Madness

6 Síndrome do Coelho Branco e os gêmeos Alice


Notas iniciais
Eu sei que ficou curto, mas :(

Eros ignorava completamente o mundo a sua volta enquanto caminhava. De muito longe podia-se ouvir a música que tocava em seus fones de ouvido, o que parecia atrair tantos olhares quanto suas características... Peculiares. Nem de longe ele era um garoto normal. Seus olhos eram de um amarelo-margarida tão intenso que era impossível não se perder dentro deles. Os cabelos do garoto eram naturalmente cinza, culpa de uma raríssima síndrome com a qual nascera, que além de modificar os genes da cor dos olhos e cabelo, também lhe dera um rosto absurdamente anguloso e bonito. Era surreal.

Porém para o rapaz, era um incômodo e tanto ser tão diferente. Ninguém queria conversar com ele, ninguém queria saber quem ele era ou se ele poderia ser um amigo em potencial. Eros fora uma criança solitária e melancólica até a chegada deles. As únicas pessoas com quem ele mantinha um forte laço. Allen e Hime Wess se aproximaram de Eros meio por acaso, e um descuido do destino perpetuou a amizade dos três por mais de dez anos. No momento, o garoto de olhos de gato caminhava a procura deles, olhando lentamente da direita para a esquerda, e da esquerda para a direita a procura dos dois loiros.

Os gêmeos eram absolutamente iguais. Cabelos nas omoplatas, olhos verdes imensos e a pele salpicada por sardas claras. Como já era de se esperar, os Wess usavam e abusavam da androgenia, usando-a para todo o tipo de brincadeiras e confusões com a mente alheia.

–Eros! – Uma voz feminina que arrastou o O várias oitavas acima do que seria recomendado chamou a atenção do rapaz, que só não caiu sentado por ver Hime a sua frente por que Allen o segurou pelos ombros.

– Calma aí garotão. – Allen riu-se, os olhos verdes brilhando com malícia. – Por mais que seja meu amigo ainda é proibido tocar na minha irmã.

O rosto de Eros tornou-se escarlate enquanto ele pensava em algo Inteligente para responder ao amigo. Como não conseguiu, contentou-se com um suspiro frustrado.

– Quero comer. – A garota balançou-se na ponta dos pés, sorrindo largamente. – Quero comer batata-frita.

– Então vamos comer batata-frita. – Allen passou o braço afetuosamente nos ombros de Eros, dando uma piscada para a irmã. – Com muita maionese.

– E queijo. – Eros sonhou. – Muito queijo.

– Perfeito! – Hime bateu palmas, deliciada. – Agora, onde vamos comer?

– Humm... – O rapaz de cabelos cinza balançou a cabeça, pensativo. – Lá.

Ele apontava para uma pequena lanchonete que exalava um cheiro absurdamente convidativo, e que parecia atrair vários clientes.

– Para mim está ótimo. – O uníssono dos gêmeos foi animador.

– Ora, foi um milagre não terem feito coro desde o momento em que nos encontramos. – Eros ironizou. – Geralmente vocês falam em uníssono que até parecem um só.

Hime botou a língua para o garoto, dando-lhe as costas e marchando a passos largos para dentro da lanchonete, acompanhada por um atônito Eros e um risonho Allen.

Enquanto a garota pedia as batatas com todas as especificações e detalhes possíveis, os rapazes jogavam conversa fora sobre o primeiro fato aleatório que vinha na mente de ambos.

Quando a comida chegou, os três atacaram o prato de batatas com uma voracidade que chamou a atenção dos clientes, que olhavam torto para a mesa.

– É tão engraçado. – Allen comentou, despreocupado. – É muitíssimo engraçado.

– Realmente. – Hime concordou.

– Eu não acho engraçado. – Eros respondeu, meio chocado. – Acho terrível para dizer a verdade.

– Ora, tem vergonha de ser quem é? – Hime perguntou, erguendo a sobrancelha. – Essa é nova para mim.

– Não, idiota. – Os olhos amarelos do rapaz faiscaram. – Eu só... Não gosto que me olhem assim. Só isso.

– É inevitável que olhem diferente quando a pessoa é você. — Allen deu de ombros. – É só olhar para si mesmo. E o mesmo pode-se dizer de nós.

– Verdade. – Hime molhou cuidadosamente uma batata no pote de maionese. – A aparência é o mais importante para eles. E é por isso que os ignoramos.

Aquela frase deixou Eros pensativo. Por que ele sentia tanta necessidade de passar invisível? Por que ele não usava aquela beleza absurda para conquistar as pessoas e ser amado?

– Por que elas não gostariam de mim por quem eu sou e sim pelo que veem em mim. – Ele concluiu, acidentalmente declamando a frase em voz alta.

– Um verdadeiro poeta. — Os gêmeos explodiram em gargalhadas.

– Olha só quem fala. Falam. – O garoto se atrapalhou com as palavras. – Acabaram de montar uma nova filosofia e riem das minhas conclusões.

– Nós podemos. Você não. – Aquilo só fez os gêmeos rirem ainda mais.

Jogando as mãos para o ar, Eros desistiu e começou a rir junto com eles. A companhia dos Wess sempre fazia com que ele se sentisse bem. Muito bem.