Madeira e Prata
5 28/29.07.2815 – Parte Dois
Argos
“Artemisy, precisamos conversar com Fola.” Disse entrando no quarto e a encontrando sentada na cama. Minha querida esposa me olhou com seus lindos olhos Candido, sorrindo, mas ao mesmo tempo cansada. É claro que ela também estava bastante preocupada com nossa filha.
“Sobre o que exatamente, Argos?”
“Você sabe, Artemisy. Sobre esses passeios diurnos que ela faz, correndo o risco de queimar no sol ou pior... ser morta brutalmente por um daqueles cachorros...”
“O que vamos fazer para impedir, Argos? O que podemos fazer pra ela ficar em casa?” Seu olhar agora era desesperado.
“Temo que só temos uma opção, minha cara.”
“Oh, Argos, será mesmo necessário? Não queria ter que obrigá-la a fazer nada. Não queria ter que prendê-la dessa forma.”
“Também não, mas não vejo outra solução.”
Eu definitivamente não queria ter que restringir os passos de minha filha preferida, que os outros não me ouçam, mas eu também não podia arriscar perder o meu bem mais precioso. Fola nasceu para ser livre, mas não para ser morta muito antes de sua hora. Minha querida filha deve viver muitos séculos ainda, nem que eu tenha que fazer algo que eu não queira. Além do mais, essa guerra não é para ela, seus irmãos já lutam para nos defender, ela não precisa se arriscar.
Estiquei o braço para Artemisy e ela aceitou minha mão para levantar da cama, cruzou seu braço no meu e então saímos do quarto, andamos calmamente para o quarto de nossa filha no corredor seguinte. Batemos na sua porta, mesmo sabendo que ela não estaria lá, apenas para mantermos a educação. Depois de não obter a resposta entramos e fomos até a segunda parte do seu quarto, onde ficava a cama, e nos sentamos lá para esperar.
O sol já tinha se posto há pelo menos meia hora e Fola ainda não tinha voltado. Minha amada começou a ficar bastante nervosa.
“Argos, onde será que ela está?”
“Eu não sei, Artemisy, eu não sei.”
Foi quando ouvimos um estalo na porta. Olhei para a saída e lá estava minha filha tentando ser silenciosa. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa eu disse:
“Fola, precisamos conversar.”
Ela ficou pálida, mais do que o seu normal, com medo de qualquer coisa que eu pudesse falar. Mas então logo se recompôs e veio ao meu encontro e ao da mãe.
“Pois bem, estou aqui. Pode falar.” Respondeu me olhando desafiadoramente.
“Minha filha querida, estamos preocupados com você.” A doçura de sua mãe quebrou um pouco o ímpeto de Fola e então ela sentou na poltrona do lado da cama, ficando de frente para nós. “Nós sabemos que você não passa as tardes em casa há anos e isso nos preocupa. Até hoje nada lhe aconteceu, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Nunca estamos tranquilos, e agora já estamos cansados dessa agonia.”
Ela concordou com a cabeça mas não falou nada. Então eu continuei o discurso de sua mãe.
“Não queríamos ter que chegar a esse ponto, querida, mas decidimos que o melhor para você e para a sua segurança é ficar no castelo. E para garantir que será isso que você vai ficar quietinha, achamos que está na hora de você casar.”
“CASAR?!?!” Ela exclamou levantando da poltrona. “Não posso casar. Eu gosto... eu gosto da guerra. Gosto de lutar e gosto de ser útil para nosso povo.”
“Fola, nós deixamos que você fosse livre por cinco anos. Achamos que depois de um tempo você sossegaria e resolvesse sozinha seguir o caminho do casamento. Mas não foi isso que você fez, e desde o primeiro dia que pôs os pés pra fora do castelo você nunca mais dormiu em casa! Não podemos mais aguentar isso! Além do mais você não será útil para o nosso povo se estiver morta.”
Ela se jogou com força na poltrona, o desespero estampado em seu rosto, que parecia procurar incessantemente uma saída, uma brecha.
“Não se preocupe, você poderá lutar essa semana, será sua última, e poderá escolher seu marido também.” Artemisy me surpreendeu com essa promessa, mas ela me olhou de um jeito que só ela sabia, de modo que não falei nada quando ela completou: “É o mínimo que podemos fazer.”
Ela nos olhou sem uma expressão definida, o que quer dizer que ela não se conformou, não aceitou completamente, e ia tentar uma saída, assim que descobrisse. Mas deixamos ela sozinha com seus pensamentos. Devíamos isso a ela. Ao menos isso.
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Artemisy
Ela odiou nossa ideia. Claro, que sim, e eu já esperava por isso. Fola nunca expressou nenhuma vontade de pertencer a alguém, sempre foi bastante independente, e devo dizer, tinha mais coragem que os irmãos. Mas eu não podia ficar na agonia de não saber onde estava minha filhinha. Perdida fora dos muros do castelo, sabe-se lá onde, com quem e fazendo o que, arriscando morrer queimada. Não, não , não. Não podia permitir isso. Mas também não podia permitir que o pai lhe impusesse tudo. Tive sorte com o marido que meu pai me escolheu, mas conheci muitas que não tiveram. Jamais deixaria minha filha a mercê dos critérios do pai. Por isso eu explodi, antes que meu marido me impedisse.
“Não se preocupe, você poderá lutar essa semana, será sua última, e poderá escolher seu marido também.”Argos me olhou mostrando que não gostou nem um pouco da minha decisão, mas olhei para ele com certa confiança e ele se acalmou. Então continuei, falando com os dois ao mesmo tempo: “É o mínimo que podemos fazer.”
Ela relaxou, mas suas feições ficaram indefinidas, não pude saber exatamente o que se passava em sua mente. Então eu e Argos saímos do quarto, deixando Nossa menina sozinha com seus pensamentos.
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Fola
Casar? Mas é nunca que eu caso! Não posso largar a guerra assim. E se eu casar como vou continuar sendo amiga de Mac? Não, não, eu não vou casar.
Tentei tomar um banho pra ver se eu relaxava, mas não foi possível, só me vinha na cabeça as duras palavras de meu pai, dizendo que eu devo casar para ficar em casa sob a vigilância deles. Não mesmo.
Saí do banho e peguei o primeiro vestido que vi pela frente. Era preto com verde musgo, no mesmo estilo dos outros, no mesmo estilo de todas as vampiras. Ignorei completamente o fato de que deveria assistir a uma aula qualquer de algum professor meu e simplesmente saí do castelo e do terreno seguro, passando pelos portões e indo para único lugar onde sabia que ficaria bem. Passei o resto da noite caçando e depois levei a presa para a caverna, onde bebi seu sangue e por fim esperei o dia chegar, e junto dele, meu melhor amigo.
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