Semanas haviam se passado desde o passeio à cachoeira, mas o clima naquela casa ainda continuava frio e triste. Líliam nunca imaginaria que Soffia ficaria tão triste, afinal o passeio era para ser relaxante, mas no último minuto Amber acabou fazendo a maior burrada de sua vida. Depois que se separou de João, ela procurou por Soffia, só então Líliam prestou atenção à garota. A menina se encontrava de cabeça baixa como se estivesse com medo de encarar aquela situação, os olhos estavam vermelhos e o rosto manchado com lágrimas. Era como se ela estivesse vivendo em um pesadelo. Quando as pernas da morena fraquejaram, Caleb a segurou firme e a abraçou, olhando fixamente para João, que só naquele momento havia entendido o que realmente acontecia com a garota. Ele tentou se aproximar da menina, mas Nicholas foi mais rápido e o afastou, porém João era teimoso e isso lhe rendeu um belo soco dado por Caleb.

Lúcia já estava com os braços ao redor de Soffia e a colocando no carro em que viera com Caleb. Amber estava paralisada com toda aquela situação e vendo que ela não conseguiria sair dali sozinha, Maria Julia a puxou para um abraço e depois de alguns minutos a garota chorou.

A chegada em casa foi silenciosa. Soffia correu para seu quarto enquanto Amber sentou-se no sofá, com os olhos inchados e desfocados. Caleb e Nicholas se prostraram na porta de Soffia, enquanto Lúcia entrava no quarto.

Líliam foi para o seu quarto tomar um banho. Com todo aquele clima a ruiva nem havia se despedido direito de James. Pegou o celular e enviou uma mensagem avisando que já haviam chegado e que o clima não poderia estar pior.

Depois de pentear os cabelos, a ruiva pegou o livro Orgulho e Preconceito e abriu em uma página qualquer.

Antes que começasse a se entregar ao Mr. Darcy, a ruiva ouviu batidas tímidas em sua porta. Do outro lado da porta estava Soffia com os cabelos preso em um coque, olhos inchados e um cobertor.

– Posso passar a noite aqui? — disse a garota. E desde então, Soffia vem dormindo com Líliam e se recusando a falar com Amber e João Pedro, igualmente a Caleb e Lucia, que procuravam ao máximo se evitar. Não se sabe o que aconteceu entre o ultimo casal, afinal com sua nova hóspede Líliam não teve como pressionar Caleb a contar-lhe.

Líliam olhou para a amiga que ainda dormia e percebeu que seus olhos mesmo fechados pareciam inchados. Todas as noites ela chorava silenciosamente. Líliam voltou-se para o espelho e terminou de trançar os cabelos, em seguida pegou sua bolsa, chaves e óculos escuros e deixou Soffia no seu mundo de trevas.

A primeira coisa que viu quando desceu as escadas foi Maria Julia e Louise tentando fazer o café da manhã. As duas pareciam estar se divertindo. Louise desenformava um bolo que parecia ser de queijo e que por alguma razão rachou o prato. A ruiva riu satisfeita. Ela estava com um avental e os cabelos amarrados em coque no alto na cabeça. Já Maria Julia tentava fazer o café, mas pelo que Líliam notou, ela já havia colocado mais de sete colheres de pó.

– Meu Deus, precisamos resolver urgentemente a situação da Soffia. Ela precisa sair do estado vegetativo e vir cozinhar. Como vocês conseguem sobreviver com esses dotes culinários? — disse Líliam em um folego só, fazendo Maria Julia e Louise ficarem indignadas.

Mas, antes que as duas pudessem falar algo, a campainha tocou.

– Sorte sua! — gritou Louise enquanto a irmã saltitava até a porta. Ao abri-la, Lílian deu um enorme sorriso.

– Trouxe café da manhã – disse um animado Thomas.

Quando voltaram para a sala, Louise tentava fazer com que Nicholas comesse um pedaço do seu bolo. Mas, o menino relutava, dizendo que estava sem fome.

– Lou,sei que seu bolo deve estar uma delícia, mas o Thomas trouxe pão quentinho. Vocês já fizeram muito – disse Líliam carinhosamente enquanto Caleb e Lucia desciam as escadas- porque vocês não vão se arrumar? Aproveitem e passem no quarto da Amber.

Líliam empurrava as duas para fora da cozinha, assim que sumiram de vista Nicholas rodopiou Líliam, agradecendo por ela ter salvado ele de uma indigestão. Jogaram o bolo e o café fora.

Lilian fez outro café enquanto Lúcia e Caleb colocavam a mesa.

– Sinceramente, eu não aguento mais o clima de velório nessa casa. –disse o rapaz

– Eu não aguento mais não comer a comida da Soffi — disse Lilian suspirando.

– Não comer a comida da Soffi tudo bem — retrucou Lucia — se eu não comer nada que os meninos cozinhem. Ou melhor, aquilo não é cozinhar, não tenho palavras para a tragédia que fizeram com a cozinha.

– Elas reclamam se ajudamos, reclamam se não ajudamos. Quem vai entender essas mulheres?! — resmungava Caleb enquanto Lily ria e Nicholas dava de ombros.

– Mas a Lu tem razão maninho, como vocês sobreviveram na Inglaterra?

– Com uma invenção maravilhosa e inovadora chamada Micro-ondas — disse o rapaz com uma piscadela para as garotas, fazendo Nicholas e Thomas gargalharem.

– Mas acho que o senhor mestre das comidas requentadas tem razão desta vez — disse Lucia — a questão é a seguinte, o que vamos fazer?

–Não dá pra continuar com esse clima na casa. — disse Nicholas.

– Bom, apesar de eu não concordar com o que a Amber fez, também devemos ouvir o que ela tem a dizer sobre o assunto. — afirmou Lucia.

– Mestre das comidas requentadas? — disse Caleb sorrindo maliciosamente para a menina de olhos cinza — sou mestre de muitas outras coisas mais.

Lucia ficou rubra e desviou os olhos do rapaz resmungando alguma coisa qualquer sobre Caleb ser um convencido enquanto o rapaz sorria abertamente.

Lilian, juntamente com Nicholas, olharam de maneira inquisidora para aqueles dois, ambos andavam muito estranhos após o passeio e ela não aguentava mais não saber nada do que havia acontecido. Mas, Nicholas parecia estar bem informado. Mas é claro que nenhum dos três contaria nada a ela naquele momento, suspirando, a ruiva terminou de coar o café e deixou a garrafa na mesa.

– Vou pensar em algo para fazermos Lu — disse a ruiva enquanto se dirigia até a mesa — mas enquanto isso vamos tomar café. E vocês dois, tentem não se matar ou explodir a casa, por favor. Já temos muitos problemas. — disse Lilian fazendo Caleb e Lucia revirarem os olhos enquanto Nicholas se engasgava com um pedaço pão e Thomas dava tapinhas em suas costas.

Várias semanas já haviam se passado desde que James havia ido ao passeio com os primos e os amigos. E cada dia mais ele se sentia pior em mentir para eles com relação a quem realmente era e porque havia se aproximado deles, seu avô era sempre inquisidor quando estavam a sós, sempre pedia para que lhe falasse mais sobre os outros netos e após isso ficava com uma expressão distante enquanto contemplava algo qualquer.

Naquela manhã Edmundo havia acordado com um humor incomumente ótimo. A mesa do café estava farta, como sempre quando James juntou-se ao avô para o desjejum.

– Bom dia meu Jamie — disso Edmundo contente.

– Bom dia vovô — respondeu James sorrindo para o avô

– Estive pensando filho, e acho que já está mais que na hora de eu ver seus primos. Por que não os convida para jantar aqui conosco amanhã?

James quase se engasgou com um pedaço de torrada ao ouvir aquilo, seria assim então? Edmundo já estava pronto para deixar de lado o neto que passou a vida toda com ele em prol de unir a família novamente? Afinal de contas Caleb, Lily e Louise não eram bastardos. Mas sua mãe e ele nunca haviam abandonado Edmundo, aquilo doía no rapaz.

– Se é o que o senhor quer — disse James tentando parecer indiferente.

– Sim — respondeu Edmundo em tom inebriado — é o que quero Jamie. Mas ainda não conte nada, por favor

– É claro que não — concordou James em tom condescendente.

– Como são as minhas netas? — perguntou Edmundo saindo do seu transe.

– Já lhe disse vovô, são moças adoráveis, lindas e ruivas. Lilian tem os seus olhos — falou James com um pouco de ciúmes — Louise tem olhos dourados, como os do irmão.

– Dourados, hein? — perguntou Edmundo suspirando pesadamente, retomando um pouco de seu mal humor.

– Não sabia que haviam traços tão exóticos na família — respondeu James casualmente.

– E não haviam mesmo, — disse Edmundo pensativo– nem cabelos ruivos.

Amber estava sentada em uma das áreas do seu bloco que a maioria dos alunos iam durante o intervalo, mas não havia ninguém ali exceto ela. Amber tentou várias vezes se retratar com Soffia, mas a garota não lhe deu a chance de fazer isso, ela se sentia muito só, Louise e Maria Julia tentavam animá-la um pouco, mas nada resolvera.

Ela ouviu passos se aproximarem por trás dela e quando virou-se encontrou com quem menos queria messe mundo. Mauricio estava com um sorriso pregado no rosto ao vê-la, ele estava todo formal, como sempre se vestia para dar aulas, camisa social clara, calça social escura e sapatos italianos. O cachorro sabia se vestir bem, e isso era um dos fracos que Amber tinha por ele.

– Olá Am — disse ele suavemente.

– Que ótimo — resmungou a garota levantando-se — já chega Mauricio. Não quero mais ver você, falar com você e nem que você fale comigo. Estou cansada, seu cafajeste hipócrita e descarado.

– Você pensou mesmo que eu teria algo sério com uma garota como você? Pensei que estava bem claro que era apenas por diversão Am.- respondeu Mauricio de forma cínica.

Os olhos de Amber começaram a marejar antes que ele terminasse de falar ela saiu andando para longe dele rapidamente, estava quase correndo apesar de já estar longe do bloco e da presença de Maurício quando esbarrou em alguém.

Luiz estava mais que atrasado para a aula de física II, havia passado a noite inteira terminando a maquete para a aula de eletrodinâmica, ele estava quase correndo para chegar a tempo na sala de aula quando alguém esbarrou nele e fez com que derrubasse a maquete.

Luiz se conteve antes de surtar, todo o seu trabalho estragado por ... Uma garota? Ele endireitou os óculos ainda com os lábios entreabertos, desacreditado de que aquilo havia realmente acontecido com ele. Era uma garota linda, tinha o cabelo num vermelho vivo, porém as pontas eram douradas, usava uma blusa verde de alças finas, calça bege e sapatos de salto alto, mas quando ele olhou em seus olhos, estes estavam marejados e vermelhos, como se a garota estivesse chorando.

– Ah, eu não acredito — disse a garota com a voz um pouco rouca — me desculpe mesmo.

– Está tudo bem — respondeu Luiz estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.

– Juro que não vi você — tagarelava ela sem parar — eu sou uma idiota mesmo e o seu trabalho... Ela não concluiu, ao olhar a maquete em pedaços no chão Luiz sentiu um aperto no peito, todo o trabalho fora em vão. Mas ele não conseguia dizer nada que pudesse deixar aquela garota ainda pior.

– Ah, ele estava mesmo uma droga, acredito que essa foi a pior maquete que já fiz. — disse ele.

– Mesmo? — perguntou Amber com os olhos arregalados.

– Não — respondeu Luiz com um sorriso tímido no rosto fazendo a garota corar. — mas está tudo bem, não se preocupe, deixe isso comigo. Você parece já ter problemas demais. Ele a observava curioso e por um momento esqueceu que estava atrasado, esqueceu a maquete que ele deveria estar reconstruindo loucamente e que esta valia 30% de sua avaliação.

– Se é assim então eu insisto em te ajudar a refazer a melhor maquete da sua vida acadêmica para reparar esse desastre — disse Amber em seu tom entusiasmado de antes fazendo um sorriso se abrir no rosto do rapaz.

– Eu agradeço, mas não é necessário.

– Qual é a parte do "eu INSISTO" que você não entendeu — disse a garota sorrindo — vamos, deixa eu te ajudar, assim vou me sentir menos culpada e vamos nos divertir também. Eu prometo!

– Tudo bem então, se você insiste eu aceito sua ajuda. E a propósito — ele arregalou os olhos por trás das lentes do óculos — qual é mesmo o seu nome?

– Me chamo Amber — disse a garota estendendo a mão. Luiz sorriu para ela.

– Lindo nome — respondeu ele apertando a mão da garota — eu me chamo Luiz

Em seguida ela e Luiz se dirigiram para uma das salas de estudos para refazer a maquete. Enquanto ele tentava explicar para ela sobre a eletrodinâmica, que a proposito falava sobre as cargas elétricas em movimento, ela o ajudava a colar a maquete, afinal ela era ótima com cortes e pistolas de cola quente assim como ele era fantástico com cálculos e física. Ele acendia a curiosidade da garota e explicava a ela sobre o assunto fazendo comparações engraçadas que ela até estava começando a entender e a gostar daquilo.

Ela observava enquanto ele não conseguia ficar parado por um minuto sequer, Luiz tinha um jeito ansioso e engraçado e mesmo ele sendo um nerd, com seus óculos, All Star pretos, jeans surrados e camiseta do Red Hot Chile Peppers. Amber começou a achar o garoto fofo e agradável, talvez até charmoso, ela pensava. Ela se pegou rindo das brincadeiras dele diversas vezes por longos minutos e por aquele instante esqueceu de Mauricio e todas as coisas que a estavam deixando triste.

Naquela tarde João Pedro estava sozinho no quarto quando ouviu batidas suaves na porta. Ele se levantou relutante da cama e se dirigiu até a porta, antes mesmo de abri-la ele já sabia quem era, ela havia demorado para procurá-lo dessa vez.

Ele fitava os olhos da irmã de forma tristonha e distante, logo saiu do batente da porta permitindo que ela entrasse no quarto. Maria Julia acomodou-se na cama do rapaz, olhando-o longamente antes de falar.

– Você foi mais bobo que o normal dessa vez — disse a loira de forma gentil. Escolhendo bem as palavras para não machucar o irmão, mas não o poupando da verdade.

João Pedro sentou-se ao lado da irmã e a envolveu em um abraço, daqueles que eles não trocavam há muito tempo, quando estavam tristes na casa da família. Maria Julia acariciava as costas do irmão de forma protetora.

– Eu sei Maria, — disse ele fracamente com os olhos distantes — mas afinal de contas nós somos assim, não é mesmo? Foi escolha nossa, todas as máscaras são como armaduras. Ela balançada a cabeça encarando os olhos azuis do irmão.

– Não precisamos fazer isso aqui João.

– Mas eu não tive culpa Maria. Até agora não sei o que a Amber planejava com aquele beijo — disse ele suspirando pesadamente — tudo o que eu menos queria era magoar a Soffia. Os olhos de João Pedro começavam a marejar e Maria Julia sentia a agonia pela qual o irmão estava passando por dentro.

– Eu sei maninho, — disse ela afagando as mãos de João — você está apaixonado por ela e agora que pisou na bola pra valer está sofrendo.

–Então é isso — ele sorria fracamente — eu fui mesmo um babaca.

– Já tentou falar com a Soffi?

– Alguém nessa casa deixa eu tentar? — perguntou o menino emburrado. Maria Julia riu do irmão.

– Estamos todos nos mobilizando para acabar com esse clima chato na casa, então acorde maninho! E espere a sua vez.

Maria Julia ficou ali fazendo companhia para o irmão pelo resto da tarde, algumas vezes conseguiu fazê-lo sorrir um pouco e até mesmo o convenceu a descer para a sala e assistir alguns filmes com ela. Fazia muito tempo que eles não passavam um tempo juntos e ambos sentiam falta daquilo. Afinal de contas eles só tinham um ao outro, era assim desde quase sempre.

Louise e Lucia chegaram cansadas em casa, elas conversavam e riam ao abrir a porta de um mico pelo qual passaram na biblioteca quando se depararam com Nicholas e Caleb cada um com uma echarpe na mão. A cena só fez as meninas rirem ainda mais.

– O que? — perguntou Louise entre gargalhadas — vocês estão querendo algum conselho de moda?

– Muito engraçado Lou — disse Nick cruzando os braços — estamos ajudando a preparar uma surpresa para elas e elas nos tratam assim? — Ele e Caleb fingiam indignação.

– Surpresa? — os olhos de Louise brilharam enquanto ela dava pulinhos.

– A reação correta não é essa Lou, já pensou se for um jantar? — disse Lucia de forma sarcástica — nós iremos comer comida requintada, ou teremos problemas estomacais.

Ambas caíram na gargalhada enquanto os rapazes tentavam contê-las. Quando finalmente eles conseguiram fazê-las parar de rir, vendaram-nas com as echarpes e as conduziam de forma maluca pela casa, tentando desorientar as garotas.

– Você quer parar?! — disse Lucia irritadiça beliscando a mão de Caleb que deslizava por seu pescoço.

– Ai! — reclamou o rapaz — Mas eu nem estou fazendo nada demais!

– Acho bom mesmo que você nem pense em fazer nada — disse Lucia rabugenta.

–Pensar eu penso — disse o rapaz maliciosamente no ouvido da menina — vai me dizer que você não?! — Mas antes que ela o respondesse ele a empurrou por uma porta que foi rapidamente fechada atrás de Lucia

João bateu na porta do quarto de Soffia, ele estava inseguro quanto a ideia de Lilian, mas afinal de contas precisava ver Soffi. Desde o passeio ela o evitava descaradamente. A menina abriu a porta e ficou rapidamente rubra ao ver João ali do lado de fora. E antes que ela batesse com a porta na cara dele, João Pedro disse:

– Espera Soffia, eu sei que você ainda está brava comigo, mas... — ela o observava com as sobrancelhas arqueadas- Eu entendo se não quiser falar comigo agora. Mas eu ainda queria que você me ouvisse depois, também vou entender se continuar me achando um idiota e se não me perdoar — Soffia podia observar certa tristeza no rosto do rapaz e o pior é que ele parecia estar sendo sincero, mas ela não podia fraquejar na frente dele agora — Mas na verdade estou aqui porque a Lily pediu para que eu te chamasse

– E porque ela mesma não veio? — indagou Soffia soando indiferente

– Ela disse que é surpresa — afirmou o rapaz a fitando — e você tem que usar isso.

Ela então observou que ele segurava uma echarpe azul, azul da cor dos olhos dele, pensou Soffia. Mesmo desconfiando daquilo tudo a garota acabou cedendo e permitiu que ele a conduzisse vendada pela casa até um cômodo, que supôs ser o quarto da ruiva que estava tramando alguma travessura.

Quando todas as garotas já haviam sido conduzidas até seu quarto Lilian pediu para que elas tirassem as echarpes que cobriam seus olhos. Como a ruiva já esperava o clima ficou tenso quando Soffia viu Amber no quarto junto com elas. No entanto antes que ela pudesse protestar sobre algo Líliam começou a falar.

– Meninas, preparei uma coisinha especial para TODAS nós hoje, afinal de contas somos AMIGAS e moramos juntas há algum tempo, bom talvez mais que amigas, na verdade somos mais como irmãs e espero que continuemos assim durante esse longo percurso que acaba de entrar nas nossas vidas que é a universidade. Por isso vamos aproveitar e nos divertir, deixar de lado qualquer diferença ou mal entendido que houver entre nós. Por tanto, vamos aproveitar a noite das garotas! Soffia meneou a cabeça enquanto todas soltavam pequenos vivas!

– Como você pode me pedir isso Lily? Depois de tudo? Não quero ficar fingindo ser amiga de ninguém, nem mesmo por uma noite! Soffia se levantou e saiu pisando firme em direção a porta.

– Espera Soffi — disse Amber tristemente, a menina parou na porta e se virou para encará-la com os olhos brilhando de raiva — eu sei que a culpa é minha e nada justifica o que fiz, mas eu queria te contar... Contar para todas vocês o porquê eu fiz aquela burrice.

Soffia ponderava se ouviria ou não a amiga, mas acabou sendo vencida e voltou a sentar-se a fim de ouvir l que Amber tinha a dizer.

– Vocês sabem o Mauricio certo? O professor da universidade que apareceu na cachoeira aquele dia? — disse Amber em tom tristonho.

– Oh meu Deus — disse Maria Julia surpresa, na verdade todas ali estavam desacreditadas — você estava pegando o professor Amber?

– Fica quieta e deixa ela terminar de contar Maju — disse Louise e todas concordaram

– Sim eu estava ... Bom, nós estávamos saindo há um tempo e pensei que era algo sério, mas então ele me apareceu lá com aquela garota, eu simplesmente surtei. Vi eles se beijando e tudo o mais. E quando ele apareceu, eu quis ferir a ele assim como ele tinha feito comigo. Mas não adiantou porque ele não sentia nada por mim. E quando eu percebi o que tinha feito Soffi, nossa eu faria tudo para mudar aquilo, eu sinto muito pelo que fiz.

Amber estava com os olhos marejados, ela finalmente estava desabafando tudo o que havia acontecido e agora tentava não chorar na frente das amigas. Soffia permanecia com uma expressão séria quando se levantou e foi até Amber, quando ela chegou perto da garota a envolveu em um abraço firme e caloroso.

– Nós temos que dar um jeito naquele cafajeste! — afirmou Soffia.

– Ele não vale a pena — limitou-se a dizer Amber.

– Oh, meu Deus, Lily por favor me diga que você providenciou sorvetes e chocolates — disse Louise com os olhos marejados — porque se vamos falar de amores não correspondidos e garotos que não valem a pena vamos precisar de dose extra.

– Até parece ruiva, — disse Maju sorrindo de forma brincalhona — aposto que você tem quem quiser na palma da mão.

– Na verdade não — falou Louise com a expressão distante — teve um cara. Na verdade ele era meu amigo de infância. Eu sempre tive medo de me apegar a alguém, mas o que eu não esperava era já estar apaixonada por alguém e nem percebi como isso aconteceu. Mas ele nunca gostou de mim dessa forma, Anderson só me via como amiga e aquilo me doía, eu ficava magoada ao vê-lo com outras garotas, mas não podia forçá-lo a gostar de mim. Então resolvi me afastar dele, isso foi doloroso, eu ainda sinto falta dele, das nossas conversas. Mas acho que não penso mais em Anderson dessa forma, apenas como em um amigo que ficou para trás.

– Que horrível Lou — disse Lucia afagando o braço da amiga, Lilian olhava tristemente para a irmã, ela realmente esperava que Louise estivesse superando Anderson.

– A próxima é você nerd? — perguntou Amber sorridente para Lucia. A garota retribuiu o sorriso quando respondeu:

– Não tive amores intensos como vocês, apenas relacionamentos, uns poucos na verdade, falhos, porém superáveis.

– Ah fala sério, Lu — resmungou Maria Julia — todas nós aqui mostrando o quanto estamos na fossa e você dando uma de durona, pode falar!

– Tudo bem — disse Lúcia sorrindo — eu REALMENTE não tive nenhum relacionamento na minha vida assim tão intenso, nem nunca senti nada assim antes. Apenas um homem faz falta na minha vida há algum tempo e bom... Ele era meu pai, na verdade continua sendo meu pai, seja lá aonde estiver e vai continuar sendo para sempre enquanto meu coração bater. Ele foi quem sempre me incentivou a praticar artes, curso de teatro, os saraus literários. Ele foi quem me deu quase todos os meus livros e me ensinou quase tudo sobre o mundo e a vida, a tocar violão. A maioria das garotas conversa com a mãe sobre quase tudo, eu fazia isso com meu pai — ela já estava com os olhos marejados e a voz embargada — e quando ele se foi senti meu mundo ruir. Eu não sei como é ter uma paixão dessas de perder a cabeça. Mas trocaria todas as paixões da minha vida para ter meu pai de volta. – relatou Lúcia com lágrimas nos olhos, fazendo Louise abraça-la.

– Amiga não tenho palavras que a consolem, mas saiba que aqui somo uma família. Concordam?

– Sim- responderam em uníssono.

– E quem é a próxima? — perguntou Soffia tentando brincar, mas assim como todas as meninas já estava ficando rouca e com os olhos marejados.

– Meu amigo Jonathan — Lily já estava falando sem mesmo perceber — ele cometeu suicídio alguns anos atrás. Eu sei que deveria ter percebido que ele estava deprimido. Mas foi tudo tão de repente... Nós éramos amigos de infância eu também não entendo por que ele nunca me contou o que estava acontecendo, mas — os olhos verdes da menina ruiva vazavam num mar de lagrimas sem fim, Lucia a envolveu num abraço enquanto Louise afagava os cabelos da irmã — ele era tão jovem e tinha uma vida toda pela frente, nós fizemos planos de cursar a mesma faculdade juntos e de repente ele se vai. Eu tive e ainda tenho dificuldades para superar o que aconteceu. Caleb foi quem mais me ajudou, desde então ele tem sido meu anjo da guarda e melhor amigo. A noite quando eu acordava em pânico com pesadelos ele estava lá para me acalmar, antes mesmo de nossos pais. Eu ainda sinto muito a falta de Jonathan, ele foi alguém muito especial, de quem nunca esquecerei. Mas as lembranças ainda são dolorosas para mim.

– Então só falta uma pessoa — disse Louise olhando para Maju

– Ah não! — disse a loira em tom mandão

– O que aconteceu com o " nós estamos nos abrindo e você fica dando uma de durona"? — perguntou Lucia arqueando as sobrancelhas

– Realmente garota mistério, — disse Amber — está na hora de nos deixar ver por trás dessa máscara.

Maria Julia suspirou antes de falar:

– Meus pais morreram muito jovens, acredito que eu deveria ter uns três anos, em um acidente de avião. João e eu moramos com a irmã mais velha de nossa mãe desde então, pois é a única parente viva que temos. Ela e o marido não podem ter filhos, então vocês pensariam que nos trataram com todo o amor e carinho que dispunham. Certo? Mas acredito que eles não tenham nem um e nem o outro dentro daqueles corpos ocos. Nossa vida com eles foi um verdadeiro "Deus nos acuda!" Sobrevivemos tendo um ao outro, eu e João. Sem lembrar o que é um amor de mãe ou de pai, nossos tios sempre exigiram demais de nós, sempre foram muito rigorosos e nos privavam de diversão, festas de aniversários de nossos amigos, entre outras coisas. Vivíamos enclausurados. E agora que estamos provando o sabor de ter pessoas que se importam conosco, bom foi bem difícil no início, mas estamos nos adaptando

– Mas afinal de contas, acho que ainda está faltando alguém — disse Louise em tom travesso.

Fazendo com que Lucia Logo entendesse o que estava fazendo

– Também acho! Além do mais estávamos mesmo precisando de uma história mais fofa e apaixonante para quebrar toda a tensão dessas nossas confissões.

Todas as garotas dirigiram o olhar para Soffia que enrubesceu sem jeito.

– O que? — disse Soffia — mas pensei que eu não contasse.

– Sem privilégios para ninguém Soffi, vamos lá — disse Lilian em tom mandão.

– Mas, o que vocês querem que eu conte? — perguntou a menina acanhada.

– Ah, é óbvio que queremos saber o que você sente pelo meu irmão com todos os detalhes Soffi, ou eu já posso te chamar de cunhadinha? — indagou Maju com uma piscadela, fazendo todas rir.

– Tudo bem — disse Soffia ainda vermelha — bom, desde a primeira vez que eu vi o João achei ele um rapaz lindo e encantador — os olhos da menina ganhavam certo brilho conforme ia falando sobre o garoto — mas quando percebi a personalidade fria e o quanto ele era safado resolvi esquecer e não dar muita bola, afinal de contas eu não queria nada de confusões. Mas acabei me envolvendo mesmo assim e acabei percebendo isso de uma maneira ruim. Foi em uma noite quando estava descendo para fazer o jantar eu o vi agarrar Lúcia- a menina olhou para a morena, mas antes que ela pudesse falar algo Soffia prosseguiu com seu relato- mas, ela deu um tampa na cara dele. Nesse dia percebi que havia certo mistério nele e que toda essa personalidade eram máscaras, assim como as de Maju. Acabei sendo atraída pelo mistério que rondava João-continuou Soffia- mas nunca consegui me aproximar dele para tentar descobri o porquê de tanta frieza e arrogância e então me dei conta de que já estava apaixonada por ele. Eu não entendia a maneira como ele se comportava, uma hora me tratava bem e outra não existia Soffia alguma, mas mesmo assim, já era tarde para voltar atrás. E então no dia em que cheguei com o visual novo, eu vi um certo brilho nos olhos dele que me deram uma certa esperança, mas então ele foi novamente frio e asqueroso. Conversei com Lílian, Lúcia e Amber e depois disso decidi ser forte e que iria enlouquece-lo. Consegui isso na festa e na cachoeira até o momento em que o pequeno incidente aconteceu.

– Uau- disse Louise com um enorme sorriso- Vocês são uns fofos. Falta se entenderem agora.

–Não posso. — afirmou Soffia.

– Mas por que? – falou Maria Julia exasperada.

– Porque eu não me sinto segura, acho que ele quer brincar comigo, se não ele jamais teria retribuído o beijo – afirmou Soffia

– Mas... O QUE? – gritou Maria Julia- Olha Soffia, ele realmente errou, mas você não sabe o que ele passou essas últimas semanas. Eu sim sei, eu senti a amargura, as mágoas. Meu Deus, eu vi os olhos dele marejarem, sabe o que isso significa? Não, você não sabe. Foi uma tortura ver meu irmão desse jeito, sentir tudo o que ele sentiu. Não quero isso pra ele, se você vai dispensá-lo faça isso logo. – terminou de falar Maria Julia com os olhos brilhando de raiva.

– Como assim sentir o que ele sentiu? Vocês são sensitivos? Por que? – Perguntou Lúcia com um tom curioso.

– Acho que falei mais do que devia, mas não quero falar sobre isso. — afirmou a loira.

– Gente vamos nos acalmar? – disparou Líliam

– Meninas, eu contei muito sobre mim hoje. Preciso de um tempo. – falou Maria Júlia dando uma última olhada para Soffia, que estava com um semblante assustado, antes de sair do quarto.