Notas iniciais
Olá meus amores, que saudades! Esse capítulo tá caralhento. Aproveitem!

Caleb já não agüentava mais de tanta ansiedade, faziam apenas quinze minutos que o seu vôo havia decolado. Ele estava inebriado desde que Antoni lhe entregara a passagem para São Paulo. Não parava de pensar em Lucia, em suas brigas e teimosias quando se conheceram e no amor que tudo aquilo se transformou e acabou percebendo que um enorme sorriso crescera em seu rosto. Ele não tinha dúvidas, era ela quem queria ao seu lado para o resto da vida

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Ficar ali era seu único refúgio, aquelas paredes eram suas confidentes. Lá naquele silêncio ela podia pensar em toda a saudade que insistia em ferir seu coração. Os olhos pesavam, mas quando fechados o dourados cintilante e intenso tomavam conta de sua lembrança, além do calor daquele abraço sufocante que lhe trazia segurança. Fazia dias que ele partira, mas parecia que havia sido anos e ela não entendia como em menos de seis meses ela passou a amá-lo tão intensamente. O último contato dos dois à deixou em alerta, afinal o tom da voz dele mostrava claramente que ele escondia algo que o deixava nervoso e triste. E por mais que sua razão dissesse para ficar tranqüila, seu coração insistia em ficar inseguro.

Batidas leves na porta a despertaram do torpor de pensamentos que a cegavam naqueles últimos dias. Ela limpou delicadamente as lágrimas e estranhou sua voz quando pediu que a pessoa entrasse.

— Querida, — disse ela abrindo parcialmente a porta. Seu semblante estava preocupado e misterioso. Lúcia levou um segundo para perceber que ela não estava com a roupa do hospital, mas sim com uma calça caqui brancas sandálias e uma blusa fina verde. Seus cabelos estavam soltos e seu rosto tinha um pouco de maquiagem – como está se sentindo hoje?

— Ainda indisposta – Lúcia falou sussurrando, como se estivesse com medo de admitir em voz alta. – Eu apenas sinto falta das minhas amigas e do Caleb.

— Meu amor, — Ana sentou-se ao lado da filha abraçando-a. – eu entendo que você gostaria de estar perto de seus amigos, mas a escolha de permanecer aqui é sua. Eu saberia me virar sozinha, eu já vivi minhas aventuras e gostaria que você vivesse as suas.

—Eu sei, eu sei. Mas eu não conseguiria deixar de estar ao seu lado. Não quando eu já perdi duas pessoas tão amada, você é minha família mãe. Só me restou você. – respondeu a garota com as lágrimas despontando nos cantos dos olhos.

— Tudo bem querida, eu te entendo. Mas se essa é sua escolha, você tem que aprender a viver com ela, pois se não quem vai perder a única família que tenho sou eu. Lúcia você está definhando.

—Não mamãe, eu estou... – Lúcia não pode terminar, pois sua mãe colocou um espelho comprido em sua frente. Aquela imagem era assustadora, a garota que estava sendo refletida ali era magra, pálida, com olhos vermelhos e inchados, olheiras escuras e cabelos despenteados. Seus olhos estavam opacos e escuros, e seu semblante era frio e sofrido.

— Vê o que eu vejo? Você perdeu o brilho, o sorriso e a vida parece querer fugir de você. E isso não me alegra. – Ana disse suspirando. Ficaram em silencio por alguns segundo, mas para Lúcia aquele silêncio era duro e cheio de significados. – Hoje resolvi ir a um show e preciso que você me acompanhe.

— Sem chances mamãe, eu não sou uma boa companhia e...

— Sem mais Lúcia. Nunca imaginei que você se recusaria a ir ao show da banda preferida. – Ana falou fingindo indignação

— Não... Como é que é? Não me diga que...

— Sim, os Los Hermanos farão um show aqui. Hoje no fim da tarde e eu consegui duas cortesias com um paciente meu. — Não demorou em Lúcia estar gritando e dando pulinhos no quarto, era tão bom ver os olhos de sua menina ganhar um brilho novo, assim como um sorriso felicidade preencher seu rosto. Logo Ana acabou se juntando na comemoração.

— Oh... — exclamou Lúcia parando com sua euforia. — É a turnê de despedida mamãe.

— Sim, eu sei. Por isso que nossos lugares são na área VIP. — e novamente os gritos e pulinhos tomaram conta da casa. — Ok, agora se arrume. Quero você linda hoje.

— Tudo bem mamãe. Você pode escolher uma roupa pra mim enquanto eu tomo banho?

— Oh claro princesa. Não demore.

A garota correu para o banheiro, enquanto Ana preparava tudo para deixar a filha linda. Pegou o secador, o modelador e a maquiagem. Abriu o armário e começou a verificar as roupas da filha. Tirou de lá um vestido nude que ficava acima do joelho, de alças e esvoaçante. Do mesmo modo tirou uma jaqueta preta curta com mangas até os cotovelos e uma bota preta de cano curto e sem salto. Depois de quase meia hora, Lúcia saiu do banheiro. Ana reparou que ela estava mais relaxada e que a garota tinha hidratado o cabelo. Um suspiro escapou dos seus lábios, afinal transformar sua filhinha seria um momento bem sério e trabalhoso.

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— Bruno você tem certeza de que eu poderei fazer isso? — novamente Caleb perguntava. Quando ele chegara a São Paulo, seu amigo do colegial, que também era produtor do show dos Los Hermanos, já o esperava no aeroporto. Ao que parecia, tudo já estava resolvido e naquele momento Caleb estava indo conversar com um dos integrantes da banda.

— Caleb confie em mim. Já falei com o produtor deles e... — Bruno foi interrompido pela entrada de um homem de cabelos castanhos acobreados, que se emaranhavam em cachos confusos, e uma notável e bem cuidado barba, da mesma cor de seus cabelos. Ele tinha grandes olhos castanhos, cansados e gentis. Era um pouco mais baixo que Caleb e vestia uma camisa xadrez.

— Oh, Caleb esse aqui é o Rodrigo Amarantes. Ele que irá cantar a música que você escolheu.

— Oi, me chamo Caleb!

— Oi, você é corajoso hein? Você deve amá-la demais para estar se expondo dessa maneira.

— Sim eu a amo e ainda acho que tudo o que faço por ela é pouco comparado à felicidade que ela me faz sentir.

— Uau parece que a musica que você escolheu é perfeita para a situação. — Rodrigo comentou com um sorriso satisfeito. Ficaram conversando ali sobre como o pedido seria feito, mas só Caleb sentia o coração palpitar nervosamente no peito. Aquele dia seria mágico e inesquecível.

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Lúcia já não se agüentava de ansiedade quando as luzes do palco se acenderam. Ela ainda não acreditava que veria seus músicos preferidos ali, tão pertinho. Todos começaram a gritar quando a guitarra de Camelo entoou as primeiras notas de Morena. Até mesmo sua mãe parecia empolgada dançando e se divertindo com a música.

Como se estivesse acordando de um sonho, ela pode ouvir os últimos acordes da musica e Camelo saudar a platéia. Aquela banda significava tanto para ela e então mais saudade assolava seu peito. Foi inevitável não se emocionar quando Rodrigo começou a cantar “a flor", afinal seu pai sempre lhe cantava aquela música antes de dormir. Lúcia se permitiu sentir aquela musica intensamente e quase pode ouvir a voz do seu pai lhe sussurrando cada palavra. E novamente, ela despertou de seus devaneios, porém agora seus olhos ardiam e um nó doía em sua garganta. Procurou os olhos da mãe, mas encontrou Rodrigo olhando em seus olhos, com um sorriso presunçoso e um tanto sapeca.

No entanto aquela música relembrou o que a garota estava sentindo momentos antes. Um poço sem fundo de saudades do seu amor. Às vezes ela não conseguia entender como todo aquele amor adentrou o seu coração em tão pouco tempo. Mas a verdade é que ela não agüentaria mais passar tanto tempo longe de Caleb e relembrar aquilo a fez querer chorar novamente.

"Eu não, prefiro assim com você, juntinho sem caber de imaginar, até o fim raiar".

Ana, como se lesse os pensamentos da filha lançou-lhe um olhar curioso. Que foi respondido com um sorriso forçado de Lucia. Os últimos acordes foram tocados e apenas o teclado ficou tocando em um ritmo lento e cheio de sentimentos. Lúcia ouviu a voz de Rodrigo ecoar nos microfones. Mas ele não cantava:

— Boa noite São Paulo. — saudou Rodrigo enquanto a platéia ia a loucura. — Hoje é uma noite muito especial para nós, da banda Los Hermanos, para esse publico maravilhoso e para duas pessoas em especial.

— As nossas musicas sempre procuram falar de amor, em seus diferentes momentos. Hoje conheci um rapaz que deseja ter seu último romance, que durará por anos, décadas e em outras vidas. Ele quer viver intensamente perdido na imensidão cinza dos seus olhos. — e então Rodrigo olhou diretamente nos olhos de Lúcia. Aquilo fez seu coração doer de saudades, apenas Caleb falava sobre seus olhos. Ela precisaria ir atrás dele ou ele nunca mais poderia viver seu ultimo romance.

Logo que o primeiro acorde da música “Último Romance” começou, as imagens de Lúcia e Caleb começaram a passar no telão de fundo. Frases e poemas acompanhavam cada foto. No começo do clip era perceptível que os dois não se entendiam. Mas o que chamou atenção de Lúcia foi à foto da cachoeira. Uma foto, tirada por um de seus amigos, do momento em que ela e Caleb tiveram seu primeiro beijo. As outras já eram mais felizes. Eles na casa em Minas, na faculdade, no show de Thomas. Os poemas eram de grandes autores, mas o que fez Lúcia se emocionar foi o pequeno 'Eu te amo'. Tão pequeno, mas enorme de sentimentos.

Logo Caleb apareceu com uma flor azul nas mãos, de longe parecia uma rosa. A música ficou ao fundo assim que seus olhos se encontraram. Ele pegou o microfone oferecido por camelo e começou a falar:

— Lu, meu amor. Antes de te conhecer, eu mesmo acharia tudo isso uma loucura. Mas, tenho percebido que loucura maior é não viver cada momento da minha vida ao teu lado, pois mesmo agora, quando a distância entre nós é tão pouca, meu coração chega a doer por não poder te tocar. Você trouxe cor e luz pra minha vida, você me transformou em um homem melhor, um homem sem medo de amar. E tudo o que eu quero é poder te fazer feliz todos os dias, até os que tivermos depois dessa vida.

Todo o público estava em silêncio, alguns flashes de fotos clarearam ainda mais a noite, mas aquilo não importava, parecia que eram só ela é o seu amor, tão lindo em cima daquele palco que parecia quase um anjo que descera ali apenas para buscá-la. E tudo o que Lúcia mais queria era ir com ele. Ela sentia cada palavra em seu coração. O nó estava em sua garganta novamente, seu peito doía, mas pela primeira vez em muito tempo aquilo era pura felicidade.

Lúcia olhou para sua mãe ao lado, que estava com sorriso culpado. Ela com certeza haviam combinado aquilo com Caleb por suas costas.

— Lu, meu amor — disse Caleb novamente, com os olhos brilhando e a voz carregada de sentimentos — O que eu quero saber é se você aceita... Se você me aceita para sempre. Lúcia, você quer casar comigo?

Lúcia já sentia algumas lágrimas escaparem por seus olhos. Ela iria explodir de felicidade a qualquer momento. Olhou para mãe que a olhava com brilho no olhar.

— Está na hora de você viver a sua aventura minha menina — disse Ana a abraçando e beijando o topo de sua cabeça.

A garota não conseguia dizer uma palavra sequer, apenas queria ir até o amor da sua vida e dizer milhões de SIM para aquele par de olhos dourados. Foi quando um dos produtores apareceu ao seu lado e a conduziu até a banda e Caleb. Lúcia já não tinha palavras, além de tudo, toda a saudade que sentia queria apenas uma coisa. Caleb. Ela o abraçou forte por um longo tempo.

—Você é um louco. Mas um louco que eu amo. E eu não sei o que faria se não pudesse passar todos os meus dias com você. Quero ser feliz ao teu lado sempre.

Então aquele sorriso puro e genuíno que ela tanto amava apareceu nos lábios dele. Ela pode ver naqueles olhos dourados o alívio e a felicidade. Como ele poderia pensar que ela responderia outra coisa além de sim?! Isso nem ela conseguiram descobrir porque seus lábios foram invadidos pelos dele, Lúcia sentiu tanta falta da doçura daqueles lábios, dos seus beijos lentos e demorados. E pensar que agora poderia tê-los todos os dias.

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Soffia não lembrava te ter visto a amiga tão destruída antes. Mesmo nos mais logos anos de amizade, mesmo nos mais terríveis términos de namoro. Ela sabia o quanto Amber amava seus pais e seu irmão, o quanto Lucas significava para ela. Mas ver a garota tão frágil, deprimida e abatida deixava seu coração apertado. As bolsas escuras sob os olhos de Amber, sua palidez e magreza estavam muito acentuadas desde que a menina havia voltado com Luiz do velório

— Ta tudo bem Soffi? — perguntou Maju arqueando as sobrancelhas para a jarra de suco com cinco ou seis colheres de açúcar a mais que Soffia estava adoçando.

— Sim, desculpe. Eu só estava pensando. Os meninos já terminaram de levar as coisas lá para trás?

— Acho que sim. O Luiz foi tentar tirar a Abby do quarto.

— É tão horrível ver ela desse jeito. Eu queria poder dividir toda a dor com ela.

— Eu te entendo. Durante nossa convivência aqui, percebi muitas coisas. E uma delas é que realmente nos tornamos uma família. Me parte o coração ver a Abby desse jeito e eu jamais poderei e nem quero imaginar a dor que ela sente. Não sei o que seria de mim se perdesse o João e...

— Nem fale sobre isso- disse Soffia batendo três vezes na porta de madeira..- é melhor deixar essa tristeza de lado. Afinal se continuarmos desse jeito, logo estaremos nos debulhando em lágrima.

Quando as duas saíram pela porta dos fundos com a jarra de suco e algumas panquecas, perceberam que as ruivas, João e Thomas havia feito um bom trabalho limpando o quintal e arrumando uma enorme toalha dobre a grama com as outras comida que Soffi havia preparado. Luiz e Amber também já estavam lá. Ele tentando animá-la e ela ainda apática

Soffi podia ver a tristeza da perda nos olhos da amiga. Mas ela é todos os outros a fariam perceber que ela não estava sozinha. Que jamais passaria por aquilo sozinha. Até mesmo Nicolas tentava oferecer à garota chocolate quente ou algumas frutas.

— Ei Thomas. Por que não toca algo para a gente? — ela perguntou indicando o violão ao lado do garoto. Ele pegou o violão e dedilhou uma melodia triste e cheia de sentimentos, mas logo foi trocada por uma melodia alegre. Logo todos cantavam a musica Holiday do Green Day, até mesmo Amber já sorria enquanto era abraçada por Luis. Ficaram ali durante toda à tarde, comendo, conversando, cantando e brincando.

Todos estavam bem entretidos, menos Líliam que parecia estar viajando. A garota encarava o chão há horas e logo Soffia também o fez a fim de descobrir o que havia de tão interessante ali. Mas na verdade, todos sabiam por que o humor da ruiva estava daquele jeito e Soffia sentia pena da garota, por que ela mesma havia escolhido aquele caminho. Olhou em volta e percebeu que Louise também encarava Líliam, mas ao contrario da pena que Soffia sentia, bem ali, no rosto de Louise a raiva predominava, deixando a garota vermelha como seus cabelos.

— Nicholas, ei, psiu! – murmurou Soffia com intenção de chamar a atenção do advogado. Vendo que não fazia efeito, a garota pegou um pãozinho e jogou na direção do garoto. Mas o pãozinho voador acertou a cabeça de Maria Julia que cerrou os olhos para procurar o possível culpado. Soffia vendo a burrada que cometeu tentou desviar o olhar, mas seu possível nervosismo a denunciou.

—VOCÊ – gritou a garota apontando o indicado e cortando a música, recebendo olhares assustados dos presentes. – COMO PODE? EU HIDRATEI MEU CABELO HOJE SOFFIA!

— Desculpe, eu ... eu...- mas antes que a garota pudesse concluir sua fala, Maria Júlia já havia jogado um pedaço de bolo de chocolate no rosto de Soffia. Todos seguraram a respiração, afinal Soffia parecia estar a ponto de explodi. Mas uma gargalhada alta e melodiosa, cheia de tremeliques quebrou o silencio e a tensão. Louise se jogava por cima de Nicholas gargalhando feito louca. Todos a olhavam assustados, porém logo Amber seguiu o exemplo da amiga. Gargalhou até a barriga doer seguida pelos amigos e pelas duas loucas que estava cobertas de comida.

Soffia olhou em volta e percebeu como a vida era boa. Naquele ano ela conheceu o amor de sua vida e uma nova família. E quando ela pensou que não tinha nada, Deus lhe deu tudo. Admirou mais um pouco toda aquela situação, toda aquela felicidade e soube que jamais se afastaria daquelas pessoas. Pegou mais um pedaço de bolo e jogou na direção de Nicholas, afinal o pãozinho voador era para lhe chamar atenção. Mas novamente sua pontaria lhe traiu e o bolo acertou os cabelos loiros de João Pedro. Louise gargalhou mais alto e tremeu bem mais, enquanto João fechava os olhos e contava até dez.

— SOFFIA, VOLTE AQUI! – O grito foi estridente e a garota pôs-se a correr. Aquele dia seria longo e engraçado. Todos pareciam bem, todos estavam em paz. Ou quase todos.

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A pouca luz já era notável assim como o vento frio do anoitecer. No entanto ela não conseguia mexer nenhum músculo se quer para levantar dali e se aconchegar no seu quarto. Já fazia horas que seus amigos haviam entrado, mas ela continuou ali, olhando para o chão. Seus pensamentos e sentimentos guerreavam em seu interior, deixando-a distante de tudo. Sua confusão era palpável e a dor também. Seu coração parecia não ter forças para bater ou para se recuperar de todos os tombos que tomou. Se apaixonar era algo muito complicado e ela sempre soube disso. Avisou isso para Louise uma vez, contudo ela não conseguiu fugir da dor.

James havia acabado com todas as esperanças de ter um amor duradouro, ele pisou em todos os seus sonhos e encantos, estilhaçou cada pensamento romântico que habitava dentro dela. Mas mesmo assim o amor que nutria por ele continuava lá, intenso e arrebatador, o seu coração ansiava por ele, por seu toque, sua voz, seu cheiro. E aquilo só trazia mais raiva e amargura para a vida dela.

É certo que uma faísca de esperança tinha chegado a sua vida, na forma de seu namorado Bernardo, mas o namoro dos dois sempre parecia um erro aos olhos de todos e talvez realmente fosse. No entanto seu coração parecia ter paz e não doer na presença dele. Bernardo era alívio e calmaria, e no momento era isso que ela sempre buscava. O garoto se mostrava apaixonado e carinhoso, sempre fazia suas vontades e lhe causava sensações quentes e cheias de desejos. Mas sempre que o dia acabava seu único pensamento era James e sua partida para Londres.

Aquela tempestade de sentimentos estava acabando com sua sanidade e seu equilíbrio. Seu rendimento na faculdade havia caído e ela já não era mais tão elogiada por seus professores. Sua criatividade para a escrita ou fotografia estava um desastre, assim como toda sua vida. E, Deus, como ela sentia falta da sua casa no Rio de Janeiro e do tempo onde a sua única preocupação era com qual boneca brincar.

AMANHÃ! AMANHÃ! AMANHÃ! Essa era a palavra que entoava sua guerra particular. Amanhã seria o dia em que ele iria embora. Amanhã seria o dia em que ela e Bernardo comemorariam um mês de namoro. Amanhã seria o dia em que ela descobriria se havia sido aprovada no semestre. Amanhã era o dia em que sua vida estaria cheia de expectativa e o dia em que tudo iria ruir.

Líliam fechou os olhos e tentou esvaziar a mente, tentou deixar de sentir tudo ao mesmo tempo, mas todos aqueles sentimentos lhe sufocavam. Sentiu lágrimas quentes descerem pelo seu rosto, assim como passos delicados chegarem perto. A brisa estava fria, fazendo-a estremecer. Novamente sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Não precisou abrir os olhos para saber que a irmã gêmea a olhava intensamente. Por alguns minutos ficaram em um silencio acolhedor e cheio de significados. Aquilo acalmou um pouco a guerra presente na alma de Líliam. Depois de alguns minutos Louise se pronunciou:

— O que ta acontecendo com você, hein? – Líliam abriu os olhos e encarou a irmã. Os olhos amarelos estavam apreensivos e preocupados. – Ficou aí a tarde toda e nem percebeu quando saímos. O que ta havendo? Eu sei que não sou o Caleb, mas estou aqui para ouvir você.

—Eu precisava ficar sozinha e pensar. Decidir o que fazer. Mas parece que as respostas fogem de mim e tudo o que eu quero que aconteça se esvai como fumaça.

— Eu sei que o momento é difícil e eu jamais tentaria entender o que você está sentido, por que jamais me senti assim. – respondeu Louise – Mas eu penso que a vida tem sua maneira de mostrar o quanto somos frágeis.

— É eu tive que aprender de uma maneira um tanto perturbadora. Sinceramente? Eu não sei como sair desse conflito de sentimentos.

— Sinceramente? Você não sabe sair por que você é a única culpada. – Louise disse com um suspiro, seus olhos estavam mostrando decepção e raiva. Sua feição estava um tanto entediada como se isso fosse uma verdade que todos já estavam fartos de saber.

— Penso então que estou louca. – respondeu Líliam com indiferença e acidez- Eu? Culpada? Em que momento você chegou a essa conclusão Louise? No momento em que James mentiu pra mim ou quando ele disse que só se aproximaria de nós para nos machucar?

— Não quis dizer isso Líliam, mas você complicou tudo com esse maldito orgulho. Ele já...

— NÃO INTERESSA O QUE ELE ACHA OU PENSA LOUISE. A ÚNICA COISA QUE INTERESSA AGORA É QUE MINHA IRMÃ ESTÁ ME CULPANDO POR ALGO QUE EU NÃO FIZ- gritou Líliam, ficando de pé em um salto. Sua respiração estava ofegante e seu rosto vermelho. Ela não estava entendo o porquê de Louise estar lhe machucando daquela forma.

— Você apenas precisa ouvir a verdade, nada mais justo que seja da minha boca. – Louise respondeu calmamente contrariando toda a fúria presente em seu olhar. Ela ficou de pé e cerrou os punhos. Ficaram ali se encarando por alguns segundos.

— Que verdade você quer me contar? Quer me contar que James me enganou? Que me usou para satisfazer o nosso avô? QUE ELE DISSE QUE ME AMAVA QUANDO NA VERDADE ESTAVA COM INVEJA POR EU SER A QUERIDINHA DO VELHO NOTTINGHAM? ADIVINHA LOUISE? EU JÁ SEI DISSO E ISSO ME MATA TODOS OS DIAS. – Líliam respondeu em um só fôlego. Seus olhos estavam marejados e cheios de dor, como se Louise estivesse apertando em um machucado, uma cicatriz.

— SIM, ELE FEZ TUDO ISSO. MAS ELE CONFESSOU, ELE PEDIU PERDÃO, ELE PASSOU TODAS AS NOITES DORMINDO ENQUANTO SEGURAVA SUA MÃO NAQUELE MALDITO HOSPITAL – Louise parou. Puxou a respiração e continuou um pouco mais calma. – E quando ele não pode ficar com você, James se enfurnou dentro do seu quarto. Ele chorou todas as noites, ele teve pesadelos e acordava gritando pelo seu nome. Eu garanto a você que ele sofreu e ainda sofre por você. E apesar de toda a sua rejeição, ele ainda a ama tão intensamente como na primeira vez que a viu.

— Eu não consigo, eu...

— Deixe seu egoísmo e orgulho de lado. Eu bem sei que nossa família é assim, mas isso já é doentio. Eu também sei que ele machucou muito você, mas já chega de tanto sofrimento. Ele já pagou por isso.

— Eu penso que não e ainda...

— Líliam deixe de tolice. Ele já sofreu e se quer saber você é tão egoísta quanto nosso avô- sentenciou Louise com desprezo. Líliam a olhou com indignação, deixando sua boca no formato de um “O”, enquanto buscava palavras pra responder. Depois de minutos sua voz saiu esganiçada e furiosa:

— Como? COMO OUSA ME COMPARAR COM AQUELE SENHOR? COMO OUSA LOUISE?

— Desculpe lhe tirar do seu castelo encantado, mas eu penso que todos nós somos como ele. E você é egoísta por que também usa o Bernardo, por que fez ele amar você enquanto seu coração ama outro. E advinha? Ele sofrerá a mesma dor que James lhe fez passar. Parabéns Líliam, você conseguiu ser pior que o James e o vovô juntos.

— Eu não faria isso com Bernardo, eu... Eu gosto dele.

— Acredito que a fase de gostar já passou há muito tempo. – Louise conclui sua frase e se apoiou em uma das árvores do quintal. Ela poderia sentir os olhos de Soffia e Nicholas observando cada detalhe daquela difícil conversa. Eles a alertaram, eles realmente se preocupam, mas a garota estava adiando essa conversa, pois ver o quanto estava machucando a irmã lhe doía muito. Nunca desejou tanto a presença de Caleb como naquele momento.

Líliam controlava sua postura. Mas seus olhos já não conseguiam segurar as lágrimas. A dor de todas aquelas palavras a sufocavam e mesmo puxando o ar várias vezes, a sensação de estar morrendo aos pouquinhos se intensificava. Voltou a encarar a irmã e ali também tinha dor.

-Por que me machuca tanto? – ela sussurrou, mas Louise foi capaz de ouvir, afinal aquela era a pergunta que há alguns instantes estava se fazendo.

— Se quer saber, é por amar você. Você precisa ser machucada novamente pra cicatrizar do jeito certo. – Louise tinha os olhos marejados, no entanto não deixou nenhuma lágrima cair.

-Acho que preciso...

— Não, você não precisa. Você ainda está ferida e magoada. É melhor que dei um tempo a ele também. Um tempo pra você. – Louise se aproximou da irmã e lhe abraçou.

— E se eu perdê-lo? –sussurrou a garota em meio aos cabelos ruivos da irmã.

— Você não irá. Jamais irá. Penso que você já deveria saber disso. – Louise se afastou e depositou um beijo na testa da irmã. Líliam não se lembrava de como a garota havia amadurecido tanto, mas estava feliz com a conversa que teve com ela. Novamente ele voltou para o seu lugar. Pensou em todas as coisas que haviam acontecido naquela conversa e decidiu que amanhã seria um dia para resolver sua vida. Depois de um tempo percebeu que a solidão seria uma boa amiga naquela situação.

Notas finais
Beijinhos e até o próximo :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.