Madness Of Perception

1 Capítulo Único


Madness of Perception

Sensação é um processamento físico

Percepção é um processamento psicológico

Você abre as pesadas portas e entra no salão. O que você vê? Máscaras e mascarados de diversas cores, mais tons do que você é capaz de contar, certo? Errado. Seus olhos são capazes de distinguir apenas três comprimentos de ondas de luz e a consequência disso é que sua visão é capaz de sentir apenas três cores: azul, verde e vermelho. Então como você consegue perceber tantas cores diferentes, você pode se perguntar. A resposta é simples: há uma pequena diferença entre sentir e perceber.

Você sente com seus sentidos. Com seu tato, você sente a seda sobre seu corpo e o corpo alheio. Com sua visão, você sente as ondas de luz que o rodeiam. Com seu paladar, você sente as substâncias químicas que compõem o alimento que coloca em sua boca. Com seu olfato, você sente o cheiro dos suaves e fortes perfumes que os usam os mascarados dançando ao seu redor. Com sua audição, você sente as ondas sonoras que abandonam os instrumentos perfeitamente tocados.

Mas você percebe com seu cérebro. É seu lobo occipital que processa quantos e que tipos de cones foram ativados pelas ondas de luz e faz com que você veja tantas cores. É seu lobo parietal que processa e interpreta os estímulos neurais causados pela pressão da seda sobre sua pele. É a ínsula que recebe os estímulos causados na língua pelo alimento ingerido e, de acordo com as papilas gustativas ativadas, interpreta o tipo de sabor. São várias as áreas do seu cérebro que recebem e processam o estímulo do cheiro e fazem com que você aproveite ou reprove a fragrância sentida. E é lobo temporal que interpreta os estímulos neurais causados pelas ondas sonoras, fazendo com que você goste ou se incomode com a música.

Vê? Há uma diferença entre percepção e sensação e é da interação desses dois processamentos que nasce sua visão de mundo, sua interpretação da realidade. Ou você realmente acredita que o que você vê é a realidade nua e crua? Porque, acredite, não é. O que você observa diante de si e ao seu redor é a sua interpretação subjetiva, é a sua realidade. Pare e pense. Veja cada mascarado no salão. A realidade de cada um deles não é a mesma que a sua. Isso não é uma opinião, é um fato.

O dourado que você vê no lustre não é o mesmo dourado que o mascarado à sua direita vê e o dourado deste, por sua vez, não é o mesmo do da esquerda. Cada ser nesse baile tem sua própria visão de mundo, sua própria realidade. Isso leva a questionamentos, não?

Por exemplo, são reais as sombras que você percebe ao seu redor ou são apenas coisas da sua mente, uma falha de comunicação entre a sensação e a percepção? Ou a voz que sussurra breves segredos e ameaças em seu ouvido, ela faria verdadeiramente parte da realidade? E você mesmo, sua própria mente? Estaria você tão perdido em sua interpretação que já não consegue mais receber pistas da realidade?

Perdido sem nem ao menos perceber.

Afinal, o que garante que o baile ao seu redor está realmente acontecendo, que não é apenas um delírio causado por sua sobrecarregada sensação e sua hiperativa percepção? O que garante que você realmente está aí, que está vivo, que existe?

Por acaso seria a longa onda de luz que os cones de sua retina percebem como vermelho? Esse vermelho tão intenso de seu coração destruído...

E de sua alma roubada...

O mundo pode ser preto e branco e ainda assim você o vê colorido

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!