Madness, Sweet Madness
7 Indiferença. Mudança.
Notas iniciais
Narrado pelo Near
— Scott, já podemos ir? – perguntei ao homem que finalmente, após vários e vários minutos, encerrou a ligação que fazia e guardou o telefone celular no bolso da calça jeans.
— Sim. Deixe-me apenas conferir as passagens – aquela era a voz da eficiência, sem dúvida.
Eu realmente fiquei surpreso quando ele bateu na minha porta, dois dias atrás. Como fiquei...
Scott Andrews, um confiável agente do FBI e também uma das poucas pessoas que possuem conhecimento da minha identidade como possível sucessor do grande detetive L. Era uma pessoa na qual eu confiava – tanto porque senão não teria lhe revelado quem sou – e com quem eu chegava a sentir uma considerável... Simpatia. E o motivo da minha surpresa era exatamente que ele não somente aparecesse, mas principalmente, que batesse em minha porta como um agente.
Eu não esperava por isso.
— Vamos? – ele me chamou. Segurava a alça da minha mala com uma das mãos, com extrema facilidade, como se aquele peso não fosse nada para ele. E talvez, penso eu, ele realmente nem o sentisse.
Ao sairmos do quarto de hotel e ficarmos esperando pelo elevador, duas mulheres, talvez duas amigas viajando juntas durante as férias do trabalho, pararam ao nosso lado. Não disseram nada que não fosse um cochicho entre elas, seguido por uma risadinha discreta. Entraram junto conosco no elevador e aparentemente também se dirigiam ao saguão, já que não apertaram qualquer outro botão.
Mais um cochicho e uma espiada quase imperceptível para o lado, pelo canto do olho.
Olhei para Scott, que se mantinha totalmente alheio às novas companhias. Ah, claro. É bem fácil concluir o motivo desse comportamento todo das duas.
Scott era um homem... Notável, por assim dizer. E não, não tenho vergonha de dizer, afinal, o que há de mal nisso? Enfim. Seus cabelos eram bem escuros, quase do mesmo tom dos de L (mesmo que incomparavelmente mais arrumados), assim como seus olhos, que há não muito tempo adquiriram além do brilho natural, uma espécie de... Peso. É, acho que essa serai a melhor palavra para definir aquilo que ali havia. Sem falar, claro, da cicatriz, fina e comprida, acima do olho direito e dos óculos de fina armação preta.
Não era estranho que aquelas mulheres houvessem se interessado por sua aparência. Assim como não era inesperado que ele as estivesse ignorando completamente.
Não depois do que tinha acontecido há mais de um ano. Quase um ano e meio, para ser mais exato.
Deixamos o hotel e assim seguimos para o aeroporto, que era relativamente próximo. Dez minutos de carro, no máximo.
— Acho que elas se sentiram ofendidas – comentei, o rosto virado para a janela, apenas para preencher o silêncio, mesmo que ele não chegasse a ser desconfortável. Permaneceríamos assim praticamente a viagem toda, tenho certeza, então ao menos agora não custava nada.
— Quem? – virei apenas para ter a certeza do que eu já sabia. Uma expressão totalmente indiferente.
Chegava a ser estranho essa mudança toda.
Antes, Scott abriria um sorriso na medida certa e aproveitaria a atenção que lhe dirigiam sem nem hesitar, aproveitando ao máximo a oportunidade e se gabando indiretamente por isso depois. Isso há um ano e meio.
Isso antes daquele “incidente”.
Foi trabalhando em um caso, a maneira como eu o conheci, obviamente. Ele e... Ryan Andrews. Seu irmão mais velho. Não gostaria de entrar em detalhes, mas foi naquele mesmo caso no qual Ryan perdeu sua vida.
E esse acontecimento abalou Scott de tal forma, que ele chegou a se afastar de seu trabalho e cargo. Eu acreditava que ele havia deixado de ser agente depois daquilo, mas me pegando desprevenido, ele bateu em minha porta portando o mesmo distintivo do qual eu me lembrava tão bem.
Podia ter conseguido vencer algumas barreiras dentro de si mesmo, mas nunca superou de fato. Se não, não teria mudado tanto seu jeito de ser.
— Aliás, Near – sua voz me tirou dos pensamentos e trouxe de volta para o interior refrescado pelo ar condicionado do carro – Vai querer ficar com alguma coisa da mala durante a viagem? Como não trouxe bagagem de mão...
— Sim. Só o robô azul está bom.
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