Maedra
1 Capítulo I. — Espíritos
MAEDRA
Capítulo I. — Espíritos.
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Você pode andar pelo caminho,
Você pode falar as palavras,
Mas você pode conjurar um espírito?
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Há duas semanas que mal consigo dormir.
Basicamente estou aqui, um tanto apreensiva, viajando de Helsinque até São Petersburgo. Um mapa na mão e um papel com o endereço de um local que, sem dúvidas, demorarei muito para encontrar.
O voo estava tranquilo e a poltrona era confortável, mas ainda sim, não conseguia dormir. Eu estava esgotada, tanto física quanto mentalmente. Mas acima de tudo, eu estava assustada, pra ser sincera.
E muito receosa, pois, ao final, mal tenho certeza se essa viagem valerá a pena. Ou mesmo todo o dinheiro que vou gastar, diga-se de passagem.
Estou procurando um cara chamado James.
Que é inglês, como o próprio nome parecia frisar. E o fato dele ser um cidadão londrino e estar na Rússia, já auxilia a compreender porque acho que não terei muito sucesso em achá-lo.
Porque esse homem não para em lugar nenhum. Talvez essa seja, na realidade, a melhor forma de exercer... Seu caminho, e algo que minha ‘mestre’ classificou, para o caso dele, de algo como profissão.
Só que minhas futuras noites de sono dependem dele. Dele, ou de alguém parecido. Mas não acho que minha sorte abarque outras possibilidades.
Eu ainda estava deitada na poltrona que eu reclinara, ignorando solenemente a moça que sentara do meu lado, quando quis refletir um pouco mais sobre essa bagunça que minha vida havia se tornado. E eu não estava nem um pouco satisfeita com isso.
Sou uma bruxa.
Uma bruxa solitária, que, acidentalmente, se encontrou com uma bruxa mais velha numa biblioteca. Ela reconheceu poder em mim, e me tomou como aprendiz.
Agora, nem acho que vale a pena divagar sobre toda a confusão que se fez em meu interior, ou do fato de eu ser luterana praticante. De nunca sequer ter relatos sobre acontecimentos sobrenaturais na família, entre outras coisas. Eu creio que já tenha passado da fase de negação. As coisas simplesmente são como são. Sou uma bruxa toda ao acaso, e o fato de ter encontrado outra bruxa tão próxima a mim, bem na Finlândia, é outra casualidade. Mas não totalmente estranha, para falar a verdade.
O que ocorre é o fato disso ter acontecido há apenas sete meses, portanto, teoricamente, ainda não estou pronta. Ainda teria mais algum tempo até aceitar que, juntamente com as aprendizagens mágicas, havia também os ócios do ofício. Só que alguns fatos mudaram drasticamente a forma como as coisas deveriam fluir.
Gostaria de acreditar que fosse mais uma somatória de eventualidades. Eu sabia que não era.
Alguma energia forte estava focada em Helsinque. Fixa em mim. E o que quer que ela desejasse, eu queria estar pronta para enfrentá-la, pois eu sabia que era eu quem a atraía.
Mesmo que eu preferisse que ela apenas fosse embora. Ou achasse outra pessoa, num outro continente. Um pouco egoísta, eu sei. Mas há pessoas muito mais altruístas nesse mundo à fora, que não se importariam em aceitar a responsabilidade, de qualquer maneira.
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Quando o avião pousou e eu consegui sair do aeroporto, já num táxi, foi que me permiti relaxar um pouco mais. Não fossem os motivos que me levaram até ali, eu estaria realizando um dos meus sonhos.
Sempre soube que São Petersburgo era extremamente bela, com seus templos coloridos e ar antigo. Helsinque é branca, nova e cheia de árvores, mas ainda sim, tecnológica.
Mas talvez em toda a Rússia, e especialmente aqui, há um ar notório daqueles tempos dos czares, dum país forte, um ar bizantino e suntuoso e com uma das mais belas artes do mundo.
Ainda não estávamos no inverno propriamente dito, mas o tempo era bastante frio. Eu gostaria que estivéssemos no inverno, pois eu gostava da neve. E ver a Rússia sem estar coberta por uma camada branca, retirava um pouco o encantamento do ambiente.
Já havia dado o endereço ao taxista. Ele me parecera bastante simpático e comentava coisas aleatórias, mas a dificuldade de me entender fez com que eu ficasse encabulada e evitasse manter um diálogo. Meu russo não era tão bom quanto eu pensava, e fiquei irritada demais com esse fato para tentar conversar em inglês.
Quando chegamos ao local, quase achei que o motorista estaria enganado. Marja havia dito: “Este aqui é o endereço em que o encontrei da última vez que fui para a Rússia. Como nossos feitiços de localização apontam para uma área grande em São Petersburgo, achei que era sua melhor chance. Enquanto estive em Petersburgo, ele vivia aqui”.
Creio que eu que havia criado uma imagem de um hotel, uma pensão ou casa simples, mas um bar não é o primeiro local que penso quando me dizem que alguém vive em determinado lugar. Acho que o verbo viver foi empregado metaforicamente...
Paguei a corrida, e suspirei alto, antes de entrar.
Era um pub, pequeno e aconchegante, na verdade. Num ambiente um pouco mais escuro e mais quente que o lado de fora, o que me fez retirar o casaco que eu vestia e pendurá-lo no cabideiro. Não havia tantas pessoas, talvez umas dez, umas quatro mulheres e o restante de homens, sem contar os balconistas.
E foi simples vê-lo sentado no banco de frente ao balcão, bebendo o que me parecia ser vodka com alguma coisa.
Quando o avistei, mal pude controlar minha alegria.
Porque, veja bem, eu havia encontrado James Campbell sem maiores dificuldades, fora a de viajar para outro país em pleno período letivo. Gastando um pouco do dinheiro que não tinha e trancando minha faculdade.
Mas, ei, a fúria da minha mãe não era nada se comparada a esse fato.
Entretanto, de alguma forma eu sabia que ter tanta sorte logo no início da minha empreitada era um convite a obstáculos muito mais complexos.
Fui devagar a sua direção. Questionando o quão direta minha abordagem deveria ser. Não costumo ser o tipo de pessoa que bate um papo antes de dizer o que quer, pois minha paciência com as palavras tende a ser pequena, além de eu não ser boa simular que estou interessada na conversa.
Então, assim que cheguei perto dele, os bartenders já afastados, perguntei em inglês:
— Você é James Campbell?
Bem, se ele fosse, responderia. Meu inglês era um pouco melhor que o russo por conta de eu ter muitos anos a mais de prática.
— Sim, my dear! Kirsi, não? Prazer em conhecê-la! — Respondeu sorridente, com um ar claramente galante e meio debochado.
O sotaque britânico dele era bonito, mas não retirava a animosidade que em geral me acometia ao conhecer pessoas desse... Tipo. Antipatizar com alguém que você precisa de ajuda não é uma boa tática, mas não era intencional.
Ele era uma cópia exata da foto que Marja tinha me mostrado, embora ela garantisse que havia a tirado uns doze anos atrás. Ou seja, ele deveria estar com pouco mais que quarenta. Mas sua pele tinha uns poucos sinais de expressão, os cabelos louro escuro sem sinal de grisalhos, e os olhos verdes bastante vívidos. Provavelmente era algum tipo de feitiço que ele aplicara em si mesmo, temendo a velhice. Marja vivia testando-os nela.
Eu diria que ele tinha um rosto bondoso, se o sorriso cínico e um tanto cético não destruísse todo o quadro e dissesse na cara dura: te darei uma rasteira na primeira oportunidade que puder.
Ou seja: não se iluda confiando em mim.
Eu definitivamente tenho antipatia prévia por pessoas assim, e não considero sem motivos.
Não parei para perguntar como ele sabia meu nome. Às vezes eu mesma conseguia saber o nome das pessoas só por estar por perto. Truque que não funcionaria com ele, eu tinha certeza.
E na minha demora em lhe responder, ele tirou o sorriso do rosto.
— Oh, me esqueço como finlandeses são chatos. De qualquer forma vim aqui esperar por você. Devia se sentir honrada. Mas o que deseja?
— Sou aprendiz da Marja. Marja—
— Sim, sim... Me lembro dela — Disse calmamente, mal aparentando que acabara de interromper minha fala. De certa forma, não parecia muito interessado no que eu queria. E sua fala suave combinada ao cenho franzido me fez questionar se ele realmente se lembrava de Marja.
— Você se lembra mesmo dela?
— Oh, bem... Ela é finlandesa, não é mesmo? Não conheci muitos finlandeses. E se me permite dizer, nem queria conhecer muitos outros... Mas você bebe, não bebe? Gostaria de tomar algo?
— Eu gostaria de conversar com o senhor num lugar um pouco mais privado, na realidade.
— Algo me diz que seu conversar em privado não é o que costumo conversar... — murmurou baixo e despreocupadamente e não pude evitar de franzir as sobrancelhas para a frase cheia de significados. Mas quando viu minha caranca (uma vez que, infelizmente, sou bastante expressiva), deu um sorriso pequeno e me mandou, novamente, sentar ao seu lado. — Eu sei o que você quer, sweetheart, não se preocupe, não precisa explicar nada. Embora eu tema que você não terá exatamente o que deseja, eu provavelmente conseguirei alguma coisa.
Porque ele havia perguntado o que eu desejava, se já sabia, eu não entendia. Todavia, ele não me parecia o tipo de pessoa fácil de se compreender numa primeira impressão.
Nem deveria ser, eu acho. Sempre tive para mim que magos são misteriosos. James parecia ser, embora não envolto naquela aura sombria e sábia que eu havia montado em minha mente.
E assim, eu me sentei ao seu lado e pedi algo para beber. Talvez me ajudasse a conter o nervosismo, que pareceu se sobressair assim que fiquei quieta ao seu lado.
Nem era por timidez, já que não sou exatamente tímida, simplesmente não gosto de conversas à toa. Na realidade, eu havia tentado me prender na dificuldade que teria em encontrá-lo, apenas para não me focar no problema seguinte.
Não sou uma pessoa muito conectada com o mundo.
E esse seria uma complicação muito maior do que não encontrar James porque essa minha característica pode ainda, colocar tudo a perder.
Não uso o termo ‘conexão’ num sentido de saber o que ocorre, política e história dos países. Faço de cor, fichas sobre a situação de vários países, se estiver interessado.
Mas para mim, sempre foi minha casa, minha família, minha universidade. E só. Minha mente não se expande para nenhuma preocupação a mais. Sou um pouco egoísta, e bastante individualista.
Tudo bem, tenho dezenove anos, não é tão incomum ter esse tipo de comportamento. Só que a magia possui uma quase exigência de uma forte ligação com o mundo — com o fato de abraçá-lo e fazer sua vontade se sobressair. De possuir necessidade de a praticar.
Dessa forma, eis aqui o maior de todos os acasos: aparentemente, tenho um dom para magia que se destaca em relação à maioria.
Sabe, todos nós podemos praticar magia. Ela é basicamente intrínseca ao ser humano — ela é o ser humano. Sua fé e sua vontade. Só que há níveis e níveis, dedicação, estudo e necessidade.
Sou estudiosa e concentração, na hora de realizar pequenos feitiços, não me falta. Só que, ainda que eu esteja estudando a arte durante esses meses, ela não chega, necessariamente, a me mudar. A alegrar-me e fazer-me desejar a praticar – e não somente quando obrigada por Marja.
Contudo, todos os feitiços respondem facilmente a mim.
E isso seria legal, um motivo de orgulho para a chatice de Marja, mas não me faria viajar para São Petersburgo em pleno período letivo.
O que me faria viajar dessa forma, deixando para trás minha vida bastante cômoda?
Bastante simples: o fato de eu, agora, receber visitas de almas toda vez que fecho os olhos. Ou então, talvez, por todos os mortos recentemente enterrados terem decidido se remexerem em suas tumbas durante a noite.
Não era nada verdadeiramente perceptível. Alguma coisa os incomodava e suas almas corriam diretamente a mim em busca de explicações ou de ajuda — eu nunca conseguia decifrar. Não consigo entendê-los. Nem sei como ajudá-los quando, toda vez que eles apareciam em meus sonhos, meu coração disparava em pavor e a única coisa que eu desejava era acordar. E eu sempre acordo.
Ainda não dormi desde minha viagem de Helsique até aqui, mas sei que aquelas almas provavelmente não conseguiram me achar. Não mais as sinto me rodeando a partir do momento em que saí de minha cidade.
No entanto, alguma coisa os incomodava. E era uma magia forte e negativa.
E por esse tipo de território e magia não estar dentro dos domínios de uma bruxa, eu precisei ir procurar James.
Ele é um mago.
Não quero trazê-lo a cidade. Marja disse, aliás, que ele não se interessaria nisso. E enquanto eu o observo fazendo competição de quem bebe cerveja mais rápido com um senhor de uns cinquenta anos de idade e barriga avantajada, não consigo discordar dela. Ele também não parecia o tipo de pessoa que se importa com a paz mundial.
De qualquer forma, Marja disse que James não se interessaria, pois isso é brincadeira de criança para ele.
E além do mais, os fatos das almas tentarem se comunicar justamente comigo, sempre olhando-me um tanto quanto acusatórias, me faz pensar que se eu não conseguir poder suficiente para as mandar embora por mim mesma, nunca mais terei sossego. Independente de alguém conseguir exorcizar aquelas almas ou não.
A grande questão é: eu preciso que James me tome como aprendiz.
Encontrá-lo deveria ser um problema, mas não chegaria nem perto de convencê-lo a me ensinar. Isso porque precisarei demonstrar que tenho capacidade suficiente para me tornar uma maga. O que não será muito possível se ele perceber que me falta animação para essas coisas.
Fui atrás especificamente de James, por uma razão muito forte: ele é o único mago que Marja já conheceu.
Existem pouquíssimos magos no mundo.
Há bruxos, feiticeiros, xamãs: cada um com um nível de poder, cada qual com sua finalidade e crença. E talvez eu devesse é ter ido atrás de um xamã, se não fosse o fato de que eu não posso ser também xamã sendo uma bruxa sem provocar um belo caos em meu corpo. E como eu disse, esse problema deve ser solucionado por mim mesma.
Todavia, magos, são poucos e cada qual segue seu próprio caminho. Eles andam por aí, solitários a tal ponto que mesmo eles não conhecem outros magos além de si e seus mestres, e possuem conhecimento e poder de todas as formas de magia. São aqueles que dominam tudo, sabem de tudo – o maior patamar, dentro da magia, que alguém pode chegar.
Gostaria de acreditar que eu tivesse poder suficiente para me tornar uma maga.
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Apenas um pouco mais de duas horas depois que James aceitou, finalmente, sair do lugar. Depois de encher os bolsos em jogadas nada honestas de baralho.
O vi bebendo várias canecas de cerveja e mais algumas doses de whisky, mas ele não parecia tonto.
Não conversamos em nenhum momento, mas enquanto eu conversava com algumas moças, mais distraída, eu tinha conseguido sentir que ele me avaliava. Ele havia me dito que sabia o que eu queria, e também que não teria exatamente o que eu desejava. E eu estava ansiosa para saber qual era sua alternativa.
Ele pôs a mão no meu ombro como um toque para que eu o seguisse, foi até o dono do estabelecimento e o encarou por alguns segundos, até que o dono piscasse e dissesse alegre, num inglês bastante enrolado:
— Até amanhã, James!
E ele retirou-se sem pagar nada.
Saímos e começamos a andar reto pela rua estreita. O sol já estava descendo e o frio mais intenso que vinha com a noite já começava a aparecer.
— Espera aí... — Como uma estranha, eu simplesmente parei quando um pensamento meio repentino atingiu minha mente. James, obviamente, não me esperou. Continuou calmamente, em seus passos leves...
— Está meio frio pra fica aí parada, my dear. — Contentou-se em dizer sem ao menos olhar para mim.
— A bebida não afeta sua mágica?
— Oh, afetar, afeta, mas não tanto quanto seria interessante... — Olhou-me por cima dos ombros. — Falei sério, ficar parada aí não é uma boa ideia. Você sempre tem comportamentos estranhos assim?
Um tanto envergonhada, me dispus a andar, e acho que era o que ele queria. Ele parecia saber o suficiente sobre como provocar os outros para ter a reação que desejava. Eu o vira jogando baralho tempo suficiente para poder afirmar isso.
— Acho que fiquei meio alterada... — falei. Eu estava meio alta, mas logicamente que essa era uma desculpa idiota. — Mas para onde estamos indo?
— Você esta tendo problemas com os mortos. Então achei que seria interessante nos encontramos com a especialista em mortos...
— Ela irá me ensinar como detê-los?
Detê-los. Talvez eu devesse ter dito ajudá-los, mas a palavra saltou de minha boca sem que eu me desse conta. James, entretanto, não pareceu ter notado minha sinceridade no uso do verbo.
— Hm... Provavelmente não. Ela não tem muita paciência com as pessoas em geral. Mas se você der sorte, pode conseguir alguma coisa.
— Você não pode tentar convencê-la a me ajudar?
— Eu já te levarei até ela e você irá ter alguma conversa. É muito mais do que qualquer um conseguiria.
Naquele instante, comecei a pensar nela como uma velhinha toda de preto, extremamente rabugenta.
Andávamos e andávamos nas ruas frias de São Petersburgo e James não parecia que iria chamar um táxi. Tampouco, por sua face contemplativa demais, aparenta estamos próximo do nosso destino.
Então me deixar ficar pensativa também, pensando se poderia conquistar a vovozinha jogando uma partida de xadrez ou barganhando chá.
— Chá não, mas talvez café.
Assustei-me. James deu uma piscadela divertida, estranhamente alegre.
— Natasha não iria gostar de escutar esses seus pensamentos sobre ela. Tome cuidado, ela pode ser temperamental.
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