Maga Martel
1 Capítulo 1
Ao humano que achar este livro:
A literatura neriquiana não atravessa a cordilheira do Leviatã. Portanto, seu conhecimento a respeito do país onde minha raça habita é pouco ou quase nada. Na sua visão, ora somos soldados com poderes mágicos, solicitados pelo seu governante para exterminar os monstros que ameaçam sua terra; ora turistas que, mesmo sem poderes, ainda são tratados com distinção. Quer saber mais sobre Neriquia, lar dos neriquianos? Quer saber por que alguns de nós desenvolvem poderes e outros não? O tipo de vida que levamos atrás da cordilheira? Então leia essa história.
Mas cuidado! Guarde este livro em segredo. Jamais deixe que um neriquiano o descubra, principalmente se ele for um aurano. O que você está lendo tem mais chances de sobreviver em terras estrangeiras do que no lugar onde foi escrito.
Capítulo 1
— Nera, quero ser uma aurana quando eu crescer.
Essa foi a minha prece à deusa verde, saída da boca de uma menina de seis anos ao enterrar uma semente de maçã no quintal de casa. Seria incrível poder dizer que o vento soprou mais forte naquele instante, que escutei as árvores da rua farfalharem e senti meus cachos ondularem, mas a realidade proporcionou somente o ronco de um carro acelerando no asfalto e latidos do cachorro da casa ao lado. Ainda assim, eu acreditei na potência daquele instante. Havia enterrado a semente torcendo para acontecer comigo o mesmo que ocorreu à protagonista do livro de onde tirei essa ideia, embora o desejo daquela personagem fosse diferente do meu. Na falta de uma estrela cadente, era o que eu podia fazer. Bastava dar um tempo à natureza. Por isso eu esperei. Esperei enquanto, dia após dia, naquele mesmo quintal, eu sujava os pés de terra fingindo ser uma aurana que exterminava desgarrados no além-Leviatã. Passaram-se mais alguns dias, semanas; meses. Anos… até que meu pai cimentou o quintal.
Agora, com dezoito anos, essa lembrança poderia ser um corretivo aos meus devaneios de infância. Mas não é. Pois desde o dia em que o cimento prendeu aquele desejo na terra, uma macieira rompe o concreto e cresce lentamente em uma versão onírica daquele mesmo quintal. Dizem que sonhos recorrentes são prenúncios, não é verdade?
Eu sonhei de novo com a macieira essa semana, talvez devido ao dilema que enfrentarei amanhã: a escolha entre o Instituto do Trabalho e a Academia da Aura; um dilema proibido, na verdade, pois nenhum neriquiano tem direito a essa escolha. Desde os primeiros anos escolares, aprendemos que o rumo natural dos fidalgos é a Academia, enquanto que o rumo imutável dos vulgares é o Instituto. Eu repudio esse fato com toda minha aura, embora ela seja humilde, quase nada se comparada à aura de um fidalgo.
Sempre no mês de calcita, quando ligamos a TV e assistimos a campanha de alistamento acadêmico, ouvimos a semideusa (ou semideus, a depender da época que você estiver lendo este livro) proclamar:
“Você, fidalgo! Faz ou já fez dezoito este ano? Então vá ao Centro de Alistamento de sua região, no dia sete-um de calcita, e faça sua inscrição para se tornar um mago. Não se esqueça de levar sua carteira de identidade, comprovante de residência, certificado de conclusão escolar e duas fotos 3x4. É sua obrigação, como escolhido dos deuses, representar o potencial máximo de nossa raça. O seu futuro como aurano começa agora!”
Como a semideusa Rúbia bem diz, “fidalgo”, e não “vulgar”.
Mas aqui estou, pronta para (tentar) me incluir nesse grupo de escolhidos. Hoje foi o último dia antes de eu enfrentar a imutabilidade de meu destino, antes de me tornar a primeira vulgar a ser uma maga ou apenas mais uma a ser taxada como “pária”. Eu tenho vários recortes de jornais com reportagens sobre vulgares que se tornaram párias ao tentarem se alistar ilegalmente. Espero não ver o meu rosto estampado numa página do Utopia nos próximos dias.
E às vésperas da decisão mais importante da minha vida, precisei conversar com duas pessoas igualmente importantes para mim.
***
A primeira foi o Diego, amigo desde os tempos do primário. Fui encontrá-lo pela manhã, na praça Martidis. Faz anos que marcamos ali o nosso piquenique mensal depois de termos ido para escolas diferentes, no ensino fundamental; eu para uma escola vulgar, ele para uma fidalga. O local era um espaço amplo e agradável, com gramados bem podados e entremeados por calçadas apinhadas de barraquinhas de comida.
À sombra de uma árvore, forramos o chão com um pano xadrez verde-rosa e espalhamos sobre ele as guloseimas que eu fiz em casa e as bebidas que o Diego comprou a caminho. Nunca deixava a comida por conta do Diego, e nem ele gostaria que eu deixasse. Era doido por minhas receitas, principalmente os doces.
Nós dois sabíamos que esse seria o nosso último piquenique na Martidis, antes de cada um tomar o seu rumo na vida. Assuntos corriqueiros como o campeonato de magibol e filmes e livros que experienciamos no último mês foram deixados um pouco de lado para conversarmos sobre o futuro. Nosso encontro não poderia terminar sem eu lhe contar que iria ao Centro de Alistamento, onde o próprio Diego e os demais fidalgos da região Sudeste de Neriquia também se alistariam.
— Se decidiu, é? — disse ele, enchendo seu copo descartável com suco de uva. — Mas tem certeza disso, Marcinha? Sua família deve achar que vai escolher um molde importante, tipo engenheira, advogada… — levou à boca um pedaço de cocada branca e se deleitou — ou gastrônoma. Enfim, algum que, depois de moldada, lhe dê uns 5 mil latis por mês. Você pode ser qualquer coisa com o seu boletim 10/10.
— 9.5/10 — corrigi. — E, sim, eu tenho certeza. Você sabe que só ligo pra uma pessoa na família, e essa pessoa me apoia, então… — dei de ombros.
— Você tem o meu apoio também. Serei seu leitor nº1! — Diego encheu um segundo copo, dessa vez com suco de maçã, ofereceu-o a mim e propôs um brinde: — À futura escritora Marcia Martel.
— Molde de escrita criativa, aí vou eu! — exclamei, fingindo empolgação.
Forcei um sorriso e tomei a bebida. Tinha gosto de mentira, ou talvez de meia-verdade, a julgar por essa história que escrevo.
“Eu quero contar pra ele”, pensei, “eu preciso contar pra ele”.
— E quanto a você? — indaguei, tentando mover a conversa para um contexto mais favorável. — Pensando numa função em particular quando virar aurano daqui a alguns anos?
— Qualquer uma que faça eu ficar em Neriquia.
— Tá com medinho dos desgarrados no além-Leviatã? — provoquei.
— Lógico que não. Mas a vida de um policial é bem menos conturbada, apesar de ganhar menos.
— Não acho que alguém da fidalguia precise se preocupar com dinheiro.
— Não, mas se preocupa com status. E meus pais não são diferentes. Talvez por isso eu queira ser um aurano de pouca relevância.
— Se você vai se tornar um policial em vez de um sentinela, como fica aquela proposta de ser o meu aurano da guarda? Ainda está de pé?
Quando ainda éramos crianças e estudávamos na mesma escola, combinamos que, no futuro, Diego me escoltaria em uma jornada pelo além-Leviatã, a fim de que eu pudesse conhecer novos lugares e inspirações para meus livros.
— É claro que está! E vai poder me contratar por um preço bem em conta — riu ele. — A não ser que você acabe se tornando popular vendendo livros. Aí eu vou cobrar mais caro mesmo.
— Tudo bem, desde que meu aurano da guarda seja forte o bastante para me proteger — desafiei. Porém, a verdade é que eu não queria ser protegida pelo Diego, mas sim lutar ao seu lado como aurana.
— Vai estar 100% segura, pode ter certeza. Se lembra de quando eu te protegi naquele dia que a gente se conheceu?
É claro que eu lembrava. Nós tínhamos oito anos. Foi num mês de ametista, quando as folhas ressecadas do outono inundavam os corredores da escola. Tudo começou numa aula em que a professora propôs à turma que escrevêssemos uma história de nós mesmos como adultos, imaginando o que gostaríamos de ser quando crescer. E adivinha o que escrevi? Pois é. Acabei sendo motivo de risada para meus coleguinhas e até mesmo para a professora, que se aproximou de mim com um sorriso estranho. Ela me perguntou se uma pianista poderia tocar piano sem os dedos, e eu respondi que não. Me perguntou se uma pintora cega poderia pintar um quadro, e eu respondi que não. Me perguntou se uma vulgar poderia se tornar uma aurana, e fiquei muda. Ela então chamou uma criança da sala dos fidalgos e pediu para eu observá-la, para olhar as recém-mechas coloridas de seus cabelos que representavam a cor de sua aura; aura que faltava em mim e nos meus cabelos inteiramente castanhos. “Uma vulgar pode se tornar uma aurana?”, ela repetiu. “Não, não pode”, eu respondi.
Apesar de eu reconhecer o erro diante da turma, o assunto se alastrou pela escola como fogo no milharal. No dia seguinte, três meninos fidalgos me cercaram num corredor vazio após o término das aulas e apanharam minha mochila. Abriram-na com uma curiosidade desregrada e a viraram de ponta à cabeça. Em meio aos lápis, cadernos e folhas avulsas que caíram, chamou-lhes a atenção um bloco de notas com o desenho tosco de uma jovem, sobreposto por um nome grande em letra maiúscula: “Maga Martel”. Era uma historinha de mim na Academia, provando para todos lá dentro que eu também era capaz de soltar bolas de fogo e dar saltos de cinco metros de altura. Tentei arrancar meu livrinho das mãos deles, mas os panacas ficaram o jogando pra lá e pra cá, fazendo-me de “bobinha” enquanto liam pedaços da história com voz de escárnio.
Foi então que um sonoro “Vocês aí!” congelou a brincadeira. Não veio de um adulto, mas de um menino moreno de cabelos escuros com mechas rosadas, olhando a cena com uma cara de quem avançaria no pescoço de alguém. E foi exatamente o que ele fez. Tentou me salvar daqueles três idiotas, embora ele tenha precisado ser salvo por um professor depois que começou a apanhar. Com o corpo aparentemente doído, o menino sorriu para mim e fez um sinal positivo com o dedão. Teria sido meu herói, não fosse pelo seu pedido de que eu deveria parar de escrever aquele tipo de história, porque era “errado”. De qualquer forma, agradeci-lhe pela ajuda, e aquele fidalgo confundiu meu “obrigada” com o início de uma amizade, coisa que só realmente aconteceu após mais duas ou três conversas entre nós.
— Isso me lembra… que você não curtiu aquela história que escrevi — comentei, após meu passeio à infância.
— Na real, eu sequer li — disse ele, coçando a bochecha.
— Então se eu a reescrevesse hoje, você leria?
— Se a premissa for verossímil dessa vez…
Baixei a cabeça em desapontamento. Não havia nada de inverossímil naquela história, nem nesta que escrevo agora.
— Mas vamos supor que você mantenha aquela mesma premissa — continuou ele, chamando minha atenção. — Que função a Marcia gostaria de executar ao se tornar uma aurana?
Encarei-o para examinar se havia algo a mais no tom casual dessa pergunta. Mas suas feições ainda mantinham aquela descontração tão presente em nossas conversas. Na verdade, provavelmente era o meu rosto que demonstrava algum nível de seriedade. Procurei relaxar.
— Ah, sei lá…
— Sentinela? Curandeira? Executora? Ou uma policial, que nem eu.
— Eu… ainda não pensei a história tão a fundo. Talvez o livro acabe assim que ela se graduar como aurana. — Era mentira. Em meus devaneios, após a graduação, eu usava toda sorte de magia contra toda sorte de desgarrados em toda sorte de lugar do mundo. — Acho que… eu seria uma sentinela.
— Hm.
Quis entrar na mente do Diego para saber o significado desse “Hm”, prever como ele reagiria se eu contasse que a Marcia da vida real também gostaria de proteger as terras no além-Leviatã. A conversa fluíra justamente para esse momento oportuno. Era a minha chance!
— Diego… — “Vou prestar o exame para a Academia amanhã”. Era só uma frase. Apenas uma maldita frase! Abri a boca para dizê-la. Mas a voz não veio, a coragem não veio. Fechei a boca e, de súbito, mudei o rumo da conversa. — O que você seria se não fosse um fidalgo?
— Como é?
— Se você fosse como eu, o que seria?
Diego deu um longo suspiro enquanto observava os transeuntes na praça, quase todos vulgares.
— Ator — respondeu.
Não foi uma surpresa. Eu sempre ia ao teatro municipal para vê-lo atuando, e ele realmente levava jeito. Era um talento do qual o Diego se orgulhava.
— Você não sente frustração por ser obrigado a se tornar um aurano, quando poderia seguir uma carreira como ator?
— Um pouco — respondeu, torcendo o rosto ligeiramente. — “Mas devo enterrar fundo os anseios do meu coração, do contrário, eles irão vitimar os anseios do meu país”.
Era uma citação de Rony e Lucy, um clássico da dramaturgia sobre dois amantes cujas famílias eram de estirpes fidalgas bem distintas — ela de ouro, ele de bronze —, e também um dos meus livros preferidos, apesar de odiar o final. As falas do personagem deviam estar frescas na memória do Diego, pois ele atuara como Rony em uma adaptação dessa peça há alguns meses. Tinha sido incrível no papel, tal como a atriz que interpretara a Lucy, mas preferi não me lembrar da atuação do casal, o que incluía uma cena de beijo. Bem que poderia ter sido eu no lugar daquela atriz, afinal, eu sabia suas falas de cor.
— “Quais anseios serão exatamente vitimados, meu amor? Os anseios de Neriquia ou os de nossas famílias”? — quis saber, entrando no papel.
Rony deu um sorriso quase imperceptível antes de responder em tom de angústia:
— “Não crie atritos desnecessários, Lucy. Você e eu já sabíamos a verdade desde o momento em que medimos nossas auras.”
— “Que verdade?”
Rony chegou perto de mim e encarou-me com se fosse proferir as palavras mais duras de sua vida.
— “Que casais moralmente condenáveis são como o sol e a lua. Que só a existência de um eterno eclipse permitirá a nossa união.”
Peguei sua mão, meu coração batendo um pouco mais forte. Olhei fixamente para os olhos rosados de Rony e depois ergui a cabeça para visualizar o céu. O sol se achava solitário na imensidão azul.
— “Veja, meu amor. O sol e a lua estão se encontrando lá no alto.” — comentei, ainda olhando para cima. Em seguida, voltei-me para o meu amado. — “Eu sei que você também consegue vê-lo, Die… Rony”.
— Errado, errado, Marcinha! — exclamou Diego, claramente imitando a voz de outra pessoa. Logo tratou de se explicar.— Meu professor de teatro fica dizendo isso quando alguém erra o texto.
Só então percebi que ele desvencilhara sua mão da minha, a qual usei em seguida para apanhar meu copo de suco. Bebê-lo ajudou a esconder a vergonha que esquentava o meu rosto. Pelo canto dos olhos, notei o Diego se esticar para catar um brigadeiro e voltar a se acomodar um pouco mais longe de mim.
— Mas tenho que admitir — disse ele. — Você até que leva jeito.
— Eu também já tive meus momentos no palco.
— E isso tem quanto tempo? Dez anos? — provocou. A última vez que eu interpretara algum papel na vida tinha sido durante o primário, ainda uma criança. — Mas é melhor você ficar responsável pelo roteiro. Talvez, um dia, eu interprete algum personagem nele.
— Taí um dia que seria interessante — concordei.
Infelizmente, não contei para o Diego que eu sonhava com dias ainda mais interessantes, como o dia em que entraria na Academia, o dia em que me graduaria como aurana e, também, o dia em que beijaria sua boca.
***
A segunda pessoa com quem precisava conversar era minha mãe. Antes de visitá-la, passei em um sebo para lhe comprar um destes romances de banca que ela adora (bleh!). Não me julguem, pois não sou obrigada a gostar desse tipo de livro só porque sou uma mulher. Se o casal dessas histórias fosse composto por um fidalgo e uma vulgar, eu até abriria uma exceção. No entanto, esse romance intercastal seria prontamente confiscado antes de chegar a uma livraria ou mesmo a um sebo, já que o Departamento de Controle Literário (DCL) oferece uma recompensa em dinheiro para quem delata o portador desse tipo de livro, e mais dinheiro ainda se o delatado for o escritor. Isso vale para qualquer outra obra que ofenda os preceitos do povo neriquiano. Quanto será que pagariam por mim?
Numa bancada em frente à loja, havia uma porção de livros de romance empilhados. Fui esquadrinhando os exemplares a fim de encontrar um mais bem conservado, passando por títulos sem graça e capas ligeiramente cafonas, até encontrar um livro que, com certeza, não era um “Confissões Apaixonadas”, “Beijo Irresistível” ou coisa do tipo.
Tratava-se de um livro com capa grossa e aveludada, de um verde bem forte e salpicado por pontos dourados e espinhosos que pareciam estrelas. As laterais eram sulcadas e exibiam um verde desbotado em algumas partes. Tiras de couro fixadas à lombada costuravam trezentas ou quatrocentas páginas de algum conteúdo sem nome. Não havia título na capa, nem nada escrito na contracapa ou na lombada.
Abri-o na primeira página, uma folha de rosto em branco. Ainda curiosa, decidi folheá-lo.
— Ué! — deixei meu espanto escapar. As páginas, todas elas, estavam vazias.
Fiquei um bom tempo caçando uma letra qualquer naquelas folhas de papel amarelado que eram mais espessas que as de um livro comum. Embora o exterior daquela obra vazia parecesse uma peça artesanal de décadas, ou talvez séculos atrás, seu interior se encontrava em estado de conservação excelente, quase novo. Era como a edição de luxo de um romance que nunca foi escrito. Ficaria charmoso numa estante, a despeito de seu conteúdo. Talvez a livreira soubesse me dizer o que era exatamente esse livro.
Escolhi logo a leitura da minha mãe e me dirigi à recepção do sebo. Mostrei o livro misterioso à dona, que o investigou com um olhar de quem nunca o vira em sua loja.
— Não faço ideia de como isso foi parar aqui — disse ela. — Eu sempre avalio o que chega na loja. Se não passou por mim, é de alguém que o esqueceu enquanto escolhia os livros lá fora. Vou deixar aqui guardado, caso o dono apareça.
Não sei o que deu em mim. A ideia de não levar aquele livro comigo me pareceu tão frustrante quanto sair de uma locadora sem o filme que eu queria.
— Posso ficar com ele? — perguntei num ímpeto. A livreira negou, querendo dar uma de honesta. Problema fácil de resolver. — Eu pago!
***
Como eu ia dizendo, fui visitar minha mãe, pois precisava conversar com ela… no hospital.
Quando entrei em seu quarto, ela me recebeu com um sorriso de quem não me via há dias, mesmo eu tendo-a visitado ontem. Esse mesmo sorriso, no entanto, não escondia de mim a fadiga que havia se firmado em seu rosto, tal como já se firmara no resto do corpo. Minha mãe sequer conseguia andar sem o reforço das bolsas de soro aurado, penduradas no suporte ao lado da cama. Às vezes, era angustiante encarar aquele líquido verde e brilhante escorrendo preguiçosamente até suas veias sem pensar nas subtrações que acometeram sua vida. E tudo por causa dessa maldição maldita!
Adriana Martel já não era a mesma Adriana Martel de dois meses atrás. O cabelo crespo tivera de ser raspado quando começou a soltar fios com uma leve passada de mão. O verde de seus olhos e das unhas desbotaram igual ao verde de uma roupa cansada de ser usada e lavada. Sua pele negra como a minha exibia diversos furúnculos pelo corpo que não saravam nem com uso de antibiótico, afinal, a causa era de origem aurânica.
— Como a senhora tá? — perguntei, depositando a bolsa com os livros no chão e me inclinando para lhe dar um beijo na bochecha.
Nunca, nunca deixava de fazer essa pergunta. A maldição degenerativa era o tipo de maldição que podia se agravar de um dia para o outro.
— Bem — respondeu ela, a voz meio rouca. Em seguida, fixou seus olhos nos meus. — E você? — Não era uma pergunta casual. Minha mãe conhecia as arestas da minha vida. — Preparada para amanhã?
— Ahã.
Desviei o olhar para o porta-retrato na mobília perto da cama. Minha mãe pedira para trazê-lo mês passado. A fotografia era uma cena da peça Auranos de Yorico, na qual eu havia participado durante o primário. Na cena em questão, uma criança vestida de verde e branco, encapuzada, lutava contra dois desgarrados — alguém fantasiado de blêmio e outro de lobiumano — para proteger uma criança vulgar. Você, leitor, consegue adivinhar qual dessas personagens eu interpretava? Por incrível que pareça, eu era aquela cuja mão esquerda se estendia para lançar um fictício disparo de energia. A menina responsável pelo papel de aurana tinha adoecido, e eu era a única do grupo que sabia de cor e salteado todas as falas do roteiro.
— Se encontrou com seu namorado? — A pergunta me arrancou das lembranças.
— Mãe! Já disse! Somos só amigos… ainda — falei em minha defesa, sentindo as bochechas esquentarem. Entrar na Academia da Aura não era o único ato proibido que minha mãe me incentivava a fazer. — Mas, sim, eu me encontrei com ele. Parece que ele vai ao CA na parte da tarde. Se eu for de manhã, não vai ter perigo de ele me ver por lá.
— Então você não contou pra ele — inferiu ela, com um leve lamento.
— Não consegui — falei frustradamente. — Mas tudo bem. Se eu conseguir me alistar amanhã, vou correndo até ele contar as boas-novas. Claro, vou vir aqui primeiro, pra mostrar que sua filha é uma mulher incrível.
— Se eu ainda estiver aqui amanhã, eu gostaria muito de ver sua carinha feliz.
— Ai, mãe. Vira essa boca pra lá! É claro que você vai estar aqui amanhã.
Eu odiava quando ela vinha com esse papo pessimista.
A maldição degenerativa deprime lentamente a aura que circula dentro de nós. E como vulgares têm pouquíssima aura, é fatal para nossa casta. Se um neriquiano vai aos poucos perdendo sua aura, significa dizer que ele está aos poucos morrendo. Essa maldição não tem quebra. Mas sua progressão pode ser atrasada graças a uma planta mágica chamada reninere, encontrada no além-Leviatã. O tratamento, no entanto, não é de graça, a não ser que o amaldiçoado seja um fidalgo.
Se eu fosse para o Instituto, poderia entrar no mercado de trabalho e juntar um bom dinheiro para começar a pagar o tratamento. Só que minha mãe não desejava tratamento algum, pois isso significaria desistir do meu sonho de entrar na Academia, de se tornar uma aurana.
Hoje era o meu último dia antes de seguir na realização desse sonho, e eu queria ter certeza.
— Quer mesmo que eu faça isso? A reninere é a única maneira que a gente tem de lutar contra a maldição.
— A “gente” não. Eu! — corrigiu ela. — Sou eu quem está amaldiçoada. A oportunidade é somente minha. E eu escolho jogá-la fora, se isso impede minha filha de buscar o que sempre quis.
— Não seja egoísta. A senhora é minha mãe. De certo modo, essa maldição também me afeta! Se o preço para romper meu destino imutável é sua vida, então eu…
— Marcia, o único destino imutável aqui é o meu. E, por favor, já conversamos sobre isso. Você e eu fizemos nossa decisão. O meu sonho, assim como o seu, é que você se torne uma aurana. Você vai realizá-lo por mim, não vai?
Abri a boca. Hesitei. O tratamento com reninere a manteria viva por mais alguns anos. Era a sua melhor chance de evitar uma morte iminente. Ainda assim, minha mãe estava tomando para si toda a responsabilidade por seu falecimento. Ela estava decidida tanto quanto eu deveria estar.
— Sim. Eu vou. Prometo.
O sorriso que brotou em seu rosto aqueceu minha determinação. Ela acreditava em mim. Afinal, foi a única a testemunhar o que eu havia feito em uma noite de verão, doze anos atrás.
Naquela noite, nós duas caminhávamos de mãos dadas em uma rua perto de casa quando fui atraída por um brilho ameno no paralelepípedo da calçada. Pus-me de cócoras só para olhar aquele brilho mais de perto. Tratava-se de uma linda flor com pétalas azuis e reluzentes. “Oh, uma lumeia!”, foi como minha mãe a chamou. Admirada, movi a mão para tocá-la gentilmente. É impossível esquecer o que aconteceu em seguida. De azuis, as pétalas passaram a emitir um brilho esverdeado. Fiquei encantada! Uma flor que mudava para a mesma cor das minhas unhas a um simples toque?! Minha mãe ficou estupefata e agachou-se para conferir a nova cor mais de perto. Ficou murmurando algo com um olhar que me pareceu de preocupação e, de repente, pôs-se a chorar. Cheguei a pensar que eu tinha feito algo de errado. Estava prestes a pedir desculpas por sabe-se lá o quê, quando mamãe me deu um abraço e eu retribuí mesmo sem entender. Apenas ao chegarmos em casa que ela me explicou… me explicou que lumeias brilham à noite, e que somente os fidalgos têm, ou teriam, a capacidade de alterar sua cor.
Essa lembrança era a pedra angular da minha determinação. Não fosse por isso, hoje, talvez, eu estivesse seguindo meu destino imutável por vontade própria. Era irônico pensar que eu precisava realizar um feito semelhante amanhã, no exame de alistamento. Só que em vez de uma flor, eu tinha que abrilhantar um globo de cristal a quem chamam de arauto. O problema é que, depois daquela noite, eu nunca mais consegui mudar a cor de uma lumeia.
— Eu sei que você consegue — disse minha mãe, se ajeitando na cama. — Basta acreditar no seu potencial.
— Potencial, é? Queria ao menos poder enxergá-lo no espelho.
— Você não precisa vê-lo. Só tem que saber que ele existe. — Minha mãe fez um movimento com a mão, pedindo para que eu chegasse mais perto. — Deite a cabeça aqui, como se eu fosse catar piolhos.
Me inclinei e deitei a cabeça no colo dela. Seus dedos esquadrinharam meu cabelo, porém não eram piolhos o que procurava.
— Achei! — disse ela, puxando levemente alguns fios.
— Achou o quê?
— Os únicos fios verdes que você tem. Estão beeeem escondidos.
Esbocei um sorriso de gratidão por sua confiança.
— Eu juro pra você, mãe. Serei chamada de maga Martel ao entrar na Academia. E daqui a quatro anos, vou me formar como aurana. A senhora vai ver.
— Quatro anos, é? Eu consigo aguentar até lá.
Agradeci-lhe em pensamento. Segundo as curandeiras, a expectativa de vida de Adriana Martel sem o tratamento com reninere era de, no máximo, dois anos.
***
Na verdade, havia uma terceira pessoa com quem eu precisava me encontrar.
Antes de eu sair do hospital, minha mãe me recomendou cautela ao estar com essa outra pessoa, por se tratar de um completo estranho para mim. Sequer sabia se era homem ou mulher, vulgar ou fidalgo. Todo o nosso contato até então se dera por meio de cartas. Eu as recebia na minha caixa de correio, em envelopes sem remetente; eram breves e terminavam sempre com indicações de hora e local onde eu deveria “abandonar” uma carta minha, caso eu quisesse lhe responder.
Seja quem fosse, preferia se comunicar de maneira discreta, e a razão era óbvia desde a primeira carta, datada de seis meses atrás, que dizia: “Eu sei o que você quer, o seu maior sonho. Posso te ajudar a alcançá-lo”. Quando li aquelas palavras, não pensei duas vezes em aceitar tal ajuda. Eu realmente precisava dela para entrar no Centro de Alistamento, pois imagine você, uma mulher de cabelos inteiramente castanhos em um lugar cheio de pessoas coloridas. Mesmo se eu escondesse meu cabelo com um turbante, ainda assim eu não passaria desapercebida, pois onde já se viu uma fidalga encobrir a cor do cabelo no Centro de Alistamento? Além disso, quando um fiscal batesse os olhos na minha carteira de identidade, com certeza eu sairia de lá algemada direto para a delegacia mais próxima. E para piorar a situação, o CA detinha uma lista com todos os fidalgos matriculados no ensino médio. Obviamente não haveria nenhuma Marcia Martel nessa lista.
“Irei lhe prover uma forma de prestar o exame de alistamento”, dizia a última carta, “Para isso, no dia seis-sete do mês de calcita, véspera do alistamento, encontre-me às 17h, no templo de Albento, na quinta câmara de Nera”.
Quando criança, eu visitava o templo com frequência, porque me falavam que nossas preces eram mais bem recebidas ao conversamos com nosso deus em seu local sagrado. Eu pensava que a maioria dos neriquianos que o frequentava estava lá para isso, até descobrir que dentro de cada templo também funcionava um Centro de Alquebramento, para quebrar maldições, principalmente a Roldain. “Se eles conseguem quebrar uma maldição hereditária que afeta todos os neriquianos, como podem não dar conta de uma maldição como a da minha mãe?”, foi o meu pensamento no dia em que saí de lá junto de minha mãe, após ouvir um dos sintéticos dizer que não havia jeito.
Às cinco horas em ponto, eu me achava no saguão de entrada, de frente para um enorme relógio de pêndulo. Preocupada que uns minutinhos de atraso pudessem colocar tudo a perder, apressei-me por um estreito corredor que me levou a um salão de orações, com suas dúzias de portas coloridas e janelas altas de formato ogival. Felizmente, não havia filas na recepção, administrada por um sintético de Amissius. Peguei uma chave após assinar meu nome e dirigi-me, então, à porta verde de número 5. Destranquei-a e entrei.
A câmara era pequena, com dois assentos de madeira enfileirados, largos o bastante para acomodar uma família ou um grupo de amigos. Não havia janelas para manter o local arejado, apenas alguns tubos de ventilação, e a iluminação provinha de uma dúzia de velas em bocais nas paredes.
Pensei que encontraria a tal pessoa me esperando, mas a única presença ali era a estátua prateada de Nera, para quem eu deveria rezar.
Por um momento, tive medo de que o encontro fosse uma armadilha da polícia. Talvez o remetente das cartas fosse um investigador à procura de possíveis párias e eu estivesse sendo testada. Até cheguei a imaginar o ruído da porta se abrindo e a imagem de um aurano se aproximando com um semblante acusador prestes a dar voz de prisão. Era uma possibilidade que fazia meu coração bater em desespero.
Fixei meus olhos na estátua da deusa, mais precisamente em sua face que contrastava com o verde dos olhos e do cabelo comprido, e rezei para que isso fosse apenas paranoia da minha cabeça.
Por falar em paranoia, certa vez, quando criança, eu sonhei que estava em uma câmara igual a essa e a estátua havia se mexido e se transformado em uma linda mulher de pele prateada. Ela desceu de seu pedestal e caminhou até mim com sua túnica branca roçando o chão de madeira. Infelizmente, o sonho se extinguiu antes que ela me alcançasse e eu descobrisse suas intenções. Até hoje me pergunto se ela iria me recriminar ou me encorajar.
Um ranger fez meu corpo virar na direção da porta. Minha expectativa era a de encontrar um neriquiano, mas tratava-se apenas de um sintético.
— Pedindo um milagre à nossa criadora? — disse ele, fechando a porta em seguida.
— Milagre? — indaguei. Eu não havia proferido uma só palavra desde que entrara na sala.
— Tenho certeza que vai depender de um amanhã.
Quase não acreditei ao ouvir isso.
— Você é o remetente das cartas?
— Exato — confirmou o indivíduo ao se aproximar.
— Não imaginei que fosse um sintético de Nera — comentei. Ele era um ser criado na Era Divina para atender aos propósitos da raça neriquiana. Permitir que uma vulgar prestasse o exame para a Academia nem de longe representava um desses propósitos. — Você é mesmo um sintético, ou alguém disfarçado? — perguntei, aventando outra possibilidade.
Ele usava uma túnica verde que se derramava até as canelas. Seu rosto era ocultado por uma máscara cinzenta de aparência sisuda, com duas joias esverdeadas no lugar dos olhos. Preso à máscara, um pano escuro cobria-lhe os cabelos e o pescoço, de forma que era impossível identificar qualquer traço da sua identidade, a não ser o porte atarracado. Não seria difícil para um homem se vestir de sintético, afinal, todos eles tinham vozes masculinas diferenciadas.
— Bem, digamos que eu seja um sintético defeituoso — respondeu ele. Em seguida, foi direto aos negócios. — Trouxe os três mil latis?
Enfiei a mão no bolso e retirei um maço de notas que custou quase todos os livros da minha estante, além de outros apetrechos lá de casa. Tudo para colocar as mãos num embrulho de papel pardo que o mascarado tirou debaixo de sua manga e ofereceu a mim assim que recebeu a grana.
— Muito bem, mocinha. Agora, preste atenção. Há quatro itens nesse pacote. Primeiro, uma identidade falsa de uma fidalga chamada Denise Alves. A foto nela é a sua 3x4 enviada na última carta, mas foi feita uma montagem em que você aparece com um cabelo com mechas verdes. O que nos leva ao segundo item: a peruca. Não a coloque antes de sair de casa; os vizinhos podem te reconhecer. Faça isso em um banheiro público, de preferência em uma estação de trem pouco movimentada. O terceiro item é o certificado de conclusão de uma escola fidalga. Eles acharão o seu nome na lista de formandos do ensino médio, não se preocupe. Por último, há um comprovante de residência. Ele é verdadeiro. Um apartamento na cidade de Jorinó.
— Entendi — falei, revisando todas as informações na cabeça.
— Ótimo. Mas não se esqueça do que enfatizei na última carta — ressaltou, com o dedo em riste. — Caso seja aprovada no exame de alistamento, Marcia Martel será dada como morta, e você terá que viver dali em diante como Denise Alves. Mas enquanto você não passar, não precisa se preocupar com esses detalhes.
— Eu vou passar! — repliquei com intensidade.
Não sei o que o sintético pensou dessa afirmação, mas ele emudeceu por alguns instantes enquanto eu sustentava minha postura de confiança. Guardando o dinheiro num bolso interno da túnica, enfim, me disse:
— Foi um prazer fazer negócio com você, minha cara vulgar. — Dito isso, ele se virou e saiu da câmara como qualquer outro sintético que vive no templo.
Olhei para o embrulho em mãos. Um “sintético defeituoso” não seria capaz de arranjar todos esses itens; eles mal saem de dentro dos templos. Provavelmente havia neriquianos envolvidos nesse grande esquema, mas isso já não me importava mais.
— Agora eu só dependo de mim. — Virei-me para encarar a estátua de Nera. — E da Senhora.
***
Ao chegar em casa, sentei na cama e abri o pacote. Nele continha exatamente o que o sintético havia listado.
Meus olhos se detiveram por mais tempo na peruca, feita de cabelos escuros, lisos, longos e com mechas esverdeadas, tal como na foto da identidade. Ainda bem que vulgares também possuem sobrancelhas e unhas coloridas, ou eu teria de comprar mais itens postiços.
Encarei-me no espelho com a peruca na mão. Não resisti ao ímpeto de pô-la na cabeça. Claro que, colocando-a sem os devidos cuidados, algumas pontas do meu cabelo verdadeiro ficaram para fora, mas a Denise Alves refletida no espelho foi o mais próximo que já estive de me sentir escolhida pelos deuses.
O telefone tocou.
Ainda como Denise Alves, saí do quarto e fui até a sala atendê-lo. Do outro lado da linha estava o homem que vinha aqui em casa uma vez ao ano. Suas ligações, por outro lado, eram menos raras, e, sinceramente, eu não fazia questão de recebê-las. Esse homem era o meu pai.
Dessa vez, ligou-me para comentar sobre o meu futuro no Instituto do Trabalho. Ele ainda não sabia qual molde eu supostamente escolheria, sendo que até os parentes mais distantes — que não diferiam muito do meu pai — já sabiam.
— Escrita criativa? O que é isso?
— É para a escrita de textos literários. Quero ser escritora — esclareci, olhando para os três quadros na parede da sala que emolduravam certificados de prêmios literários infantojuvenis e me perguntando se aquele idiota nunca havia reparado neles.
— Hmm — murmurou. — Bem, seja o que for, saiba que estou orgulhoso de você. Eu dei uma olhada nas suas notas da escola. Sei que você merece.
Ele aguardou minha gratidão pelos elogios forçados, mas minha boca nem se abriu.
— Como está sua mãe? — ele voltou a dizer.
— Por que não vai ver você mesmo? — Minha mãe estava no hospital há três meses, e ele não foi visitá-la uma única vez. — É difícil separar um dia pra ir vê-la? Você mora na cidade ao lado, e não em outra região do país.
— Marcia, é complicado. Eu toco um bar aqui. Não posso…
Uma voz melosa e feminina se fez presente do outro lado da linha, chamando-o para a cama.
— Melhor obedecê-la — falei. — Suas mulheres são mais importantes que a sua família mesmo.
Pus o telefone no gancho, sem me despedir nem nada. Se eu revelasse a ele o que pretendia fazer amanhã, não tinha certeza se me denunciaria à polícia ou se iria me ignorar como sempre fez. A ação mais significativa que meu pai havia feito fora cimentar o quintal. Eu não precisava dele. Minha mãe era o bastante em minha vida, embora a presença dela estivesse com os dias contados.
Há alguns meses que eu morava sozinha, e, para o bem ou para o mal, eu estava pegando o costume. Quando a solidão me fazia companhia, bastava apanhar um livro na estante para me sentir entre pessoas.
Ainda restavam meia dúzia de romances para serem lidos — os que acabei não vendendo. Estava prestes a passar o tempo lendo um deles, quando me lembrei do estranho livro que encontrara no sebo. Mas era um livro em branco. Não havia nada nele para ser lido… a não ser que precisasse ser escrito.
Como leitora, em todos estes anos, entrei e saí de muitos contos e romances. Conheci diversas histórias protagonizadas por diversos personagens. Só que nunca folheei uma narrativa na qual o protagonista fosse um vulgar almejando um lugar na Academia e, eventualmente, a profissão de aurano. Quer dizer, personagens assim até existiam… mas como vilões ou secundários malquistos. Ainda assim, eles jamais eram mostrados na Academia. Nem na ficção um vulgar tinha o direito de estar naquele lugar.
Por isso, sentei-me na mesa do quarto e abri o livro misterioso na primeira página, a folha em branco me instigando a preenchê-la. Viajei para minha infância, onde a lembrança de um quintal de terra e uma semente de maçã germinaram a primeira frase dessa história.
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