Maga, Bruxa ou Semideusa? - Hiatus
31 Capítulo 31 - Beco Diagonal – Parte 3
Notas iniciais
Um brilho estranho e ofuscante vindo da loja mais próxima chamou minha atenção e me fez desviar o olhar do rosto de Diego. Uma pilha instável de caldeirões dourados e cintilantes pendia estranhamente de um lado para o outro a apenas poucos metros de onde estávamos, dando a impressão de que a qualquer momento um acidente ia acontecer.
Voltei meu olhar para o letreiro acima da porta: Caldeirões – Todos os Tamanhos – Cobre, Latão, Estanho, Prata – Automexediço – Dobrável.
– É, vamos ter que comprar um. – Ele falou ao perceber para onde eu estava olhando. – Mas antes temos que pegar o dinheiro no banco.
Com um pouco de relutância voltei meus olhos para ele.
– O quê? – Perguntei sem graça ao notar que ele me fitava estranhamente. – Tem algo no meu rosto?
– Não! Não é nada! – Falou rapidamente e eu dei de ombros antes de mudar de assunto.
– E como eles chamam o dinheiro? – Perguntei ficando curiosa de repente. – Os bruxos, quero dizer.
Diego meteu a mão no bolso e tirou de lá três moedas estranhas e de cores diferentes, uma era de bronze, outra de prata e a terceira de ouro.
– Isso é um dracma?! – Perguntei surpresa ao ver a moeda de ouro e ele sorriu.
– Não, no mundo dos bruxos a moeda de ouro se chama galeão. Veja, é diferente dos dracmas que usamos no acampamento. – Falou me estendendo as três moedas.
Elas eram um tanto grossas, como os dracmas, mas Diego tinha razão, as moedas bruxas eram redondas, lisas e com um número gravado nas laterais, ao contrário da moeda do acampamento que normalmente possuía a imagem de um deus entalhada de um lado e o Empire State do outro.
– As de prata são chamadas de sicles e as de bronze são nuques. É um pouco complicado, mas com o tempo você aprende. – Ele falou e eu devolvi as moedas.
– Como você sabe tanto sobre tudo isso? – Perguntei fazendo um gesto ao redor para mostrar o que eu queria dizer e ele suspirou, seus olhos da cor do mar parecendo preocupados de repente.
– Mamãe é uma bruxa, quero dizer, ela nasceu bruxa, em uma família importante. – Ele falou e passou a mão por seus cabelos castanhos. – Ela estudou na escola para onde nós vamos esse ano, Hogwarts. Só posso dizer o que ela me contou e o que sei, bom, não é muito. – Disse com um suspiro. – Minha mãe é uma auror famosa e bem sucedida, acho que dá para notar os olhares das pessoas que a reconhecem.
Concordei com a cabeça, eu havia percebido isso desde que começamos a andar pela rua, algumas das pessoas haviam até apontado para nós ao passamos, algo que eu já estava até me acostumando.
– Mas o que é isso? – Perguntei erguendo uma sobrancelha e Diego soltou uma risada.
– Desculpa, é que às vezes é fácil esquecer que você não sabe nada sobre esse mundo. – Ele falou e eu fiz cara feia. – Ei! Tudo bem, vou tentar não rir de você de novo, a questão é, aurores são a espécie de polícia do mundo bruxo, eles capturam os bruxos que praticam magia das trevas e coisas do tipo.
– Ah! Entendi! – Comentei e ele assentiu.
– Mamãe é uma das melhores, mas mesmo assim não admitem. – Seu tom ficou meio amargurado de repente. – O Ministério a aceita como funcionária, mas não vai colocá-la numa posição de honra.
– Por quê? – Questionei e a expressão dele fechou. – Desculpe, eu não quis...
– Não! Não é com você! – Ele exclamou de repente. – É só que é meio delicado esse assunto.
Abri a boca para perguntar, mas nesse momento:
– Diego! — A mãe dele chamou de repente, um comando simples, mas que o fez olhar para ela.
Olhei para frente e vi que havíamos chegado a um edifício de mármore muito maior que todas as lojas ao redor.
– Natália, fique perto de mim! – Mamãe chamou parecendo nervosa, entendi o motivo assim que olhei para as portas de bronze, pois postado diante delas usando um uniforme vermelho e dourado estava uma criatura estranha que eu não sabia como nomear.
– É um duende. – Diego murmurou para mim ao subirmos os degraus, sua voz estava tensa.
O duende era quase uma cabeça e meia mais baixo que eu e Diego, tinha uma cara escura e de aparência inteligente, com uma comprida barba em ponta e mãos e pés bastante longos. Ele nos cumprimentou com uma reverencia ao passarmos pelas portas, mas sua expressão parecia desconfiada.
Assim que passamos nos deparamos com mais duas portas, de prata dessa vez, havia uma mensagem entalhada na parede, mas tão arrepiante que não tenho coragem de pronunciá-la. Havia mais dois duendes guardando-as que imitaram o gesto do primeiro ao se curvarem para nós, mas assim como o outro lançaram olhares irritados na nossa direção.
Meu queixo caiu quando vi o imenso saguão de mármore que as portas escondiam, Diego riu ao meu lado, dei um murro no braço dele, que gemeu baixinho e fez careta.
Voltei a olhar ao redor enquanto andávamos e vi que havia mais de cem duendes sentados no que pareciam aquelas cadeironas para colocar bebês atrás de um longo balcão. Alguns escreviam em enormes livros, outros pesavam moedas ou examinavam pedras preciosas com óculos de joalheiro.
Por trás dos duendes havia uma quantidade incontável de portas de onde muitos duendes e pessoas entravam e saíam. Voltei meus olhos para mamãe e peguei as últimas palavras que ela estava trocando com a mãe de Diego.
– Não se preocupe, os duendes são muitas coisas, mas não são ladrões. – Disse a mulher ao parar na frente de um duende que aparentemente não estava fazendo nada.
Mamãe pegou minha mão e deixou a mulher conversar rapidamente com o duende.
– Ah, que ótimo! – Gemeu Diego do meu lado.
– O que houve? – Perguntei e ele me olhou com cara de sofrimento.
– Odeio os vagonetes que nos levam ao cofre. – Ele falou com um suspiro assim que a mãe dele se voltou e pegou sua mão. – Até daqui a pouco.
Um duende mal-encarado se aproximou e os guiou por uma das várias portas, acenei brevemente antes dele desaparecer e mamãe se adiantou para falar com o duende do balcão.
– Não se preocupe madame. – Ele falou antes que minha mãe pudesse pronunciar qualquer palavra. – Madame Bertolazzo me explicou sua situação, apenas me entregue o dinheiro que trouxe e eu darei a senhora a quantia equivalente à moeda que utilizamos.
– Oh, nossa, muito obrigada. – Mamãe disse ao pegar a bolsa de carteiro ao lado do corpo e pescar os grossos maços de libras que levava ali dentro (só agora sei que mamãe sempre teve muito dinheiro devido a uma ajudinha de papai).
O duende fez um gesto para que ela colocasse o dinheiro sobre o balcão, assim que as notas estavam sobre o tampo de mogno o duende se pôs a contá-las rapidamente. Depois de poucos minutos de contagem e recontagem ele mexeu no que parecia uma gaveta e tirou uma sacola grande com aparência pesada, fez outra contagem rápida, removeu algumas moedas de ouro de dentro do saco e o estendeu para mamãe.
– Essa é a quantia. – Ele falou secamente.
– Obrigada. – Mamãe agradeceu novamente e pegou a sacola.
– Mãe? – Chamei quando nos afastamos alguns passos do balcão. – Ainda vamos esperar pelo Diego e a mãe dele?
Mamãe pareceu incerta por um momento antes de fazer um leve aceno com a cabeça.
– Sim, mas acho melhor esperarmos em outro lugar, não gosto da forma como essas coisas estão olhando para nós. – Murmurou ao olhar ao redor, segui seu olhar e vi que ela estava certa assim que percebi alguns duendes lançando olhares maldosos na nossa direção.
– Tudo bem. – Falei antes de seguirmos para fora do banco rapidamente.
Mal chegamos do lado de fora e Diego e a mãe dele apareceram, os dois extremamente pálidos e parecendo a ponto de vomitar a qualquer momento, a mesma aparência que muitos que saíam do banco apresentavam.
Reparei que a mulher trazia consigo um saco igual ao que mamãe carregava nos braços.
– Você está bem? – Perguntei a Diego, preocupada com o seu estado.
– Vou ficar, só me dê um minuto. – Respondeu com a voz fraca. – Isso sempre acontece.
– O que iremos fazer agora?
– Compramos nosso material. – Falou com um sorriso.
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