Made of Stone

77 LX. De todas as distâncias do mundo


Notas iniciais
*A música desse capítulo é uma chamada "The space between us", do Shawn Mcdonald, e desde que eu a ouvi pela primeira vez, eu enxerguei o Caleb e o Alex nela inteira - bom, nessa fase da história. Depois que eu descobri que é uma música tecnicamente gospel... Será que é sacrilégio? KKKKKKKK Boa leitura!

Eu tentei remediar o irremediável.

É isto o que vem acontecendo desde o meu aniversário, uma constante luta interna e externa de tentar remediar o estrago que o Alex deixou para trás — mais um estrago, diga-se de passagem. Aquilo me fez lembrar, mais vezes do que eu gostaria, do que a minha mãe havia dito a respeito de pessoas como o Alex: eram como um tornado, movendo tudo do lugar por onde passavam, podendo causar uma bagunça gostosa ou um estrago doloroso.

Ela não poderia ser mais certeira se tentasse.

Alex realmente foi embora ou apenas se escondeu, porque depois que eu saí do banheiro — não havia chave no escritório, então eu tive que me trancar no banheiro para chorar em paz —, ele não estava em nenhuma parte. Ao contrário do Chris, que havia espairecido um pouco no ar frio da madrugada e retornado para vir atrás de mim, provando uma vez mais — se é que isto era necessário — o quanto ele era diferente do Alex neste sentido: mesmo dentro de altos e baixos, ele seguia constante, estável e presente. Ainda que chateado e magoado comigo, ele esperou do lado de fora do banheiro até que eu abrisse a porta, dizendo palavras bonitas e confortáveis para me acalmar.

Eu me sentia ainda menos merecedor do amor dele. Ali estava eu, trancado no banheiro, no meio da festa de aniversário que ele havia preparado para mim porque me ama, chorando por outro enquanto ele proferia palavras de carinho para me confortar.

Chris nunca havia entendido — e isto era culpa minha e das minhas omissões — a dimensão do meu relacionamento com o Alex, mas apesar de eu nunca haver dito com todas as palavras, Chris sabia o quanto ele havia me machucado. Isto devia ser óbvio apenas pela maneira como eu estava excluído do círculo de amizades do Alex, como eu poderia dizer palavras simpáticas sobre ele quando mencionado mas sem nunca me envolver aprofundadamente nas conversas. Chris não entendia totalmente, e agora talvez entendesse um pouquinho mais, depois de conhecer o Alex, mas ele sabia que a quebra da nossa amizade também me machucava.

Em outras palavras, Chris era perfeito e eu não o merecia.

Nós tivemos apenas uma conversa séria sobre ele depois da minha festa, uma apenas, e então enterramos o assunto. Eu pedi desculpas pelas omissões e ele pediu o óbvio, que era o mínimo, na verdade: que eu não mentisse ou omitisse mais nada dele. Também perguntou se havia mais algo que ele devesse saber, além do fato de que meus sentimentos pelo Alex eram recíprocos — e eu quis discordar disto, porque Alex não me amava como eu o amava, mas eu achei mais sensato aceitar, porque novamente, este não era o ponto, eu finalmente estava aprendendo. E eu não soube o que dizer, apenas resmunguei que ficamos por duas semanas antes que tudo fosse à merda.

Nós estávamos sentados um de frente ao outro na minha cama e Chris estava muito sério, igual esteve na nossa discussão, a ponto de eu não ter coragem de sustentar seu olhar por muito tempo. Sua próxima pergunta foi: — Por que vocês não se falaram por todo esse tempo?

Eu não consegui olhar nos olhos dele, porque eu sabia, eu conhecia o Alex o suficiente para saber a resposta, ainda que discordasse dela. E eu tinha que pensar uma maneira adequada de responder isto a ele, mas tudo o que eu consegui formular foi: — Ele pensou que era melhor assim — murmurei, olhando para as minhas próprias mãos —, que eu ficaria melhor sem ele e sem toda a sua bagagem.

Chris ficou em silêncio por tempo demais, ao que me pareceu, e eu me remexi no lugar, acovardado demais para ousar olhar em seu rosto. — Foi decisão dele? — perguntou, finalmente, um toque de amargor na voz, se destinado a mim ou ao Alex, eu não soube dizer. Dei de ombros, como se não fosse algo que havia me dilacerado por dentro, e fiquei quieto. — Então por quê...? — Encolhi meus ombros um pouco, mas Chris bufou, parecendo exasperado. Ele não terminou a pergunta, mas eu sabia o que era, e eu também me perguntava o mesmo: então por que ele apareceu como se nada houvesse acontecido entre nós no meu aniversário?

Dei de ombros outra vez, erguendo o olhar para ele, mas Chris tinha os olhos desfocados, um vinco entre as sobrancelhas, a expressão enfurecida. E, quando ele olhou para mim novamente, a expressão suavizou, parecia haver quase piedade ali, o que não me fez sentir melhor, mas era melhor do que fúria. Chris aproximou-se um pouco mais, com um suspiro, e colocou uma mecha atrás da minha orelha com carinho. — Ele te fez chorar.

Desviei o olhar, remexendo-me com desconforto, e ele abaixou a mão.

— Eu também não fui exatamente simpático — admiti, com uma careta, conforme ele continuava a me olhar com a mesma ruga na testa. Abri e fechei a boca algumas vezes, ainda incomodado sobre a ideia de haver chorado por outro enquanto Chris parecia aceitar isto como se me desse o benefício da dúvida. — Ele era meu amigo, Chris — sussurrei, forçando-me a encará-lo, e ele sustentou meu olhar com seriedade. — Eu não quero que você pense que isto significa mais do que... — Impedi-me, sem saber como continuar, relembrando do pedido de que eu não mentisse mais. — Ele era meu melhor amigo — resumi, sem querer mencionar que ele era mais, porque Chris sabia. De repente, a conversa sobre o primeiro amor retornou à minha mente e eu me senti ainda mais retraído. Chris seguiu quieto, me escutando, e eu engoli em seco. — Ele decidiu se retirar da minha vida e eu não posso fingir que isso não me afetou — murmurei, sem olhar para ele —, nem pra ele nem pra ninguém. Ele era meu amigo antes de qualquer coisa, então isso me machucou muito — admiti, desconfortável, mas falar brevemente sobre isso com o Chris era necessário. — Esse foi o motivo.

Era verdade, afinal, as coisas ficaram fodidas daquele jeito por causa disto, porque eu não posso perdoá-lo e porque eu nem deveria, já que ele não deveria ter aparecido.

Eu tive que olhar para o Chris, para garantir que ele visse que eu falava a verdade, e ele encarou as profundezas do meu olhar como se também buscasse garantias disto, para então assentir. No entanto, eu senti que ele não acreditava totalmente, e eu não podia culpá-lo por isto. Apesar de eu não haver mentido, eu também sabia que a quebra de relações de amizade veio junto de um coração partido por sentimentos nada amigáveis. E ele ainda doía pelo mesmo motivo, por trás das demais dores causadas pelo Alex.

Chris me puxou para um abraço e eu pude sentir o quanto ele estava tenso. — Eu sinto muito — murmurou, contra o meu ouvido. — Você tem todo o direito de ficar chateado, Caleb... — Eu fechei os olhos, aquela culpa dolorida ainda queimando no peito e eu não entendia o porquê dela seguir viva, mesmo quando eu era sincero. Chris me apertou um pouco mais, seus músculos parecendo ficar ainda mais tensos quando acrescentou: — E você também tem o direito de ficar mexido — escolheu a palavra, parecendo doer verbalizá-la, e eu retesei — com isto também, com todo o histórico de vocês, eu não te julgaria por isto. Se os papéis fossem invertidos, se fosse o Scott que houvesse aparecido do nada... eu também me sentiria assim. É só que...

Chris suspirou, inquieto, antes de se afastar e buscar meus olhos culpados. Estava me doendo o tanto que ele estava tentando ser compreensível e mente aberta, o quanto ele estava tentando não ter uma reação exagerada sobre isto quando qualquer um teria.

— Ficar mexido não significa que as coisas mudaram — apontou, cauteloso, os olhos presos nos meus. Engoli em seco. — Porque não é o suficiente pra mudar alguma coisa. Então, Caleb, eu só te peço... — Suspirou outra vez, fechando os olhos brevemente. — Só, por favor, se alguma coisa mudar... — Ele tentou, mas uma careta dolorida tomou conta de seu rosto, a expressão miserável, enquanto era sua vez de se remexer no lugar e fugir dos meus olhos. — Se algo mudar, me deixe saber — sussurrou, enfim, parecendo vulnerável.

Senti meu coração apertar no peito, um nódulo na garganta, a súbita vontade de chorar de tanto carinho que eu sentia por ele. E, com esse sentimento, também vinha a vontade exacerbada de protegê-lo de tudo, inclusive de mim mesmo. Eu assenti, vendo-o parecer relaxar minimamente os ombros, e assenti outra vez para garantia. Engoli em seco, aproximando-me dele o suficiente para encostar nossas testas uma na outra, e sustentei os olhos melados e inseguros quando declarei: — Eu te amo muito.

Chris soltou o ar pelo nariz, deixando escapar um sorriso pequeno, os olhos suavizando ao piscar lentamente. — Eu também, benzinho, você não tem ideia do quanto.

Eu empurrei toda a sensação ruim para o mais profundo da minha mente e me deixei ser embalado pelos braços do meu namorado, engolido por todo o seu amor, desejando restaurar nossa bolha intocável.

Aquela foi a única conversa que tivemos sobre o Alex e sobre o que havia acontecido, apesar dele haver sido mencionado mais vezes pelos demais. Chris também não me fez mais nenhuma pergunta naquele dia, por mais que eu houvesse esperado pela pergunta óbvia e temerosa, por aquela que nós dois sabíamos que ele queria perguntar: eu ainda sinto alguma coisa por ele?

Houveram vezes naquele dia que me pareceu que ele iria perguntar, mas suponho que ele não teve coragem. Alguma coisa em mim me dizia que ele não queria saber a resposta, não realmente. E que, ao dizer que ficar mexido por alguém não significa que algo mudou, ele estava supondo, por querer muito supôr, que realmente era apenas assim que eu me sentia: um pouco mexido por um antigo amor, devido ao nosso histórico, como ele se sentiria se o tal do Scott retornasse. Mas não houve uma pergunta ali: se eu realmente estava mexido, se eu estava mais do que mexido, se eu estava tendo dúvidas a respeito das minhas escolhas. E eu me questionei se isto não era uma maneira dele dizer que eu deveria pensar sobre isto — porque estar mexido não era o suficiente para tomar uma decisão precipitada, como contar ao meu namorado sem ter certeza, transformando isto em algo mais do que era. E outra parte de mim pensava que ele estava apenas com medo da resposta, assim como eu também estava, e que ele queria seguir na nossa bolha tanto quanto eu.

Talvez houvesse sido um resquício de consciência que o fez pedir que eu informasse se algo mudou a ponto de ser importante que ele soubesse, colocando nas minhas mãos para decidir o que seria importante o suficiente.

Aquilo me fez amá-lo um pouco mais...

E desmerecê-lo um pouco mais também.

*

Algumas semanas se passaram enquanto eu tentava remediar o círculo de cento e oitenta graus da minha vida, mas eu sentia que eu ainda estava de ponta cabeça, andando de um lado ao outro pelo teto da minha casa.

Eu não fiquei sabendo mais nada sobre o Alex, mas também não perguntei e, como todos ficaram sabendo que as coisas não acabaram bem entre nós, outra vez, o assunto não era discutido perto de mim — ou perto do Chris, imaginei também. Ian não comentou nada, mas eu vi que ele sumiu por uns dois dias depois da festa e supus que era porque o Alex ainda estava por lá, mas depois as coisas se normalizaram — se é que dá para chamar assim.

Mas não havia normalidade para mim.

Alex me perturbou até mesmo em sonhos, a imagem atualizada dele substituindo a imagem anterior, e ele dizia coisas e invadia meu espaço e estava por toda parte — e por toda parte de mim.

Quando acordado, eu revisitava tudo o que aconteceu, percebendo detalhes novos que, no meio do meu surto, eu não fui capaz de compreender. Os calos de seus dedos quando roçaram minha pele, cujo motivo eu só podia imaginar que fosse o violão ou o trabalho duro. Havia um brinco de argola preta, embora pequena, em sua orelha direita, e eu não sei por que não havia prestado mais atenção nisto. Os olhos, a voz, o maneirismo, tudo era parecido com quem ele foi, mas também era tão diferente — ele parecia desacelerado, pensei, a palavra encaixava melhor, mais calmo e mais contemplativo —, prova de que havia mudado como dizia, mas eu me recusei a reconhecer isto porque estava com tanta raiva.

Balancei a cabeça, desligando os pensamentos, só assim para parar.

Mas o que mais me perturbava, desperto ou adormecido, era a última expressão estampada em seu rosto antes que ele fosse embora. Foi a mágoa, a maneira como deu um passo atrás como se recém levasse uma facada, o brilho do marejo dos olhos escuros que trouxe o choro muito próximo a ele. Foi a maneira como havia me olhado, assim como Chris havia feito minutos antes no mesmo dia, como se não me reconhecesse.

Eu me perguntei o quão irônico era isto, que Chris não reconhecesse quando resquícios de quem eu fui um dia faziam caminho à superfície e que Alex não me reconhecesse quando resquícios de quem eu me tornei também se faziam visíveis.

Enfiei o rosto no travesseiro, desejando poder não levantar e não ir para a aula hoje — especialmente hoje — mas eu poderia criar problemas para mim mesmo se eu levantasse suspeitas do porquê.

Eu queria pedir desculpas — eu queria poder socar sua cara e dizer muitas verdades, mas eu queria mais do que tudo pedir desculpas. Eu não podia deixar que ele se afastasse totalmente, sendo aquilo o último que eu disse a ele. Seria ainda mais horrível seguir em frente assim, com peso na consciência e com culpa cercando o coração. Eu não havia feito nada de errado da primeira vez que ele foi embora, eu podia culpá-lo por tudo, e agora as minhas palavras e a minha crueldade não me permitiam dormir direito à noite.

Eu não podia perdoá-lo, eu não podia remendar as coisas entre nós, eu não podia fingir que nada havia acontecido, eu não podia fingir uma amizade banal com ele. Mas eu definitivamente também não poderia deixá-lo para trás sem pedir desculpas antes.

E eu não tive coragem.

Por semanas, eu não tive coragem.

Então, ali estávamos, feito um miserável dejà-vu, quase dois meses depois — aniversário do Alex. As mesmas datas que pareciam atormentar nossa história, os dias de exceção, as datas de tréguas. E porra, como é que eu poderia ignorar a data do seu aniversário quando ele apareceu fisicamente no meu?

Por algumas vezes, eu me perguntei como seria se as datas fossem contrárias, primeiro a sua e então a minha, se eu iria ser o primeiro a alcançá-lo com o oferecimento de uma trégua — ou se eu seria o que o magoa nela. Eu não gostei dos resultados teóricos aos quais minha mente chegou, então cancelei a linha de pensamento.

Eu levantei e eu fui para a escola e, como esperado, o aniversário dele foi mencionado por todos, mas eles estavam de mãos atadas porque não havia como fazer algo para ele. Decidiram, então, comprar algo de presente todos juntos e enviar para ele pelo Ian quando eles se visitassem, mas nenhum soube se decidir sobre o que seria o presente. Eles ainda discutiam isto quando, envolto pelos braços tensos do Chris, a gente retornou para a aula após o sinal. Ele perguntou se eu queria ir até sua casa, como fazíamos muitas vezes, mas eu disse que eu tinha uns trabalhos para fazer — não era mentira, mas acho que nós dois soubemos que era uma desculpa. Se Chris percebeu, ele não comentou, apenas pulando para a próxima data, amanhã, e então eu disse que sim com um sorriso.

Eu não consegui fazer trabalho nenhum.

Eu não pude comer, eu não pude dormir, eu não pude desenhar, eu não pude fazer nada além de pensar que, no meu aniversário, ele apareceu com um sorriso no rosto e um presente em mãos. Apesar dele ser um filho da puta, era em coisas como esta que eu ficava preso e não nas coisas fodidas que ele fez.

Andei de um lado ao outro pelo quarto, com o celular na mão, pensando em mandar uma mensagem simples pedindo desculpas ou apenas ligar para ele, para que fosse menos formal, mas não consegui.

Novamente atormentado pelo relógio, eu vi que faltava meia hora para a meia-noite quando finalmente, em um impulso de coragem, liguei para o número que eu nunca deletei. Entrei em pânico quando chamou duas vezes e eu desliguei logo em seguida, mas isto obviamente era ainda pior: se ele visse que eu desliguei antes mesmo dele ter uma chance de atender. Então eu liguei outra vez, nervoso, a mão na boca ao puxar uma pele entre os dentes, e decidi que esperaria chamar quantas vezes necessárias.

Foi necessária apenas uma, porque Alex atendeu de primeira.

Eu prendi a respiração, esperando por um “alô” ou qualquer coisa que vinha quando alguém atende uma ligação, mas nada chegou aos meus ouvidos por um minuto inteiro, a não ser a respiração baixa em um ambiente que estava muito silencioso. Franzi o cenho, piscando, e por algum segundo de loucura eu me perguntei se havia ligado para o número certo ou se havia deixado a ligação cair, mas então ouvi o suspiro pesado do outro lado da linha.

Nenhum lunático atenderia o celular sem dizer nada desta forma se não soubesse quem estava do outro lado da linha, então era óbvio que era o número certo, o que também me fez perceber que ele ainda tinha o meu número salvo por saber que era eu.

Engoli em seco.

— Feliz aniversário — acabei dizendo, brilhantemente, baixo demais.

Alex soltou um som pelo nariz que não soou exatamente feliz.

Você me liga pela primeira vez em quase dois anos, depois de ter esmigalhado meu coração — apontou, e a vibração que eu fazia por ouvir sua voz murchou um pouco —, e tudo o que tem a dizer é isto?

Fechei os olhos, apertando o celular contra o rosto, tentando colocar em ordem os sentimentos que disparavam sem minha permissão. Controlei a raiva que me dizia que ele não tinha o menor direito de falar sobre migalhas de coração para mim, dentre todas as pessoas, e engoli o comentário.

— Não — respondi, sentando na cama com um suspiro. — Eu também ia dizer “parabéns”.

O riso fraco que ele soltou, desta vez, soou mais genuíno. Ele soltou um fraco e meio debochado: — Valeu.

— E “me desculpa” — acrescentei, com uma careta, mordendo o lábio inferior.

Alex ficou em silêncio do outro lado por um tempo, a respiração aparentando estar regulada, por tanto tempo que eu comecei a ficar ansioso, mas ele logo suspirou outra vez.

Depois de todas as vezes que eu te magoei, Caleb, inclusive em pelo menos dois dos seus aniversários — relembrou, a voz baixa e pesarosa —, eu jamais te negaria perdão.

Fechei os olhos.

Aquilo havia me tocado de uma maneira que não deveria, pensei, sentindo a urgência de choro, recém percebendo que eu não havia derramado uma lágrima sequer nos últimos dois meses. Meu lábio inferior tremeu e eu finquei os dentes nele para colocar um fim na sensação que fazia meus olhos arderem e meu nariz pinicar.

Inclusive, eu é que deveria estar implorando pelo seu — acrescentou, em um tom infeliz, enquanto eu tentava controlar minha respiração para que ele não percebesse que eu estava prestes a chorar. — Quando eu fui embora e te fiz aqueles pedidos — especificou, e eu mordi com mais força —, eu soube que teria uma grande chance de você nunca me perdoar por isto.

Apertei ainda mais o telefone contra meu ouvido, sentindo meu corpo começar a tremer outra vez. E talvez fosse o silêncio do meu quarto e o silêncio do outro lado da linha que me permitiu sentir apenas a tristeza silenciosa da situação inteira. Talvez fosse a ausência dos sons altos e conversas embaralhadas de fundo que houvesse impedido que minha raiva borbulhasse outra vez, fazendo-me enxergar vermelho. Ou simplesmente fosse porque eu já passei pelo surto de ódio e não havia nada mais que fizesse ferver meu sangue para extravasar, restando apenas o pesar.

Independentemente, tudo o que eu senti me fez apenas querer chorar.

Eu sabia disto — murmurou, entristecido, do outro lado. — E que mesmo que você me perdoasse, porque você tem o coração tão gentil — apontou, com carinho, e minha visão embaçou —, o que a gente costumava ter nunca mais seria o mesmo.

Eu havia desejado feliz aniversário e eu havia pedido desculpas, ele havia cedido perdão, então eu podia desligar e seguir com a minha vida, mas eu não pude. Eu só consegui ouvir o que ele tinha dizer, sem qualquer vontade de interromper a ligação, e pelo menos uma vez, ambos meu corpo, minha mente e meu coração pareciam concordar em algo. Eu me acomodei para trás, deitando a cabeça no Axlose, e apertei o aparelho ainda mais contra o ouvido, o mais próximo que sua voz podia estar de mim.

Eu achava que tava fazendo o certo e agora eu vejo que não poderia estar mais errado — admitiu, parecendo frustrado. — Sinto muito, Caleb, eu sinto tanto.

Apertei a pata do Axlose na mão, sentindo a visão clarear um pouco quando as lágrimas cederam para a gravidade e escorreram pelas laterais do meu rosto. Eu estava deitado, então senti o celular molhar do lado direito e limpei quieta e rapidamente. Nenhum soluço veio, as lágrimas apenas queriam sair, meus lábios mantidos selados.

Apesar do choro silencioso, Alex percebeu ainda assim.

Ah, bebê, por favor, não chora — pediu, doído, e eu tive ainda mais vontade de chorar com o apelido ressuscitado.

Minha respiração estava falha, devia ser este o indicativo, então eu a prendi momentaneamente antes de mentir com a voz fraca: — Não tô.

Alex suspirou. — Eu não quis estragar a sua festa — repetiu, soando chateado e arrependido —, me desculpa, foi uma ideia imbecil.

— Não estragou — menti mais uma vez, limpando o rosto, e Alex soltou um som amargo pelo nariz.

Maze me disse que você se trancou no banheiro e não saiu de lá até que todos tivessem ido embora — contou, a voz culpada mas também azeda, e eu soube que o azedume era dirigido a si mesmo.

Mason?, questionei-me, torcendo o nariz. Eu imaginaria que Ian contasse o que aconteceu na festa ao Alex, mas ele estava bêbado demais e provavelmente já estava apagado do jeito que eu o encontrei antes mesmo de eu haver me trancado no banheiro. Embora fizesse sentido que fosse Mason, já que eu sei que eles ficaram mais próximos quando Alex viveu lá por um tempo, ainda assim fiquei me questionando se eles ainda conversavam com frequência. E se falavam sobre mim, pensei, ainda mais temeroso. E em que momento daquela noite — ou do outro dia — eles haviam conversado, que Mason sequer mencionou.

Eu fiz uma nota mental de xingá-lo por haver contado esse detalhe pavoroso ao Alex.

Não se zangue com ele — pediu, como se soubesse onde meus pensamentos foram parar.

Torci o nariz, pensando que eu iria colocar as mãos no pescoço magricela do Mason e acabar com ele. — Não vou — menti, emburrado.

Alex soltou um riso fraco, parecendo relaxar um pouco mais, antes de brincar: — Seu nariz já alcançou a parede?

Apesar da ruga entre minhas sobrancelhas; do rosto, orelha, pescoço e cabelos molhados das lágrimas por haver chorado deitado e de lado; eu acabei sorrindo minimamente. Encaixei-me melhor no urso, desejando poder fingir por alguns momentos que não havia nada quebrado entre nós, e que esta era apenas uma conversa besta que tínhamos algumas vezes antes de nos vermos no colégio no outro dia.

— Eu tô deitado — murmurei, apenas, sem respondê-lo. Se eu fosse o pinóquio, meu nariz definitivamente já haveria alcançado alguma supefície.

É? — deixou escapar, tão quieto e pequeno que eu pensei ter imaginado.

Assenti, esquecendo que ele não poderia me ver, e a chamada se silenciou. Alex ficou quieto por um tempo e eu não entendi o motivo do silêncio, mas fiquei imaginando que fosse pelo mesmo motivo que eu mantinha a ligação correndo quando deveria desligar. Talvez ele também quisesse fingir e talvez também estivesse com medo de dizer alguma coisa errada que tornaria impossível seguir fingindo.

Talvez ele estivesse com tanto receio quanto eu.

Eu também — informou, mais tarde, e eu assenti outra vez.

Eu quase conseguia imaginá-lo, atirado na cama com os pés para cima, os tornozelos cruzados, em alguma pose digna de um desenho. Sorri com a imagem, e então ele continuou de onde havia parado, ajustando para o fato de que eu estava deitado: — Seu nariz já alcançou o teto?

Soltei um rico fraco, engolindo em seco. — Ainda não.

Então talvez eu devesse fazer mais perguntas? — sugeriu, com um toque de diversão, embora eu pudesse sentir a cautela vazando de todas as palavras, como se pisasse em ovos.

— Não — pedi, talvez rápido demais, e franzi os lábios. Eu não sei se aguentaria mais perguntas e estava cansado demais para seguir mentindo.

Alex soltou um “hum” obediente e a ligação caiu no silêncio novamente.

Era muito estranho que houvéssemos parado em uma conversa boba em meio a uma muito séria, porque era mais fácil assim do que ter que encarar todas as dores não faladas que separavam nós dois. E deveria ser isto mesmo o que estava acontecendo: ficar assim era mais fácil. As discussões não levariam a nada e o que estava quebrado não tinha conserto, mas nenhum de nós parecia querer aceitar isto. E eu supus que nenhum de nós estava preparado para deixar um ao outro para trás de verdade, então a conversa besta e o silêncio estendido eram infinitamente mais fáceis do que lidar com a realidade.

Franzi o cenho quando o silêncio passou a ficar muito gritante.

— Tá muito silencioso aí — comentei, a mente trabalhando no porquê, mas Alex pareceu não perceber. Ele soltou um suspiro fraco antes de apontar, distraidamente:

É, tá bem silencioso aí também.

Revirei os olhos, virando-me para o outro lado da cama ao me ajustar. — Sim, mas não sou eu que tô de aniversário. E você gosta de festas — acrescentei, recém dando-me por conta do quanto isso era preocupante.

Alex soltou mais um suspiro, desta vez, um tanto pesaroso. — É, bom, eu não tinha muito o que comemorar dessa vez — acabou admitindo, sem muita vontade.

Fechei os olhos, sentindo-me culpado outra vez, o coração apertando.

Tentei imaginá-lo onde estava, na casa que aparecia em algumas fotos que eu vi de relance, deitado na cama e engolido pelo silêncio do quarto, em uma data que costumava comemorar. Apenas então eu dei-me por conta de que Alex estava completando vinte anos de vida, apesar de eu ainda estar preso em seus dezoito, e que apesar das mudanças, ele ainda me lembrava apenas uma criança desamparada.

— Se eu pudesse, levaria o seu presente — admiti, baixinho, quase como um segredo, e eu não tive certeza se não era.

Alex levou alguns poucos segundos para responder, e quando falou, soou como se estivesse divertido e emocionado ao mesmo tempo: — Você comprou um presente?

Relanceei minha mesa de estudos rapidamente, a luz ainda acesa, remexendo-me no lugar, a sensação de estar exposto voltou com tudo e eu repensei minhas escolhas de vida ao contar aquilo.

— Não exatamente — admiti, desconfortável, parecia errado contar a ele porque isto fugia do meu objetivo inicial. — Eu fiz um presente, com a ajuda do seu.

Aquilo pareceu fisgá-lo. — Um desenho? — perguntou, animado e tocado.

Engoli em seco antes de assentir. — É — consegui dizer, apenas.

O silêncio retornou uma vez mais, e eu me perguntei o que estaria passando pela sua cabeça e, ao tentar imaginar e falhar, eu comecei a pensar se não era hora de fugir da situação. Eu já havia ido longe demais, afinal de contas, eu havia caído em um misto de conversa e silêncio alternados que eram quase confortáveis entre nós, e não era para isto ter acontecido. E foi pior, porque eu também estava aqui falando que eu o veria se pudesse e entregaria um presente — por deus, eu havia contado que eu desenhei para ele e que eu estava usando o seu presente de coração.

O pânico recém começava a se enroscar em minha garganta quando Alex quebrou o silêncio com a voz miúda e insegura: — Você realmente viria se pudesse?

Pisquei, novamente repensando minhas escolhas de vida, quando ponderei se deveria mentir ou não, o pânico atenuando com o som da sua voz. Senti medo, medo de verdade, de responder que sim, mas acabei assentindo antes de verbalizar: — Sim.

Alex ficou em silêncio por mais alguns instantes e pensei que talvez, apenas talvez, ele também repensasse suas escolhas. Aquilo poderia ser bom, porque então ambos decidiríamos pôr um fim na ligação.

Você pode — apontou, e eu levei um tempo para entender.

Em primeiro lugar, eu não estava esperando que ele dissesse isto, que ele houvesse perguntado para poder me informar que aquilo era possível. E em segundo lugar, aquilo acendeu uma irritação frustrada em mim, porque esta não era a primeira vez que Alex sugeria que eu praticamente fugisse de casa. E foi isto que eu pensei, que ele estava incitando-me a fugir de casa no meio da noite para pegar um ônibus e visitá-lo em outra cidade.

— Você tá sugerindo que eu pegue um ônibus até aí? — perguntei, lentamente, de forma que deixasse em evidência toda a minha irritação. Eu deveria confirmar antes de surtar mais uma vez e mandá-lo à merda.

Sim — respondeu, com facilidade e um pouco de empolgação.

Não é possível que o homem que está completando vinte anos hoje continua sendo tão inconsequente. Eu quase grunhi quando comecei: — Alex...

Calma, eu não tô falando de um ônibus de viagem — apontou, rapidamente, e pareceu envergonhado, como se estivesse com vergonha que eu pensasse tão pouco dele. Pisquei, franzindo o cenho.— Eu tô na cidade, Caleb.

Eu larguei Axlose e acabei sentando na cama, o celular apertado no ouvido e o coração retumbando no peito, como se me informasse que eu estava subitamente em perigo. E eu não estava, realmente? Com o Alex na cidade, próximo de mim, seu coração batendo há pouca distância do meu?

— O quê? — foi tudo o que eu consegui balbuciar.

Alex pareceu mover-se também, do outro lado da linha, e então pronunciou, receoso: — Eu meio que tô ficando aqui com a minha mãe.

Tentei fazer o tico e o teco entrarem em sintonia, funcionando juntos. — Você tá aqui desde a minha festa? — sussurrei, sentindo que eu ia passar mal, o coração descompassado.

Alex negou, para o alívio breve do meu coração. — Não exatamente, mas eu também não tava exatamente só visitando — revelou, para minha maior confusão, e eu não entendi o que isto queria dizer mas sabia que me daria um infarto.

— O quê? — murmurei de novo, precariamente. — Mas...

Só venha — pediu, soltando um riso nervoso —, e eu te explico. Pode ser?

O quê?, minha mente repetiu, a cabeça rodopiando.

Aquilo me pegou desprevenido, porque quando eu liguei, eu não estava esperando nem que a gente continuasse conversando nem que ele estivesse aqui para pedir que conversássemos pessoalmente. Eu não conseguia assimilar a dimensão do que estava acontecendo, meu cérebro pifando, meu coração impulsionado por sentimentos que deveriam ser abafados ao invés de incentivados.

Eu fiquei processando aquilo, e para maior absurdo: considerando aquilo.

Eu estava considerando levantar da minha cama, praticamente meia-noite, para ir até o Alex na cidade que não deveria mais ser sua. E minhas pernas formigavam para fazer exatamente isto.

Caleb — chamou, receoso —, você vem?

Não, murmurei, mentalmente, é claro que não, você está maluco?

Eu não tinha certeza se minha cabeça referia-se ao Alex, confirmadamente maluco, ou se estava falando diretamente comigo, questionando minha sanidade ao considerar ir até ele como meu coração gostaria. E eu travei momentaneamente, porque aquilo parecia tão errado em tantos sentidos diferentes.

Subitamente, pensei em Chris, e no quanto isto seria errado, porque havia um limite do quanto ele era compreensível, eu não deveria tentar tanto a sorte.

Eu abri a boca para negar mas, de alguma forma absurda, tudo o que saiu foi um miúdo: — Tá bom.

Porque se o Alex é maluco, relembrei, é seguro afirmar que eu sou o idiota.

Alex ficou em súbito silêncio por meio segundo antes de ofegar o mesmo: — Tá bom!

Eu me arrependi no mesmo instante, pensando em voltar atrás, mas então ouvi um barulho alto no fundo, como se ele houvesse levantado de supetão. Pensei no silêncio da casa, o coração apertado ao relembrar que era seu aniversário, e ele provavelmente havia passado sozinho — no máximo, apenas com a sua mãe, já que estava ficando com ela.

— Vou te enviar o endereço — informou, rapidamente, antes de desligar.

Cheguei a abrir a boca — para dizer o quê, eu não sei —, mas a ligação havia encerrado, e eu supus que era porque ele não queria dar espaço para que eu mudasse de ideia. Eu não podia realmente julgá-lo por isto, afinal, eu ainda demorei para conseguir me mover e concretizar o que havia dito.

Levei um susto quando o celular apitou com um endereço do centro da cidade.

Quando ele falou que estava ficando com a mãe, ainda assim, preso no passado, o único que eu consegui imaginar era a casa dos seus pais. Agora, no entanto, eu recém começava a raciocinar que isto não era certo, porque Ian havia comentado ainda no ano passado que os pais do Alex se separaram e eu lembro de haver ficado muito aliviado por isto. Eu cheguei a pensar que, talvez assim, Alex finalmente pudesse ter algum tipo de relacionamento com a sua mãe, mas abafei todos os pensamentos, assim como abafava tudo o que tinha a ver com o Alex.

O endereço vacilou nas minhas mãos trêmulas e eu desliguei a tela do celular, deixando-o em cima da cama. Eu sabia qual ônibus tinha que pegar para chegar lá, se eu desse sorte, ainda haveria algum saindo daqui em dez minutos, apenas porque era no centro.

Não deixei espaço para racionalizar, eu apenas desliguei minha mente, levantei e troquei de roupa. Eu revirei o guarda-roupas, sentindo-me ridículo por querer ficar apresentável, mas eu havia mutado os pensamentos, então não iria pensar no porquê. Eu tinha um ônibus para pegar, então escolhi a primeira roupa que pensei que não era tão ruim, vesti os tênis, enfiei o celular no bolso do jeans e levei uma mão à maçaneta para abrir a porta.

Parei, mordendo o lábio inferior com força, pensando que eu teria que explicar para onde estava indo se me deparasse com minha mãe ou com o meu padrasto. E eu não queria explicar — eu não tinha explicação nem para mim mesmo, eu sequer estava completamente convencido do que estava fazendo. E, talvez fosse por conta do Alex novamente, sua simples existência na mesma cidade fritava meus neurônios, mas meus olhos voaram para a janela entreaberta.

Céus!, fazia muito tempo que eu não fazia isto, não quando relacionado ao Alex, e a sensação não deveria ser tão boa.

Eu estava ansioso, então quando o ônibus não passou no horário que dizia passar, chequei no celular para ver que o próximo só viria em meia hora, e decidi ir a pé. Se eu ficasse meia hora na parada de ônibus, prestes a ver o Alex, eu acabaria pensando mesmo sem querer pensar, e o resultado seria que eu voltaria para casa. Então eu caminhei, apressadamente, o vento frio do início de madrugada gelando minhas bochechas, enquanto o corpo aquecia com o súbito esforço físico.

Eu mandei uma mensagem dizendo que demoraria, e cheguei ao mesmo tempo que chegaria se houvesse pego o ônibus, mas com a mente limpa. Era quase uma da manhã, então as ruas estavam vazias, mas como era no centro, ainda havia movimento: bares, lojas de conveniência 24h e baladas ainda estavam com as portas abertas. O bar do Zeppelin era do outro lado do centro, mas nesta parte haviam bares similares também.

Parei em frente a um prédio alto, de cores alegres, e encarei o interfone por um tempo antes de ousar apertar o número que ele enviou. Eu já havia chegado aqui mesmo, seria uma estupidez ainda maior do que haver ido simplesmente voltar atrás. Fiquei nervoso quando percebi que este deveria ser o apartamento da sua mãe e eu não havia pensando muito a fundo nisto, porque agora um pânico subia pela minha garganta ao pensar em socializar com ela também. Alex atendeu o interfone rapidamente, dizendo que iria descer, de um jeito afobado, e eu fechei os olhos em alívio.

Prendi a respiração quando ele abriu o portão.

Alex saiu pelo portão e pareceu incerto quando puxou a grade devagar, os olhos percorrendo o meu rosto como se buscasse por algo específico antes que parecesse encontrar, fechando-a atrás de si. Eu fazia o mesmo, meus olhos traçando as linhas de seu rosto, odiando que ele fosse tão bonito. A barba escura, desta vez, parecia mais rala, talvez houvesse feito poucos dias atrás. Ele estava usando uma calça jeans azul mais escura que a minha, tênis surrados como os meus e um moletom preto caía em seu corpo como se ele houvesse comprado um número maior do que deveria.

Eu definitivamente levaria um tempo para me acostumar com a visão dele mais velho e então eu poderia olhar para ele sem que roubasse meu fôlego junto.

Nós nos olhamos por um tempo, sem saber o que falar, até que falamos ao mesmo tempo: — Oi.

Alex sorriu, dando mais um passo na minha direção, analisando-me. Eu engoli em seco, desviando o olhar — podia sentir um pouco de aflição começar a alojar-se na boca do meu estômago, as dúvidas do porquê eu estava ali começando a destravar aos poucos.

— Sua mãe mora aqui agora? — perguntei, baixinho, querendo escapar da minha própria cabeça.

Alex assentiu, apontando vagamente para o prédio atrás. — É, já faz um ano que ela se mudou, se não me engano.

Não consegui sustentar a escuridão dos seus olhos por muito tempo, então desviei o olhar para os meus próprios pés em meu all star sujo. — Você veio passar o aniversário com ela? — perguntei, relanceando-o por um instante e então eu o vi assentir.

— Também — murmurou, vago, hesitante.

— Você tá de volta? — sussurrei, nervoso, antes que pudesse evitar.

A pergunta estava espiralando na minha cabeça desde que ele me falou que não estava “só” visitando e eu não pude evitar verbalizá-la. E eu tinha medo da resposta, mas eu também estava morrendo para saber, então acabou escapando. Alex hesitou, e eu acompanhei quando seu lábio inferior desapareceu quando foi mordido e então subi para os seus olhos, vendo que eles me encaravam com temor.

E então, depois de ponderar, ele assentiu com a cabeça, sem nada dizer.

Dei um passo de segurança para trás, processando, engolindo em seco. Alex acompanhou o movimento com as orbes negras, atento, motivo pelo qual eu percebi que havia colocado um pouco mais de distância entre nós.

— Por quanto tempo?

Eu tive que perguntar, afinal, estar de volta não significa que isto fosse durar — eu sequer entendia o porquê dele estar de volta se queria tanto ir embora. Sequer tentei entender, apenas me atentando aos fatos, e um dos fatos é que Alex é a pessoa mais instável que eu conheço, que ele esteja aqui de volta comprovava isto. Se ele falava que iria ficar, podia significar outra coisa e, se não significasse, não queria dizer que ele não mudaria de ideia um tempo depois.

Alex fez uma careta e, então, suspirou. Ele fez um gesto com o cabeça, indicando o caminho por onde vim, e apontou o polegar nesta direção, incerteza no olhar: — Caminha comigo?

Reprimi um arrepio ao relembrar, tão nítido como se eu visse a cena diante dos meus olhos, a cena de quase dois anos atrás. Nela, eu podia vê-lo ajoelhado em uma perna, com a mão estendida para mim, a pergunta vagando no ar: “dança comigo?”, asluzes dançando em sua expressão terna, os olhos escuros engolindo os meus.

Engoli em seco, hesitando, antes de assentir quietamente, e assim a gente começou a caminhar lado a lado, sem muita pressa. Eu nem perguntei onde iríamos, se ele estaria me levando de volta à parada de ônibus, ou para outro lugar, minha atenção estava presa no que ele estava falando.

— Eu... — começou, pigarreando. — Eu trabalhei sem parar esse tempo todo que estive em MC. Desde dezembro pas... — Interrompeu-se, o nariz franzido, os olhos piscando ao forçar a memória, e eu apenas o observei. — Dezembro retrasado — corrigiu, deu-se por conta, as sobrancelhas arqueando-se, e eu desviei o olhar. Alex suspirou. — Eu viria de qualquer forma, mas eu também precisei vir para ver a minha mãe, para ver com os meus próprios olhos, sabe, se ela tá sendo sincera e se ela realmente quer... bom — resmungou, com um riso irônico —, voltar a ser minha mãe. Isto foi em junho — acrescentou, relanceando-me com nervosismo, de canto de olho. — E como eu trabalhei sem parar, eu tinha umas férias atrasadas pra tirar, e minha mãe quis que eu passasse o aniversário com ela, então eu vim semana passada de novo. E acho que vou ficar aqui por mais um tempinho agora.

Meu corpo enrijeceu um pouco, meus passos oscilando, o coração assustado com as palavras que ele havia dito. Alex ficou quieto, como se estivesse esperando uma reação explosiva, mas depois que eu segui em silêncio por um tempo, ele pareceu relaxar um pouco.

Pisquei, tentando processar, quando atravessamos uma rua.

— Então você tá passando suas férias aqui? — perguntei, baixinho, tentando não deixar espaço para dúvida alguma. — Agora?

Alex coçou os cabelos. — Acho que sim — falou, sem muita firmeza. — Elas acabam, tecnicamente, só no final do mês. Mas eu ainda não sei se vou passar elas inteiras aqui — admitiu, receoso, novamente como se pisasse em ovos.

Assenti, compreendendo aos poucos, eram férias. Tentei ignorar o fato de que ele veio semana passada e eu nem sabia disto, e foquei no demais. Ele não sabia se ficaria o tempo restante das férias — suponho que fosse um mês, elas inteiras? — aqui, talvez porque ainda não soubesse se teria muito o que fazer aqui neste tempo todo. Ele não era mais tão próximo da panelinha, mesmo que fizesse parte dela para sempre, e eu também dificultaria que ele andasse conosco — será que era este o motivo da incerteza?

Eu não pude concluir minha linha de raciocínio, porque ele a interrompeu com outra bomba, uma que deveria estar martelando na cabeça dele, a julgar pela expressão ansiosa: — E também tem o fato de que minha mãe me convidou pra morar com ela.

Tomou tudo de mim que eu não estancasse os pés no chão, meus passos vacilaram outra vez, e eu o observei em silêncio em busca de alguma resposta. — É? — murmurei, um fiapo de voz.

Alex assentiu, piscando algumas vezes, olhando para frente. Havia uma pontada de emoção em sua voz, como se aquilo fosse algo tão grandioso quanto temeroso, e eu subitamente entendi como ele se sentia. Fiquei em silêncio, apesar de querer sacudi-lo para que me dissesse se ele viria morar com ela mesmo ou não, mas não era o momento.

— É — respondeu, um sorriso ameno, e eu senti meu coração aquecer ao vê-lo. — De repente, ela me entregou a proposta de ter um lar de novo. — Encolheu os ombros, os olhos longe, um esforço para não se emocionar ao falar sobre isto. — Então o tempo que eu tô passando aqui é por isto também, pra ver se seria viável morar com ela.

Engoli em seco, sentindo-me dividido.

Uma parte de mim me fazia sentir pequeno, rejeitado e insuficiente outra vez, porque Alex precisou de uma proposta de lar da sua mãe para querer retornar — não era porque ele queria de verdade, era porque ele queria ter sua mãe de volta. E eu sei que eu não deveria me sentir assim, afinal, o que tivemos já se acabou e não há volta atrás, não é? Não me serviria de nada se ele resolvesse voltar por conta própria, porque quer estar aqui, porque quer estar perto da gente, perto de mim. Essa mesma parte estava retorcendo-se dentro de mim, angustiada e raivosa, querendo surtar uma vez mais em puro ódio e rancor, porque pensava ser inadmissível que ele fosse embora apenas para voltar depois, porque todo meu sofrimento teria sido em vão.

A outra parte de mim havia aquecido meu peito, cantarolado em alegria, retumbado em muito amor, porque Alex merecia ter um lar familiar outra vez. Ele merecia que sua mãe recompensasse o tempo perdido, que ela lhe oferecesse todo o amor, apoio e suporte que havia lhe negado antes, mesmo que ele não quisesse voltar a morar com ela, mesmo que ele não quisesse voltar para cá. Essa parte de mim estava aquecida, observando o sorriso emotivo e feliz no rosto dele, os olhos brilhando com a possibilidade de ser amado e cuidado outra vez por quem nunca deveria ter negado isto a ele.

— Muita coisa aconteceu, sabe, nesse tempo que eu fiquei em MC. Eu mudei também, Caleb — repetiu, tirando-me dos pensamentos, chamando meus olhos para os seus. Ele soltou um riso seco, os olhos melancólicos, e eu engoli em seco. — Eu me perdi e eu me reencontrei milhares de vezes — contou, com um riso sem graça, e por algum motivo, eu sorri fracamente de volta, tentando imaginar o que isto significava. Soou como uma aventura aos meus ouvidos. — Eu passei por uns maus bocados tentando me encontrar na música também e, bom, é bem estranho admitir isso, mas resulta que eu sou bom no que eu faço. Quem diria? — brincou, e eu soltei um riso, pensando que aquilo era óbvio. Ele mal sabia arranhar o violão quando o conheci e ele já era perfeito. — Eu não diria — enfatizou, os olhos alargando-se como se em surpresa antes de suavizarem ao me olhar outra vez —, mas eu tenho o costume de estar errado.

Meu sorriso vacilou, seus olhos prendendo os meus, e a gente se encarou por um bom minuto antes que eu tivesse que quebrar o olhar, sentindo o peito apertar, um nódulo na garganta.

Alex, então, suspirou uma vez mais.

— Meu chefe, o León — contou, mas eu já sabia quem era —, ele me ajudou muito. E quando eu falei sobre voltar pra cá, ele resmungou porque ele é um velho rabugento — riu, carinhoso —, mas ele seguiu querendo me ajudar. Ele me deu um contato de um bar daqui, Ian diz que vocês conhecem, o Zeppelin — contou, em busca de reconhecimento no meu olhar e eu assenti, atordoado, porque aquele bar me remetia diretamente ao Chris —, a proprietária é amiga do León. Eu fui lá semana passada e ela me ofereceu um emprego — jogou, como se não fosse uma bomba que aterriçava diretamente no meu estômago revirado. — E tipo, não seria de atendente, seria de músico mesmo. Eu amo o León, sou muito grato e vou levar pra sempre no coração as memórias de lá, mas poxa, seria foda poder trabalhar só com minha música sem ter que servir mesas, não é?

Alex riu, divertido, e eu acabei sorrindo de volta, ainda tenso ao pensar que ele poderia trabalhar no Zeppelin, dentre todos os lugares. Meu estômago revirou e eu me senti tonto, a simples ideia de que Alex poderia realmente voltar para cá, morar com sua mãe, trabalhar no bar que a gente frequenta em rolês, era demais para mim. Quanto mais ele falava sobre isto, sobre a mera possibilidade, mais ela começava a parecer real, ainda que eu não confiasse totalmente.

— Eu poderia trabalhar menos, ter tempo pra focar na minha música, e receber melhor — contou, abismado com a ideia, um brilho no olhar. — Eu nem consigo acreditar, sabe? Isto poderia ser muito bom — divagou, a voz diminuindo um pouco, e eu quis saber o que se passava em sua cabeça —, acho que eu só preciso querer.

Pisquei, observando-o, meu coração começando a se apertar.

— E você não quer? — perguntei, temeroso, sem saber se eu realmente gostaria de ouvir a resposta.

Apenas quando Alex saiu da calçada, adentrando em um espaço aberto, foi que eu percebi que havíamos chegado em uma praça. Devíamos ter caminhado umas duas quadras apenas antes de chegar ali, e eu havia passado pelo mesmo local sem perceber quando caminhei da parada de ônibus até o prédio do Alex. Haviam bancos de pedra que remetiam ao nosso banco de pedra e eu quis ignorar a percepção, havia uma pequena pracinha infantil mais ao longe, uma daquelas academias rústicas e públicas ao ar livre e muitas árvores.

Era um lugar lotado de dia, com pessoas passeando com cachorros, pais levando os filhos para brincar, grupos familiares jogando conversa fora. De noite, não havia uma única alma além de um casal se beijando em um dos balanços infantis ao longe e um guardinha que perambulava a rua de madrugada, visto que haviam muitos estabelecimentos comerciais por aqui.

Alex sentou no primeiro banco de pedra que encontrou, soltando um suspiro frustrado, e eu hesitei no lugar, ponderando se queria mesmo sentar de frente para ele como nos velhos tempos. A ideia causou um reboliço no meu estômago, então eu optei por ficar em pé e apoiar as costas em uma árvore, há alguns pés de distância dele.

Se ele percebeu meu desconforto, não disse nada.

— Não é que eu não queira... Eu quero muito — declarou, com tanta intensidade que fez meus pelos arrepiarem, mas ele não desviou o olhar do meu. — Eu já tava planejando voltar antes da minha mãe pedir — admitiu, baixinho, e eu arregalei um pouco os olhos, prendendo a respiração, mas ele piscou, desviando o olhar e eu consegui respirar novamente. — É só que... Eu não sei se seria a escolha certa. Me mudar todo o caminho pra lá e conseguir alavancar minha vida, com tudo o que custou — acrescentou, baixinho, ao me relancear, e eu reprimi a vontade de me encolher —, apenas pra mudar todo o caminho de volta pra cá outra vez. Faz parecer que foi tudo em vão, que tudo o que eu perdi foi em vão — especificou, e eu olhei para longe, engolindo em seco.

Ao menos eu não era o único a pensar isto.

Novamente, eu senti a raiva querer criar vida, mas tentei engoli-la, franzindo os lábios e olhando para o casal aos beijos ao longe. Eu queria dizer que tudo havia sido em vão de qualquer forma, porque agora a gente estava aqui, um de frente para o outro, conversando como podíamos ter feito este tempo todo. Se ele vai ficar ou não, não importa, porque o que ele havia perdido foi em vão de qualquer forma, não apenas porque não havia necessidade de haver perdido mas porque não havia a possibilidade de recuperar agora. Eu queria dizer isto e eu queria dizer também que, mesmo que ele ficasse em MC e jamais retornasse, ainda assim tudo o que ele perdeu foi em vão, porque a gente poderia ter continuado presente um na vida do outro apesar de toda a distância.

Eu engoli tudo, no entanto, os lábios e cenho franzidos, o olhar longe.

Alex pareceu perceber, porque hesitou antes de continuar, e quando voltou a falar, sua voz estava mais amuada. — Ir para MC foi muito importante pra mim — defendeu, baixinho —, então voltar pra cá faz parecer que eu tô regredindo, sabe, desfazendo tudo o que eu conquistei lá.

Acabei assentindo, tentando ao máximo não me sentir ofendido e jogar toda a minha bagagem pessoal com o que o Alex dizia para longe, deixando apenas o que dizia respeito a ele. E eu entendia o que ele queria dizer, eu sempre entendia o que ele queria dizer, e, desta vez, fazia sentido.

No lugar dele, eu me sentiria da mesma forma.

— Sem falar que eu ainda não confio totalmente na minha mãe, eu ainda não consigo contar com ela por completo — admitiu, dando de ombros, e eu pensei que não poderia me identificar mais, só que eu estaria me referindo a ele. — Tenho medo de acabar sendo chutado de casa de novo, de acabar na rua, sem abrigo e sem família, e de ter que viver de favores de amigos outra vez até conseguir me reerguer do tombo.

Engoli em seco, voltando a observá-lo, sentindo o coração apertado.

Isto era algo que eu nunca entenderia: a sensação de abandono da própria família — meu pai não conta, eu era novo demais e eu tinha minha mãe —, a sensação de não ter tempo nem espaço para digerir a própria dor porque precisa resolver primeiro o problema de não ter onde dormir.

— Mas quem eu tô tentando enganar? — soltou, com um riso entristecido. — Eu passei esse tempo planejando a minha volta, desde que ela me convidou em abril — revelou, com um bufo fraco, e eu pisquei algumas vezes. — Ainda mais agora que eu sei que teria um emprego assim que chegasse, porque... — Suspirou, ajeitando-se no banco. — Eu sei que a liberdade que eu consegui lá fora não é algo que possa ser arrancado de mim como se fosse algo físico — comentou, e aquilo chamou minha atenção, fisgando minha curiosidade. — E quanto à minha mãe, eu também não quero perder a chance de ter uma relação boa com ela, porque eu sinto que agora é o momento de fazer isto, que nós dois estamos preparados pra reconstruir o que se quebrou entre nós.

Meus olhos prenderam nos seus uma vez mais, atraídos pelos buracos negros, e eu senti a respiração falhar um pouco quando ele não desviou, como se houvesse mesmo se referido a nós também. Remexi-me no lugar antes de quebrar o contato visual, sentindo minhas mãos começarem a a suar, e cocei os fios que estavam pinicando meu pescoço.

Alex pigarreou. — E, bom, se eu conseguir o emprego, eu teria uma base financeira sólida para, no caso de dar tudo errado e eu não puder contar com ela, eu poder contar comigo mesmo. Eu poderia alugar um apartamento por conta própria, se eu ficar desabrigado, ou alugar desde o início mesmo ao invés de morar com ela — divagou, olhando para os próprios pés também.

Ficou claro, então, que ele vinha pensando nisto há um bom tempo — planejando e organizando as coisas para voltar. Eu estava tão furioso no momento que, quando ele falou sobre não deixar pontas soltas atrás, eu sequer entendi o que ele quis dizer. Mas ali estava. Eu consegui traçar a linha do tempo na minha cabeça — ele disse que em janeiro percebeu que estava errado e passou este tempo todo planejando como faria para voltar atrás. Em abril sua mãe deve ter dado o empurrãozinho que ele precisava ao convidá-lo para vir morar com ela; em junho, ele veio para o meu aniversário; e agora, em agosto, ele havia tirado férias para passar o aniversário com sua mãe para ver se ia direto para a casa dela ou alugava um lugar para morar sozinho. Ignorando o revirar do meu estômago, entendi que as férias também haviam sido calculadas — ainda mais porque ele acabava de mencionar que havia conversado com León sobre vir para cá, o homem havia dado o contato do Zeppelin e Alex havia conversado com a dona do bar para os trâmites dele vir trabalhar aqui.

Com as mãos suando frio, finalmente caiu a ficha de que ele realmente havia se organizado para voltar — e que estava praticamente tudo encaminhado, como ele mesmo disse, só bastava que ele quisesse voltar.

Um silêncio recaiu entre nós uma vez mais, mas Alex parecia desconfortável nele, relanceando-me vez ou outra, e eu pensei que houvesse ficado autoconsciente depois de tanto falar.

Apesar do gosto amargo na minha boca, por conta de todas as maneiras com as quais o que ele relatava me afetavam pessoalmente, minha cabeça estava rodopiando nele. Eu fiquei preso nas suas últimas palavras, a maneira como não podia confiar totalmente na sua mãe e, mesmo quando cogitava retornar para debaixo do mesmo teto dela, ele também planejava um plano reserva de emergência.

Isto me pareceu muito triste.

Engoli em seco, o silêncio me fazendo perceber que foi Alex quem falou este tempo todo. Talvez porque todas as coisas que ele falava eram uma explicação das suas ações, uma forma de pedir desculpas; talvez fosse pelo mesmo motivo que passávamos horas conversando na madrugada, para desabafar e expôr pensamentos íntimos; talvez fosse uma maneira de me manter aqui, estendendo o tempo para evitar que eu fosse embora logo. Independentemente, eu havia apenas ouvido.

Alex me olhou como se dissesse: “fala alguma coisa”, mas ele não abriu a boca — pela maneira como parecia pisar em ovos, deve ter pensado que qualquer coisa que dissesse me afastaria. Isto também ajudou a revirar meu estômago. Mas eu não poderia falar nada sobre o que ele havia dito, eu não conseguiria dar minha opinião sem estar emocionalmente envolvido, eu não confiava em mim mesmo para falar qualquer coisa que preste a respeito dos tormentos dele.

Pigarreei, remexendo-me, a casca da árvore arranhando minhas costas.

— Você devia estar acordado nesse horário? — perguntei, ao invés de qualquer coisa, o que havia me incomodado tanto dois meses atrás quanto agora. Ele tinha uma rotina de sono, ele deveria ter uma rotina de sono, junto com a medicação e a terapia, e ele também não deveria fumar ou beber em meio a tudo. Eu quis perguntar mais, mas senti que não devia.

Alex acabou sorrindo, um aceno rápido como se entendesse o porquê de eu haver mudado de assunto, e então deu de ombros.

— Minha rotina de sono mudou quando fui pra MC, porque o trabalho no bar passava da meia-noite, então eu não tive muita escolha — explicou, uma careta. — Eu tô de férias, mas a Morgan pensou que fosse melhor manter a mesma rotina de antes, sabe, porque eu vou voltar a ela de qualquer forma. Mas — acrescentou, rapidamente, os olhos na minha testa franzida — eu tô seguindo à risca minha rotina, meus remédios, minha terapia. Eu juro.

Pisquei, assentindo, ao desviar o olhar. Eu quis dizer que ele não precisava se explicar para mim, que ele não precisava me garantir nada, mas achei melhor não responder.

— Você tá bem? — escapou, ainda assim, tão baixo que eu pigarreei para repetir, mas Alex respondeu antes.

— Eu tô livre.

Eu inclinei o rosto para ler melhor o sorriso pequeno que iluminava sua expressão, a postura de ombros caídos em conjunto, e me perguntei por que me pareceu tão estranho. Não foi forçado, de tal maneira que eu me peguei sorrindo de volta para ele, porque soou genuíno: satisfeito, como quem conquistou o que buscou a vida inteira, contente até, tranquilo como se isto trouxesse paz a ele. Ainda assim, seus olhos brilhavam com uma tristeza esquisita, pousados em mim, como se a liberdade também o entristecesse ao mesmo tempo.

Engoli em seco, mas não consegui desviar o olhar.

— Como é ser livre? — sussurrei, intrigado.

Alex desviou o olhar, piscando algumas vezes, pensando sobre isto. Ele não ficou muito tempo nisto porque, logo em seguida, deu de ombros com um sorriso maior. — Caro — brincou, soltando um riso —, cansativo — numerou, pausando por um instante, antes de voltar os olhos para mim — e libertador.

Acabei sorrindo, o brilho na escuridão dos seus olhos tornando-se menos entristecidas agora que ele pensava sobre isto, o que aqueceu meu peito. Eu assenti, desviando o olhar para longe, o vento frio da madrugada havia aumentado um pouco de velocidade, e agora os balanços da pracinha moviam-se um pouco com ele.

Algo pareceu certo sobre isto e um alívio que eu não esperava abraçou meus ombros, fazendo ceder um peso invisível em minhas costas, desprendendo um pouco o aperto em meu coração. Quando eu inspirei o ar gelado da noite, pareceu que ele entrou com mais facilidade em meus pulmões, e eu me senti tentado a fechar os olhos. No pequeno momento de silêncio entre nós, eu percebi que o alívio vinha de saber que nem tudo havia sido em vão — ele havia encontrado o que estava buscando.

Eu me sentia imensamente grato por Alex estar livre.

— E você — devolveu, receoso —, tá bem?

Um pouco a mais de ar entrou em meus pulmões, de tal maneira que, quando os expeli, soou como um suspiro pesado. Talvez mais do que tenha soado, talvez tenha sido mesmo um suspiro pesado.

— Eu tô bem — confirmei, apenas, porque estava.

Não era mentira, porque eu sempre encontrava uma maneira de me ajustar à realidade, podia doer e demorar para que eu ficasse bem, mas eu ficaria. Eu sempre estou bem e, se não estou, acabarei ficando no final das contas — essa é a realidade.

Depois de um minuto em silêncio, ele perguntou, mais baixo: — Você tá zangado comigo?

Desviei os olhos dos balanços dançando e os desci para os meus pés, chutando uma pedrinha, sem conseguir pensar o suficiente para elaborar uma resposta além de “sim”, mas nem isto consegui falar. O máximo que eu conseguiria elaborar, pensei, seria: “zangado nem começa a descrever o que eu estou sentindo agora”.

— Você tem razão em estar — admitiu ele, no meu silêncio, e eu segui sem dizer nada e sem olhar para ele. — Foi uma ideia estúpida te visitar do nada depois de tanto tempo, depois de tudo o que eu causei — especificou, e eu me senti, ao menos, um pouco aliviado que ele soubesse disto. Mais um instante pensativo e ele murmurou, afetado: — Foi uma ideia mais estúpida ainda esperar encontrar tudo do jeito que eu deixei, especialmente quando pedi que tudo andasse pra frente. — Engoli em seco, enrijecido, prendendo a respiração. — E andou — respirou, baixinho. — Naturalmente, andou.

Alex não especificou do que ele estava falando, mas também não deixou muito espaço para dúvidas. Ele havia pedido para que eu seguisse em frente, afinal, e eu havia seguido, em sua concepção. A verdade é que “seguir em frente” é uma expressão muita vaga e muito aberta para interpretações. Eu havia seguido em frente com a minha vida, porque isto não dependia de uma escolha minha, simplesmente acontecia — cada minuto de um coração batendo é uma vida seguindo em frente. E talvez que eu esteja namorando com outra pessoa signifique que eu segui em frente na concepção do Alex, na concepção que ele tinha em mente quando me pediu para fazer isto. Mas eu não havia seguido em frente quando dizia respeito ao Alex, não na minha concepção, isso ainda não havia sido possível.

Eu podia admitir isso agora, pelo menos para mim, pelo menos por agora — eu não havia seguido em frente de forma alguma.

Seguir em frente, com relação a ele, seria não me sentir da maneira como me sinto agora. Seria não haver respondido à sua presença da maneira como eu fiz dois meses atrás, como se eu houvesse reencontrado o amor da minha vida. Seria não sentir meus pelos eriçados, meu coração batendo forte contra as costelas, minha pele arrepiada, minha respiração falha, apenas por tê-lo perto de mim. Seria poder me desapaixonar, e agora que eu o via em frente, eu tinha certeza de que isto não havia acontecido ainda. Eu forçaria a acontecer, em algum momento, teimei comigo mesmo, mas eu ainda não havia conseguido.

Eu não desmentiria isto, no entanto, para ele.

Se ele acreditava que eu havia seguido em frente, melhor assim.

Quase hesitei quando finalmente encontrei seu olhar, mas me firmei contra a árvore. — Andou porque tinha que andar — murmurei, referindo-me à minha vida e não a ele, para não ter que mentir. — Não foi escolha de ninguém, as coisas simplesmente... andam.

Seus olhos escuros pareceram brilhar um pouco mais, e eu senti meu coração apertar quando percebi que estavam marejados, mas ele os desviou para longe com um sorriso falso e um aceno rápido.

Alguma coisa repugnante em mim retorceu-se por dentro, culpando-me por fazê-lo sentir daquela forma, a mesma coisa que havia se recusado a seguir em frente. A mesma coisa que queria se jogar nos braços dele, sem medos ou rancores, perdoando tudo e entregando tudo sem qualquer preservação. Eu a engoli, abismado, enquanto ainda pensava que eu não tinha que me sentir desta forma e nem mesmo me culpar por magoá-lo, porque ele havia magoado a si mesmo sem a ajuda de ninguém.

Ainda assim, algo doeu no fundo do meu peito o suficiente para que eu não conseguisse evitar explanar: — Mas... — Quando seu rosto virou para mim, eu olhei para os balanços novamente antes que seu olhar encontrasse o meu, em uma luta interna entre calar a boca ou simplesmente vomitar o que estava entalado. — Impossível ainda significa impossível.

Eu senti minha testa doer de tanto que eu a franzia, com raiva de mim mesmo por verbalizar aquilo, me recusando a ver a expressão que havia no rosto do Alex. Ao mesmo tempo, eu me convencia que aquilo não era nada demais, eu apenas estava dizendo que foi impossível viver como se nunca houvesse conhecido o Alex, o que, para qualquer pessoa normal que tivesse feito amizades na vida, era algo óbvio e besta.

— Desculpa — pediu, novamente, e eu finalmente olhei para ele. Sua expressão parecia mais atormentada do que aliviada, culpada até, e ele não sustentou o olhar por muito tempo. — Eu não devia ter dito aquilo.

Eu o encarei, querendo perguntar: aquilo o quê?, mas tive medo da resposta, e ele também não pareceu querer elaborar.

— Eu queria me libertar mas também queria libertar você de mim — murmurou, o óbvio, e eu rangi os dentes, porque eu sabia. — E, de certa forma, eu consegui as duas coisas. — Não, não conseguiu. Bufou, frustrado. — Eu não devia ficar chateado com isso.

Realmente, pensei, amargo, não devia ficar chateado mesmo.

Acabei ficando quieto, frustrado também, a raiva renascendo. Eu havia acabado de dizer na sua cara que impossível significa impossível, e aqui estava ele dizendo que conseguiu me libertar dele. Por um lado, eu devia ficar satisfeito que ele realmente entendeu aquilo como algo simples, algo como “óbvio que eu não esqueceria de um amigo”, e por outro lado, eu apenas o ressenti ao perceber que, realmente, estar com o Chris significava que eu havia seguido em frente no conceito dele.

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Babaca.

— E eu também não devia ter dito aquilo sobre o rapaz esse — resmungou, chamando minha atenção, com um gesto vago — e sobre vocês dois. Você tinha razão, eu não tenho nada que ver com isto.

Soltei um bufo, por algum motivo, decidindo provocar com acidez: — Sobre o meu namorado?

Alex torceu o nariz, sem olhar para mim, ao fazer outro gesto vago.

— Sim, esse menino — repetiu, com algum esforço.

Estalei a língua. — É, você não tem nada que ver com isto mesmo.

Alex suspirou pesadamente, olhando para longe, e eu acabei desviando o olhar também, deixando o assunto morrer ali.

Alguns poucos carros passavam na rua, vez ou outra, o guardinha estava descendo a mesma quadra sem muito ânimo pela terceira vez, alguns rapazes haviam sentado para fumar do outro lado da praça, próximo do casal na pracinha. O mesmo casal de antes, que agora levantava e movia-se para longe dos rapazes, de mãos dadas, indo embora.

Isto me fez perceber que eu deveria ir embora também.

Um indício de pânico começou a instalar-se na boca do meu estômago, o silêncio da noite além do som do vento começou a despertar o mais profundo da minha consciência, que agora gritava comigo. Recaiu sobre mim que eu havia saído de casa pela janela, no meio da madrugada, sem avisar ninguém, deliberadamente — e sem pensar duas vezes — colocado meu celular no silencioso quando ainda estava na parada de ônibus, apenas para me encontrar com o Alex depois de tudo o que ele me fez.

Minhas mãos tremularam, recém dando-me por conta que elas haviam estado estáveis durante boa parte do tempo, meu corpo relaxado na presença do Alex como se realmente fôssemos velhos amigos — velhos amantes. Engoli em seco, o nervosismo me despertando, e me desencostei da árvore, sentindo que minhas costas haviam tomado o formato dela pelo tempo que fiquei ali.

Alex ergueu o olhar para mim da sua postura desenhável — lindo, sempre lindo, o filho da puta —, as pernas abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça erguida na minha direção com as sobrancelhas arqueadas. Tudo isto envolto pela escuridão da noite, os galhos e folhas das árvores dançando acima dele, formando pontos mais escuros de sombra em seu rosto, os balanços ao longe, onde um casal minutos antes se beijava oscilando para frente para trás.

Com o coração descompassado no peito, dei-me por conta que, por mais que tudo à nossa volta houvesse mudado, que inclusive nós dois já não fôssemos os mesmos, o sentimento que eu nutria por ele era igual. Pulsava no peito como se chamasse seu nome, enviava eletricidade por todo o meu corpo desconcertado, aquecia meu coração que seguia gaguejando em sua presença, atraía meu corpo para o seu como se eles houvessem sido feitos um para o outro... E despertava a mais descomunal vontade de desenhar seus traços e imortalizar nossos momentos, cujo objetivo incomum só poderia ser o de eternizar o meu amor por ele para além da memória.

Engoli em seco, atordoado, tonto, fora de órbita uma vez mais.

Com as mãos trêmulas, pensando que eu precisava sair daqui e voltar a mim novamente — longe dele, longe daqui, precisava sair daqui —, tirei o papel dobrado ao meio do bolso frontal enorme do meu moletom. Abafei o pensamento que ria com alegria besta ao dar-se por conta que nós dois usávamos moletons escuros bastante parecidos em forma.

Alex levantou do banco para pegar o desenho, suas mãos também estavam um pouco vacilantes quando seguraram a folha a fim de analisá-la com um sorriso terno no rosto.

Era um desenho dele de quando eu o vi pela primeira vez desde sua partida, no meu aniversário, retratando o exato momento em que pus os olhos nele. A porta aberta da casa do Ian escancarada atrás, seu olhar brilhante em mim, o presente que segurava em mãos e que minha mente sequer registrou, a mesma roupa que ele usava, os traços novos do tempo em seu rosto que meus olhos acariciaram. Havia um brilho novo em seus olhos, muito mais saudável que em meus outros desenhos, e o sorriso pequeno em seu rosto era muito mais genuíno também. Os detalhes mudados de seu semblante, como traços mais acentuados e barba por fazer, tornavam esta versão do Alex a mais adulta de todos os meus outros desenhos.

Eu havia desenhado sua presença inteira, da cabeça aos pés, as mãos do Ian na lateral direita porque estava próximo dele, a mesinha com meu celular na outra extremidade esquerda. Mas a maior parte estava fora de foco, rabiscos mais grotescos, enquanto os detalhes se concentravam em seu rosto, bem como eu havia enxergado no momento. Eu sabia o que ele estava vestindo o suficiente para desenhar, porque eu o observei pelo restante da noite em mais momentos, mas naquela hora, eu sequer saberia dizer que roupa ele usava além da camisa e sequer percebi o embrulho em suas mãos, então tudo o que escapou à minha compreensão em um primeiro momento estava desfocado no desenho.

Eu queria mantê-lo para mim, um registro eterno daquele momento, porque eu não havia desenhado com qualquer outro propósito que não este, mas eu também queria me livrar daquilo. Não parecia certo mantê-lo comigo, como um lembrete vívido do que eu ainda sentia pelo Alex, não apenas do que eu senti no passado, aquilo era muito atual. Parecia errado porque a única pessoa pela qual eu deveria sentir o desejo de eternizar os momentos em um papel era o meu namorado. E, ainda assim, eu não conseguiria jogar fora, então o aniversário do Alex veio e tudo o que eu pensei era que ele gostaria de mantê-lo.

— Feliz aniversário — murmurei, fraco, e Alex ainda se demorou no desenho, uma emoção intensa no rosto que eu não pude interpretar.

Ele ergueu os olhos para mim, minhas pernas respondendo a isto ao bambear como em pé em uma corda, e eu engoli em seco. Ele sorriu abertamente, aquela desolação ainda no olhar, embora houvesse tanto mais ali que me tirou o fôlego, e então ele fechou o espaço entre nós.

Eu soltei um som abafado diante do abraço repetino, sem reação à princípio, meus pensamentos se liquefazendo como em um liquidificador. Ele havia me puxado para um abraço por cima dos meus ombros, como costume, mas não havia mais a diferença de altura, de forma que saiu desajeitado. Então, ajustando-se, as dobras de seus cotovelos deslizaram dos meus braços até quase os meus cotovelos, uma das mãos em meus cabelos e outra entre minha nuca e a lateral do meu pescoço.

E, quando eu finalmente cedi, fechando os braços em torno dele, segurando-o firmemente contra mim ao pressionar minhas mãos em suas costas, eu senti uma vontade dolorida de chorar. Eu ajustei-me também, deslizando uma das mãos para grudá-lo ainda mais em mim na lateral da coluna enquanto a outra subiu até quase sua nuca para envolvê-lo de volta. Lutei contra cada célula do meu corpo para não enfiar o nariz em seu pescoço e inspirar seu cheiro para dentro da memória, arrepiando-me com a ideia de que eu já me acostumava com o novo perfume que enroscava-se em seu cheiro.

Mas eu não podia fazer isto, porque as coisas não eram as mesmas, e até mesmo isto parecia traição agora. Céus, até mesmo encontrá-lo no meio da madrugada, em seu aniversário, em segredo — porque era segredo, não era? — parecia traição. E isto me fez lembrar do celular esquecido em meu bolso, no silencioso, e nas prováveis mensagens — na melhor das hipóteses, apenas mensagens de boa noite — do Chris, isto se não haviam ligações perdidas.

Céus, por que eu estava aqui, nos braços dele, enquanto...?

Meu raciocínio foi interrompido quando Alex fez o que eu queria fazer, enfiando o nariz em meu pescoço e inspirando tão próximo do meu ouvido, como um pensamento intrusivo que tomava forma. Eu estremeci, um ofego escapando dos meus lábios antes que eu percebesse, meu estômago envolvido pela frieza de borboletas que despertavam de um sono profundo de quase dois anos. Meus pensamentos se liquefizeram outra vez, a única percepção era de que ele havia encaixado contra mim como se pertencêssemos um ao outro, como ele sempre me fazia sentir.

Todo aquele espaço e todo aquele tempo que nos separava pareciam inexistentes, como se nunca houvessem acontecido.

— Já é feliz só por poder te abraçar, Caleb — murmurou ele tardiamente, contra meu pescoço, ao passo que eu estremecia e apertava ainda mais em resposta.

O corpo do Alex enrijeceu subitamente, havendo percebido meu estremecimento, talvez avaliando-o como um sinal ruim — e diabos, era um sinal ruim, deveria ser ruim, porque não deveria acontecer! — antes de se desvencilhar minimamente do abraço.

Eu senti seus olhos em mim, as mãos tensas ainda me segurando com cautela, talvez uma análise visual do que eu deixava transparecer, mas não pude ver seu olhar. Eu mantive os olhos fechados, por inúmeros motivos, mas principalmente para o autocontrole — controle da raiva pela maneira como eu me sentia, controle da autocrítica que azedava meu estômago pelas escolhas de vida que me trouxeram aos braços do Alex agora, controle do que eu sentia por ele, que parecia estar vibrando em cada pedacinho de mim. O que eu sentia por ele estava em abnegação por tanto tempo, e eu ainda tentava negar sua existência e sua ocorrência, mas já estava vibrando ao máximo do que havia vibrado em quase dois anos.

Ainda tenso, Alex soltou um suspiro muito próximo do meu rosto, e eu tremi um pouco mais, sentindo quando seu nariz resbalou no meu, sua testa encontrando a minha, suas mãos trêmulas que me seguravam perdendo força. Ele havia limitado ainda mais o espaço entre nós, forçando ao máximo ambos os limites e, ainda assim, suas mãos e seu corpo frouxaram, como se não pudesse liberar qualquer força ou limite mais do que estava liberando.

Minha respiração vacilou e, quando eu senti sua respiração nos meus lábios secos, eu senti um choque de realidade retornar a mim. Eu o afastei no mesmo instante, antes que seus lábios encostassem nos meus, antes que eu perdesse o último resquício de autocontrole, uma mão espalmada em seu peito ao levá-lo para longe de mim.

— Não — ofeguei, apenas, em um murmúrio fraco.

O abraço estava tão frouxo que o afastamento não ofereceu nenhuma resistência, eu o empurrei e ele naturalmente cambaleou um passo para trás. E eu odiei isto ainda mais, porque era uma prova viva e incontestável de que eu estava em seus braços por livre e espontânea vontade.

Alex piscou repetidamente, desnorteado, enquanto eu não conseguia piscar vez que fosse, meus olhos esbugalhados processando o que estava acontecendo. Desviei os olhos para longe de sua expressão temerosa — e terna, tão terna o tempo todo, puta que pariu —, sentindo meu cenho vincar mais e mais em frustração, minha pele coçando de irritação, os pensamentos à mil por hora.

— Não faça nada assim de novo — ordenei, entredentes, tentando firmar a voz antes de olhar para ele.

Alex estava um tanto sem reação, piscando muito, o semblante perplexo, um tanto desorientado, e muito temeroso. Seus olhos avaliavam minha reação como se esperasse que eu explodisse e eu pensei que deveria explodir mesmo, a julgar pelo meu corpo trêmulo — de raiva, desta vez.

— Tá bom — murmurou, baixo, cauteloso.

A maneira venerada com a qual ele falou, soando genuína e obediente, disparou ainda mais a minha raiva. Como ele podia ser tão...?

Céus, ele teria me beijado — ele teria me beijado, sabendo que eu tenho um namorado, ao passo que acredita que o motivo de eu ter um namorado significa que eu havia seguido em frente, e sabendo que ele era o motivo de eu ter que seguir em frente de qualquer forma, porque ele causou e pediu por isto. E agora ele havia estado tão próximo de me beijar, sabendo de tudo isto, sem ter o menor respeito por mim e pelas minhas escolhas, para depois acatar com um “tá bom” respeitoso e obediente quando ordenei que não fizesse de novo.

Alex não era apenas maluco, ele era um hipócrita do caralho, e eu...

Senti minha respiração vacilar, o coração disparando, a raiva diminuindo ao passo que o desespero começava a tomar conta, junto da culpa, do arrependimento, do autodesprezo, porque...

Eu estava prestes a beijá-lo também, não estava?

Alex havia acabado de dizer um simples “tá bom” muito obediente quando eu sugeri que ele nunca mais fizesse nada assim, mas ele havia feito alguma coisa que eu não houvesse feito? Ele havia concordado, tomando responsabilidade pelo quase beijo, mas ele sabia tanto quanto eu sabia que eu também quase o beijei. Eu também havia abraçado-o contra mim e eu também quase deslizei ao trair meu namorado. A constatação queimou no meu peito, junto da vergonha e do arrependimento, porque eu havia vindo aqui por conta própria, eu havia ficado mais de meia hora com ele por conta própria, eu havia caminhado até aqui por conta própria, eu havia ligado para ele em um primeiro lugar por conta própria.

— Eu não devia ter vindo — disparei, a constatação recaindo sobre mim, a raiva dando lugar ao pânico.

Alex também pareceu começar a entrar em pânico ao passo que acompanhava o processo acelerado do meu raciocínio estampado em minha expressão horrorizada.

— Não, Caleb, também não é assim...

Ele deu um passo em frente e chegou a erguer a mão livre, mas eu a afastei em um movimento rápido, em alerta total, meus olhos ainda esbugalhados. Eu busquei por uma saída automaticamente, mas estávamos em um lugar público, eu tinha todas as saídas do mundo.

— Eu preciso ir embora — verbalizei, em aflição, antes de dar um passo atrás.

Alex negou com a cabeça, os olhos nos meus, em um pedido silencioso e agoniado. Ele engoliu em seco, as sobrancelhas fazendo um arco triste, os lábios abertos para deixar a respiração falha escapar, mas eu neguei também, veeementemente.

— Espera, me desculpa, eu não...

— Eu tenho que ir — cortei, dando as costas no segundo seguinte, ouvindo um fraco e desistente chamado pelo meu nome atrás.

Então eu corri, literalmente, eu corri como se fugisse do perigo.

A parada de ônibus era apenas há uma quadra daqui e quando eu desacelerei os passos ao chegar nela, olhei nervosamente para trás, ponderando se ele iria me seguir. Não vi nada, mas me senti aflito demais para ficar parado, sem coragem de checar o celular, então caminhei apressadamente pelas ruas pelo mesmo caminho que vim, quase tropeçando nos próprios pés ao colocar distância entre nós dois novamente.

A distância entre nós que nunca deveria ter existido.

A distância que não deveria mais deixar de existir.

Notas finais
A página de publicar capítulos tá meio estranha, não aparece o texto que eu colei, então não sei se vai ser publicado direito, mas na dúvida... publiquei igual. Qualquer coisa me avisem. Eu sei que o cap foi agridoce, mas eu acho que é um dos meus favoritos dessa fase, não sei explicar o porquê. Espero que vocês gostem também. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.