada ala de Mystique Campus, o que achei um pouco estranho ter mais de um diretor. Todos falaram um pouco, algumas vozes masculinas outras femininas e um papo sobre mágica, como esperado, e bruxos, fados, centauros, elfos, etc; ou seja, citaram todas as bizarrices que até pouco tempo eu achava não existir.
Alguém se sentou ao meu lado; era a minha “querida” colega de quarto. Ainda estava com seu livro e eu não quis dizer nada já que ela não dava abertura.
– Essa aula é um porre. – sussurrou ela em uma voz roca.
– Me diga uma novidade. – retruquei, escutando as últimas palavras da “conferência”. Eles falavam agora sobre os testes iniciais das habilidades dos alunos antes de se matricularem em seus cursos. Foi quando eu pensei que não tinha absolutamente nenhum talento como bruxa e que os professores logo descobririam isso, e eu estaria ferrada. Não poderia continuar no campus se não pensasse em algo.
De que adiantou ser da família Kimonno, ter sangue de bruxa e não saber usar magia? Levantei na hora, querendo ir pra qualquer lugar apenas para pensar, quando depois de dois passos apareceram na minha frente duas garotas familiares – uma loira extremamente bonita, magra e alta como uma modelo e a outra morena, bem arrumada e maquiada como uma boneca e os cabelos presos em um par de marias-chiquinhas. As duas garotas que me zoaram na cidade quando eu ainda não era aluna da Academia, e mostraram ser de péssima índole.
– Você? – Sussurrou a morena me analisando de cima a baixo depois das duas pararem o que estavam fazendo ao me notarem, e cochicharem entre si – olhe Jhynn é aquela garota daquele dia.
– Ah, claro a loirinha de mechas azuis, como poderia me esquecer? – Respondeu a loira, ainda me fitando. Eu claro, ainda estava calada, e não passava pela minha cabeça revidar, eu realmente não estava com paciência para encará-las. Olhei para trás, para ver a reação da garota-gótica, mas ela sumira. Eu precisava de ajuda.
– Não esperávamos te encontrar aqui, pensei que fosse apenas uma das suburbanas desta cidadezinha – disse uma delas, e eu quase tive vontade de falar quem eu realmente era. – o que você é? Uma bárbara? – Perguntou a outra dando uma risadinha – espero que não seja uma fada, — continuou – porque aí terá que se ver conosco.
Fiz a pior cara que pude pra elas e estava quase as chamando de vadias e tudo o mais que eu achava delas, quando apareceram mais duas rainhas da beleza, uma morena, com cabelos pretos bem escuros -diferente da minha conhecida de maria-chiquinha que possuía madeixas claras quase ruivas- beirando ao pescoço quase batendo no ombro e a outra loira com o cabelo preso em duas tranças bem-feitas.
– Algum problema querida? – a morena se aproximou e só então percebi que se dirigia a mim e que por algum motivo estava sendo gentil comigo. – Eu por acaso conheço essas duas e sei que é do feitio delas. – Falou sarcasticamente e as duas não gostaram nem um pouco.
– E você metida como sempre, Nina? Não me lembro de tê-la chamado para a conversa. – insultou a loira de cabelos ondulados com pose de superior ao lado da morena de maria-chiquinha.
– Conversa ou bullying querida? – Se pronunciou a garota de cabelos trançados ao lado da tal de Nina, dando um passo a frente.
– Espere não iremos nos rebaixar armando treta com o gueto. – Interveio a morena puxando sua amiga para se retirar, passando por mim e esbarrando de leve como provocação, fazendo o meu sangue ferver de ódio – Conseguiu se safar hoje.
– Eu ainda dou uma lição nelas – Disse a garota loira que tinha me defendido, ainda encarando as duas ao se retirarem, depois sorrindo para mim – Meu nome é Shirley Kent.
– Prazer, sou Sunori. – Preferi não falar meu sobrenome de novo, já estava sendo ótimo conhecer alguém que preste nesta escola. – Muito obrigado.
– Não há de quê, sinto muito por ter conhecido o lado ruim da Academia hoje. Chamo-me Nina Kent.
– São parentes?
– Irmãs, — respondeu Shirley – e aquelas duas eram Jhynn e Daiana Maicoom, uma fada loira aguada e uma sereia que se acha o centro do mundo.
– Como se por ser fada já não fosse ruim, — completou a outra, dando uma risadinha – espera, você não é uma fada, é?
– Ah não, eu sou... Uma bruxa. – hesitei em dizer isso em voz alta, embora habitasse há muito meus pensamentos.
– Então nos daremos muito bem. – continuou a morena, andando alguns passos e eu a acompanhei, junto com Shirley.
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