Madness Queen

3 III. Beauty Behind The Madness


O medo agora me era um sentimento distante, ou tão intenso que eu já o ignorava. Nem mesmo a ideia de tomar um tiro me fez sair do lugar, porque se eu corresse o Coringa me alcançaria e se eu ficasse ele me mataria. De qualquer forma o resultado seria o mesmo no final: um corpo ensanguentado, estirado ao chão e livre de uma existência redundante.

Ainda encarava seu rosto de perto, os olhos azuis estavam semicerrados na face risonha, neles estavam estampados um misto de curiosidade e diversão.

Eu não sabia distinguir se o que eu sentia ainda era medo, ou se estava em pânico, ou até mesmo se eu queria viver. Poderia dizer apenas que escutava meus próprios batimentos cardíacos, rápidos e fortes, ouvia também um barulho muito distante do trânsito de Gotham. Acredito que eu tenha chegado ao limite do meu estresse mental, porque tudo o que eu prestava atenção agora era no homem de cabelos verdes com os olhos apertados em um sorriso gracioso.

Senti sua arma afastar-se lentamente da minha pele assim que a última lágrima caiu, mas então o cano foi pousado em minha testa e Coringa se afastou o suficiente para ficar com o braço esticado ainda apontando a pistola dourada.

— Não. — abaixou o braço e olhou-me sério. — Você está acabando com toda a graça. — falava irritado.

Coringa começou a andar de um lado para o outro se afastando, enquanto sussurrava coisas inaudíveis para mim, chegava a ser cômico vê-lo gesticular com a arma pra lá e pra cá. Parecia irritado e confuso, durante esse tempo eu tentava entender a situação, mas essas suas atitudes inconstante me perturbavam. Afinal, me matar era engraçado? Porque se fosse deveria ser uma piada interna.

— Eu não vou morrer? — perguntei receosa.

— Morrer? — gargalhou longe. — É claro que vai. — mirou novamente a arma em minha direção. — Mas que graça teria se eu te matasse assim? Com um tiro? — voltou a se aproximar de mim sério, e ao invés de apontar a arma para mim ele se curvou encostando sua testa na minha. — Nós podemos fazer muito melhor, Senhorita Johnson. — o cheiro de whisky tocou minhas narinas.

Ele me torturaria de verdade, eu conseguia ver através dos seus olhos que sua mente doentia maquinava maneiras diferentes de acabar comigo e a quantidade de possibilidades que ele supostamente criava parecia preenchê-lo de contentamento.

— Seque essas lágrimas e vá para casa. — Coringa dizia andando de volta ao carro. — Você parece uma boneca esfarrapada. E eu não gosto de brinquedos feios.

Ele simplesmente entrou no carro e arrancou em direção a estrada me largando estática no mesmo lugar, nada me passava pela mente como se uma neblina densa impedisse qualquer linha de raciocínio.

Eu achei que ele pelo menos me bateria, não estou reclamando, mas ele não disse que me machucaria? Me ocorreu que ele fosse arrancar uns dentes meus ou minhas unhas.

Aquele mar de confusão era tão louco que só me toquei que encarava o local onde a pouco o carro estava quando ouvi Lovit de Marian Hill tocar abafado pelo tecido da calça jeans.

— Eu estou viva. — falei após atender a chamada da Alison.

— Você fez o que ele queria, o mínimo que ele tinha que fazer era te deixar viva.

— Não fiz exatamente o que ele queria. — ouvi seu suspiro indignado do outro lado da linha.

— Nós podemos ser presas! — surtou. — Ele deveria agradecer.

— Alison. — eu a repreendi, aquela falação alta já me dava dor de cabeça. — Você precisa de alguma coisa.

— Férias.

— Eu tô falando sério. — ditei irritada. — Estou sem dormir a mais de vinte e quatro horas, briguei com os meus pais, me roubaram, fui ameaçada de morte e agora a pouco tinha uma arma apontada na minha cabeça. Então se você me ligou pra encher o saco eu sugiro que faça isso com outra pessoa.

— Uma arma na sua cabeça? — Alison gritou novamente, desta vez surpresa. — Meu Deus! Loreen onde você está?

— No farol, perto dos rochedos.

— Eu vou avisar a polícia.

— Não. Você vai ligar para um táxi vir me buscar. — minha paciência já se esgotava e meus pés doíam muito para andar até em casa.

— Mas nós…

— Por favor Alison. — minha voz saiu embargada. — Eu só quero ir pra casa.

— Tudo bem, desculpa eu só estou preocupada. — agora falou baixo com claro arrependimento. — Vou ligar pra um táxi e quando você chegar em casa me avisa nem que seja por fax. — desligou.

Quase uma hora depois um táxi amarelo chegou, o motorista -um homem de meia idade — curioso tentou puxar assunto, ele até me parecia ser um bom sujeito, era simpático e falava pelos cotovelos, mas eu não precisava conversar, muito menos saber que a filha da irmã da vizinha dele tinha se mudado para o prédio dele e que ela era emo/gótica, foi assim que ele descreveu não me culpem.

Durante todo o caminho eu fiquei calada, apenas respondi quando ele me perguntou se eu me sentia bem, afirmei e ele continuou a dirigir até chegar aos portões da minha casa.

— Vai cair uma chuva. — olhou para o céu através da janela.

— Aqui.- lhe entreguei uma nota de cem dólares que estava no bolso da minha calça, porque até a minha carteira o Coringa tinha levado. — Fica com o troco.

Eu saí daquele carro rapidamente e passei pelos seguranças sem nem olhá-los, ouvi um deles sussurrar que eu era mau educada para os colegas, só que eu não estava no meu melhor humor. Virei para o desgraçado e mostrei meu dedo do meio sem parar de andar.

Tem gente que não merecia ter a vida salva, porra.

Estava num estado tão emputecido de espírito que só avisei a Adria que tinha chegado, minha mãe deve ter ouvido porque minutos depois a vadia estava batendo na minha porta querendo explicações. Faltou muito pouco para eu mandá-la inferno.

Abri a porta de supetão para encarar sua expressão estarrecida, pobrezinha, não tinha o mínimo sinal de que havia passado uma péssima noite considerando que a sua filha quase morrera.

— Me desculpa, eu só queria chamar a atenção de vocês, o papai estava certo. — falei sem olhar para ela, então fechei a porta de novo. — Agora me deixa quieta, eu quero dormir.

Me joguei na cama de casal enquanto ela ainda falava alguma coisa por trás da porta que eu não dei atenção. E ainda precisava avisar á Alison que eu tinha chegado, do jeito que era desesperada se eu não mandasse uma mensagem a polícia logo estaria batendo aqui em casa.

Peguei meu celular e escrevi para ela, Alison visualizou na mesma hora e me respondeu dizendo que se acontecesse qualquer coisa era para avisá-la, essa sim estava com o cú na mão. Depois disso coloquei Snap Out Of It de Arctic Monkeys para tocar bem baixinho, e foi só começar a cantar mentalmente que o sono me tomou.

Quando eu acordei já era noite, meu celular tocava Bad Habit e minha cabeça doía. Meu Deus, eu estava morrendo de fome, suja e com a mesma roupa da noite passada, já podia ser considerada uma mendiga.

Me olhando no espelho eu entendi porque eu parecia uma boneca velha, minha maquiagem estava borrada, meu cabelo parecia uma coroa de tão armado e minha roupa cheirava a fumaça da boate, eu literalmente estava um nojo.

Fiquei quase uma hora no banho pra tirar a inhaca da alma e quando saí vesti uma calça de algodão estampada em xadrez preto e cinza, uma regata preta do The Clash e calcei os chinelos vermelhos.

Desci as escadas e fui para a cozinha antes que meu estômago devorasse o meu pâncreas. Peguei algumas sobras da janta, refrigerante, uma barra de chocolate meio amargo que estava abandonada por ali e voltei para o meu quarto. Não havia sinal de vida naquela casa, meus pais estavam dormindo, assim com os empregados que moravam ali.

No meu bunker liguei a televisão no Cartoon Network e fiquei assistindo desenho enquanto comia, continuei assistindo mesmo quando a comida acabou. Agora eu degustava o meu terceiro pedaço de chocolate.

E não, não aconteceu mais nada naquela noite. Eu não recebi nenhuma mensagem estranha, não houve nenhuma ameaça, ninguém tentou me matar ou me roubar, apenas fiquei ali, assistindo desenho até o sono me pegar novamente. Meu domingo seguiu igualmente calmo, ainda bem.

Na segunda feira de manhã precisei encarar a carranca do velho e as tentativas da minha mãe de puxar conversa. É, estava tudo normal.

Depois deste desafio estava na hora de começar o dia, saí com a minha bolsa para o carro e fui dirigindo até a universidade.

No corredor da sala 819 encontrei Megan na maior felicidade contando algo para uma Alison entediada.

— A gente passou a noite inteira juntos. — cheguei a tempo de ouvir a última parte do seu relato.

— Allan? — perguntei.

— Não faça perguntas. — Alison me cutucou repreendendo. Megan não se tocava, mas qualquer um podia ver como a morena detestava todo aquele falatório.

Na verdade a Alison não gostava da Megan, fim.

— Acredita que ele me levou pra casa? Um fofo! — era toda sorrisos. — Me desculpa ter te deixado sozinha, espero que não tenha ficado entediada.

— A última coisa que senti foi tédio. — não gostava nem de lembrar.

— Sério? Conheceu algum cara gato? — a loira falava toda empolgada.

— Não. Conheci um cara, mas ele é um palhaço. — era a verdade, mas ela nunca iria entender. Enquanto isso Alison nos observava quieta esperando que eu contasse a verdade.

— Adoro caras engraçados. — tocou meu ombro com as unhas bem esmaltadas de rosa. — Qual o nome dele? Talvez eu o conheça.

— Jake.

— Acho que não. — Megan colocou a mesma mão que me tocara no próprio queixo buscando algum sinal de reconhecimento do nome em sua cabecinha.

— Não é ninguém influente. — Alison se pronunciou fazendo Megan dar de ombros.

— Não conheço mesmo. — riu e entrou na sala assim que o Sr. Beckett, nosso professor de Ciência Política chegou.

— Obrigada. — sussurrei para que apenas Alison ouvisse. Ela andava me ajudando muito nos últimos dias.

— Você não me disse o que faz na deep web. — olhava para mim com desconfiança. — E você deixou sua bolsa lá em casa.

— Eu pego depois. — me sentei atrás dela. — Eu compro maconha importada, assisto filmes que não foram lançados, leio livros que são proibidos de serem publicados, vejo algumas coisas que o governo não quer que a gente saiba e quando sobra um tempo eu contrato um assassino pra matar meus inimigos por alguns mil dólares. — brinquei na última parte.

— Você é doida. — me olhava indignada. — Será que dá pra encontrar o ramal do Batman?

— Ramal? Você acha que ele é uma empresa? — desta vez eu ri sem conseguir controlar. — Quer trabalhar pra ele?

— Eu poderia ser sua assistente, fiz judô quando tinha treze anos. — se defendeu.

— Se preocupe em arrumar um estágio. — balancei a cabeça negativamente.

— Eu consegui um na Wayne Enterprises.

— Não foda com tudo e você estará feita para o resto da sua vida. — falei com um sorriso pequeno.

— E você?

— Eu tenho o Divard. — comentei o óbvio.

— Mas é isso o que você quer? Você detesta tudo isso. — apontou ao nosso redor. — Quer mesmo ficar sentada atrás de uma mesa com dezenas de papéis e problemas para resolver? — eu devo ter feito uma cara muito feia porque em seguida ela se virou para frente.


Só que isso é verdade, eu nunca parei pra pensar sobre tal coisa, eu passei a minha vida toda escutando que iria herdar os negócios e tudo bem, digo, eu nunca tentei gostar de outra coisa mesmo. Eu não sei no que sou boa, mas tenho dinheiro e com ele consigo qualquer coisa, até mesmo passar nessas matérias sem estudar. Mas dizer que eu tinha vontade de fazer uma faculdade de sei lá, artes plásticas por exemplo, seria uma enorme mentira até porque sequer tenho coordenação motora para isso.

E foi por vários motivos como esse que eu não contrariei meu pai quando ele disse que eu deveria fazer administração, na verdade ele já até pensava na minha pós.

De certa forma eu não tinha muito controle da minha vida, ou vontade própria, pensando bem esta deveria ser uma das consequências das minhas duas regras sobre calar a boca e não se importar. Mas é assim que eu pretendia viver? Fazendo o que os outros queriam seja sob ameaça, ou ordem, ou qualquer outra merda que me levasse a fazer o que pediam?

O que eu queria fazer?

Quando era uma criança minha mãe tinha me colocado no ballet, eu detestava, sabia que não queria ser dançarina mesmo que fosse o sonho dela, entretanto continuei com as aulas até ganhar dois quilos acima do limite. Já na adolescência, meu pai me levava pra passar os dias com ele na empresa, era um inferno constituído por sócios, clientes e problemas. Então quando eu já estava de saco cheio e ia reclamar meu pai me dava uma folha, uma caneta e simplesmente me mandava desenhar. Eu odiava desenhar, eu odeio, mas o fazia sem reclamar mesmo com quatorze anos.

Também detestava ouvir a Megan falar, eu não sei dizer se é porque sua voz me irritava ou se os seus problemas banais me irritam, tudo nela me irritava e por um tempo achei que o problema era ela. Mas eu descobri odiar manter conversas longas com quem quer que fosse, não queria escutar, ou falar, ou olhar para a cara da pessoa. Então cheguei a conclusão de que não seria uma boa psicóloga.

Quando dei por mim já estava assim, fazendo esse curso chato cheio de contas, e problemas, e pessoas para demitir, e gente para contratar e depois demitir de novo. Uma verdadeira porcaria porque eu sabia que muitos destes alunos viriam trabalhar para mim no futuro, vários deles já tentaram se aproximar de mim com esperanças de conseguir um cargo na Divard Houston. Mas eu já tinha feito a minha lista caso chegasse a assumir o banco.

O primeiro da lista era Wilson Stephen, o melhor aluno dessa desgraça, é apaixonado pelo o que faz e isso é importante. O segundo é Abraham Dominic, acredito que será um ótimo contador, ele adora números. Então eu contrataria a Megan, ela seria o marketing porque faz o típico esteriótipo de gostosa que atrai clientes.

Alison não poderia ficar de fora, com toda a certeza ficaria com o sistema de segurança do banco, vocês viram o que ela é capaz de fazer.

E por último, mas não menos importante, Ederik Dostrovyk, um puta cara lindo que teria o papel fundamental de me satisfazer a qualquer momento. Tá, o seu papel não era o mais importante para ser sincera, mas seria crucial para o meu desempenho, certo?

Viajei por tanto tempo na aula que precisei ser chamada pelas garotas para sair do transe.

Naquele dia só tínhamos essa aula, então muitos alunos já estavam indo embora, outros como a Alison iria para a biblioteca estudar. E Megan disse ter um encontro com Allan, saiu quase atropelando meio mundo.

— Você vai para casa? — ouvi Alison me perguntar.

— Vou, quero fumar e dormir. — essas eram as duas coisas nas quais eu sou boa. — Já que você está com o meu notbook, depois entra na minha conta e vê como andam as coisas. — ela acenou positivamente um tanto contrariada. — Te vejo depois. — me despedi.

Alguns estudantes que podiam nadar na grana — e eu me incluo — saíam pelos portões que davam acesso ao estacionamento, segui pelo mesmo caminho me arrependendo logo em seguida.

Em frente ao meu carro haviam dois homens vestidos com ternos pretos. No começo eu pensei que eram seguranças do meu pai, até que um deles, o mais alto, afastou o blazer do conjunto para que eu vislumbrasse um revolver aparelhado em sua cintura pelo cós da calça. Nessa hora meu coração já não era mais uma bomba fisiológica que impulsionava sangue, todo aquele líquido vermelho deveria ter se tornado gelo porque um frio percorreu todo o meu corpo junto com algumas doses de adrenalina.

— Venha conosco Senhorita Johnson. — o mesmo que me mostrava a arma falou baixo. Pude observar em sua mão direita um anel, os dois rapazes usavam. Os anéis tinham uma pedra vermelha de fundo verde desfocado.

— Por quê? — me arrisquei a perguntar.

— O chefe quer vê-la. — o menor respondeu com uma voz quase mecânica. — Não resista por favor.

— E se eu resistir?

— Nós a levamos morta. — desta vez o grandão disse com a mão na arma.

Que porra!

O menor dos dois — me desculpe não saber os nomes — guiou-me até um Mazda Shinari branco de vidros esfumados que estava do outro lado do pátio, não havia nenhum carro naquela pequena área e isso me deixava em estado de alerta. Então o maior abriu a porta traseira e eu entrei, o carro inteiro era branco, os bancos, as paredes, os cinto, chegava a ser ofuscante.

Não sei se deveria me surpreender ou não, mas ao meu lado, sentado confortavelmente, estava Coringa com um sorriso de orelha á orelha envolto por uma aura ansiosa, isso era um perigo.

Seu olhar vagueou para a minha camiseta do Nine Inch Nails — que eu vesti porque foi a primeira coisa que vi pela manhã — e balançou minimamente a cabeça num sinal de aprovação. Ele gostava de Nine Inch Nails ou do decote em V da peça?

— Sentiu minha falta pirralha? — inclinou-se em minha direção para trancar a porta e se afastou. Não havia cheiro de whisky, em seu lugar emanava uma quentura morna misturada com aquele perfume amadeirado.

— Por que estou aqui? — questionei forçando minha voz para que saísse audível, estar perto dele era uma tortura para mim. Os olhos azuis ferozes, o sorriso que hora se mostrava cínico e hora divertido, seu cheiro e sua aura insinuando perigo, tudo nele me deixava nervosa.

— Você não faz as perguntas. — levantou o indicador como se educasse uma criança respondona. — Eu faço. — piscou um olho. — Mas ainda não é a hora certa. Por que não falamos de negócios enquanto comemos? Talvez uma pizza desamarre essa sua cara feia.

— Pizza? Negócios? — arqueei uma sobrancelha confusa. — Me deixa ir pra casa! — exigi.

— Vejo que está se sentindo corajosa hoje. — soou ameaçador me fuzilando com seus azuis brilhantes. — Engraçado, não? Porque sou eu quem está segurando uma arma. — balançou um canivete que estava no bolso do seu paletó roxo.

— Eu já te dei o que você queria. — tentei convencê-lo, mas só tentei mesmo porque ele soltou uma gargalhada arrepiante.

— Não, querida. Você não me deu, já conversamos sobre isso. — tocou a ponto afiada da lamina em meu nariz. — Mas eu não sou um homem rancoroso e você se esforçou tanto para proteger aquelas pessoas. — seu rosto expressava uma comoção que ele não sentia de verdade. — Fiquei tão comovido, eu juro.

Ouvi o motor do carro sendo ligado. A medida em que acelerava meu receio aumentava. Não ousei perguntar para onde íamos, nem se o homem ao meu lado me faria o favor de parar de brincar com o canivete, qualquer freada brusca e muito sangue poderia rolar e eu tenho pavor de sangue, só de pensar nisso meu estômago parecia embrulhar. Eu sempre fui fraca com isso, outra certeza da minha vida era que eu não havia nascido para ser médica.

— No que tanto pensa Senhorita Johnson? — me perguntou sério com um ligeiro interesse.

— Nas coisas que eu deveria fazer com a minha vida. — respondi automaticamente sem o olhar, mas sabia que ele me observava.

— E a que conclusão chegou?

Eu o encarei.

— Eu não sei. — soltei um suspiro carregado de pesar. Era estranho dizer algo assim para ele, para qualquer pessoa na verdade, como eu já disse não sou muito comunicativa ou expressiva. — Não há nada que eu possa fazer agora. — eu falava porque ele não me julgava, seu olhar nunca me acusava.

— Há sim e você fará. — Coringa não sorria, apenas seu olhar transmitia a determinação de suas palavras. — Crianças jovens como você precisam aprender na prática.

— Ouvindo os adultos? — perguntei no tom provocativo que ele tanto usava quando tirava uma com a minha cara, mas ao contrário dele eu estava irritada com o jeito que falava comigo.

— Hoje você está de bom humor não é mesmo? — riu baixo e tornou a me encarar sério. — Acho que prefiro você chorando, pirralha.

Não respondi, nem ele voltou a me provocar. Ficamos em silêncio absoluto até o carro parar em frente ao La Perolaccia, um restaurante italiano frequentado for pessoas de classe alta, eu já tinha ido algumas vezes quando meus pais tinham jantares de negócios. O lugar era bem reservado, as mesas ficavam dispostas a certa distância uma das outras, além de haver salas de jantar isoladas.

Sua decoração era um destaque floral perigoso para os alérgicos, tulipas e margaridas faziam belos canteiros na entrada. Em cada mesa havia algum arranjo que combinasse com as paredes de painel vermelho enfeitadas por quadros das paisagens de Florença, eu sempre amei os quadros daqui.

Coringa saiu do carro quando o brutamonte menor abriu a porta. E fiquei espantada quando vi sua mão extremamente pálida estendida para mim, mas não pensei muito, eu a peguei sentindo-a muita quente. Desde que o vi pela primeira vez na boate, achava que sua pele fosse gelada como a de uma vampiro, eu sei que é idiotice, mas ela é tão branca que eu não conseguia imaginar de outra forma.

Com uma estranha gentileza ele pousou a mão que estendera pra que eu saísse do carro no meio das minhas costas.

— Pense bem antes de tomar uma atitude impensada Loreen. — sussurrou em minha orelha causando-me arrepios pela proximidade. — Aron não é muito bom com o revólver, pode acabar te acertando. — ouvi ele estalar a língua no céu da boca.

Andamos até uma mesa reservada longe de janelas e da pouca clientela. Em menos de três minutos o maître chegou para nós atender, Antônio era um autêntico italiano e ficou todo contente em me ver ali, por um minuto achei que ele me abraçaria como de costume, mas não, ele apenas disse para ficarmos a vontade e me sorriu cordialmente.

Não era apenas eu que ficava afetada com a presença forte do homem de cabelos verdes.

— Conchiglione à Camaresca para mim e Conchiglioni All’arrabiata para minha doce companhia. — ouvi ele pronunciar os pratos num italiano perfeito com sotaque toscano. — E uma garrafa de Chianti.

Quando Antônio finalmente saiu com os pedidos olhei embasbacada para o Coringa, afinal como ele sabia que eu gostava de Conchiglioni All'arrabiata?

— Vamos aos negócios. — estendeu uma pasta em minha direção, eu estava tão aérea que não tinha visto ele a pegar no carro antes de sair. — Vamos, abra. — indicava a pasta agora em minhas mãos com um aceno de cabeça.

— E se for uma bomba?

— Não seja burra. Por que eu te daria uma bomba se estou do seu lado? — rolou os olhos. — Abre logo. — mandou impaciente.

Dentro da pasta estava uma folha com os dados de um homem chamado Sean Adisson Bentley. Mas o que o Coringa fazia com as informações de um dos clientes da lista VIP do meu pai?

Eu o conhecia, tinha ido em diversos jantares e festas em sua cobertura no Curtis Albicans, o maior arranha-céu de Gotham. Era um homem poderoso, um grande cirurgião geral e meu pai cuidava das suas ações em alguns hospitais, centros de pesquisa e instituições filantrópicas.

— Como você conseguiu isso? — precisei perguntar. O acesso que eu tinha dado a ele não era algo tão extraordinário para que chegasse aos dados do pessoal da empresa.

— Shiiiiiiu. — o som soou lentamente até desaparecer no espaço. — Sou eu quem faço as perguntas, querida. O Senhor Bentley é muitas coisas, dentre elas, burro. — Coringa falava sem me olhar, sua atenção jazia no garfo de prata que tinha em mãos. — Ele acha que pode invadir o território de um rei sem um exército.

— Sean é apenas um médico. — lá estava eu novamente com a minha confusão. Onde é que o Coringa queria chegar?

— Pois é. — rodou o talher entre os dedos indicador e médio da mão esquerda. — Sean, o nosso honrado doutor é um maker doll e um traficante em ascensão. — eu não acreditei. — Ele está faturando muito por aqui com as suas putas decepadas e acredito que com a venda de drogas. — Coringa controlava sua raiva até mesmo nas palavras, ele torceu o pescoço de um jeito sinistro e me olhou com um grande sorriso. — Eu realmente não me importo se ele quer brincar de casinha, mas desrespeitar meu governo… isso é demais. Então querida Loreen, me diga o que mais você sabe dele. — sua ordem veio ameaçadora.

— Eu… eu não posso falar de um cliente do meu pai assim, é antiético. — mesmo que nesse momento eu sentisse nojo pelo o que Sean fazia se eu disse algo aqui poderia ser incriminada, tanto por calúnia como por quebra de sigilo, no último caso o meu pai é quem seria preso.

— Querida, olhe bem para os meus amáveis olhos. — não havia nada de amável ali, apenas a sua voz num falso tom de compreensão. — Se você não abrir a boca sua utilidade se esvai. — gesticulou uma explosão com as mãos. — E se você não tiver mais nada a me oferecer eu vou te matar. — e mais uma vez eu estava sendo ameaçada a fazer algo contra a minha vontade, e de novo eu sentia medo, e de novo eu o fazia o que ele queria. Suspirei derrotada.

— Eu sei que ele tem negócios com a Farmac International e existem muitos boatos de que essa empresa usa fundos que foram arrecadados para fabricar drogas ilícitas.

— Pra quem eles vendem?

— Eu não sei, mas é coisa pesada. — olhei para o talher que ele segurava tentando lembrar o nome que uma vez eu encontrara na internet. — Krokodil! Eu acho que esse é o nome da droga.

— A farmacêutica tem outros investidores. — comentou pensativo.

— Sean faz doações filantrópicas para eles. — eu me sentia uma detetive mesmo não estando do lado certo da força, se o Coringa acabasse com essa rede seria um traficante a menos em Gotham e isso era bom.

— O laboratório é clandestino, não pode haver mais de um investidor. — dizia pensativo com um semblante sério.

E naquele momento eu o observei, não tinha percebido as cicatrizes antes por causa da cor de sua pele. Havia uma perto do “J” tatuado abaixo do seu olho esquerdo, outra cicatriz estava bem perto da tatuagem em sua testa, em letras bem desenhadas estava escrito “Damaged”. A outra cicatriz que me chamou a atenção passava pelo canto interno do olho esquerdo.

Mas nenhuma delas ou deixavam feio, não que ele fosse a típica beleza americana, Coringa era bem esquisito por inteiro, mas eu não posso negar que existe algo muito atraente nele que te faz saber que ele está no mesmo lugar que você apenas pela tensão que o ambiente passa a deter, como se toda uma energia se concentrasse ao seu redor.

— Por que? — minha voz saiu falhada e eu precisei me ajeitar na cadeira para disfarçar meu desconforto. Em que merda eu estava pensando?

— Sociedade. Se mais alguém investisse ele teria que dividir os lucros e acredite minha cara, dividir dinheiro entre criminosos é idiotice. — se divertia com a minha ignorância.

Sussurrei um “entendi” e comecei a comer quieta com meus pensamentos a milhão. Estava tão curiosa, o que aconteceria agora? Mas eu não tinha coragem de perguntar, também não o encarava, estranhamente me sentia constrangida, provavelmente ele tramava alguma coisa naquela mente louca.

Cheguei a mais uma conclusão percebendo toda essa minha timidez: eu não seria uma boa atriz. Ter todas àquelas pessoas a minha volta me encarando e criticando o meu trabalho, eu enlouqueceria.

— O que você vai fazer? — minha pergunta o tirou dos próprios pensamentos.

— Se eu te disser você promete não contar pra ninguém? — eu quase ri com seu tom de voz baixo e desconfiado.

— Prometo.

— Então não contarei. — aquele sorriso cínico me enervou. — Promessas são palavras, pirralha. São a mesma coisa que nada, não são sustentáveis e nunca, jamais, em hipótese alguma são confiáveis. — explicou calmo, o que me irritou mais ainda.

Eu já estava pronta pra falar algumas coisas que estavam entaladas na minha garganta quando ele se levantou, interrompendo a minha linha de raciocínio. — Vamos Senhorita Johnson, você precisa voltar para casa e eu preciso resolver este pequeno impasse.

Não o vi pagar, nem acho que o tenha feito e ninguém seria imbecil para cobrá-lo. Nós voltamos para o carro com ele me guiando da mesma forma que tínhamos entrado, uma mão em minhas costas e uma expressão séria.

O caminho foi silencioso, afinal eu não tinha mais utilidade, não no momento pelo menos. Então aproveitei os próximos minutos para olhar a paisagem, sem deixar de estar em alerta para com o homem ao meu lado.

Eu ainda me sentia esquisita com os pensamentos de outrora, mas assim que vi o estacionamento da universidade um alívio tomou conta do meu ser. Em breve eu estaria longe da presença esmagadora que o Coringa emanava.

— Eu vou viver mais um dia? — arrisquei hesitante antes de sair do carro.

— Não é um prêmio fabuloso por sua colaboração? — questionou com animação dando-me a vista dos dentes metalizados.

Não respondi pois era apenas mais uma das suas perguntas retóricas que me faria colapsar de tanto pensar.

Eu criei coragem e saí do carro para ir em direção ao meu Fusion, entretanto assim que fechei a porta e dei alguns passos ouvi a janela abaixar revelando um Coringa sério.

— Loreen, você sabe exatamente o que tem que fazer com a sua vida. — piscou um olho e abriu um sorriso de canto. — Eu vou te mostrar. — e então o carro partiu em direção ao centro.

Notas finais
Espero muito que gostem *-* E eu pretendo enfiar um banner aqui, don't worry kkk Beijão!!