Madly Living
2 ♛ - Conhecendo Sua Nova Vida
Notas iniciais
A primeira coisa que Rapunzel pensou ao parar no estacionamento da escola Mahhi Winn, não foi sobre a escola ser absurdamente grande. Ou então sobre como a floresta que rodeava o campus parecia totalmente obscura – apesar de ser dia – e ao mesmo tempo tão bonita. Ou então sobre como ela estava absolutamente nervosa diante daquela nova vida que estava para enfrentar.
Não. Na verdade, o que Rapunzel pensou quando o carro estacionou foi mais algo como:
“Como é que eles esperam que eu viva nesse calor dos infernos?”
O Rio de Janeiro, de onde Rapunzel vinha, era muito quente. Muito mesmo. Porém, o Rio de Janeiro não era nada comparado ao Alabama. Como as pessoas sobreviviam?
Ela se lembrava que, no Rio, nos dias quentes, ela voltava suada de sua corrida. Aqui, no Alabama, o calor parecia dobrar, e mesmo sentada dentro do carro com a janela aberta, ela suava o mesmo tanto de dez corridas ao redor da cidade. O suor lhe pingava do rosto e Rapunzel sentia como se tivesse acabado de sair de uma piscina – uma piscina grudenta e fedida, mas, ainda sim, uma piscina.
— Calor, não? – tentou conversar com o motorista do carro. Sua mãe não havia viajado consigo, no que havia resultado em Rapunzel sendo acompanhada a viajem toda com o homem que a levaria até a escola.
O homem riu.
— Você não viu nada – e riu. Ao ver a cara de assustada de Rapunzel pelo espelho, riu mais um pouco – Brincadeira. Faz tempo que não faz calor assim. – e riu mais um pouco ao ver Rapunzel suspirar aliviada.
Depois de alguns minutos, os dois finalmente resolveram sair do carro. O motorista abriu o porta malas – que era onde suas malas estavam -, e, surgindo do além, dois homens apareceram para levarem suas cinco malas.
— Eu tenho que te levar até a secretaria agora. – falou o motorista do carro. Rapunzel assentiu, e os dois foram adentrando a enorme – enooorme – escola.
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Rapunzel suspirou. Finalmente, sozinha.
O motorista havia a deixado na diretoria, onde ela foi atendida por uma mulher que a levou até o inspetor curricular da escola. Lá, eles conversaram (o homem falou enquanto Rapunzel escutava e assentia). Falaram sobre horários, aulas, quartos, regras e tudo mais. Com a folha de horários e a de regras em uma mão e a chave de seu quarto em outra, Rapunzel foi até a Ala Feminina, andar quatro, quarto 209. Ufa. Demoraria décadas para decorar todos os caminhos.
Após um breve momento de enrolação, no qual ela tentava girar a chave e a folha caia – ato que se repetiu no mínimo umas cinco vezes, ao ponto dela se bater por sua estupidez – Rapunzel entrou no quarto. Passou os olhos pela porta de carvalho escuro e na maçaneta de cor prata, antes de olhar para o quarto. Rapunzel ofegou.
Como tudo que havia lido sobre internatos, imaginava beliches de madeira, pouco espaço e paredes de alguma cor neutra sem graça.
O quarto era o total contrario.
Para começar, era grande. Bom, não grande, enorme, mas era grande. Tinha uma enorme janela, que dava de frente para uma linda arvore cheia. Nas paredes ao lado da janela, em cada uma, havia um beliche que ia do chão ao teto, e aparentemente estava aclopado a parede, e a madeira da estrutura do beliche, como estava pintada de branco, reforçava essa impressão. O chão era de uma madeira escura como a da porta, mas Rapunzel não sabia dizer que tipo era. Havia um grande tapete fofinho cor-de-areia quase branca, que cobria o espaço entre os beliches; Por cima do tapete branco havia ainda outro tapete – sabe-se-lá por que – que imitava a pele de algum animal. No centro do tapete de pele havia uma pequena mesinha redonda branca – pelo jeito esse povo tinha uma implicação por qualquer coisa que não fosse enorme e branco -, e, em cada lado dela havia uma poltrona de acolchoado azul. No chão haviam duas almofadas brancas com estampa de círculos vermelhos e nos cantos haviam dois pufes brancos.
O quarto era lindo.
Viu que suas malas estavam organizadas ao lado do beliche direito, e decidiu que dormiria ali. Subiu para o beliche de cima, suspirando.
Ah, a vida lhe parecia boa, afinal.
— E depois desse ultimo pensamento de bêbado depressivo – murmurou, pulando do beliche –, tenho que desfazer as malas. – e depois fez uma careta – Ah, droga. Porcaria, machuquei!
Parando para massagear o tornozelo por um segundo, Rapunzel bateu-se mentalmente. Ela era péssima para saltos, já que machucava o pé/tornozelo muito facilmente.
Suspirou.
Estava na hora de começar!
✺
.¸ ¸. Rapunzel .¸¸.
Abri primeiro a mala azul com a etiqueta preta, que seriam as roupas para o frio. Eu tinha essa mania de organizar as minhas roupas das que eu não usaria para a que eu usaria por cores. Assim, embaixo ficariam minhas roupas de frio – por que a não ser que a temperatura resolvesse dar uma de louca e baixasse de hoje para amanhã a ponto de eu ter de usar um casaco, eu não usaria roupa de frio por um boom tempo -, das cores neutras para as cores frias, das cores frias para as cores quentes, em ordem em que ficassem do mais claro para a mais escura. Por cima das frias então ficariam as para calor, que eu organizaria no mesmo esquema.
— Argh – bufei, sentindo que essa mania era tão “mamãe Gothel”. Isso era um pensamento tão... de uma pessoa maníaca por organização.
Peguei primeiro minha blusa de lã branca que eu odiava, por que era apertado e enforcava, mas minha mãe não deixaria eu jogar fora enquanto passasse pela minha cabeça, já que minha tia-sei-lá-das-quantas-que-eu-nunca-ouvi-falar-e-morreu-mas-acredite-era-muito-legal foi quem me deu.
Iria queimar aquilo e dizer que perdi.
E provavelmente iria ser assombrada pelo resto da vida pela tal tia, mas tudo bem.
Joguei a blusa de lã para trás, ouvindo ela cair em cima da cama. Tia do mal, não me assombre. Peguei outra blusa, dobrei, guardei. Peguei outra, dobrei guardei. Outra, dobrei, guardei. Pegar, dobrar, guardar. Pegar, dobrar, guardar. Pegar, dobrar, guardar.
Parece fácil, mas me fez suar horrores.
Não que fosse algo pesado ou tal, mas o calor estava horrível.
Nessa hora meu celular vibrou, e vi que era uma mensagem. Já sabendo que era minha mãe, li a mensagem sem ao menos olhar o nome.
[Mãe] 8:26a.m
“Oi, filha. Já chegou? O que está fazendo? Está tudo bem ai?”
Revirei os olhos com carinho. Mães...
[Rapunzel] 8:26a.m
“Hey, mãe, já cheguei sim. To arrumando minhas coisas agora. Aqui é td muito d+! E enorme. Vou me perder aki!”
Não deu dez segundos e recebi a resposta.
[Mãe] 8:26a.m
“Kkkkk, eu sei filha. Logo você se acostuma” – minha mãe havia estudado e terminado o ensino médio aqui. – “Com sorte você pega alguma garota que já estuda ai como colega de dormitório.”
Mandei um emoticon de carinha feliz, colocando o celular em cima da cama de baixo. Logo o celular apitou novamente, e quando fui ver, era uma mensagem de voz.
— E a viajem? Como foi?— falou a sua voz assim que apertei o botão. Até a viajem para cá, eu nunca havia andado de avião. Minha mãe só andou de avião uma vez, mas a perspectiva de estar a sabe-se-lá quantos metros do chão a dava arrepios.
Quem diria que, dentre tantas outras coisas, o medo da minha mãe é a altura?
A sensação que tive ao saber disso foi a mesma sensação que tive ao descobrir que a fraqueza do Super Homem é uma pedra¹.
Apertei o botão para gravar outra mensagem como resposta:
— Foi normal, mãe. – soltei o botão, para depois apertar de novo, pensando em uma coisa – Seria uma coisa muito legal se eu, Rapunzel, tivesse medo de altura – e soltei uma risada pelo nariz, finalizando o áudio. Uma das coisas que podem estragar a adolescência de uma pessoa é ter um nome estranho, e digamos que o nome de um conto de fadas – ainda mais sendo loira, sendo que o conto de fadas em questão é a Rapunzel – não é o mais bonito. Fazer piada com isso é o que faz eu não me abalar com isso.
Peguei a blusa branca da tia do mal, pensando aonde ia colocar aquela coisa até achar um jeito de me livrar daquilo. O celular apitou novamente, e eu o peguei, a blusa branca numa mão e o celular na outra.
— Espera! – parei, franzindo a testa. A voz ficou silenciosa por uns dois segundos antes de ela voltar a falar – Você disse que estava arrumando suas roupas... – ela falava lentamente, como se estivesse juntando os pontos sobre alguma coisa – Rapunzel! – dei um pulo pelo seu grito repentino. Mas o que raios aquela doida havia arranjado para brigar comigo a um continente de distancia? – Não ouse jogar fora aquela blusa da sua tia Vânia!
Mas que m...?
Devia ser o tal pressentimento de mãe, mas, Céus, como ela fez isso?
Abrindo o meu melhor sorriso amarelo, apertei no botão para responder:
— O que? – discretamente, e de um jeito bastante idiota, jogo a blusa para trás, como se ela pudesse me ver – Mãe, mas é claro que eu não vou jogar a blusa da tia fora!
— Que feio... Mentindo pra mãe.
Deixei o celular cair no chão enquanto um grito extremamente agudo soava pelo ar. Mas era um grito aguda DEMAIS. O que tinha dado aquele grito?
Mas dava para relevar, já que eu mesma quase gritei!
Ai meu pai, a tia do mal ‘tava ali!
Com o coração batendo forte, fui me virando lentamente. Você tem retardo mental ou o que? Não vire para encarar o fantasma, Rapunzel, ele vai engolir tua alma.
— Tia do mal, olha, não m... – parei de falar, ao encontrar somente uma juba ruiva cacheada. Com uma garota dentro – Mas o que é você?
— Eu acho que a pergunta certa seria “quem”, e não “o que”. – respondeu a garota, e vi que ela segurava um sorriso – Mas sou Merida. Merida DunBroch, na verdade. E sim, meu nome é estranho. Não, não é inspirado naquele país tal lá. E sim, minha família é dona da empresa DunBroch.
Merida DunBroch. Ok. Nada de tia do mal. Respire.
Merida era uma pessoa bonita; Tinha cabelos vermelho fogo que iam se enrolando até a cintura. Era um pouco mais magra que eu, tinha a minha altura e um belo rosto redondo, além de uma boca e nariz fino. Tinha olhos azuis expressivos e no geral parecia ser aquela garota que dava problemas para os professores.
— Ah, tá. Merida, okay. – respirei fundo, sentindo-me corar. Sim, eu devia ter retardo mental. E muito. O calor com certeza estava me afetando. Fala sério, tia do mal? – Sou Corona – balanço a cabeça com força. Pensa direito, pessoa! – Digo, Rapunzel Corona. Hmmmm... E sim, meu nome é estranho, sim, é inspirado naquele conto de fadas lá e não, minha família não é dona de nenhuma empresa.
Merida riu.
— Rapunzel Corona. Tudo bem. – ela acenou com a cabeça – Você tem uma gargantinha boa, hein?
— Oi?
— Você meio que... deu um belo de um grito quando eu cheguei.
What?!
Aquele grito era MEU?!
Provavelmente corando mais que um tomate, eu dei uma risada sem-graça. Ótima bela impressão, Rapunzel. Aliás, Rapunzel, você deveria parar de falar consigo mesma.
Tudo bem Rapunzel, vou ouvir meus próprios conselhos.
Tuuuudo bem, eu acho que preciso de um banho. Talvez o suor esteja entrando no meu cérebro e agora ele está derretendo.
— Ai, desculpa! Eu sou uma retardada. – me desculpei pelo meu grito – Então, “Merida”. Você vai ser minha colega de quarto?
— Se você estiver morando nesse quarto, então sim. – ela gesticulou com as mãos e apontou atrás dela, onde duas malas roxas estavam ao lado do beliche esquerdo. – Bom, eu tenho 16 anos, eu pago pela escola, estou aqui há cinco anos... Quer dizer, eu estudei dois anos, depois sai, fiquei dois anos fora e voltei e estudei mais um ano. Esse é meu sexto ano aqui, segundo ano do ensino médio e... Sei lá o que mais. Bom, agora é sua vez.
Garota estranha.
— Ahhh, ta bom, eu... Tenho 15 anos, eu também pago pela escola, esse é meu primeiro ano aqui e eu sou brasileira, — “logo vi pelo sotaque”, ela disse — é, bom, eu vim do Brasil. – seria melhor se eu não me atrapalhasse tanto.
— Legal, você fala Português! Eu queria saber falar essa lingua! – iria dizer algo, mas ela continuou – Mas sei falar Mandarim, Espanhol, Híndi, Russo, Escocês e Frances. E, claro, Inglês.
Olhei para Merida, espantada. Mas gente...
— É que assim... – ela começou a explicar ao ver meu olhar — ...Inglês, Russo e Escocês eu já “nasci sabendo”. É que, tipo, meu pai é Escocês, minha mãe é Russa, e nós morávamos aqui no Alabama, então... Mandarim eu tive que aprender, por que, tipo assim, é a língua mais falada do mundo, eu vou herdar a empresa dos meus pais, eles vivem viajando em conferencias para tudo quanto é lugar, e tals. Daí eu peguei gosto por aprender novas línguas e foi daí que veio o Espanhol, o Híndi e Francês.
— Uau. – foi o que eu consegui dizer. Brilhante, não?
— Bom, agora a gente já se conhece e não precisamos conversar mais – olhei para ela, confusa e um pouco decepcionada. Quando eu acho que arrumei uma amiga... – Mas eu gostei de você, então eu acho que nós vamos ser amigas.
A encarei por uns dois segundos, muito confusa.
— Você é estranha.
— Você também, miss Tia do Mal.
— Válido.
Ela foi para o beliche oposto ao meu – “Vou ficar com esse lado aqui”, anunciou sem motivo algum, subindo na cama de cima – e eu voltei para minha arrumação.
— Aliás, seu celular caiu. – avisou Merida, tirando o próprio celular do bolso. Doeu na alma, ela tinha um iphone vermelho.
— Obrigado. – agradeci, pegando o meu celular do chão. Ao olhar para ele, vi que minha mão estava suada. E então lembrei que precisava de um banho. – Hey, eu vou tomar um banho.
— Tudo bem.
Fui pegar uma toalha, até lembrar que ela estava na mala. Droga.
— Ah, porcaria – xinguei. Observei as quatro malas que não tinha aberto, pensando em qual delas estariam minhas toalhas.
— Se quiser uma toalha eu posso te emprestar alguma.
E pela segunda vez naquele dia, eu gritei.
Por quê?
Por que algum ser vindo do inferno, BROTOU no chão ao meu lado. Uma voz masculina, homem do mal. Vou matar esse ser.
E, mais ou menos por reflexo, eu dei um tapa na cara do tal ser.
— AH! Ai, droga, desculpa, desculpa por isso! – pedi, de olhos arregalados. O garoto, que agora eu vi que era um garoto que parecia ser só um pouco mais velho do que eu, estava com a mão direita apalpando o lugar aonde eu tinha o batido.
— É isso que você ganha por tentar ajudar as pessoas – reclamou, agora massageando o lugar. Depois de uns dois segundos, largou o braço ao lado do corpo – Você é fortinha, loira.
— Para de ser menininha, Frost. – disse Merida, que havia largado o celular e se inclinado para nos observar.
— Isso foi bem feito por me assustar – fiz bico, olhando para o tal Frost. Rapunzel, você é a rainha em socializar.
O garoto me olhou de cima a baixo, antes de dar um sorriso de canto.
— Bravinha, gostei. Sou Jack Frost, gatinha, seu melhor sonho. – e piscou pra mim.
O cara estava me cantando?
— Se aquieta ai, Jack. – ouvi a voz de Merida, mas Jack continuou me encarando, com cara de “e ai?”.
O encarei por mais uns segundos, esperando ele dizer que era tudo brincadeira e que ele na verdade não era um idiota retardado que aparentava ser.
— Você quer levar outro tapa na cara?
Merida fez um “Uoooouuuuh!” no fundo, para depois começar a rir. Gargalhar, na verdade.
— Segundo fora dado com sucesso! – exclamou a ruiva, dando uma cambalhota para sair da cama (quase tive um enfarto achando que ela ia quebrar o pescoço) e se aproximando de Jack para dar um tapa na cabeça dele. – Definitivamente, vamos ser ótimas amigas.
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