Madeira e Prata
3 27/28.07.2815
Fola
“ ‘Ninguém aqui é mocinho, somos todos vilões com um único objetivo, que é sobreviver.’ Louis Paul d’ Nobli foi um dos nossos grandes filósofo do século XXVI, naquela época já estávamos em guerra, mas as condições eram diferentes, ainda haviam humanos, mas eram poucos e esse era nosso maior problema. Nossos esforços estavam voltados para conseguir aumentar nosso estoque de comida para poder adaptar nossa população ao sangue animal. Foram dias difíceis, lembro que eu era pequena e quase nem provei sangue humano, ” Antonella tinha palavras duras mas o seu tom era calmo, como se contasse uma fábula para crianças e não uma parte de nossa história. Seu rosto era jovem mesmo no auge de seus 240 anos, o que é bem normal para nós, mas falar de humanos sempre me faz lembrar de sua fragilidade e como viviam tão pouco... Seria tão bom se os lobisomens fossem assim também... Mas seu tempo de vida é similar ao nosso, o que não nos ajuda nessa luta.
Claro que eu não seria capaz de matar todos os lobisomens, apenas a maioria deles, e deixaria meu melhor amigo vivo. Em cinco anos de encontros clandestinos em todas as tardes desde o dia em que nos conhecemos acabamos criando uma sólida amizade. Criamos uma rotina simples, nas noites de lua cheia íamos pra guerra como todos os outros, nas outras noites íamos para as aulas e treinamentos – pelo menos eu fui, não sei o que ele fez – e durante os dias, todos os dias, não importando a lua, a gente se encontrou na nossa caverna, chegando antes do sol nascer e indo embora depois que ele se punha. Lá a gente conversava, conversava e conversava até cansar e dormir.
Tínhamos uma técnica simples para não nos matarmos quando a luta vinha: ele claro não tinha noção de nada que acontecia enquanto estava na forma de lobo, então ele era puro instinto e arrancava braços e cabeças sem pena. Mas os lobos são burros e no primeiro ataque de frente ficam com o pescoço vulnerável, momento perfeito para enforcarmos eles. Justamente quando apartamos sua traqueia somos invadidos pela imagem do lado humano deles e vemos a verdadeira face deles. Por isso, se um dia eu encontrar com Mac no campo de guerra sei que tenho que me defender sem matá-lo. Ele não sabe, mas eu defendo ele também dos outros vampiros, quer dizer, defenderia se precisasse. Todos os lobos com quem eu luto são pretos e pretos e pretos, o campo de batalha é negro sempre, mas uma vez eu esperei escondida Mac se transformar antes de ir embora e eu vi ele é um lobo castanho claro, da cor do seu cabelo e é fácil de identificar ele. Já vi Mac lutando ele tem uma técnica boa, se é que instinto pode se chamar de técnica ele é um ponto claro no meio dos lobos negros. Mas até hoje nunca precisei salvá-lo ou me salvar dele.
“Bem, caros alunos a contar de falta uma hora para o nascer do sol. Quem quiser caçar está livre para ir agora. Os demais podem ir para onde desejarem ir.” Essa era sempre minha deixa para correr para fora do castelo, e ficar perambulando pela floresta atrás de uma presa fácil para fazer hora, esperando Mac chegar.
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Mactíre
Já estava vagando pela floresta por pelo menos meia hora quando os vampiros começaram a chegar para a caça da madrugada, Fola sempre vinha nesse grupo, caçava e me encontrava na caverna, naquele dia não seria diferente. Nós temos uma amizade impossível, improvável e incrível. Fola é divertida e inteligente e não é arrogante como a maioria dos vampiros, ela não se acha superior.
Fui andando até a caverna, tomando cuidado para não ser visto, na minha forma humana poderia até passar por vampiro, mas minhas roupas me denunciavam. Embora meu cabelo seja castanho, o que é estranho para um lobisomem como eu, mas nem tanto para os vampiros, que tem cabelos de qualquer cor, ao contrário dos lobos, já que todos têm cabelos e olhos bem pretos. É estranho, mas meu cabelo é castanho e meus olhos mudam de cor. Em dias de lua cheia são castanhos, mas nos outros dias são verdes. Lembro da primeira vez em que Fola os viu dessa cor. Ela me olhou de lado e perguntou se eu tinha alguma coisa no olho. Eu ri contei pra ela que era normal, a principio ela estranhou, mas logo se acostumou e no fundo ela até os prefere assim.
Cheguei na nossa caverna e sentei no canto esperando por minha amiga, que chegou logo depois com um guepardo macho pra gente comer. “Bom dia, esse foi fácil de pegar, estava dormindo!!” Sua animação era contagiosa. Levantei pra ir comer com ela.
“Bom dia, como foi a sua noite?”
“Tive aula hoje, principais filósofos da história dos vampiros. Bastante interessante as teorias. Também aprendi novas técnicas de luta, mas isso eu não posso te contar. E você?”
“Treino, treino e mais treino, como sempre.Nem sei por que treinamos, já que na luta é o instinto quem nos guia mesmo, mas enfim. São as regras. ” Ela sorriu e então se concentrou em sugar o sangue do guepardo.
Passamos mais uma tarde deliciosa conversando e depois dormimos, do mesmo jeito que sempre fazíamos, desde o primeiro dia em que nos conhecemos.
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